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6.4 The UK Discourse

6.4.4 Discussion of Findings

Um ponto evidente de conflito na escola é quanto ao tempo para trabalhar a partir do projeto pedagógico da escola. São tantos problemas que a coordenação da escola acaba usando todo o tempo para tentar resolver situações de conflitos. Pode-se perceber que há dicotomia entre a realidade concreta como ela se manifesta, e o que é projetado para a ação pedagógica. Projetos pedagógicos idealizados, sem o diálogo com a comunidade, com as necessidades dos adolescentes, sem parceria. Como trazer a comunidade para dentro do projeto pedagógico? Como estabelecer aprendizagens significativas para os adolescentes com características específicas de cada escola?

E assim, aqui, quando a gente fala as pessoas podem não acreditar, mas elas ficam na nossa cola até a gente sair da porta da escola. Quando isso não acontece é que rola as brigas, mas geralmente quando as pessoas falam muito pouco com a direção por medo por estar sentindo vergonha, mas quando isso acontece, se tem alguém desocupado, porque se eles tão ocupado não tem quem deixe eles deixar o trabalho deles e resolver. Mas assim, quando o (nome ocultado do professor) (coordenador) está aqui ele resolve. A gente chama ele de anjo da guarda. Quando ele tá aqui ele sempre protege a gente (GF3).

Importante destacar que, para Freire (1996), o projeto pedagógico está diretamente relacionado com as condições do processo de ensinar. Conforme o autor:

Ensinar não se esgota no tratamento do objeto ou do conteúdo, superficialmente feito, mas se alonga à produção das condições em que aprender criticamente é possível. E essas condições implicam ou exigem a presença de educadores e de educandos criadores, investigadores, inquietos, rigorosamente curiosos, humildes e persistentes (p. 26).

Percebe-se uma fala sobre projeto pedagógico, descolada de uma visão sociológica da escola e da realidade social. Fica-se em jargões que não ajudam na reflexão dos problemas e na construção das ações educativas. Recorre-se ao projeto pedagógico como entidade de solução. Quando, na verdade, ele é alavanca de compreensão e caminho para desenhar ações. A pergunta de Marx: “Quem educará os educadores?” é procedente. Morin, em todos os seus escritos sobre educação, insiste na questão sobre como se dará a reforma do pensamento e, por conseqüência, da escola. Como incluir a realidade social e as vivências dos adolescentes no projeto pedagógico? Esse é um dos conflitos presentes na escola e que pode ser fonte de violência.

É possível perceber isso nas manifestações dos adolescentes:

A professora xx tem altos temas. Ela passa o texto, a gente copia, pronto. Fechou! Ela fala faz uma redação aí, faz um desenho. Ela não trabalha o tema. Não tem discussão. Pra ela, ela ta trabalhando aquele tema, mas na verdade ela não ta trabalhando. Ela passa e não discute. Ela escreve no quadro, a gente olha aquilo que tá escrito: não seja racista, não seja não sei o quê, mas o tema não é discutido. Em momento nenhum a gente discute (GF 4).

Os adolescentes manifestam a necessidade de falar, de discutir, de dizer a sua palavra sobre o tema. Na verdade, eles estão questionando o processo pedagógico. Quais teorias fundamentam o trabalho dos professores. Segundo o relato do grupo de estudantes, o professor acredita que repetindo uma frase, escrevendo várias vezes, ela se transformará em prática. Aqui é possível perceber as concepções de aprendizagem dos professores ou da escola como um todo na orientação do trabalho pedagógico com os seus professores.

Qual seria a função do projeto pedagógico na escola de hoje? Quais seriam as redes de comunicação que ele precisaria estar articulado para que pudesse cumprir o seu papel? Um dos pontos dessa rede é o governo local. Na percepção dos diretores da escola, o governo incentivou a todos estarem na escola, porém sem infra-estrutura. Colocar todos na escola pelo incentivo de programas sociais pode ser uma parte do processo de melhoria. Os diretores

reclamam da falta de acompanhamento e cuidado com os processos que deveriam ser acompanhados após o ingresso do adolescente na escola. A escola é obrigada a receber todos que a procuram, mas os diretores sabem que não há infra-estrutura suficiente para cuidar do processo pedagógico de todos os que estão matriculados na escola.

Junto à proposta pedagógica está a forma de fazer a gestão da escola. Na visão dos diretores, colocar todos na escola sem as condições de atendimento não ajuda na solução dos problemas. Essa situação traz conflitos para a escola e para os adolescentes. Estar na escola não significa encaminhamento de melhorias. Qual seria o caminho? Há pouca discussão sobre isso. Os diretores manifestam que as decisões políticas são feitas pelo governo sem dialogar com o projeto de escola.

A escola, para os adolescentes, representa um lugar onde todos podem se mostrar, e há o desejo de querer estudar. No entanto, os estudantes sentem-se perturbados e sem saber como se portar nesse ambiente. Há uma quebra de expectativa e entendimento do que é a escola para eles. A imagem da escola como lugar de estar bem e vir para estudar não está correspondendo às suas expectativas. As mudanças, ocorridas na organização social e nas relações, não são absorvidas pela escola, como espaço de relações e apropriação de um lugar de aprender. Os adolescentes, por eles mesmos, não conseguem garantir as condições adequadas para o estudo e a convivência.

Diante disso, percebe-se que somente a proposta pedagógica não é suficiente para dar conta da demanda da escola. É necessário o atendimento de outras necessidades para que a escola possa desenvolver a cultura da convivência e da aprendizagem.

Antes a escola era muito violenta, tinha muita gangue, muita briga, muita coisa bem pesada, então aí, nós viemos fazer um trabalho, o Conselho de Segurança Escolar ele é assim nós fazemos um trabalho bem leigo mesmo porque, ele vem caminhando bem lentamente, mas os resultados a gente já percebe. Por exemplo, nós começamos desde o ano passado a fazer nossas reuniões de pais, nós fazemos o conselho participativo onde a gente pára as atividades, e trabalha de hora em hora para os pais, alunos, os professores para falar como é nosso trabalho e o que pretende e mostrar pra família como a gente trabalha (D5).

Nesse sentido, é importante pensar sobre a gestão da escola como um todo. Gestão e proposta pedagógica estão juntas, não há como tratá-las de forma separadas. A proposta pedagógica precisa estar vinculada com as práticas de gestão, pois é no concreto do dia-a-dia da escola que a intenção pedagógica toma corpo. Ambas constituem a escola.