• No results found

Uma das conseqüências da crise da modernidade é a cultura de violência e, de certa forma, essa cultura tem comprometido o desenvolvimento do pensamento crítico a respeito de suas origens e de seus autores. É comum a expressão de que “o mundo hoje está mergulhado em uma cultura de violência.” Por conta das situações econômicas e políticas, a violência assume formas que têm deixado a grande maioria das pessoas na inércia e sem saber como combatê-la, pois esta cresce a cada dia e de forma incontrolável.

O conflito e a intolerância em relação às culturas têm absorvido grande parte dos discursos na atualidade. Acredita-se que a aceitação das diferenças e a tolerância são capazes de garantir a paz entre culturas tão opostas. Não seriam as nossas semelhanças que nos trazem os maiores conflitos? Não seria a luta para termos tudo igual que causa os problemas de aceitação e convivência? Cada cultura tem conseguido preservar as suas diferenças ou tem lutado enormemente para se assemelhar cada vez mais ao outro?

Entre tantas ações do ser humano, este produziu a cultura da violência, configurando- a como forma normal do homem se defender das ameaças que lhe ocorrem. O homem,

utilizando-se da razão, organiza-se e escolhe a violência como uma das formas de agir. A sociedade, por sua vez, cultiva a violência e a honra, destacando-a como virtude do homem corajoso. Há, então, a figura do herói, aquele que lança mão de armas para defender sua pátria contra os inimigos. A violência passa a ser sagrada, pois muitos derramaram seu sangue e, por isto, é necessário que os demais continuem para que não seja em vão o sangue dos primeiros.

Verifica-se, portanto, a violência instaurada e justificada. Racionalmente, há uma construção para justificá-la, o que não permite que ela própria possa ser vista como realmente é e qual a sua relevância. Há uma valorização positiva da violência que garante resultados, visto justificar-se a si mesma. Ela é banalizada e está em conformidade com a lei, em alguns aspectos de sua forma de manifestação.

Se a violência é uma produção do ser humano, portanto uma produção cultural, como julgá-la, se os critérios que se têm são produzidos pela cultura também? Há, assim, a necessidade de questionar a própria cultura e, para isto, é preciso questionar os nossos próprios critérios e juízos estabelecidos. Por que falar de não-violência e não da violência como afirmações? A opção pela negativa da violência é exatamente para discutir e elucidar as suas diversas faces ocultas. Abordar o tema da violência pela negativa traz muitas ambigüidades, mas é exatamente nas dicotomias da violência que precisamos pensar. Quando se relaciona violência com educação, há, assim, uma infinidade de contradições.

A palavra violência tem sido muito usada em diferentes discursos e com diferentes intenções e significados, conforme já destacamos no capítulo anterior. Assim como Arendt (2001), Muller (2006) afirma que a confusão da linguagem é a expressão da confusão do pensamento. Quando se quer abordar a não-violência, a confusão em torno da violência fica mais evidente ainda. O autor propõe que, para o começo de diálogo, é preciso que haja o esclarecimento de palavras que circulam juntamente com a palavra violência. Neste caso, como está se tratando de relações na escola e da cultura escolar, torna-se necessário também este esclarecimento de palavras tais como: conflito, agressividade, luta, força e coação. Na escola, são palavras muito usadas, mas como acontece com a palavra violência, são utilizadas com significados diferentes. Isso tem dificultado o diálogo e também as práticas pedagógicas. O conflito é inerente ao existir humano. Não há como estar no mundo sem estar em relação com o outro, e esta relação constitui-se em uma relação conflituosa, a não ser que um dos sujeitos da relação se exclua – o que não configura relação. Portanto, o conflito é elemento estruturante de toda a relação e da vida social, não sendo possível eliminá-lo. É

possível e necessário estabelecer formas de conviver, de administrar os conflitos, e uma delas é optar por formas não-violentas para resolver os conflitos.

A agressividade está presente a todo o momento que o ser humano se coloca no mundo: ser agressivo é afirmar-se perante o outro. ‘Caminhar na direção de’ é o significado do verbo ‘agredir’. Depois foi colocado na derivação do verbo e se constitui ‘caminhar na direção contra de’. ‘Agredir’ e ‘progredir’ significam caminhar para frente. A agressividade é importante para não ceder às ameaças, devendo-se enfrentar o medo e lutar pelos direitos. A audácia e a coragem estão ligadas à atitude de agressividade, e não de violência, como costumeiramente é colocado.

É pela luta que é possível existir. Quando o diálogo não é possível, a luta é necessária, precisando, porém, criar as condições para o diálogo. Ela é a manifestação para além dos argumentos racionais. A força é geralmente confundida com a violência e tem a função de equilibrar. Em uma situação de injustiça, esta se torna imperiosa, para gerar o equilíbrio entre os antagonismos. A força solidifica a ação e vai além do discurso.

A coação significa convencer o outro a agir de outra forma. Assim, em um diálogo para assumir posturas não-violentas, em alguns momentos, se faz necessária a coação, a fim de que o outro possa realmente mudar sua ação. Também está além do diálogo. A não- violência, segundo Muller (2006), é a recusa em reconhecer a legitimidade da violência, é o não categórico da violência. Quando o homem experimenta a violência, descobre o requisito da não-violência que já estava em si. A não-violência constitui-se em uma opção da razão. O sentido da vida para o homem se estabelece quando este toma consciência do apelo da violência e é capaz de recusar e de não legitimar a violência como algo natural do ser humano. Enquanto o homem permite que a violência guie sua ação, a sua condição de escravo continua imperando. A atitude da não-violência é o esforço do homem por manter-se livre na busca de sua identidade.

A origem do termo não-violência é ahimsa. Opostamente, himsa significa o desejo de fazer o mal ao outro. Com o prefixo a, passa a significar a ausência de qualquer desejo de violência: “a não-violência reabilita a inocência como virtude do homem forte e como sabedoria do homem justo” (MULLER, 1995, p.57). A não-violência como método de ação para responder à necessidade de não somente evitar a violência, mas também de se ter uma alternativa de ação para ela. A não-violência é considerada como um princípio filosófico e como força política, para responder aos conflitos inerentes da vida em sociedade e do desenvolvimento do ser humano.

O conceito de ação não-violenta apresenta uma forma diferente de ser e estar no mundo, conforme a normalidade das relações apresentadas. O normal é ‘responder na mesma moeda’, como diz o ditado popular, porém a não-violência propõe usar outra moeda: é a atitude de desarmar-se e deixar o outro desarmado, para que a palavra possa tomar lugar. A atitude da não-violência implementa mecanismos de regulação dos conflitos de maneira que estes possam fazer o ciclo de permanência e possibilidade de resolução, sem o uso da violência. Para isso, a competência comunicativa é aprendizagem necessária.