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2.3 Experimental Results and Discussion
A sociedade moderna cria e é afetada por outras possibilidades de interação além daquelas face a face. Vivemos um mundo em que, cada vez mais, podemos nos desvencilhar das formas previstas e tradicionais baseadas na fixidez de tempo e de espaço. A extraterritoriedade, traço bem exuberante do mundo atual, ocorre, também, tendo em vista o imenso arcabouço das instituições midiáticas.
Giddens (2002, 29 e 30), ao destacar a importância da imprensa para o surgimento do Estado e de outras instituições modernas, estabelece que “a modernidade é inseparável da sua própria mídia”. Esse mesmo autor propõe que “o desenvolvimento das instituições modernas está diretamente envolvido com o imenso aumento na mediação da experiência que essas formas de comunicação propiciam”.
Um debate interessante que envolve a questão midiática e a construção identitária vem de Canclini (2005, p. 129), para quem a “identidade é uma experiência que se narra”. Segundo esse autor argentino, o rádio e o cinema tiveram papel decisivo no processo de consciência da construção identitária, ao permitirem às pessoas a realização de relatos pessoais. A “multimídia” e o “multiculturalismo” são, para Canclini (op. cit., p. 136), duas noções importantes na atualidade que influenciam a construção identitária. Ao deixar de ser uma
“narrativa ritualizada”, tornando-se uma reconstrução com os outros, a identidade torna-se, também, uma “co-produção”. Canclini assevera, contudo, que “esta co-produção se realiza em condições desiguais para os diferentes atores e poderes que nela intervêm”.
Ao abordar a tecnologia e a mídia na condição de “agentes fragmentadores” da identidade da mulher, Vieira (2005, p. 215) postula que, no mundo atual, “nasce um indivíduo que não é fruto do determinismo histórico e tampouco é formado por corpo e espírito, tendo deixado de ser um conjunto previsível de estímulos”. Para Vieira, o sujeito de hoje é
um sujeito tecnológico, midiático e, acima de tudo, discursivo. Sua identidade está em constante movimento e, dadas as suas características efêmeras, é mutante, coletivo e multilinear. É, sobretudo, um sujeito virtual. (op. cit., p. 215).
Vieira (2005) segue postulando que
Surge um sujeito cuja definição não é feita apenas por critérios ontológicos ou físicos. É construído na linguagem, no contexto e na interação não só com o sujeito-sujeito, mas também com a máquina. Nessa relação entre a construção da subjetividade e a linguagem, é possível antever o papel significativo desempenhado pelos processos midiáticos contemporâneos e, em especial, dos novos agenciamentos da informação (...) (op. cit., p. 215).
Pensamento similar pode ser verificado em Coroa (2006). Em O ensino de Língua Portuguesa e a construção de identidades, ao afirmar que “as identidades são construídas (como quaisquer outras) em espaços ideológicos e sociais afetados pela plussignificação dos discursos”, Coroa (2006, p. 155), tratando dessa temática nos contextos escolares, aborda a questão tecnológica da seguinte maneira:
Em toda sua abrangência conceitual, a tecnologia ocupa, cada vez mais, espaços importantes na vida escolar e cria possibilidades de interação, colocando os limites nessas possibilidades. Conviver com os resultados instrumentais da tecnologia (como computadores e máquinas sofisticadas) ou com suas conseqüências didático-pedagógicas, que organizam atividades sob o rótulo de ‘tecnologias do texto’, por exemplo, é uma demanda das sociedades contemporâneas, e é nelas que os sujeitos do ato de aprender emergem. (grifos meus) (op. cit., p. 155).
A discussão em torno das identidades nas dimensões produzidas pela mídia exige-nos uma referência à distinção que Thompson (1998), no livro A mídia e a modernidade, faz entre os “tipos de situação interativa”, conforme o
Quadro 3 Os tipos de situação interativa, conforme Thompson (1998) , a seguir:
Quadro 3 Os tipos de situação interativa, conforme Thompson (1998)
Características interativas
Interação face a face Interação mediada Quase-interação mediada
Espaço-tempo Contexto de co-presença; referência espaço- temporal comum
Separação dos contextos; disponibilidade estendida no espaço e no tempo
Separação dos contextos; disponibilidade estendida no espaço e no tempo Possibilidades de deixas simbólicas (“piscadelas e gestos, franzimento de sobrancelhas e sorrisos”, etc) Multiplicidade de deixas simbólicas Limitação de possibilidades de deixas simbólicas Limitação de possibilidades de deixas simbólicas
Orientação da atividade Orientada para outros específicos
Orientada para outros específicos
Orientada para um número indefinido de receptores potenciais
Dialógica/monológica Dialógica Dialógica Monológica
Exemplos Diálogos cotidianos Carta, telefonemas Jornais, rádios e televisão
Esse quadro apresenta algumas modificações em relação ao que consta da obra A mídia e a modernidade, de onde foi extraído. Porém, nenhuma
modificação alcança o nível do seu conteúdo. Apenas resumi um pouco as caracterizações de cada situação interativa, além de ter-lhe acrescentado a última linha, com exemplos que se encontram pulverizados no corpo textual da obra original de Thompson.
A quase-interação mediada é um tipo possível de situação interativa que surgiu a partir da invenção e da profusão dos meios de comunicação de massa e que se distingue por se dirigir a outros interlocutores indefinidos e ser de caráter monológico. A classificação e as respectivas caracterizações feitas no
Quadro 3 acerca das situações interativas não devem ser consideradas com
rigidez. Thompson (1998, 80) alerta para o fato de que, no “fluxo da vida diária”, muitas das interações podem assumir um caráter híbrido. Exemplo disso são alguns programas de televisão, como talk shows, em que ocorre uma interação face a face entre os membros da bancada, ao mesmo tempo em que telespectadores podem telefonar ou escrever fazendo perguntas para alguém que participa de uma mesa-redonda. Além disso, determinados programas de televisão são capazes de suscitar uma conversa (interação face a face) entre telespectadores presentes em uma sala de estar, por exemplo.
Thompson (1998, 181-183) assevera que a modernidade torna a formação do self um processo “reflexivo e aberto” cada vez mais entrelaçado “com as formas simbólicas mediadas”. Para o autor, o self “é um projeto que o indivíduo constrói com os materiais simbólicos que lhes são disponíveis, materiais com os quais ele vai tecendo uma narrativa coerente da própria identidade”. Todavia, também aponta para o fato de que o caráter “ativo e criativo” do self não é socialmente incondicionado, uma vez que os materiais simbólicos de que dispomos para a construção das identidades estão distribuídos de modo desigual.
Uma dependência crescente da construção identitária em relação ao acesso às formas simbólicas mediadas de comunicação é o que postula Thompson (1998, 185), segundo o qual “o desenvolvimento da mídia enriqueceu e acentuou a organização reflexiva do self”. Ao mesmo tempo, a
relação entre desenvolvimento midiático e construção identitária possui aspectos também negativos:
• A intrusão mediada de mensagens ideológicas: a mídia pode contribuir para estabilizar e reforçar as relações de poder.
• A dupla dependência mediada: a mídia, por meio dos seus produtos, contribui para a reflexividade do self, ao passo que a torna dependente de sistemas sobre os quais o indivíduo tem pouco controle.
• O efeito desorientador da sobrecarga simbólica: a mídia, dado o excesso e a variedade de suas mensagens, pode causar no indivíduo uma sobrecarga simbólica.
• A absorção do self na quase-interação mediada: a mídia e os seus produtos podem deixar de ser considerados recursos simbólicos disponíveis para a formação do self, tornando-se a sua preocupação central.
Woodward (2000, 17) cita o exemplo da narrativa das telenovelas e da semiótica da publicidade para ilustrar que “os discursos e os sistemas de representação constroem os lugares a partir dos quais os indivíduos podem se posicionar e a partir dos quais podem falar”. Além disso, Woodward postula que a “mídia nos diz como devemos ocupar uma posição-de-sujeito particular”.