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Além da questão da interação entre os alunos e o professor, esta iconografia ao ser utilizada pela Professora Eunice despertou o interesse dos alunos pela questão política, motivou-os a relacionarem-na com o contexto social e político do país e possibilitou a analise e tomada de posição doa alunos, fundamentada na representação que fazem acerca dos políticos. Um grupo de aluno procurou tomar partido em relação ao fato enunciado, negando a condição do homem comum que fora preso, se aproximando dos políticos que roubaram e permaneceram impunes, conforme expressou um dos alunos:

Olhe imbecil, é o retrato do seu pai, olha ai professora o que ta preso parece demais com o pai desse imbecil. Ei veja..., veja..., olhos grandes, cara amassada, olho roxo, de tanto beber e tomar porrada. (ALUNO B)

No geral, demonstram-se inconformados com a justiça, mas no entanto assumiram o lugar dos políticos corruptos em função deles não terem sido alcançados pelas leis. Em contrapartida, o popular que fora preso por ter furtado uma galinha terminou sendo imbecilizado e comparado ao pai de um dos alunos, que não foi esperto o suficiente para livrar-se da justiça. Nesse caso, os políticos corruptos apresentam-se na representação dos alunos como os espertos, e não criminosos, visto que conseguem burlar as leis e permanecerem impunes, o que faz com que os alunos assumam esse tipo de procedimento como um valor positivo.

A nossa expectativa era a de que eles condenassem esse tipo de comportamento, uma vez que são vítimas das ações dos políticos corruptos, mas infelizmente o pensamento crítico dos alunos não lhes permite enxergarem-se como parte desse processo. De certo modo, percebem as diferenças sociais, mas não as

concebem como resultante das relações sociais de produção cotidianamente estabelecidas, tendem a vê-las como natural.

No geral, os demais alunos apoiaram a fala do colega, riram do fato e se eximiram da responsabilidade da existência dos políticos corruptos, como se não fizessem partes de suas vidas. A maioria dos alunos identificou-se com a representação do ato de roubar (roubo de milhões). O aluno que teve seu pai comparado com o tipo popular preso, representado na iconografia, mesmo tendo negado que aquele fosse seu pai, manifestou o desejo de que seu pai fosse um dos políticos corruptos representados na iconografia, em função do montante por ele roubado ser maior, do que o roubo feito pelo popular, apenas uma galinha. Acrescente -se a isso,o fato dos políticos não terem sido presos, conforme enuncia em sua fala:

não, o meu pai, é este que está com o saco maior, ele não é bobo não, roubou para mudar de vida, fez o que fazem os políticos hoje. Olha ai bobão? Ele está solto e rindo do seu pai, que apenas roubou uma galinha. Veja que burrice! (ALUNO C)

Esse aluno também se comparou aos políticos corruptos, quando escolheu como pai um dos políticos que está fora das grades. Na sua representação o seu pai fora esperto o suficiente e não um imbecil.

Diante das respostas dos alunos, a Professora Eunice manifestou-se e aproveitou a discussão para trabalhar alguns valores sociais, como ética, justiça e respeito humano. O seu propósito foi o de desconstruir o desejo que os alunos demonstraram de se identificarem com os políticos corruptos e chamarem sua atenção para o fato de que devem condenar esse tipo de político e não reproduzi- los.

Após as observações do cotidiano da sala de aula da professora Eunice, percebemos que havia a recorrência de temática políticas e sociais traçadas com o estilo do cartunista Régis Soares. Esse fato despertou a nossa curiosidade para indagarmos à professora sobre a justificativa dessa escolha. Com o ar de riso a professora prontamente respondeu:

há vários anos passo diariamente na mesma rua e paro para apreciar os desenhos que são afixados em um mural que tratam de questões relacionadas à política econômica e social, como também questões do cotidiano em geral. Isso me despertou o interesse porque percebi que são questões que tratam da história presente, que ainda não estão registradas no livro didático, como também a diversidade de temática tratadas pelo caricaturista.

Indagada sobre o uso de outros cartunistas, além de Régis, em sala de aula, a professora comentou:

no inicio trabalhei com cartunistas de grande expressão como o Henfil, o Ziraldo e outros desconhecidos na mídia. No entanto percebi que o aluno sentia dificuldades na compreensão e na apropriação do texto visual. Mesmo assim fizemos muitos trabalhos com colagens e recortes de jornais, retratando questões discutidas em sala de aula. Mas quando comecei a trabalhar com as produções de Régis Soares percebi que estes desenhos despertavam mais a atenção dos alunos para as discussões de sala de aula...Eu acho que a escola deveria dar mais importância a essas produções”.

Esse ato de expor através da ironia e de chamar a atenção do público para as questões políticas e sociais, dando enfoque mais ético aos seus desenhos fez de Régis Soares não apenas um mero cartunista, mas um cronista da imagem2, preocupado com as questões mais recentes do país.

2Régis soares, há 14 anos, colocou um pedaço de madeira contendo uma charge que chamava a

atenção da prefeitura e dos transeuntes para um velho buraco que, inundado, dificultava o acesso ao seu ambiente de trabalho. O artista, acidentalmente inventou um “mass média” que, pela intensidade comunicacional que comporta, já se incorporou à nossa cultura e tomou status de patrimônio público.

A crônica semanal de Régis é feita de futebol, política, cotidiano, euforia e sofrimento. O cronista é também um professor de sentimentos, sensações, angústias, perdas, aspirações e retaliações pessoais e sociais.

Comungamos com a mesma opinião de Germano Barbosa (2000, p.07), quando ressalta a produção do cartunista Regis Soares, afirmando:

que o chargista da cidade, Régis Soares, não só faz rir, do mesmo modo como diverte, seu trabalho suscita a reflexão. É um atento cronista a retratar a vida com invulgar humor e incrível percepção do cotidiano, sendo, ao mesmo tempo, divertido, sarcástico, astuto, provocador, debochado.

Em Pintando o sete e desenhando os outros3, Régis nos brinda com um apanhado de quadros, muitos deles inéditos, que confirmam perspicácia de um artista perfeito.