Diversos estudos têm apontado a inconsistência dos achados em relação à associação entre depressão e idade71,76,77. Em geral, estudos conduzidos na população adulta têm apontado um declínio na prevalência de depressão a partir dos 65 anos quando comparada a faixas etárias mais jovens. No estudo conduzido com uma amostra nacional representativa na Austrália, que incluiu mais de 10 mil participantes com 18 anos ou mais e utilizou como instrumento diagnóstico a DIS, aplicando a ela os critérios da CID-10 e do DSM-IV, encontrou uma redução de 30% na prevalência de depressão maior em idosos de 65 anos ou mais comparados a faixas etárias mais jovens, mesmo após o ajuste para os demais fatores de risco
estudado31. Um estudo norte-americano com cerca de 10 mil participantes da comunidade com 50 anos ou mais, e que utilizou os critérios para depressão maior do DSM-IIIR aplicados à DIS, também encontrou uma redução na prevalência de depressão com o aumento da idade30. O estudo brasileiro de Andrade et al.41, realizado em São Paulo com adultos de 18 anos ou mais, utilizando para o diagnóstico de depressão os critérios da CID-10 aplicados à CIDI, encontrou uma diminuição na prevalência de depressão com o aumento da idade, particularmente a partir dos 65 anos41. Outro estudo australiano, com cerca de 3 mil participantes de 18 a 79 anos da comunidade, investigou a associação de sintomas depressivos e idade. Utilizaram a escala de 18 itens de depressão e ansiedade de Goldberg, e os 14 itens para depressão e ansiedade da Delusion Symptoms Signs Inventory (DSSI) mostraram que houve uma diminuição da prevalência de todos os sintomas depressivos na DSSI e apenas os sintomas despertar precoce e retardo psicomotor subjetivo da escala de Goldberg apresentaram aumento em idosos em relação aos mais jovens78. As hipóteses que têm sido feitas para explicar a diminuição da prevalência de depressão e de sintomas depressivos com o aumento da idade são: (a) inadequação dos critérios e dos instrumentos diagnósticos utilizados nos estudos, que não levam em conta eventuais mudanças na apresentação do quadro depressivo nas diferentes faixas etárias; (b) menor duração dos episódios depressivos entre os idosos; (c) viés de seleção, com baixa representatividade de idosos nas amostras populacionais devido à mortalidade seletiva relacionada à depressão, ao aumento da prevalência de demência, a não resposta seletiva aos estudos ou à associação entre depressão e institucionalização; (d) efeito coorte, como, por exemplo, aumento da prevalência de depressão entre as pessoas que viveram a Segunda Guerra Mundial;
(e) diminuição na frequência e distribuição dos sintomas em nível populacional; neste caso os idosos não preencheriam os critérios de depressão da CID ou do DSM, mas uma parcela significativa teria quadros depressivos subsindrômicos; e (f) diminuição real na prevalência decorrente da atenuação das bases biológicas da depressão, com menor exposição a experiências adversas ou maior resistência a elas, numa espécie de imunização psicológica30,31,71,78,79.
Por outro lado, estudos conduzidos especificamente com a população idosa têm encontrado resultados mais conflitantes. Em geral, os estudos têm mostrado, independente do instrumento e do critério diagnóstico de depressão, um aumento da prevalência de depressão21,38,40,48 e de sintomas depressivos46,50,51,59,60,64,66,69 com o aumento da faixa etária. Um estudo realizado com cerca de 1.300 idosos da comunidade, na China, de 65 anos ou mais, utilizando os critérios do DSM-IIIR para depressão maior, encontrou um associação direta entre depressão e idade38. Uma associação direta entre sintomas depressivos e idade também foi encontrada num estudo conduzido nos EUA com cerca de 4 mil idosos da comunidade com 65 anos ou mais, utilizando como critério diagnóstico uma pontuação de 9 ou mais na CES- D64. Entretanto, a maioria dos estudos tem mostrado que a associação direta entre depressão21,38 ou sintomas depressivos48,50,51,60,64,66,69,74 e idade desaparece após o ajuste para os demais fatores de risco, sugerindo que essa associação seja confundida por outras variáveis, como, por exemplo, comorbidades físicas60,64. No entanto, em alguns estudos a associação entre sintomas depressivos e aumento da idade foi independente dos demais fatores de risco49,67.
Contudo, há também os estudos que não mostraram associação entre idade e depressão32,34 ou sintomas depressivos39,57,63, ou mesmo encontraram que o aumento
da idade foi um fator protetor25,35,62,68. Por exemplo, Minicuci et al.62 encontraram que os idosos acima de 80 anos tinham uma prevalência de sintomas depressivos 20% menor do que as faixas etárias mais jovens. No estudo brasileiro de Blay et al.25, embora na análise bivariada houvesse associação direta entre sintomas depressivos e aumento da idade, a direção dessa associação inverteu-se na análise multivariada.
Vários pesquisadores também têm investigado se o padrão de fatores de risco para a depressão é distinto nas diferentes faixas etárias entre os maiores de 65 anos. Essa questão surge porque os idosos de faixas etárias mais velhas representam uma população selecionada e muitos fatores contribuem para a longevidade, como, por exemplo, a hereditariedade37. Além disso, eles estão mais expostos a fatores de risco, como comorbidades físicas, limitações funcionais, viuvez e isolamento social37,49, mas, por outro lado, também poderiam ter desenvolvido estratégias de enfrentamento mais efetivas devido à maior experiência de vida, o que lhes permitiria lidar mais adequadamente com esses fatores de risco49.
Estudos realizados na Alemanha, no Brasil, nos EUA, na Finlândia, na Holanda e em Hong Kong compararam fatores de risco para depressão maior37,40,44, depressão menor37,44 e sintomas depressivos50,52 entre idosos com mais de 85 anos37,52, mais de 80 anos44,49 e mais de 75 anos em relação a idosos mais jovens, a partir dos 65 anos. Esses estudos chegaram a resultados semelhantes e mostraram que os fatores associados à depressão maior, depressão menor e a sintomas depressivos em idosos acima dos 75 anos não variam muito em relação aos idosos mais jovens37,40,44,49,50,52, mas os autores destacam o impacto dos déficits visual, auditivo e cognitivo como fatores de risco para depressão entre idosos mais velhos40,49,50,52.
Em suma, não existem evidências definitivas sobre a associação entre depressão ou sintomas depressivos e idade avançada. Os estudos populacionais em adultos mostram consistentemente uma menor prevalência em idosos em relação a indivíduos mais jovens, mas apresentam uma série de limitações metodológicas (inadequação dos instrumentos diagnósticos e da amostragem, vieses de seleção, vieses clínicos) que poderiam explicar as diferenças encontradas. Para alguns autores, os achados desses estudos podem levar à concepção errônea de que a depressão é rara entre os idosos, podendo contribuir para o subdiagnóstico e para o subtratamento dessa condição77,79.
Por outro lado, estudos conduzidos exclusivamente com idosos apontam para diversas direções, com um predomínio de estudos que mostraram uma associação entre depressão ou sintomas depressivos e aumento da idade, mas que pode ser mais bem explicada pela associação com outros fatores de risco, como, por exemplo, comorbidades físicas. Além disso, idosos acima dos 75 anos apresentam fatores de risco para depressão semelhantes aos encontrados em idosos mais jovens, embora o impacto das limitações funcionais seja maior entre os mais velhos.