A Diferenciação Pedagógica (DP) é uma estratégia que deve estar sempre presente na prática de qualquer docente, contudo, diversas vezes ocorrem dúvidas acerca do que realmente significa diferenciar pedagogicamente em contexto de sala de aula.
Existem diversas definições acerca deste conceito e por isso interessa compreender o que se define como diferenciação pedagógica para então poder realizá-la de forma consciente. Sendo assim, Grave-Resendes e Soares (2002), definem a DP como “a identificação e a resposta a uma variedade de capacidades de uma turma, de forma que os alunos, numa determinada aula não necessitem de estudar as mesmas coisas ao mesmo ritmo e sempre da mesma forma” (p. 28), ou seja, numa sala encontramos vários indivíduos, com especificidades únicas, ritmos de aprendizagem e motivações diferentes e é aplicando a DP que se consegue maximizar as potencialidades de cada criança.
Seguindo esta linha de pensamento, para Tomlinson e Allan (2002), a DP é “uma forma de resposta proactiva do professor face às necessidades de cada aluno”, (p. 14), sendo que para Santos (2009), esta “constitui-se como uma resposta orientada pelo princípio do direito de todos à aprendizagem, essencial para dar resposta à heterogeneidade de alunos que frequentam a escola atual”, (p. 52).
Perrenoud (1995) vem nos alertar para o facto de que fazer a diferenciação dentro de uma sala de aula implica o rompimento da pedagogia magistral, que ainda prevalece
em muitas escolas, sendo esta uma maneira de colocar em ação uma organização de tarefas onde integra uma multiplicidade de dispositivos didáticos onde se colocam as crianças perante a situação que se torne mais favorável.
Deste modo, quando a DP é promovida dentro da sala de aula, é favorecida a aquisição de conhecimentos de uma forma mais eficaz por parte das crianças pois, quando se encontram envolvidas na sua aprendizagem, esta revela-se mais significativa (Tomlinson, 2008). Um docente ao realizar a DP na sua sala está a considerar as individualidades e potencialidades de cada criança, como também os seus interesses e necessidades, o que irá permitir que as mesmas aprendam “de acordo com as suas diferenças” (Grave-Resendes e Soares, 2002, p. 20).
Na perspetiva de Tomlinson e Allan (2002), o primordial objetivo de diferenciar a ação pedagógica deve ir ao encontro do crescimento e sucesso máximo individual, pois, diferenciar é uma maneira de pôr em causa todo o processo de ensino-aprendizagem. Contudo não é introduzindo uma estratégia ou um conjunto diversificado de estratégias e materiais didáticos que se faz a DP, mas sim “investir num processo de diferenciação pedagógica que implique transformações qualitativas nas escolas”; investir no que realmente interessa ensinar e, “perceber que a aprendizagem é algo que acontece dentro de nós e não algo que apenas vem do exterior”, (p. 29). Assim sendo, o docente ao criar um ambiente que seja propício e facilitador da aprendizagem, fará com que a criança se desenvolva tanto a nível cognitivo como social.
De acordo com Morgado (2003), no contexto da diferenciação pedagógica, este papel de docente enquanto facilitador do desenvolvimento de novas aprendizagens, implica que a organização curricular deve ser estruturada de um modo flexível e aberto, para que possa alcançar todas as crianças, independentemente das potencialidades e necessidades de cada uma. Corroborando este pensamento, Cadima (1997) destaca que o facto de haver uma grande variedade sociocultural “implica uma outra concepção de organização escolar que ultrapasse a via da universalidade e que reconheça o direito à diferença considerando, assim, a diversidade como um aspecto enriquecedor da própria comunidade” (p.13).
Para Benavente (1994) uma ferramenta essencial para uma diferenciação pedagógica de sucesso, é a diferenciação do ensino e adaptação de cada aprendizagem utilizando para o efeito “o contexto de cooperação educativa” (citado por Grave-Resendes & Soares, 2002, p.22), recorrendo ao trabalho em grupo, a pares, entre outros.
Para que possa ser promovida a DP dentro de uma sala é essencial agrupar um conjunto de condições e estratégias para que possa haver uma otimização das aprendizagens de cada criança. Assim, e no que diz respeito ao 1.º Ciclo do Ensino Básico, é preponderante que se organize o espaço consoante as necessidades do grupo. Algumas estratégias, tais como, adaptar o espaço para que se possa trabalhar em grupo, a pares e individual como também o ensino simultâneo, faz com que as crianças tenham uma participação mais ativa nas tarefas do dia-a-dia, fazendo com que alguma responsabilidade recaia sobre as crianças.
Segundo Gregório (1997), tarefas como: distribuição, arrumação e verificação do material; Limpeza do material; Arrumação das caixas dos ficheiros; Marcação das presenças e faltas; Registo diário do tempo; Atualização do calendário; Documentação; Biblioteca; Tratamento de plantas/ou animais etc. (adaptado de Gregório, 1997, p. 25), são importantes para a aquisição da autonomia por parte das crianças e uma forma de gerir o trabalho dentro de uma sala, pois e segundo o mesmo autor, “A partilha de tarefas é entendida como uma forma de autonomizar e de responsabilizar os alunos” (Gregório, 1997, p.26).
No que diz respeito à introdução de materiais diferenciados na sala devem ser acessíveis a todos e deve ser explicado para que fim é e como se trabalha com o mesmo (Gregório, 1997). Este autor refere alguns exemplos de materiais que podem ser introduzidos na sala, a ver, os ficheiros, sendo este um instrumento para o “treino dos conteúdos do programa das áreas da Língua, da Matemática e do Estudo do Meio” (Gregório, 1997, p.27).
Refere também que a autoavaliação revela-se importante pois, através desta, as crianças poderão observar os conteúdos que têm maior dificuldade e insistir nos mesmos. A biblioteca torna-se relevante pois, através desta, poderá treinar a leitura aperfeiçoando, deste modo, o português que é transversal a todas as outras áreas do saber. Seguindo ainda as ideias do autor supracitado, todas as crianças dentro de uma sala devem ser envolvidas nos problemas, dificuldades e progressos dos seus pares, de modo a que se promova uma atitude de entreajuda onde reine um ambiente securizante para todos.
Assim sendo, é importante que se aplique a DP, nos dias de hoje nas salas, sendo um processo onde é preciso haver um envolvimento de todos os intervenientes no processo ensino-aprendizagem de modo a que as crianças possam atingir as metas e objetivos estipulados (Morgado, 2003).
Segundo o mesmo autor, ao aplicar esta pedagogia, os docentes poderão aumentar a qualidade do seu ensino, sendo que ao diferenciar estratégias “demonstram expectativas positivas (...), promovem a autonomia (...), regulam o processo de ensino/aprendizagem (...), estabelecem climas positivos na sala de aula (...), organizam o trabalho de forma consistente (...), reforçam os sucessos e os esforços dos alunos (...), e estimulam os seus alunos para o trabalho cooperado” (Morgado, 2003, p. 72). Só assim, poder-se-á afirmar que a escola premeia a diferença, respeitando e incentivando cada criança na sua globalidade.