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Experiment: Finger Dexterity

“A gente só é bonito quando a mãe da gente acha”.

A questão de não poder expressar tristeza ou raiva e ter que se apresentar feliz compareceu, desde o começo, como uma possibilidade de atender ao desejo da mãe que tinha para Jade essa direção. Como podemos entrever em fragmentos como o da estória que montou com os fantoches: “Norberto era um leão triste porque queria ter uma família. Aí, alguém disse, o Monteiro Lobato disse ao Norberto: “Você não pode ficar triste porque a dona

Korina não gosta de crianças que ficam tristes”. Apareceu o pássaro e disse: “Você tem que ficar feliz; você não pode ficar triste; você vai ficar feliz amanhã de manhã”. A menina chegou ao museu. Ela viu o leão, olhou para ele e acabou a história”. Pergunto: “a história acabou assim?”. Ela diz: “já vou embora, acabou por hoje”. Antes que saísse, lhe perguntei se, para ser amada, a menina precisa mostrar-se sempre feliz? Ela não responde e se vai.

Na sessão seguinte, ela arruma as bonecas para brincar e diz: “Há uma mãe para cada criança”. Porém, como lhe mostro que uma das bonecas não tem filhos, ela afirma: “A gente compra!”. Pergunto-lhe: “Onde?”. Ela responde: “No orfanato, é só comprar e levar para casa. É lindo, ficam juntos. Até mães famosas e ricas compram filhas. Escolhem e pagam e levam. Rápido! Não posso deixar de escolher a filha que eu quero. Não gosto de meninos. Eu quero uma menina com uma cara bem feliz”.

Em outra sessão, ainda, Jade pega um boneco do Gênio da Lâmpada e se dirige a ele dizendo: “Vou te pedir para realizar três desejos meus: ter uma família feliz; ter uma família especial; que a mamãe fique feliz comigo”.

Brincando com a fazenda, o mote em relação aos bichos é o de construir famílias, propõe pintarmos manchas nos filhotes da gata para que se pareçam com a gata mãe que é malhada. Ocorre que o filhote de coelho não tem pai, nem mãe, ou outro de sua espécie, é único. Ela, então, propõe que ele seja levado para a família de humanos e o põe para morar na casa. E diz: “Mas lá, ele estranha, pois sente falta dos outros animais e do ambiente de bichos que ele conhecia. Então, ele chora muito e as pessoas não entendem que é saudade e ele não sabe explicar que é saudade. Aí, as pessoas ficam com raiva dele porque pensam que ele é mal agradecido, mas não é isso. As pessoas não têm paciência com a tristeza dele, querem que ele fique logo feliz porque elas são boas para ele, elas pensam que tudo na vida dele é elas. Mas não é. Só que o coelho também não sabe direito o que é”. Digo-lhe: “Parece que este coelho teve uma história antes de ser adotado por esta família da qual ele não precisa se esquecer. Ele pode amar todos (quem ganhou agora e quem tinha antes). O problema é esta história de se sentir diferente que ele precisa resolver. O que eles todos podem ter em comum não é o ser igual, mas pode ser o amor uns pelos outros”.

Em outra sessão, Jade fala desse lugar de atender o desejo da mãe em detrimento do seu da seguinte forma: diz que é modelo. Então, simulo uma entrevista e peço que me fale de sua vida. Ela diz: “Tenho saudade da minha família, pois não pude viver com eles, precisei vir ser atriz. Eu queria mesmo era ser desenhista, mas não fui criada para ser desenhista, fui criada para ser modelo”. Pergunto-lhe se é modelo ou atriz. Ela responde: “Às vezes modelo, às vezes atriz, às vezes modelo-atriz”. Diz que gostaria de ter uma família, mas já tem, tem tudo. Peço-lhe que dedique uma frase final para àqueles que irão ler sua entrevista e ela diz: “A beleza de uma pessoa está em seu coração, não importa se é feio, importa que há vida e esperança”. Ela me pergunta se pode se desenhar para acompanhar a reportagem. Digo-lhe que sim e ela diz: “Vou fazer cara de moça”. Pergunto-lhe: “Como é cara de moça?”. Ela ri e diz que é de como será quando for moça. Então, segue dizendo que será uma moça muito bonita e vai desenhando e falando de si, de sua imagem, do que terá de sua mãe e daquilo que acha que se parecerá comigo também.

A partir do que Jade trouxe, surgiu, então, uma estória sobre “o se parecer” que era sobre uma menina que não sabia com quem se parecia, até que descobriu que tinha um pouco de cada pessoa que amou e muito mesmo dela mesma, pois cada pessoa tem seu jeito e que esse jeito é uma mistura de outros jeitos que aprendeu e que combinados nela a tornaram uma menina única. Esta estória foi ilustrada com recortes de revistas e Jade a levou consigo. Já no final dessa sessão, Jade contou um sonho que teve e que a fez acordar chorando: “Eu estava numa escola estranha com muitas amigas implicando comigo porque eu era muito diferente. Procurei pela mamãe e não encontrei”. Pergunto-lhe: “Diferente como?”. Ela diz: “Mais escura, mais gorda e mais cacheada do que as outras”. Pergunto-lhe: “Como era a escola?”. Ela diz: “Parecia a minha casa”. Pergunto-lhe: “É em sua casa que você se sente assim diferente?”. Ela diz: “Também”. Pergunto-lhe: “Porque procurou por sua mãe?”. Ela diz: “Eu queria que ela me defendesse”. Pergunto-lhe: “Como?”. Responde: “Dizendo que eu era bonita como eu sou, que não sou diferente para ela”. Pergunto: “E ela?”. Responde: “Já te disse, eu não a encontrei”.

Na sessão seguinte, chega dizendo que não agüenta mais ter onze anos, que não vê a hora de fazer treze para ganhar um celular. Diz que o que quer mesmo é fazer quinze e virar cisne. Pergunto-lhe: “Como assim, virar

cisne?”. Ela diz: “Tu não sabes a história do pato feio? Que era feio mesmo, tão feio que a mãe nem reconheceu, igual a minha história. Mas um dia, ele vira cisne e a mãe o reconhece, aí eles vão ser felizes”. Pergunto-lhe: “Porque ele precisa virar cisne?”. Ela diz: “Pra mãe poder ver como ele é bonito e gostar dele”. E acrescenta: “A gente só é bonito quando a mãe da gente acha”. Pergunto: “Por quê?”. Ela diz: “Porque é ela quem sabe como o filho dela deve ser”. Digo-lhe: “Talvez o filho possa dar umas dicas para ela, para ajudá-la a perceber”. Ela me olha surpresa e pergunta: “Você acha?”. Digo-lhe que sim. E ela pergunta: “Como faremos, então?”. Digo-lhe que talvez ela pudesse escrever um livro com a sua história – contando como ela é, o que sente, do que gosta, ... – Sugiro que no próximo encontro traga fotos suas e assim surgiu um livro de memórias feito de fotos e falas, no qual Jade se “apresentava” não só à mãe, mas também, sobretudo, a ela mesma. Aqui, Jade apresenta-se sem precisar “virar” outra coisa. Não precisava representar ou ser “modelo”. Reconhece-se como é e pode, finalmente, dizer de si.