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“Rindo por dentro e não só por fora”.

Em uma sessão Jade propõe uma brincadeira na qual ela é uma mãe poodle e leva o seu filhote à psicóloga. Explica à psicóloga que ele é de uma espécie diferente da sua. E diz: “todos os psicólogos cansaram de trabalhar com humanos”. Pergunto-lhe: “como é para este filhote ser de uma espécie diferente da mãe?”. Ela diz: “no começo ele estranhava um pouco, mas já está se acostumando”. Pergunto-lhe: “O que mudou? Porque ele já está se acostumando?”. Ela diz: “Ele tem se achado mais bonito do jeito que é e agora não se importa tanto com a cara das pessoas”. Pergunto-lhe: “O que tem a cara das pessoas?”. Ela diz: “É que as pessoas se assustam quando vêem um poodle branquinho com um filhote marrom e de outra espécie”. Pergunto-lhe: “Qual é a espécie do filhote?”. Ela diz: “Não sei. Ninguém sabe, mas sabem bem que não é poodle”. Pergunto-lhe se quando fala que é de outra espécie se refere à raça. Ela não entende minha pergunta e explico que outra espécie

quer dizer que ele não é um cão como a mãe, pode ser outro bicho ou um humano. Ela ri muito e diz: “Não, o filhote é um cão, mas não da raça poodle como a mãe. Como eu te contei, não sabem a raça dele”. Pergunto-lhe porque ela, a mãe, o levou a psicóloga. Ela diz: “Eu amo o meu filhote mesmo assim diferente e quero que ele seja feliz”. Pergunto-lhe: “o que acha que posso fazer para ajudá-lo?”. Ela responde: “Tu sabes”. Pergunto-lhe porque acha que eu sei. Ela diz: “Você estudou para isso e também tem amor pelas pessoas como elas são”. Pergunto-lhe se ao trazer seu filhote aqui, é o mesmo que sua mãe fez ao trazê-la. Ela diz: “Eu não sei por que a mamãe me trouxe. Acho que era por que eu não entendia muito bem o que ela me dizia”. Pergunto-lhe: “E agora como está isso?”. Ela diz: “Mais ou menos, mas acho que a mamãe tem falado de uma forma diferente comigo e tudo está melhor”. Pergunto-lhe: “Tudo o quê?”. Responde: “Eu e a mamãe”. Peço-lhe, então, para me explicar melhor porque trouxe o seu filhote até mim. Ela diz que o ama mesmo assim do jeito que ele é e que quer que ele seja realmente feliz. Pergunto-lhe: “Realmente como?”. Ela diz: “rindo por dentro e não só por fora”. Pergunto-lhe se ela é feliz. Ela diz que veio aqui para eu atender o seu filhote. Digo-lhe que, para ajudá-lo, preciso saber como ela se sente. Ela ri como se percebesse alguma implicação oculta em minhas palavras e diz: “Acho que você só sabe trabalhar com humanos”. Pergunto-lhe: “Por quê?”. E ela responde: “Por que os humanos são muito complicados”. E diz: “Já sei o que fazer para ajudar meu filhote: vou abraçá-lo, sorrir para ele e pronto”. Finaliza me aconselhando a voltar a trabalhar com os humanos.

3.1.5 O amor na transferência

“Promete pra mim que você não morrerá”.

A relação transferencial com Jade foi intensa. Em muitas sessões, me escrevia bilhetes de amor, confeccionava envelopes para colocá-los dentro e me entregar, fazia cartazes com suas mãos de presente para mim, desenhos da minha pessoa, corações...

Jade sempre me indagava sobre o seu nascimento. Perguntava: “Como eu nasci?”. Ao que eu lhe respondia: “Cada pessoa tem seu próprio modo de nascer, mas uma coisa é igual em todas, que é o desejo de vir ao mundo, de viver nele e o desejo dos pais que fizeram o bebê de que ele nascesse e dos pais que o criaram de que crescesse; que, em algumas histórias, os pais que fizeram o bebê, eram os mesmos que o criaram e, em outras, eram diferentes, como na história dela”. Então, na sessão seguinte, ela dizia: “Repete aquilo sobre o nascimento, por favor”. Eu perguntava o que ela queria que eu repetisse e ela dizia: “Aquilo do meu jeito de nascer”. Às vezes, perguntava quem são as pessoas que estavam comigo todos os dias, se eu tinha filhos, marido, pais... Enfim, como era a minha família. Era o que Jade queria saber. Ela dizia, no início, que a cegonha a trouxe do mundo das fadas para sua mamãe e sua família, o que fui questionando com ela. Perguntei-lhe porque precisava de uma origem tão fantasiosa. Disse-lhe que os bebês não nascem assim e nem tem fadas como ancestrais, diante do que, ela ria e, aos poucos, foi compreendendo que teve um papai e uma mamãe que desejaram que ela nascesse, mas não puderam criá-la. E, por amor a ela, deram-lhe para que Fabiana e Celso a educassem em sua família. Ela dizia, então: “Família é a coisa mais linda que alguém pode ter e eu tenho muita sorte em ter uma família como essa. Só confio neles, pois as outras pessoas são más, discriminam”. Tinha, no entanto, uma queixa: a de que teve poucos aniversários. Perguntada sobre isso, explicou que seus aniversários não foram comemorados e que às vezes achava que tinha menos idade por causa disso. Pergunto-lhe se é por isso que às vezes parece mesmo uma criança pequena e não a menina de onze anos que já é. Ela diz: “É o aniversário que deixa a gente mais velha, como não tinha aniversário, não fiquei mais velha”. Pergunto- lhe: “Por essa conta, quantos anos você tem?”. E ela diz: “Seis”. Pergunto-lhe, então, se parou de crescer quando seus pais se separaram, a família se desfez e veio morar em Belém, se está tentando se congelar onde se sentia mais feliz. Ela diz que sim, mas que mesmo se voltassem já não seria a mesma coisa porque não era aquele tempo, agora é outro tempo. Digo-lhe que talvez seja o tempo de ter onze anos e lhe pergunto a que se refere com não ser mais aquele tempo e ela diz que sua “bivó” não está mais viva. Digo-lhe que talvez seja o tempo de construir outras relações como a que tinha com sua bisavó.

Ela diz que tem medo que a mãe morra. Pergunto-lhe: “Por quê?”. Ela diz que tem medo de perdê-la como perdeu a bivó. Pergunto-lhe se é por isso que tem resistido tanto a ela. Ela diz que não, e declara: “na minha escola tem duas tias, a tia Idália que batalha para entender a gente e a tia Ivone que entende a gente”. E segue perguntando se eu vou morrer. Digo-lhe que não sei. E ela diz que é por isso que tem medo de gostar de alguém. E pergunta: “Se você morrer com quem ficará sua filha?” Digo-lhe que alguém cuidará dela. Ela diz: “Como eu?”. Pergunto-lhe: “Como assim?”. Ela diz: “Como minha mãe não pode cuidar de mim e é a minha mãe Fabiana que cuida”. Digo-lhe: “Ah! Acho que agora estou entendendo, você tem medo de perder outras pessoas como já perdeu sua mãe da barriga?”. Ela diz: “É, primeiro ela e agora minha bivó”. Digo-lhe que entendo, mas que não podemos deixar de amar as pessoas por medo de perdê-las. Ela pergunta: “Porque não?”. Digo-lhe: “Porque senão as perdemos de qualquer modo, só que de outro jeito que é deixando de tê-las conosco”. Digo-lhe: “Você lembra o que me falou uma vez sobre as estrelas? Que elas podem ter se apagado há milênios, mas que ainda assim brilham? Pois é... aqueles que amamos ficam dentro de nós, como sua mãe da barriga, sua bisavó e outras pessoas que virão em sua vida. É como as estrelas que já se apagaram, só que brilhando dentro do seu coração”. A sessão já está encerrando e ela me pede: “Promete pra mim que você não morrerá?”, o máximo que consigo lhe responder é: “Por enquanto, não”.

Na sessão seguinte, chega contando que, sobre aquilo das pessoas que morrem de que falamos, esqueceu de me dizer que sempre fala com sua bivó nas orações antes de dormir. Pergunto-lhe o que fala e diz que fala sobre tudo. Às vezes mais, outras menos. Às vezes canta ou, então, conta algo que aconteceu e que gostaria que ela soubesse. Depois reza, agradece a Deus por ter essa família e pede por todas as crianças que não têm alimento e nem cobertor. Pergunta-me se acho que sua bivó a escuta. Digo-lhe que sim. Ela, então, num ato falho, me pergunta se tenho “outra” família. Pergunto-lhe: “Como assim outra família?”. Ela se espanta com a pergunta e se corrige dizendo que quis perguntar se tenho família.