A relação do pesquisador diante do corpus é vista por Carmen Agustini e Ernesto Bertoldo (2011, p. 124) como uma relação não-neutra. Ao escolher determinados campos teóricos e analíticos para sua análise, isso já implicaria da parte do pesquisador um tipo de posicionamento e uma escolha do tipo de trabalho de interpretação a ser empreendido na investigação. Nesse trabalho do analista já se evidencia algo: a construção do corpus não é somente feita por um trabalho de escolha de recortes discursivos, de análise ou de descrição; há, antes, todo um movimento subjetivo de envolvimento do analista para com o corpus e, nisso, temos “uma relação de interdependência entre corpus, teoria e análise” (p. 125). É importante ressaltar que os pesquisadores consideram que há, nesse caso, a instauração de outro campo de enunciação a partir da interposição da subjetividade do pesquisador: i) a própria construção do corpus; ii) o trabalho de interpretação do analista; iii) a instauração do lugar da enunciação do analista com seu próprio ponto de vista; e, iv) a enunciação propriamente dita contida no corpus (p. 125). Inclusive, para ambos, a própria construção do corpus já se faz como uma transcrição: é “uma enunciação sobre a enunciação” (p. 125), como se referem.
O analista deve atentar, então, para a opacidade do discurso e a não-literalidade das palavras. Seguindo os pressupostos de Pêcheux em Semântica e discurso ([1975]/2009) e em A análise do discurso: três épocas ([1983]/2010), o analista deve verificar as condições de produção da materialidade linguístico-discursiva, bem como verificar a relação entre a ideologia, o histórico e o inconsciente com o dito, o não-dito e o já-lá presentes no discurso. Deve perceber o sentido e o não-sentido contidos nos dizeres e deve procurar estabelecer quais as representações ali presentes. O analista deve, sobretudo, procurar entender os aspectos históricos e ideológicos que permeiam o discurso analisado, criando gestos de interpretação. Nesta pesquisa de doutorado, portanto, atentei-me para o que Pêcheux ([1983]/2010, p. 313) em A análise de discurso: três épocas, declara: ali “nos pontos de deriva em que o sujeito passa no outro, onde o controle estratégico de seu discurso lhe escapa” é onde instalei meus gestos de escuta e de interpretação. Para empreender o trabalho analítico, a teoria foi acionada a partir da necessidade apresentada pelos recortes.
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A formação do corpus se fez pelos seguintes documentos: 01 (um) roteiro para a entrevista-piloto – (entrevista semiestruturada) (Anexo A); 01 (um) roteiro de informações sobre o perfil dos professores participantes do PIBID e 01 (um) questionário, ambos direcionados a esse grupo (Anexo B); 01 (um) roteiro de informações sobre o perfil dos pibidianos e 01 (um) questionário, ambos direcionados aos pibidianos (Anexo C); 01 (um) roteiro para a entrevista semiestruturada contendo perguntas recorrentes para a entrevista (Anexo D); 01 (um) termo de consentimento livre e esclarecido a ser assinado pelos participantes antes de proceder à entrevista (Anexo E)23; os documentos do PIBID que se tornaram a sua base de criação, de
estruturação e de regulamentação (Anexos F a Z8 e Anexos Z10 e Z11).
Alguns documentos serviram de base de apoio para a descrição da historicidade do PIBID, bem como para entender a sua dinâmica e objetivos: o Relatório da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e da Diretoria de Formação de Professores da Educação Básica (CAPES/DEB) (2013)24 (Anexo Z12),
coordenado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES); o Estudo avaliativo do PIBID (2014) (Anexo Z13). Os relatórios inicial e final do subprojeto da UFVJM (Anexos Z6 e Z7)25 serviram de base para a sua
descrição.
Formei, assim, o dispositivo analítico da investigação e defini a escolha dos recortes discursivos26 a serem analisados. Ao todo foram organizados 72 (setenta e dois)
23 Todos os Roteiros de informações sobre os participantes, os Termos de consentimento livre e
esclarecido assinados pelos participantes da pesquisa encontram-se nos Anexos, no final da tese e também foram escaneados e estão contidos no CD, na capa final da tese.
24 Os documentos oficiais do PIBID, a seguir, foram consultados e serviram de subsídio para o
entendimento de sua historicidade, fazendo parte do Quadro 4 (Partes A e B). Esses documentos constam no CD, no final da tese – Anexo F: Lei nº 10.172/2001; Anexo G: Lei nº 11.578/2007; Anexo H: Decreto nº 6.094/2007; Anexo I: Lei nº 11.502/2007; Anexo J: Portaria Normativa nº 38/2007; Anexo K: Edital MEC/CAPES/FNDE nº 01/2007; Anexo L: Decreto nº 6.755/2009; Anexo M: Portaria nº 122/2009; Anexo N: Edital CAPES/DEB nº 02/2009; Anexo O: Portaria nº 1.243/2009; Anexo P: Portaria nº 72/2010; Anexo Q: Edital CAPES nº 18/2010; Anexo R: Portaria nº 136/2010; Anexo S: Portaria nº 97/2010; Anexo T: Decreto nº 7.219/2010; Anexo U: Edital conjunto nº 002/CAPES/SECAD-MEC/2010; Anexo V: Portaria nº 260/2010; Anexo X: Edital CAPES nº 01/2011; Anexo Y: Decreto nº 7.692/2012; Anexo Z: Portaria nº 21/2012; Anexo Z1: Edital CAPES nº 011/2012; Anexo Z2: Lei nº 12.796/2013; Anexo Z3: Portaria nº 096/2013; Anexo Z4: Edital CAPES nº 061/2013; Anexo Z5: Edital CAPES nº 66/2013; Anexo Z10: Diretrizes nacionais para os planos de carreira e remuneração dos profissionais do magistério; Anexo Z11: Edital nº 001/2011; Anexo Z14: Plano de metas e compromisso todos pela educação; e Anexo Z15: Plano de desenvolvimento da educação.
25 Em consulta aos relatórios do Subprojeto Letras-Inglês, pude observar que seus objetivos se coadunam
com os objetivos do projeto nacional do PIBID, contidos em seus editais.
26 O recorte discursivo é, conforme mencionado por Andrade (2008, p. 78), feito de segmentos
linguísticos que se definem a partir de uma unidade discursiva maior: o texto (no caso desta pesquisa, o texto é constituído pelas entrevistas e documentos do PIBID) que se organiza como uma narrativa. Ao
Kátia Honório do Nascimento
Verso e reverso no PIBID-inglês: representações sobre ensino, aprendizagem e formação de professores de inglês
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recortes discursivos, subdivididos em três eixos de representações. Optei por iniciar cada recorte com a pergunta feita durante a entrevista. Em diversos desses recortes, as perguntas se repetem, uma vez que os participantes respondem à mesma pergunta. O corpus analisado foi constituído pelos recortes discursivos de 16 (dezesseis) entrevistas orais, semiestruturada, e gravada em áudio e transcrita, com duração aproximada de 01 (uma) hora de gravação cada, sendo concedidas pelos participantes da pesquisa e contendo perguntas da entrevista foram referentes ao ensino e à aprendizagem de inglês e à trajetória percorrida durante o PIBID – todas constantes em um CD, no final da tese; pela consulta aos documentos oficiais do PIBID27 (Anexos F a Z8 e Anexos Z10 e Z11) em nível nacional, tais como, a Portaria Normativa nº 038/2007 (Anexo J), o Edital MEC/CAPES/FNDE nº 001/2007 (Anexo K), a Portaria Normativa nº 122/2009 (Anexo M), dentre outros e o relatório inicial (Anexo Z6) e final (Anexo Z7)28 do Subprojeto Letras-Inglês da UFVJM.
Para o processo de formação do corpus, utilizei um estudo-piloto realizado com um dos participantes do subprojeto para proceder a ajustes no questionário e no roteiro de perguntas. Num segundo momento, fiz contato com todos os participantes do PIBID via e-mail para fazer o convite à sua participação na pesquisa e posterior contato telefônico para aqueles que aceitaram participar da investigação, explicando o seu teor. Nessa etapa, 23 (vinte e três) participantes responderam positivamente via e-mail, sendo o coordenador do subprojeto, as 04 (quatro) professoras-supervisoras e 18 (dezoito) pibidianos. Num terceiro momento, aos que responderam, enviei novo e-mail para agendar as datas das entrevistas e para que eles pudessem preencher os questionários abertos (Anexos B e C). As entrevistas foram individuais e com a minha presença. No mesmo dia da entrevista, entreguei a cada um deles o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (Anexo E), que foi assinado por todos os participantes, sendo, em seguida, recolhido e arquivado. O roteiro da entrevista (Anexo D) continha perguntas sobre a aprendizagem de inglês dos participantes, sobre o magistério e sobre a participação no
escolher este ou aquele recorte discursivo, procurei me orientar pelas regularidades de marcas linguístico- discursivas presentes no intradiscurso. Também me orientei pela dispersão de sentidos e pelas marcas dos lapsos, dos equívocos e dos risos etc., que favorecem a percepção da subjetividade dos participantes. Procedi aos recortes com o objetivo de retirar da materialidade do corpus as partes significativas dos dizeres dos participantes que fossem recorrentes e que expusessem relações ou termos linguísticos significativos em relação a confirmar a hipótese e a responder as perguntas de pesquisa.
27 Para apresentar as características do PIBID e sua historicidade, em nível nacional, fiz uma consulta
documental das leis, pareceres, portarias e decretos de sua constituição e organização.
28 Os relatórios não foram analisados, eles somente serviram como base de apoio para a descrição do
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PIBID. Na quarta e última etapa, realizei as entrevistas com aqueles que realmente confirmaram a participação, totalizando 15 (quinze) participantes.
Pela própria força da interpretação, adotei um trabalho analítico do corpus por gestos de interpretação, não me referindo, assim, à categorização de dados e sim à regularidade de representações e de singularidades retiradas do corpus. Para tanto, após coletar as entrevistas orais e transcrevê-las, compus o corpus da pesquisa segundo um conjunto de representações com recortes discursivos que constituíram eixos temáticos de representações. A opção por eixos temáticos refere-se à recorrência de elementos linguísticos e discursivos (risos, gaguejos, equívocos, lapsos, repetição, uso de pronomes, de advérbios etc.) que levaram à recorrência da produção de sentidos em torno de um determinado eixo temático, conforme evidencia Sól (2014, p. 108) em seu trabalho de doutorado.
A divisão dos eixos de representações foi a seguinte: (1) As representações sobre o PIBID e sobre a área de formação de professores de línguas; (2) As representações sobre o ensino e a aprendizagem de inglês; e, (3) As representações sobre ser professor de inglês e sobre o ensino de LI nas escolas públicas – antes e após o PIBID. Esses três grandes eixos se subdividiram em subeixos temáticos, a saber:
Kátia Honório do Nascimento
Verso e reverso no PIBID-inglês: representações sobre ensino, aprendizagem e formação de professores de inglês
26 QUADRO 2
OS EIXOS DE REPRESENTAÇÕES E SEUS SUBEIXOS 1) As representações sobre o PIBID • O PIBID
• A bolsa do PIBID e o discurso vocacional do magistério
2) As representações sobre o ensino
e a aprendizagem de inglês • As relações de identificação com a língua inglesa
3) As representações sobre ser
professor de inglês e sobre o ensino de LI nas escolas públicas
• O professor de inglês como mestre potentado • A visão do ensino de línguas nas escolas públicas antes e após a experiência no PIBID Fonte: Quadro criado pela pesquisadora.
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