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A noção de construtivismo também está presente de forma marcante no conceito de letramento informacional, cujo aparecimento coincide com a época em que bibliotecários e pesquisadores da biblioteconomia e da ciência da informação estavam-se familiarizando

com as teorias construtivistas que permeavam a educação e, portanto, noções como resource-based learning, aprendizagem independente, aprender a aprender, aprendizagem ao longo da vida, aprendizagem por questionamento, aprendizagem por solução de problemas, pensamento crítico, foram incluídas no discurso do letramento informacional. A maneira como essas noções aparecem nos textos sobre o assunto são sumarizadas e exemplificadas a seguir.

A estratégia denominada inicialmente por bibliotecários canadenses de resource- based learning teve grande aceitação entre bibliotecários estadunidenses a partir do final da década de 1980, propiciando oportunidade de se enfatizar, no processo de pesquisa escolar, o aspecto referente ao uso das fontes de informação. Teoricamente, assume que o aluno seja participante ativo de sua aprendizagem; constitui, portanto, estratégia centrada no aluno, que é encorajado a utilizar uma variedade de fontes de informação para realizar a tarefa proposta pelo professor. Trabalhando juntos, professor e bibliotecário exercem a função de facilitadores no processo que permite ao aluno familiarizar-se com o universo informacional complexo e diversificado. Funciona como estratégia de aprendizagem flexível que acomoda o ritmo de cada aluno e lhe dá oportunidade de aprender habilidades de analisar, interpretar, sintetizar e organizar informações, além de exercitar capacidades de ler, escrever, falar e ouvir. Com a aplicação dessa estratégia espera-se que se formem usuários autônomos de informação, conscientes de seu processo de aprendizagem, capazes de usar informações de forma criativa e crítica para a solução de problemas. Segundo Laverty (2001), a aplicação da estratégia de resource-based learning pode desencadear o desenvolvimento de uma cultura de aprendizagem ativa e produtiva na escola.

Mesmo ante as críticas de autores que consideravam ser o seu uso estimulado por dirigentes educacionais desejosos de economizar recursos financeiros – no caso em que é relacionada com o uso de recursos informacionais eletrônicos e quando a ênfase é posta nesses recursos em detrimento de outros componentes do processo pedagógico (STAPLES, 1997) –, o conceito de resource-based learning esteve constantemente presente no discurso do letramento informacional, principalmente durante a década de 1990, presença certamente estimulada pelo fato de ter sido assumido por instituições de classe não só no Canadá, onde teve origem e onde ainda integra documentos institucionais (CASL, 2006), como também nos Estados Unidos (AASL, 1999).

Uma das descrições de letramento informacional mais disseminada na biblioteconomia e na ciência da informação foi apresentada em relatório da American Library Association (ALA), em 1989 e ressaltou a relação desse conceito com a capacidade de aprender a aprender, noção que continua presente no discurso do movimento.

Para ser competente em informação a pessoa deve ser capaz de reconhecer quando precisa de informação e possuir habilidade para localizar, avaliar e usar efetivamente a informação [...] Em última análise, pessoas que têm competência informacional são aquelas que aprenderam a aprender. Essas pessoas sabem como aprender porque sabem como a informação está organizada, como encontrar informação e como usar informação, de tal forma que outros possam aprender com elas (ALA, 1989, online, tradução nossa).

A noção de aprendizagem independente aparece com freqüência no discurso do letramento informacional, integrando documentos institucionais, como é o caso do Information Power (AASL/AECT, 1998), que relaciona a capacidade de aprender com independência à habilidade de usar informação:

O aluno que aprende com independência aplica os princípios da competência informacional para acessar, avaliar e usar informação sobre assuntos e situações de interesse pessoal [...] O estudante constrói conhecimento de forma significativa e pessoal, com base na informação e comunica esse conhecimento de maneira acurada e criativa, através de uma variedade de formatos de informação (AASL/AECT, 1998, p. 3,tradução nossa).

A noção de aprendizagem independente está também presente no documento da Middle States Association of Colleges and Schools (EUA) e outros semelhantes, que estabelecem diretrizes para o letramento informacional como objetivo educacional a ser atingido por meio da competência no uso da informação.

Cada instituição deveria estimular o uso competente de seus recursos de aprendizagem por meio de estratégias que ajudem o estudante a desenvolver o letramento informacional – a habilidade de localizar, avaliar e usar informação para se tornarem aprendizes independentes. Deveria encorajar o uso de uma ampla variedade de recursos extra-classe para ensinar e aprender. É essencial que mantenha programas de orientação e instrução na biblioteca para o acesso à informação, desenvolvidos colaborativamente e apoiados ativamente pelo corpo docente, bibliotecários, dirigentes acadêmicos e outros fornecedores de informação (MSACS, 1994citado por RADER31, 1996, online, tradução nossa).

A idéia de aprendizagem ao longo da vida perpassa constantemente o discurso do letramento informacional e está presente em documentos oficiais de associações de bibliotecários, como exemplificado no seguinte trecho de um documento da Association of College and Research Libraries (ACRL), que reúne bibliotecários de universidades norte- americanas.

Desenvolver nas pessoas a capacidade de aprender ao longo da vida é central para a missão das instituições de ensino superior. Assegurando que os indivíduos adquiram habilidades de raciocínio e pensamento crítico e ajudando-os a construir estruturas para aprender a aprender, faculdades e universidades proporcionam o fundamento para o crescimento contínuo dos alunos ao longo de suas carreiras, bem como para que exerçam suas funções de cidadãos críticos e membros de suas comunidades. O letramento informacional é um componente chave para garantir a aprendizagem ao longo da vida (ACRL, 2000, online, tradução nossa).

Solucionar problemas e tomar decisões seriam capacidades características do indivíduo informacionalmente letrado, conforme ilustrado na citação abaixo:

O letramento informacional orienta-se para a ação; é demonstrado através da capacidade de o indivíduo solucionar problemas e tomar decisões, permitindo a outras pessoas aprender com ele. O letramento informacional ocorre em espaço mais amplo do que uma única disciplina; a pessoa que o possua consegue sempre encontrar a informação necessária para novas tarefas ou decisões, sendo útil não só

no ambiente de trabalho, mas na vida pessoal (BJORNER, 1991, p. 151, citado por BRUCE, 1997, p. 27, tradução nossa).

A noção de aprendizagem por questionamento (inquiry learning) relaciona-se com o conceito de letramento informacional, na medida em que constitui estratégia didática que propicia ao aluno familiaridade com a variedade de fontes, cujo uso é necessário para a aprendizagem de habilidades informacionais. Carol Kuhlthau, uma das pesquisadoras e autoras mais influentes na área de letramento informacional, tem enfatizado a relação entre os dois conceitos, argumentando que:

A abordagem por questionamento pressupõe guiar os alunos para pensar e refletir no processo de busca de informação e usar essa conduta para compreender e aprender [...] O questionamento forma a base do letramento informacional. Letramento informacional é a habilidade de usar informação de maneira significativa em todos os aspectos de nossas vidas. O desafio para a escola da era da informação é educar as crianças para viver e aprender no mundo rico em informação e tecnologia (KUHLTHAU, 2001, online, tradução nossa).

A relação do letramento informacional com a noção de pensamento crítico foi enfatizada no trabalho de Loertscher e Woolls (1997, p. 338) que chegaram a opinar que o letramento informacional seria “a versão biblioteconômica do construtivismo e do pensamento crítico”. Em trabalho anterior, Woolls (1997 citado por Loertscher e Woolls, 1997, p. 339) analisou o conceito de letramento informacional em diversas áreas e identificou similaridades que são exemplificadas na seguinte definição de pensamento crítico:

Pensamento crítico é o processo intelectual disciplinado de conceituar, aplicar, analisar, sintetizar, e/ou avaliar informação reunida ou gerada por observação, experiência, reflexão ou comunicação, de forma ativa e competente, como um guia para crença e ação (SCRIVEN; PAUL, 1991 citado por LOERTSCHER; WOOLLS, 1997, p. 339, tradução nossa).

A autora considerou que o letramento informacional seja algo que acontece ao aprendiz em algum momento entre “o crer e o fazer”, constituindo um aspecto do conceito de pensamento crítico.

Em outros textos, que assumem tom exortativo, a relação do letramento informacional com o pensamento crítico foi tratada de forma superficial.

O letramento informacional forma a base para a aprendizagem para a vida toda. Perpassa todas as disciplinas, todos os ambientes de aprendizagem e todos os aspectos da educação. O desenvolvimento de pessoas que aprendem ao longo da vida deve ser a missão central de todas as instituições educacionais, assegurando que os indivíduos aprendam habilidades intelectuais de raciocínio e pensamento crítico e ajudando-os a construir estrutura para aprenderem a aprender. A incorporação do letramento informacional ao currículo [...] requer esforços colaborativos de diretores, professores e bibliotecários (MONCADA, 2005, tradução nossa).

Essas noções presentes no discurso sobre o letramento informacional caracterizam a natureza interdisciplinar do conceito e, embora durante algum tempo elas fossem tratadas com certa superficialidade, a situação parece modificar-se. Por exemplo,

uma das recomendações do CISSL/IMLS International Research Symposium,32 realizado em 2005, referia-se à necessidade de se aprofundarem conceitos como, por exemplo, aprendizagem para a vida toda (lifelong learning). Em 2006, Crow (2006, p. 22) ampliou o entendimento do conceito através de estudo que utilizou a Self Determination Theory (SDT) de E. L. Deci e R. M. Ryan (1985) para analisar a disposição para aprender, que é o principal atributo da pessoa que continua aprendendo ao longo da vida, mesmo após seu período de educação formal. Trazendo a questão da perspectiva educacional para a da biblioteconomia, esse tipo de análise ajuda no entendimento da questão e prepara caminhos para ação interdisciplinar.