Chapter 5. Data presentation and analysis
5.3. The existing stereotypes and the change of attitude after
Presente em revistas “populares” “femininas”, as fotonovelas seriam exemplos de uma “má literatura”, (JOANILHO; JOANILHO, 2008, p.530). Em uma afirmação como essa, saltam aos olhos as associações elaboradas a partir da combinação das palavras “má”, “populares”, “femininas”. Estamos diante de uma caracterização ligada ao universo do “popular” e ao universo feminino que ganha aí um sentido negativo. E como compreender “popular” nesse contexto (linguístico)? A palavra se relacionaria às camadas mais pobres da população? Estaria, o termo, em oposição ao “erudito”, ao “legítimo”,23 àquilo que seria, portanto, “melhor”, “superior”?24 “Feminino” certamente liga-se à mulher. Diante dessas associações, pelo menos duas perguntas nos vêm: por que produzir um impresso que traria em suas páginas uma “má literatura”, direcionada para um público “popular” e “feminino”? Por que mereceriam as mulheres pobres ler aquilo que existiria de “pior”, “inferior” em termos de literatura?
Joanilho e Joanilho (2008, p.544), ao analisar as fotonovelas, afirmam que “as histórias claramente marcadas remetem quem lê para algum tipo de passado, um in illo
tempore, isto é, a possibilidade de anular parcialmente o tempo histórico das mudanças, para
recompor a realidade de acordo com um passado melhor que o presente”. Os autores ressaltam que, em relação às fotonovelas,
O que é mais interessante não é uma possível apropriação do universo popular por um veículo de cultura de massas, mas a permanência desse universo em sociedades de alto capitalismo ou, no mínimo, altamente urbanizadas. Isto é, o público leitor da fotonovela é um público citadino que, no entanto, ainda se deleita com histórias de fundo hagiográfico, porém completamente laicas, atualizando mitos e formas antigas de ordenação da realidade (p.545).
Por que “em sociedades de alto capitalismo”, “altamente urbanizadas” seria estranho encontrarmos “a permanência” do “universo popular”? O que seria “popular” aqui? Por que motivo “um público citadino”, leitor de fotonovela, não poderia se deleitar “com histórias de
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Chartier (1988) afirma que a divisão tradicional que opõe letrado e “popular” é extremamente problemática, porque práticas culturais que podem ser tomadas como “populares” em determinado período podem se configurar como práticas de leitura partilhadas por toda uma sociedade. Na História Cultural, questões que envolvem o emprego da noção “popular” já vêm sendo problematizadas. Para Chartier, é um falso problema saber se aquilo que é criado pelo povo ou a ele destinado pode ser denominado como “popular”. Segundo o historiador, importa identificar de que modo, nas práticas, nas representações e nas produções, diferentes formas culturais se cruzam.
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37 fundo hagiográfico”? O que se espera como leituras de “sociedades de alto capitalismo”, “altamente urbanizadas”? Por que as narrativas das fotonovelas se caracterizariam por atualizar “formas antigas de ordenação da realidade”? O que é realmente novo na nossa sociedade, em nossas maneiras de organizar a realidade? Poderíamos separar, de uma maneira tão estanque, presente, passado e futuro quando se trata de formas para se ordenar a realidade? Tendo em vista essas características das fotonovelas, vale ressaltar que, caso se encontre um leitor ou uma leitora “exemplar”, que leia textos do cânone literário e que, em algum momento da vida, tenha lido uma fotonovela ou um romance “água com açúcar”, como
Bianca, por exemplo, a leitura “pior” e “descartável” teria sido feita apenas por distração,
quase sem atenção... Logo, teria sido praticamente um deslize ter lido fotonovela ou Bianca, uma vez que esse tipo de leitura não seria digno de figurar entre as grandes leituras de formação de um grande leitor, de uma grande leitora. Não se imagina que um leitor erudito possa ter se formado também, lendo romances como Bianca ou fotonovelas, porque são produtos muito ‘consumidos’, para as massas. E aquilo que se consome muito se desgastaria, perderia seu valor de distinção. O ‘chique’ mesmo seria possuir aquilo que é raro, para poucos, de difícil acesso.25
No caso das mulheres que precisassem escapar da dominação masculina, a situação seria ainda pior. Como grandes leitoras, elas precisariam ler também textos que as fizessem se libertar da condição de “ser mulherzinha”. Logo, fotonovelas ou romances de amor como
Bianca, Júlia e Sabrina não ajudariam na formação de mulheres autônomas e independentes
(dos homens). Essas seriam leituras proibidas, perniciosas para a formação dessas mulheres. Mas será que podemos fazer uma relação tão direta entre textos e sujeitos leitores? Os textos seriam bons em si mesmos? Ou os impactos da leitura estariam no ato de ler? O que importaria mesmo não seria o que as pessoas fazem com aquilo que leem, como já mostraram estudos realizados no campo da História Cultural? O que seria relevante não seriam os usos que os sujeitos fazem do escrito, os objetivos que os levam a ler, as suas práticas de leitura?
Apesar do uso corrente da palavra “popular”, empregada geralmente para (des)classificar determinados sujeitos e para julgar (negativamente) a qualidade de suas práticas, tendo como padrão de referência a cultura legítima, ao recorrer à noção de apropriação, passamos a ver o ‘consumo’ cultural (do “povo” também) como outra produção.
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A esse respeito, ver Bourdieu (2008). Para uma crítica parcial da teoria da legitimidade cultural, consultar Lahire (2006, 2004). No trabalho, o autor se apoia na teoria da legitimidade cultural a fim de prolongá-la e reformulá-la. Para realizar tal empreendimento, Lahire voltou-se para as preferências e os gostos culturais de indivíduos. O sociólogo investigou seu objeto de estudo, analisando cada indivíduo nas suas relações sociais, nos contextos múltiplos em que as suas socializações e práticas culturais ocorriam.
38 Nesse caso, a leitura de um texto, por exemplo, de uma fotonovela, pode escapar da passividade que geralmente lhe é atribuída, quando se caracteriza esse tipo de leitura como “popular”. De acordo com Chartier (1988), ler é uma atitude intelectual que permite o desvio, a desconfiança, a resistência. Ela não submete, pois, o leitor “à toda-poderosa mensagem ideológica e/ou estética que supostamente o deve modelar” (p.59). Dessa forma, podemos repensar “a relação entre um público designado popular e os produtos historicamente diversos (livros e imagens, sermões e discursos, canções, fotonovelas ou emissões de televisão) propostos para o seu consumo” (p.60).
Muito provavelmente, as fotonovelas influenciaram a formação de muitos leitores, na sua construção do gosto pela leitura, até mesmo literária,26 e, por isso, merecem a nossa atenção, especialmente no que diz respeito à relação leitor-texto. Sabemos que à medida que as novelas de televisão e outras manifestações da ‘cultura de massa’ foram aparecendo e ganhando força, a demanda pelas fotonovelas passou a ser menor. Desse modo, também os trabalhos, que já não eram muitos, sobre esse gênero textual, pelos motivos apresentados, conforme Sampaio (2008), rarearam. Os pesquisadores passaram a se voltar para outros artefatos culturais que ganhavam, a partir dos anos 1980, mais “ibope” por parte do público, “da massa”. Entretanto, não podemos nos esquecer de que muitos foram leitores de fotonovelas durante a juventude, nem das questões que ainda cercam seus leitores e as revistas nas quais o gênero era publicado. Logo, pesquisas, como a que nós propomos, são necessárias, visto que buscamos saber quem eram as leitoras e os leitores de Grande Hotel, que tipo de impresso era esse, bem como compreender de que maneira os leitores de fotonovelas se apropriavam desse gênero textual também. Para Joanilho e Joanilho (2008, p.547), “a compreensão da fotonovela deve fugir das simplificações que a rejeitam por ser indigna da análise historiográfica. Nela vamos encontrar práticas culturais que podem muito bem nos explicar formas de organização social e modos de agir no cotidiano”.
26 Sobre a discussão que envolve as preferências de leitura, especialmente dos neoleitores, ver Magda Soares
(2007). Mais especificamente, a respeito das relações entre iniciação literária e fotonovela, ver: Herminia Días, Berta Molina e Mabel Rosetti (1975).
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