Uma vitrine tornou-se uma sepultura, por ocasião da remoção dos objetos etnográficos de um prédio para o outro, realizada no ano de 2009. Durante a desmontagem da exposição permanente, que seguia os ditames da museologia tradicional, foram localizados três crânios humanos e ossos pequenos enfeitados com plumas e penas de arara.
Figura 64. Crânio Bororo.
Museu das Culturas Dom Bosco-MCDB (UCDB). Disponível em LONKHUIJZEN.
ttps://www.facebook.com/photo.php?fbid=1770213713492&set=a.1770211233430.69966.1783732116&t ype=3&theater
Sobre a procedência dos ossos humanos e do material funerário, Albisetti & Ventureli catalogaram na Enciclopédia Bororo, 1962 (p.163 a 168): a cesta funerária ou a cesta do cadáver (Aróe j’áro) sob o nº MRDB B53 1583; e, registraram como se encontravam a época, os objetos e ossos contidos em cada repartição. Os ossos humanos do acervo Bororo, pertencentes ao Museu Regional Dom Bosco-MRDB, atual Museu das Culturas Dom Bosco –UCDB. Nas páginas 537-541, do mesmo volume, há fotografias e informações sobre a procedência dos ossos e dos objetos: “... dois crânios, restos de cesta funerária encontrados numa gruta do morro Cibáe E-iári, conservados no MRDB”.
O referido morro, chamado de Toca das Araracangas (Cibáe E-iári) se localiza entre os rios Itiquira e Correntes, nas proximidades do município de Coxim (atual divisa
entre os estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul) e foi objeto de uma expedição em 1960, do MRDB que registrou:
Desse achado conclui-se o seguinte: a. a gruta tinha sido violada e parte dos ossos retirados; b. o material arqueológico não deixa dúvidas sobre sua procedência Bororo; c. os Bororo, pelo menos a150 ou 200 anos habitavam a 100 Km ao norte da atual cidade de Coxim; d. circunstâncias especiais os obrigara a mudar radicalmente seu sistema de inumação definitiva dos ossos; talvez o mêdo que continuassem as profanações de seus sepulcros por parte dos civilizados ávidos de adornos de ouro que os índios colocavam nas cestas funerárias. (ALBISETTI & VENTURELI, 1962, p.541)
Em sinal de respeito aos antepassados e aos índios Bororo do presente, a diretoria do Museu, convidou os indígenas de Meruri para manipulá-los, na ocasião da mudança de uma edificação para outra:
Para a retirada dos ossos que se encontravam em exposição vieram ao Museu alguns rapazes Bororo e, como manda a tradição, prepararam- se para a manipulação dos ossos, usando em seus corpos sumo de folhas de um vegetal próprio da região do cerrado, denominado por eles de “algodãozinho”.
Cantaram diante da vitrine aberta, retiraram e transportaram, gradativamente, os ossos em vários baku (bandejas tecidas com folhas de buriti ) depositando-os na mesa de restauro. Ali, eles mesmos com a ajuda da conservadora do museu, começaram o trabalho de higienização e reconhecimento clânico dos ossos. Agostinho Eibajiwu, que já havia feito um curso de conservação preventiva e restauro oferecido pelo museu anteriormente, usava as técnicas assimiladas, aspirando delicadamente as partículas de poeira dos crânios protegidos com um pedaço de filó. O silêncio e os olhares de compaixão diante dos ossos/almas formavam uma atmosfera de emoção e respeito, como em seus funerais.
Quando terminaram, os objetos foram acondicionados em pequenas caixas individuais de etafoan e colocados em uma grande caixa de madeira, onde permaneceram até o dia em que foram transportados para as novas instalações do Museu das Culturas Dom Bosco. (CARVALHO, A. & SILVA, D. Museu das Culturas Dom Bosco: o
caminho das almas. Disponível em
http://mcdb.web283.uni5.net//arqs/materia/96_a.pdf. Acesso em 12 mar. 2013).
Os rapazes que participaram da primeira etapa dos trabalhos consultaram os mais velhos sobre o destino dos ossos, pois, conforme indicação da diretoria do museu, esses poderiam ser devolvidos a aldeia para o enterramento usual. Contudo, os chefes cerimoniais optaram por manter os restos mortais no Museu das Culturas Dom Bosco- MCDB (UCDB), e para tanto, fizeram o ritual funerário (Figura 65).
De volta à aldeia, discutiram com os chefes cerimoniais o que fazer na segunda etapa do trabalho: a trasladação da caixa fúnebre e colocação dos ossos na vitrine definitiva, já que haviam concluído que um dos crânios (onde ainda se podia identificar as insígnias clânicas por meio das cores das penas de arara) era do clã dos Paiwoe e, portanto, as ações rituais deveriam obedecer às regras deste clã. Marcada a inauguração do Museu para 30 de novembro de 2006 e estando os Bororo convidados para uma apresentação cultural durante a cerimônia, decidiram fazer o ritual de trasladação dos ossos na mesma ocasião.
Chegaram com dois dias de antecedência e a primeira providência dos chefes cerimoniais foi conhecer o material que seria transportado. A caixa foi aberta e eles examinaram cada crânio, cada ossinho, conversaram entre si na própria língua e decidiram transportar a caixa até a Reserva Técnica.
Ali, os chefes cerimoniais, longe das vistas das mulheres, pediram três Bakudoge, bandejas tecidas com folhas de buriti, e colocaram apenas os crânios sobre elas. Conversaram e decidiram cobri-las com outros três baku-doge. Em cortejo conduziram as bandejas com os crânios encobertos até o saguão de entrada do museu onde lhes esperavam as mulheres. Colocaram as bandejas no centro e fizeram uma grande roda de homens. (CARVALHO, A & SILVA, D. Idem, ibidem.)
Figura 65. Funeral no Museu das Culturas Dom Bosco – MCDB (UCDB) 2009. Disponível em http://mcdb.web283.uni5.net//arqs/materia/96_a.pdf. Acesso em 12 mar. 2013).
Na oportunidade um dos crânios humano foi identificado como do clã dos Paiwoe, da metade Tugarége, devido aos resíduos dos enfeites plumários, portanto, o funeral seguiu a tradição deste clã. Os homens usaram seus diademas clânicos (pariko), tocaram os instrumentos músicais, cantaram e dançaram.
Cada qual com seus bapo-doge, chocalhos grandes, iniciaram o canto
Cibae Etawadu com a participação das mulheres e dançaram em círculo durante mais de uma hora. Neste momento solene do ritual os instrumentos soam acompanhando o canto como percussão. A emissão dos sons não se limita a representar os mortos, é o próprio morto. O bapo é uma espécie de ponte entre os mundos Bororo, parte vital do aroe ekeroia: ao movimentar-se faz pulsar vivos e mortos, ao rodar, impregna de vida os objetos, animais, seres humanos, espíritos. Os bapo não são objetos, são sujeitos. (CARVALHO, A & SILVA, D.
Idem).
Na sequência, enrolaram os ossos nas esteiras e fizeram o segundo enterramento dos restos mortais dos antepassados, em uma das vitrines mais profundas (segundo piso) do chão do Museu.
Depois cuidadosamente, em cortejo (desta vez com a participação das mulheres) conduziram os crânios para o pavilhão expositivo, entrando na área representativa de suas aldeias. Ali, os colocaram ao lado da vitrine construída no pavimento e iniciaram novamente o mesmo canto. A vitrine foi aberta por um técnico do museu e, ao silenciar do canto, os Bororo depositaram os crânios no lugar previamente preparado. Antes do fechamento da vitrine, um dos chefes cerimoniais ajoelhou-se no chão para alcançar o fundo da vitrine e, colocando suas mãos sob cada um deles, despediu-se em silêncio.
Depois de fechada a vitrine, alguns Bororo comentaram que o museu, ao tentar retratar o caminho das almas, linha imaginária que corta a aldeia, dividindo-a em duas metades, acabou retratando o céu Bororo. As cores dos pariko, enfileirados do Oeste para o Leste os fizeram lembrar o mito que descreve as aldeias habitadas pelos aroe-doge, um lugar de extrema beleza, porque todo construído com penas das araras.
(Idem, Ibidem.)
Durante o cerimonial, dançaram e colocaram os ossos na cesta apropriada e só então, fecharam a vitrine (do piso) que simboliza “o caminho das almas” (Figura 66). Esta vitrine se reporta ao “desenho” da aldeia: na nascente do sol, estão os objetos correlatos ao nascimento; mais ou menos ao meio, estão os usados nos funerais e, ao poente, se encontram os objetos alusivos à retirada do luto, oportunizada pela troca (mori) entre os vivos e os mortos, momento em que a natureza leva o ente querido e o Bororo tira-lhe o animal mais feroz.
Figura 66. Expositor da etnia Bororo: Caminho das Almas. Museu das Culturas Dom Bosco – MCDB (UCDB). Disponível em
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Os objetos sagrados estão na parte inferior (no andar de baixo) da vitrine. Foram listadas seis bandejas tecidas com folhas de buriti (bakudoge), chocalhos grandes (bapo- doge), diademas clânicos (pariko) e três crânios humanos, sendo um deles identificado como do clã dos Paiwoe, além de ossos diversos.
Ao final da vitrine do centro da exposição Bororo (parte superior da fotografia), localizada no piso e em prateleira sob aquela que acondiciona os diademas (pariko) que estão a mostra na fotografia, foi colocada a cesta funerária ou a cesta do cadáver (Aróe j’áro) e demais objetos alusivos ao ritual funerário concluído. Observa-se também nesta fotografia (em último plano) uma parede de cimento, com um corte encimado por um círculo, que representa, na expografia, a continuidade do caminho das almas. Este cuidado, esta em consonância com o Código de Ética para Museus, que normatiza as exposições etnográficas.
Interpretação dos elementos expostos
Os museus devem garantir que as informações que apresentam em suas mostras e exposições estejam bem fundamentadas, sejam precisas e levem em consideração os grupos ou crenças nelas representados.
Exposição de objetos “sensíveis” e/ou que podem ferir sensibilidades - Os restos humanos e os objetos considerados sagrados devem ser expostos de acordo com normas profissionais, levando em consideração, quando conhecidos, os interesses e as crenças dos membros da comunidade, dos grupos religiosos ou étnicos de origem. Devem ser apresentados com cuidado e respeito à dignidade humana de todos os povos. (ICOM - International Council of Museums. Código dde Ética para Museus. Disponível em http://icom.org.br/wp- content/themes/colorwaytheme/pdfs/codigo%20de%20etica/codigo_d e_etica_lusofono_iii_2009.pdf. Acesso em 05 jun. 2013)
Ressalta-se que as responsáveis pelo “novo museu”, portanto contratadas pela Missão Salesiana e que assinaram o artigo mencionado, Carvalho, A. & Silva, D. consideraram a experiência do funeral no museu como
“... válida para os Bororo que no momento procuram revitalizar suas tradições e afirmar sua identidade cultural, válida para muitos aspectos discutidos pela Antropologia da atualidade, segundo estudiosos presentes, como a Profa. Dra. Renate Viertler; válida também para a Antropologia Museal que se torna infinitamente mais humana...”. (CARVALHO, A. & SILVA, D. Museu das Culturas Dom Bosco: o caminho das almas. Disponível em
http://mcdb.web283.uni5.net//arqs/materia/96_a.pdf. Acesso em 12 mar. 2013).
Todavia, em se observando as fotografias, contata-se que os homens e mulheres que participaram do ritual funerário não pintaram o rosto com as insígnias clânicas e
nem o corpo com urucum e, conforme citado, usaram no corpo o sumo de folhas de “algodãozinho” e os diademas (pariko).
Tem-se, então, um fato interessante a se discutir, a falta da pintura corporal, que pode ser considerada sob diferentes variáveis:
a) Não havia na cidade o material necessário para a pintura corporal;
b) Os Bororo que foram para o funeral no Museu não levaram da aldeia o material necessário, porque não havia na aldeia, esqueceram, acharam desnecessário, não usam mais na aldeia ou não participam dos ritos do funeral tradicional e desconhecem algumas dessas práticas;
c) Fizeram apenas uma representação do funeral no Museu; d) Não fizeram a pintura corporal por outros motivos...
e) Usaram só os objetos do acervo do Museu, tais como os diademas (pariko), as cestas, as esteiras, etc...
Então, se indaga se os Bororo de Meruri, que estiveram no funeral, acham de fato importante ou necessário o fortalecimento da Cultura Bororo na aldeia de Meruri e por que? Ou se a idéia “...do fortalecimento da cultura e da identidade Bororo” é um dos tópicos do discurso que integra a Política da Missão Salesiana na contemporaneidade, assim como a reestruturação do Museu Regional Dom Bosco e sua mudança para Museu da Culturas Dom Bosco?
São temáticas que ficarão em aberto, para que outros pesquisadores adentrem e desenvolvam tal discussão, já que esse não é o propósito desta tese.