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3   Description of experiments

3.3   Transtensive experiments

3.3.3   Experiment 37-14: 60° releasing bend

Analisando a história destes dois grupos formados no “Planalto Sul Tropical do Sol”,40 o primeiro na década de 1970 e o outro, na década de 1990, podemos identificar alguns pontos de aproximação nas suas práticas. Tanto no que se refere às suas produções, o resultado cênico, quanto no tocante à formação, criação dos coletivos e propostas. Os dois grupos apresentam em

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Márcio Machado entrevista realizada por Loren Fischer em julho de 2008.

seus processos e especialmente em seu aspecto poético, algumas semelhanças pontuais, tal como a prática da criação coletiva, por exemplo.

Podemos perceber na formação tanto do grupo Gralha Azul quanto na do Menestrel Faze – dô esta característica importante, e que talvez seja um fator fundamental na própria identidade destes coletivos, que é a questão da criação coletiva. Por esta designação deve entender:

[O] espetáculo que não é assinado por uma só pessoa (dramaturgo ou encenador), mas elaborado pelo grupo envolvido na atividade teatral. Com freqüência, o texto foi fixado após as improvisações durante os ensaios, com cada participante propondo modificações. (PAVIS, 1999:79)

O que Pavis (1999) denomina de movimento estaria vinculado, em sua origem, “à redescoberta do aspecto ritual e coletivo da atividade teatral, ao fascínio pela gestualidade liberada da linguagem e pelas formas de comunicação não-verbais”. (PAVIS, 1999:79).

Embora no grupo Gralha Azul a figura do diretor seja algo presente, de acordo com o material analisado na pesquisa sobre o grupo, e no Menestrel esta função seja claramente apresentada como repartida entre todos os membros do grupo, concluo, a partir de depoimentos, que ambos utilizaram o espaço de criação artística como um espaço coletivo, onde cada participante desenvolve e participa dos diferentes aspectos da criação teatral.

Vejamos a seguir, o que é possível identificar, quais os pontos que poderiam caracterizar um ou vários contatos entre estes dois coletivos estudados nesta dissertação. Em suas práticas cênicas e na formação dos dois coletivos.

Sobre o trabalho do ator, por exemplo, é através da prática coletiva, que estes grupos criaram sua estética. A prática coletiva aqui significa o modo de produção, a maneira de se trabalhar. No caso do Gralha Azul, é importante destacar a influência dos diretores argentinos Fernando Fierro e Hector Grillo que trouxeram contribuições para o desenvolvimento do trabalho atorial. Técnicas de mímica, pantomima e expressão corporal foram apresentadas por Fierro e introduzidas em sua primeira proposta de oficina em Lages. Contudo, foi na prática coletiva, através de jogos e improvisações, que os atores deste

grupo formaram e aprimoraram técnicas para desenvolver o trabalho do ator no grupo Gralha Azul.

No caso do Menestrel Faze – dô, cujo trabalho, curiosamente também se originou em uma espécie de oficina, com a idéia de um encontro onde os participantes experimentassem maneiras de atuar, a formação do ator se dá na prática coletiva, no jogo, nas descobertas advindas da prática. Neste caso, o fator da troca de experiências ou mesmo da experimentação na criação cênica é ainda mais forte, uma vez que este grupo, desde seu início trabalhou com a idéia da não existência de um diretor, mas na confluência de diferentes modos de fazer e de praticar o jogo, este como elemento fundador do ato de representar.

Ambos os coletivos desenvolveram oficinas e obtiveram destas experiências, grande parte de suas descobertas do fazer teatral. E a formação dos grupos, nos dois casos, apresenta a idéia da oficina, do laboratório, como fonte para o trabalho da criação artística e o espaço da criação coletiva.

Portanto, podemos afirmar que na experiência destes dois coletivos, a formação do ator, foi algo construída dentro dos grupos, como resultante de sua prática. Com isto saliento que os atores destes grupos não seguiram um modelo, ou perseguiram uma técnica já existente, mas sim, descobriram e desenvolveram, através da experiência prática, um treinamento e um trabalho de ator próprio. Obviamente as referências trazidas pelos diretores argentinos, no primeiro caso e a questão do jogo como elemento fundamental no trabalho do ator, no segundo caso, foram pontos de partida para o desenvolvimento do trabalho do ator dentro destes coletivos.

Sobre os aspectos que caracterizam o teatro de grupo e com a análise da trajetória dos grupos aqui estudados, é possível apontar outras semelhanças nos procedimentos da construção cênica. Podemos encontrar pontos de contato na prática destes dois grupos, como a idéia de que os integrantes compartilhavam as diferentes funções da criação teatral, como na confecção de cenários, figurinos, luz, etc.

A visualidade dos espetáculos, a plasticidade apresentada no trabalho de ambos, é uma característica em comum no âmbito estético. No caso do Gralha Azul, podemos apontar o trabalho de bonecos no espaço da rua como a grande pesquisa do grupo. A linguagem de animação de bonecos e objetos,

localizada no espaço da rua é uma forte característica do trabalho deste grupo que marcou a história do teatro na cidade de Lages com esta inovação. Ao menos no contexto onde o grupo estava inserido, a linguagem de bonecos na rua aparece como uma inovação. De certa maneira, podemos dizer que estas inovações apresentadas pelo Gralha Azul, na década de 1970, reverberaram no trabalho do Menestrel Faze-dô, da década de 1990. Este último utilizou elementos como a perna de pau e também bonecos gigantes no espaço da rua.

O teatro como um elemento lúdico, como um jogo – onde todos os presentes são participantes da ação - é outra semelhança que encontramos na trajetória destes grupos. Por jogo estamos entendendo uma:

Prática coletiva que reúne um grupo de “jogadores”, que improvisam coletivamente de acordo com um tema anteriormente escolhido e/ou precisado pela situação [...] o jogo dramático visa tanto levar os participantes a tomarem consciência dos mecanismos fundamentais do teatro, quanto provocar uma certa liberação corporal e emotiva no jogo, e eventualmente, em seguida, na vida privada dos indivíduos. (PAVIS, 1999:222)

No âmbito da estética é possível ainda identificar este jogo tanto na cena quanto na relação com o espectador. No trabalho de ambos, o público é atraído pela beleza dos bonecos, pela visualidade das cenas, pela performance dos atores. A força dos espetáculos, nos dois casos, está na teatralidade e não tanto no elemento textual. Apesar da pesquisa de dramaturgia estar presente na trajetória dos dois grupos.

Pelos estudos realizados sobre a trajetória destes coletivos, é necessário mencionar que ambos fizeram do teatro um instrumento social. Isto seja, trabalharam com o teatro utilizando-o como propagador da cultura local, fomentador de público e artistas, etc. A ideologia destes dois grupos no aspecto relacionado com a função do teatro, se assemelha quando detectamos que ambos produziram teatro na cidade, com a cidade e para a cidade. Para Guiguí, integrante do Menestrel Faze - dô o trabalho do grupo se resume assim:

Nossa vontade é fazer do teatro outra coisa: um direito. As pessoas têm o direito. Eu acho que é esse teatro que a gente quer fazer. Quê as pessoas tem o direito de olhar. E que a gente tem o direito de fazer. É esse o teatro que a gente quer fazer. Por que a rua? Porque a rua é o espaço mais arejado do mundo. Porque não tem limites, não tem limite de público, não tem limite de dimensão... Mas a inquietação do artista que vai para rua, é a inquietação de realidade. Estar na rua, geralmente tem um pensamento de comunhão maior. Das pessoas com a sua obra. As pessoas que estão na rua, querem mais comunhão com as outras pessoas. Com certeza.41

Voltando a questão da dramaturgia, encontramos outro ponto de contato, a questão do imaginário regional que é abordado pelos dois grupos, aparecendo como tema principal e mote para a construção de seus trabalhos. Ambos trabalham com lendas e histórias de Lages, dialogando assim com o imaginário regional. É interessante destacar que o próprio nome do grupo Gralha Azul, faz referência a um símbolo da cidade de Lages, a ave gralha azul, responsável pela disseminação dos pinheiros, característicos da região serrana. De acordo com a crença popular, a ave carrega as sementes em seu bico para diferentes lugares e as enterra, fazendo a semeação e a proliferação dos pinheiros.

Mas, a principal característica que coloco como ponto de contato na história destes dois grupos é a utilização do espaço da rua para a prática cênica. Tanto no primeiro como no segundo caso, a rua foi o espaço escolhido para a realização deste teatro. Foi no espaço da rua que o projeto dos dois grupos se realizou, no contato direto com o público, tendo a própria cidade como cenário.

Levando em consideração as diferenças contextuais da existência de cada um destes grupos, podemos também detectar, além dos pontos de contato, alguns pontos de fuga. Elementos que constituem a história de cada coletivo e que se apresentam de diferentes maneiras em cada caso. Descreveremos a seguir quais destes pontos foram identificados através desta pesquisa.