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Em sua Teoria Crítica do Imaginário, Bachelard declara a incompatibilidade entre percepção e imaginação. Desse conflito originam-se os conceitos de

imaginação formal, imaginação material e imaginação dinâmica, desenvolvidos

por ele, importantes para compreendermos a produção das imagens literárias animadas por uma matéria (e, em nosso caso, como desafio para a leitura do trabalho com a imaginação na cena dramática).

À imaginação formal correspondem as imagens percebidas, atreladas à percepção e à memória. São imagens estáveis que, fundamentadas na

contemplação superficial da matéria, nada de novo lhes acrescenta. Assim como os conceitos, esse tipo de imaginação tende ao desgaste fácil pela ação do tempo e

pela transformação do mundo em objeto de visão, de representação, no qual o homem, como espectador passivo, deve admirar.

A sistematização do axioma dialético como etapa metodológica a ser percorrida pelos artistas do TRB no trabalho com a imaginação durante a artesania da cena Esconde-esconde guardaria alguma relação com esse tipo de imaginação que propõe Bachelard? Como isso poderia ocorrer?

Distinta da imaginação formal, a imaginação material não se limita ao que é apresentado pelo real – ela é originada e mobilizada pela provocação do objeto ou do elemento; estabelece uma íntima e dinâmica relação com a matéria situada em um universo concreto, gerando sempre novas imagens. Aqui o mundo é recriado pelo homem, que concebe o real como provocação, como matéria sobre a qual a imaginação deve agir. Não se contenta em ver, mas em criar. Esse tipo de

imaginação se modifica na medida do seu movimento constante.

Um questionamento: essa produção de imagens novas, propiciadas pela imaginação material da qual nos fala Bachelard, forneceria elementos de análise para uma equivalência no TRB ao mecanismo da transubstanciação de significados, que permite ao artista criar interações transformadoras com o objeto em cena?

Bachelard insiste em afirmar que a imaginação, sendo independente, não se reduz à matéria, transcende-a. O homem é o sujeito provocador dessa metamorfose, unindo uma atividade sonhadora a uma atividade ideativa para produzir obras. É essa provocação que pode transmitir à imaginação formal a densidade da matéria. Ou, como poetiza o filósofo, que pode obrigar uma planta selvagem a florescer e dar matéria a uma flor.

Para exemplificarmos como Bachelard constata a imaginação material em uma obra poética, mostraremos, a seguir, um trecho do estudo da obra de Michelet, intitulada La Mer, na qual o filósofo aponta a imagem do leite comandando todas as outras imagens:

Enfim, a melhor prova de que a imagem “nutritiva” comanda todas as outras imagens é que Michelet não hesita no plano cósmico, em passar do leite ao seio: “Com suas carícias assíduas, arredondando a margem [o mar], deu-lhe seus contornos maternais, e eu ia dizer a ternura visível do seio da mulher, o que o filho acha tão suave, abrigo, tepidez e repouso.” No fundo [...] diante de que cabo arredondado teria Michelet visto a imagem de um seio de mulher se primeiro não tivesse sido conquistado, retomado por uma força da imaginação material, pelo poder da imagem substancial do leite? (BACHELARD, 1997, p. 123-4).

Com a criação dos conceitos distintos de imaginação formal e de

imaginação material, Bachelard propõe estudar os problemas da imaginação

poética instalando o primado da beleza material sobre a beleza formal9. A obra de arte, nesse entendimento, passa a ser a explicitação de uma matéria (fogo, água, ar e terra) pertencente ao tempo e ao espaço, juntamente com o compromisso do escritor com a mesma. Dentro dessa abordagem objetiva da imagem, é a matéria que comanda a forma.

Nesse momento da Crítica do Imaginário, poemas e contos de escritores como Edgar Allan Poe, Charles Baudelaire, Alexandre Dumas, entre outros,

compõem o universo em que o autor realiza essa análise com a finalidade de

9 O pressuposto teórico no qual Gaston Bachelard se ancorou para constituir esse primado da

imaginação material sobre a imaginação formal foi desenvolvido a partir de uma interpretação do filósofo pré-socrático e poeta Empédocles de Agrigento, que desenvolveu [...] uma interpretação do universo em que todos os fenômenos da natureza eram entendidos como resultado da mistura de quatro elementos ou ‘princípios’: água, fogo, ar e terra (ENCICLOPÉDIA BARSA, 1987, p. 487).

mostrar que, mesmo se tratando de imagens poéticas carregadas de sonhos e emoção, é possível analisá-las objetivamente.

Em A água e os sonhos, o autor afirma que uma doutrina filosófica da imaginação seria possível apenas através do estudo das relações entre a causalidade formal (conceitos, memórias) e a causalidade material (sonhos e devaneios), sendo essa originada de imagens em movimento. A variabilidade da imaginação passa, então, a ser apreendida por meio da lei dos quatro elementos. Segundo Bachelard (1997, p. 3-4),

Com efeito, acreditamos possível estabelecer, no reino da imaginação, uma lei dos quatro elementos, que classifica as diversas imaginações materiais conforme elas se associem ao fogo, ao ar, à água ou à terra. E, se é verdade, como

acreditamos, que toda poética deve receber componentes – por fracos que sejam – de essência material, é ainda essa classificação pelos elementos da matéria fundamentais que deve aliar mais fortemente as almas poéticas. (grifo do autor)

Assim, é o elemento material que dá substância a uma imagem, ou seja, ela é originada na dimensão onírica do poeta ou do artista e potencializada por um elemento que lhe dá representações polissêmicas. À matéria cabe a definição da forma. A rigor, a imagem resultaria do modo como a imaginação combinaria os elementos, realizando-se por meio desses. Pelo que vimos, parece-nos estranho, na vertente poética, a associação da imaginação a uma lei que determina, por meio dos quatro elementos da matéria, um que prevaleça para determinar a forma das

imagens, uma vez que, na vertente epistemológica, a razão deve ser instigada pela imaginação. Porém, é o próprio autor que elucida o nosso estranhamento ao

enfatizar o caráter de dinamicidade das imagens poéticas. Na lei dos quatro

das formas resultantes, prenhes de novidades, e não como determinação dessas formas. A limitação da imaginação aos ditames da intencionalidade formal

(reprodução do real), além de minimizar a dimensão criadora da imaginação material, negligencia a função de novidade da imaginação dinâmica sobre aquelas duas.

Originadas da relação entre as experiências de vida e as experiências de sonhos e de devaneios, as imagens repousam em um tipo de elemento que insinua ambivalências. A imaginação é o próprio centro de onde partem as duas direções de toda ambivalência (BACHELARD, 2001b). É certo que tais imagens resultam de sublimação, mas, depois de criadas, libertam-se de causalidades adquirindo significados múltiplos e novos. Nesse caso, por exemplo, a água clara pode estar associada à pureza e à calma do mesmo modo que a água escura pode estar

relacionada às manifestações violentas. Em sua condição de matéria original, a água pode ser vivida duplamente pela imaginação, originando uma ambivalência.

Uma matéria que não é ocasião de ambivalência psicológica não pode encontrar o seu duplo poético que permite

transposições sem fim. Por conseguinte, é necessário haver dupla participação – participação do desejo e do medo,

participação do bem e do mal, participação tranqüila do branco e do preto – para que o elemento material envolva a alma inteira. (BACHELARD, 1997, p.13 - grifos do autor)

É o elemento material que dá substância a uma imagem originada na

dimensão onírica do poeta ou do artista. Ao dotar essas imagens de ambivalências, tais elementos nutrem essas imagens de polissemias, com sentidos multifacetados, condutores de dinamicidade. A imaginação dinâmica, que se acrescenta às

imaginações formal e material, sublima e transcende essa última no sentido de tê-la como um motivo causador da imaginação e não como uma determinação daquilo que é imaginado.

Há na imaginação dinâmica uma associação entre a imaginação e a vontade do homem, que age no mundo para transformá-lo. Assim, em suas atividades criadoras, aspectos como ambivalência, mobilidade e transcendência, integrantes da relação complementar entre imaginação material e imaginação dinâmica, o conduzem a uma viagem imaginária geradora de outras imagens que rompem com a racionalidade e a fixidez.

Em conexão com a imaginação material e agindo sobre ela, a imaginação dinâmica é presentificada à medida do investimento do homem em uma atuação ofensiva contra a resistência da matéria pela via do trabalho, como fonte de criação. Essa conexão deixa clara a oposição que essas modalidades de imaginação

realizam ao pensamento da tradição filosófica, que concebe o conhecimento como extensão da visão e da percepção, própria à concepção formalista da imaginação.

A imaginação dinâmica envolve, portanto, o trabalho e a vontade do homem para a mobilização e a transformação contínua das imagens, dando novas formas ao mundo. A imaginação educa-se pela ação sobre a matéria criando novas imagens. Contudo, tais imagens não derivam da matéria que, funciona apenas como meio de presentificação da imaginação. A imagem resultante desse processo não se

configura pela substância, mas pela dinamicidade com que é criada. Desse modo, a imaginação dinâmica propicia a criação de imagens em movimento. A supremacia da dinamicidade da imaginação anula a mínima possibilidade dos quatro elementos possuírem algum grau de determinação ou de causalidade na formação das

imagens. O movimento das imagens não depende de causalidades que possam sugestioná-las (PAIVA,1997, p. 98).

Na obra O ar e os sonhos, Bachelard elegeu as imagens dinâmicas provocadas por esse elemento (o ar) para evidenciar a independência da imaginação diante de sua motivação. Através das obras de autores com estilos diferenciados como Shelley, Balzac e Rilke, o filósofo nos mostrou como as imagens aéreas produzidas nos escritos deles nos remetem à força dos ventos, à

metamorfose das nuvens, indo além do elemento ar que representam. Segundo Bachelard (2001a, p. 39):

Shelley, sem dúvida, amou a natureza inteira, cantou, melhor que ninguém, o rio e o mar. [...]. Entretanto, o elemento aéreo nos parece sua marca mais profunda, e, se tivermos de usar apenas um adjetivo para definir uma poesia, facilmente se concordará que a poesia de Shelley é aérea. (Grifos do autor).

Para o pensador francês, na relação homem-mundo é o homem que, se sentindo provocado, atua sobre o mundo, com inteligência e vontade. Portanto, o estudo bachelardiano da imagem baseia-se na força, na matéria e no movimento criador dessa resultante da imaginação, como conseqüência de uma

intencionalidade formal, material e dinâmica.