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Nesta charge, a temática social é enfatizada pela via crucis do trabalhador, representado pela cruz, na qual o cronista do traço estabeleceu analogia entre o tempo de trabalho do operário de forma bastante irônica e o tempo de mandato dos políticos aqui do Brasil, que quando deixam o cargo são aposentados. A cruz nos chama a atenção porque faz referência às dificuldades, do trabalhador, sendo uma usada para liberar o significado do enunciado, no caso desta metáfora, o sofrimento de Cristo carregando seu fardo.

A cruz é usada na simbologia cristã, representando um martírio de Cristo, na qual o cronista se fundamenta para dar vida a essa representação em que o trabalhador brasileiro é identificado como um mártir.

No que se refere às questões sociais, também fizeram referência à condição dos aposentados, ou seja, quem outrora foi um trabalhador ativo, produtor de lucros que enriqueceu o pais, amarga a sobrevivência nas filas da previdência social, como se não houvesse contribuído e não tivesse direitos.

Percebemos que quando as professoras utilizaram essas iconografias os alunos interagiram, colocando que a condição representada se confunde com a realidade dos seus pais e avós, os quais recebem um salário que não dá para garantir a sobrevivência, sequer cobre os remédios que tomam. Por essa razão alguns deles catam lixo, pegam frete nas feiras e portas de supermercado ou engraxam sapatos, e dessa forma ajudam na sobrevivência da família.

Aparentemente, sem muita pretensão, a tática utilizada pelas professoras no trato das iconografias humorísticas estabeleceu entre elas e os alunos “um diálogo problematizador”, no sentido de que eles despertaram para a leitura do mundo. O “diálogo problematizador” é visto como uma forma de conscientização,

percebido quando se observa a facilidade e o prazer presente nos relatos. (FREIRE, 1979) Assim, surge no processo educativo, um olhar dirigido para significação o “educar para a significação”, que no dizer de Gutiérrez (apud PENTEADO, p. 31) acontece quando o estudante encontra sentido no que faz compartilha sentidos e compreende o sentido dos exercícios e dinâmicas que se vê obrigado a participar. Os usos e táticas que se desenvolvem cotidianamente são inscritas e delimitadas pelas redes de relações, e pelas circunstâncias das quais se pode aproveitar para apreender suas ações. Ações que se definem pelas operações de uso, entendidas segundo as noções de estratégia e tática, a partir do pensamento de Michael de Certeau (1994). Para o autor a tática diferencia-se dos significados mais freqüentes atribuídos a esse termo:

as táticas são procedimentos que valem pela pertinência que dão ao tempo- às circunstâncias que o instante preciso de uma intervenção transforma em situação favorável, à rapidez de movimentos que mudam a organização do espaço, as relações entre momentos sucessivos de um golpe, aos cruzamentos possíveis de durações e ritmos heterogêneos (CERTEAU, 1994, p.102)

As professoras utilizam essas táticas que são realizadas de modo sistematizado e continuado produzindo resultados benéficos à criatividade, à aprendizagem e ao prazer dos alunos. É uma das maneiras de torná-lo crítico, além de propiciar-lhe um ambiente estimulante à construção do conhecimento. (FREIRE, 1979, p. 30) Acerca disso, é pertinente o comentário da Professora Cíntia:

quando trabalho através da imagem a identificação do texto fica melhor... Olhando a imagem e comparando com os acontecimentos da atualidade fica mais fácil para o aluno entender o texto e o que está realmente acontecendo. O meu método é fazer com que o aluno perceba a realidade do seu entorno visualizado nos desenhos de humor.

A tática de fazer a relação entre o mundo cômico e a realidade também é ressaltada pela Professora Eunice no trabalho com as iconografias humorísticas nas suas aulas, pois assim se expressou: “eu procuro sempre fazer a ponte do mundo humorístico com o real e os alunos identificam com muita facilidade aquilo que está se passando no momento”.

No uso dessa tática, a Professora Eunice trouxe para a sala de aula uma iconografia que representava o mau uso do dinheiro público por parte do Prefeito de João Pessoa Cícero Lucena, no processo de construção do viaduto, popularmente denominado de Sonrisal. A crítica recaiu no fato de na obra ter sido gasto um montante de dinheiro que não correspondeu a qualidade do fora erguido, uma vez que a estrutura arquitetônica do viaduto ameaçou ruir logo que caíram as primeiras chuvas do inverno. Numa alusão ao comprimido que se dissolve facilmente na água, as camadas populares batizaram-no de Sonrisal, antes de ser oficialmente inaugurado. Embora ao viaduto tenha sido atribuído um nome oficial, prevaleceu o que o imaginário popular registrou, uma prova de que as camadas populares utilizam-se de mecanismos sutis para não só criticar e denunciar a ação dos maus políticos, mas também interferir no processo histórico.

Quando se referiram às representações da questão política nas iconografias humorísticas, as professoras além de contemplarem o mau uso que os políticos fazem das verbas públicas, ressaltaram a corrupção e o destino dos corruptos, conforme está exposto na charge abaixo, evidenciando que os políticos roubam e permanecem na impunidade, mesmo que haja provas dos delitos cometidos. Em contrapartida, os homens que cometem pequenos furtos são punidos, muitos nem são julgados e terminam nas prisões, sob a acusação de serem considerados maléficos, portanto incapaz de viver na sociedade. Nesse caso,

as professoras além de chamarem a atenção dos alunos para o comportamento da justiça na definição do que seja crime, evidenciou que o crime é definido a partir do lugar social que os indivíduos ocupam, ou seja, o homem que se apropria ilegalmente do dinheiro público ou faz mal uso dele não é considerado criminoso porque tem dinheiro, e quando porventura é acusado, se beneficia da sua condição de parlamentar.

Durante a aula, enquanto a professora usava a ICs sobre impunidade, a referência ao fato serviu para explorar apenas um dos aspectos veiculados; o significado da expressão impunidade.

Durante essa apresentação foi registrada uma conversa informal em que alguns alunos (interação aluno/aluno) referiam a representação tomando posições. Estes quando questionados pela professora sobre o que debatiam, disseram:

“Professora, estamos disputando para ver quem é que vai ficar no lugar do político ladrão” (ALUNO B)

“Eu prefiro ser o político e não o homem comum, porque a justiça só é feita contra o pobre, só pobre vai para a cadeia. A senhora já viu rico preso?. Então se é para roubar, tem que ser logo muito, como fazem esses políticos aqui no Brasil” (ALUNO C)