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Ao referir-se à investigação científica, Gaston Bachelard defende que, nesse campo, é preciso erradicar a presença excessiva da subjetividade. Para essa

reflexão, ele se apropria de alguns conceitos da Psicanálise Clássica para

psicanalisar o conhecimento objetivo, explicitando o assédio do inconsciente e suas produções (emoção, fantasia, devaneio), cujas manifestações, na construção desse saber, o tornam estagnado.

Nesse caso, o exercício da psicanálise do conhecimento objetivo pretendeu manter o pensamento vigilante em relação à sedução das imagens inconscientes na produção do conhecimento científico. Contudo, em seguida, ele admitiu que a

completude absoluta da objetividade fosse utópica e que, mesmo em seu processo de elucidação do real, há sempre a presença das forças oníricas.

Os eixos da poesia e da ciência são a princípio inversos. Tudo que a filosofia pode esperar é tornar a poesia e a ciência complementares, uni-las como dois contrários bem feitos. É preciso, portanto, opor ao espírito poético expansivo o espírito científico taciturno, para o qual a antipatia prévia é uma

saudável precaução. (BACHELARD, 1999, p. 2)

Não se contendo pela satisfação apenas racional do conhecimento de um texto literário, Bachelard interessou-se por investigá-lo em um nível mais amplo e profundo. Assim, declarou sua busca pela compreensão do homem e do mundo por

meio da linguagem poética, discutindo as imagens fantásticas originárias, inicialmente, do elemento fogo.

O estudo da metamorfose das formas poéticas expresso de forma estética e imaginária representa, para Bachelard, a tentativa de realizar uma analogia entre o conhecimento por imagens e o conhecimento científico. Segundo ele, há na procura da verdade com o conhecimento por imagens uma emoção espiritual análoga ao prazer e à emoção que encontra nessa procura com o conhecimento científico, conduzindo-o à tentativa de superação dos obstáculos epistemológicos entre arte e ciência.

Para esse intento, Bachelard lançou, em sua obra intitulada Psicanálise do Fogo (1949), as bases do método que o norteou nesse momento, ao qual denomina

Psicanálise do Conhecimento Objetivo (Bachelard, 1999, p.6): o conhecimento,

para ser verdadeiro e científico, passa também pelas experiências íntimas, não se afasta do objeto. Imaginação e razão são vistas como formas de apreensão e recriação do mundo. Preocupando-se com as sucessões do desenvolvimento

imaginativo em um mundo instaurado pelas imagens dos textos literários, ele afirma:

Talvez se possa perceber aqui um exemplo do método que pretendemos seguir para uma psicanálise do conhecimento objetivo. Trata-se, com efeito, de

encontrar a ação dos valores inconscientes na própria base do conhecimento empírico e científico. Cumpre-nos, pois, mostrar a luz recíproca que vai constantemente dos conhecimentos objetivos e sociais aos conhecimentos

subjetivos e pessoais, e vice-versa. Cumpre mostrar, na experiência científica, os vestígios da experiência infantil. (BACHELARD, 1999, p.15)

É como se poetas distintos que se identificassem com um mesmo elemento estabelecessem diálogos, independentes de suas diferenças de estilo. Essa

vinculação dos autores a um elemento comum é o que demonstra um estudo objetivo das imagens, nesse momento da Crítica do Imaginário.

Embora retomando, na Psicanálise do Conhecimento Objetivo, alguns conceitos de Freud, como os de sublimação e símbolo (imagem), Bachelard os utilizou assumindo uma nova postura. Considerou seu método uma psicanálise prospectiva devido à relação que estabelece entre arte e ciência, segundo uma visão de futuro e de criatividade (CASTRO, 2000).

Desse entendimento temos que a produção imaginária resultante de cada um desses campos do saber, não é definitiva. Ao contrário, a imagem é um meio autônomo de atingir o inconsciente através das forças psíquicas do desejo e da imaginação, em sua trajetória dinâmica e multifacetada. Nesse sentido, a análise bachelardiana diverge da Psicanálise Clássica pelo fato dessa associar à imagem, um estado de fixidez.

Um símbolo psicanalítico, por mais proteiforme que seja, é, contudo, um centro fixo, propende para o conceito; em suma, é com suficiente precisão um conceito sexual. [...]. De qualquer maneira, para o psicanalista, o símbolo tem o valor de

significado psicológico. A imagem é diferente. A imagem tem uma função mais ativa. Por certo tem um sentido na vida inconsciente, por certo designa instintos profundos. Mas, além disso, vive uma necessidade positiva de imaginar.

(BACHELARD, 2001b, p.62; grifos do autor).

Segundo o filósofo, na psicanálise freudiana o objeto é tomado como experiência do passado que, como causa, incide objetivamente sobre o sujeito no presente. A linguagem simbólica é o elemento que Freud utiliza para expressar o universo do inconsciente, transformando o símbolo psicanalítico em conceito sexual.

Convém esclarecermos, no entanto, que a sexualidade de que trata Freud não se confunde com o genital, é mais ampla e inclui as preliminares do ato sexual, as perversões, as experiências sensuais das crianças vividas em relação ao seu próprio corpo ou em contato com o corpo da mãe (KUPFER, 1995, p. 39).

Em Freud, o conceito de sublimação consiste em um caminho específico da pulsão que, por sua vez, é [...] um estímulo mental constante, com renovável poder de pressão, que visa a satisfação (CRUXÊN, 2004, p. 8). Embora a fonte da pulsão seja somática (surge em uma região do corpo) ela é, sobretudo, psíquica, pois apresenta-se ao indivíduo através de imagens (representantes das pulsões) que o informam do que se passa em seu corpo (KUPFER, 1995).

Quando uma pulsão fica presa a um objetivo sexual primário (perversões parciais infantis como o prazer da sucção – oral, o prazer da defecação – anal, o prazer do olhar – escópica, entre outras) pode ter um destino perverso,

transformando-se, mais tarde, em perversão adulta, como, por exemplo, o

voyeurismo. Para superá-la é necessário que o indivíduo transponha a vergonha e a repugnância ligadas ao recalque.

Ao aplicar o método psicanalítico na atividade do conhecimento objetivo, Bachelard conclui, de maneira positiva, que o recalque é uma atividade normal, útil e alegre, imprescindível ao pensamento científico, mesmo quando o erro acontece:

O recalque está na origem do pensamento [...] abstrato. Todo pensamento coerente é construído sobre um sistema de inibições sólidas e claras. Há uma alegria da rigidez no fundo da alegria da cultura. O recalque bem conduzido é dinâmico e útil na medida em que é alegre. Para justificar o recalque, propomos a inversão do útil e do agradável, insistindo na supremacia do agradável sobre o necessário. Em nossa

recalcadas, mas em substituir o recalque inconsciente por um recalque consciente, por uma vontade constante de

endireitamento. Essa transformação é bem visível na retificação de um erro objetivo ou racional. (BACHELARD, 1999, p.146-147)

Em seguida, na análise freudiana, se a pulsão se direciona para um alvo não propriamente sexual ela é dita sublimada. Nesse sentido o termo sublimação está ligado à transformação, ao desenvolvimento de fantasias que protegem o indivíduo de suas angústias. Vejamos o que registra Kupfer (1995, p. 42) em sua análise sobre o conceito de sublimação, de Sigmund Freud:

De modo aproximado, Freud menciona em alguns textos a seguinte idéia: a uma espécie de excesso libidinal, algo como uma reserva, que não é usado para fins diretamente sexuais e deve ser, então, de alguma maneira reaproveitado. Haveria, por isso, a possibilidade de uma certa reciclagem dessa energia, através da “dessexualização” do objeto e da inibição de seu fim sexual. Com isso, se torna possível que o indivíduo se volte para atividades “espiritualmente elevadas”, segundo a expressão usada por Freud. São elas a produção científica, artística, e todas aquelas que promovem um aumento do bem estar e da qualidade de vida dos homens.

Ao apropriar-se desse conceito freudiano, Bachelard o compreende de modo diferenciado. As imagens resultam em um processo no qual as pulsões

inconscientes dos poetas, quando sublimadas (sublimação poética), transformam- se em imagens objetivas, ou melhor, transmudam-se em poemas advindos de suas atividades psíquicas. É certo que tais imagens resultam de sublimação, mas, depois de criadas, libertam-se de causalidades, adquirindo significados múltiplos e novos.

Assim, com a Psicanálise do Conhecimento Objetivo, Bachelard recusa-se a lançar sobre o homem um olhar determinístico da volta ao passado que origina desvios ou doenças. Ao contrário, o homem é um ser capaz de integrar-se à cultura do seu tempo presente, pensando o futuro nesse contexto. Assim, Bachelard

considera prospectiva a sua psicanálise em relação à psicanálise clássica, pois muda o enfoque metodológico ao caracterizá-la como confiante no futuro e na força da imaginação.