ocorrem foram escolhidos com o intuito de mostrar alguns exemplos dos diferentes tipos de fósseis e dos fósseis de grupos biológicos variados que se podem encontrar na cidade, dando-se uma breve descrição, de modo o tornar possível o seu uso, nomeadamente, em actividades educativas dirigidas ao Ensino Básico e Secundário.
Pode encontrar-se informação adicional sobre alguns destes locais (e sobre outros) e os seus fósseis “online” em “Fósseis na Cidade: Paleontologia e Geologia urbana em Almada” de Silva (2007).
Belemnites e crinóides jurássicos
No calcário margoso cinzento do muro exterior do Centro Cultural Romeu Correia, na Rua Padre António Vieira, no centro da cidade, é possível observar vários fósseis de rostros de belemnites e de pedúnculos de crinóides.
FIGURA 3. Fóssil, em corte longitudinal, do pedúnculo de um crinóide jurássico no Fórum Romeu Correia, no centro de Almada.
A rocha ornamental utilizada para forrar o exterior do Fórum Romeu Correia é provavelmente originária de pedreiras localizadas na Serra dos Candeeiros, na região de Porto de Mós, sendo de idade jurássica média (Dogger).
As belemnites, moluscos cefalópodes coleóides, constituem um grupo biológico extinto. Existiram desde o Devónico (Paleozóico) até finais do Cretácico (mesozóico). Os fósseis do esqueleto interno de belemnites jurássicas podem ser observados aqui. Existem vários exemplos de cortes longitudinais expondo alguns elementos da morfologia interna destas estruturas esqueléticas: o rosto e o alvéolo (Fig. 2).
FIGURA 4. Fóssil, em corte transversal, de radíola de equinóide cidaróide no Nº 9 da Rua Rua Mendo Gomes Seabra.
Os crinóides, também conhecidos actualmente como lírios-do-mar, são equinodermes pertencentes à classe Crinoidea. Surgiram no Ordovício e ainda existem nos mares da actualidade. São organismos sésseis, fixando- se ao substrato por meio de um pedúnculo formado pelo empilhamento de inúmeros ossículos, elementos carbonatados do seu esqueleto interno. Podem observar- se troços preservados destes pedúnculos, em cortes longitudinais, em vários locais do Fórum (Fig. 3). Para além dos fósseis de belemnites e de crinóides, nos muros do Fórum Romeu Correia, na Rua D. Francisco Xavier de Noronha, é ainda possível observar alguns exemplos de fósseis de estromatoporóides.
Fósseis de nautilóides e de equinóides jurássicos No chão da galeria coberta frente ao Nº 9 da Rua Mendo Gomes Seabra, na esquina com a Rua São Salvador da Baía, numa calcário margoso cinzento- escuro, provavelmente de idade jurássica, é possível observar fósseis de conchas de nautilóides com enrolamento espiral plano. Os nautilóides são moluscos cefalópodes. Nestes fósseis distinguem-se os septos procélicos (isto é, com a concavidade dirigida para diante, em direcção ao habitáculo da concha) típicos dos nautilóides e as câmaras por eles definidos.
É ainda possível observar várias radíolas (popularmente conhecidas como “espinhos”) muito alongadas de equinóides, de ouriços-do-mar, cidaróides (Fig. 4). Os ouriços-do-mar, tal como os nautilóides, são organismos tipicamente marinhos o que atesta a génese marinha da rocha que inclui estes fósseis.
Fósseis de bivalves rudistas cretácicos
Os rudistas são um grupo de bivalves actualmente extinto. Existiram no Jurássico Superior e no Cretácico.
Os seus fósseis são um elemento importante do “Liós” (ou “Lioz”), uma rocha ornamental muito utilizada em Lisboa, nos seus arredores, mas não só.
Liós é a designação industrial dada a calcários cretácicos rosados a avermelhados, microcristalinos, calciclásticos a bioclásticos e mesmo bioedificados que ocorrem na região a norte de Lisboa, da Terrugem (Sintra) a Montemor (Loures), passando por Pêro Pinheiro (Sintra). O lioz e os rudistas que neles ocorrem encontram-se um pouco por todo o lado na cidade. Podem observar-se fósseis de dois tipos básicos de rudistas: rudistas radiolitídeos e caprinídeos. A título de exemplo, na fachada do Nº 63D, na Rua Capitão Leitão, ocorrem bonitos exemplares fossilizados de conchas de rudistas caprinídeos (Fig. 5), com a estrutura interna alveolar da parede bem patente (Silva, 2007).
Na parede do Nº 66 da Rua Capitão Leitão e no seu seguimento na Rua Manuel de Sousa Coutinho, estão patente numerosos exemplares fossilizados de rudistas radiolitídeos em cortes transversais e longitudinais. Em alguns deles é possível observar as valvas dos bivalves em conexão anatómica.
FIGURA 5. Fóssil, em corte oblíquo, da concha de um bivalve rudista caprinídeo, vendo-se a estrutura interna, na Rua Capitão Leitão.
Fósseis de bivalves e de gastrópodes miocénicos
As rochas do Miocénico da região de Almada mais usadas em construção são os arenitos com cimento carbonatado. Estes são frequentemente muito fossilíferos, apresentando sobretudo fósseis de bivalves e de gastrópodes. Mais frequentemente, são encontrados os moldes (internos e externos) das suas conchas aragoníticas. No caso de estruturas originalmente calcíticas – como as conchas dos bivalves pectinídeos e ostreídeos e as carapaças dos equinodermes – encontram-se os seus fósseis mineralizados.
Actualmente, nas zonas mais antigas da cidade, na Rua do Castelo, por exemplo, ainda se encontra este material de construção, exposto em paredes degradadas ou em muros de quintas, constituindo um eloquente exemplo da ligação da cidade à geologia local (Fig. 6).
FIGURA 6. Aspecto do enchimento de uma parede com os arenitos fossilíferos miocénicos na Almada velha, na Rua do Castelo.
Somatofósseis e icnofóssseis
Os exemplos mais conhecidos e apelativos de fósseis na cidade correspondem a somatofósseis, isto é, a fósseis de elementos corpóreos, de partes integrantes de organismos do passado (fósseis de conchas, de carapaças e de outros elementos esqueléticos). Um outro tipo de fósseis, quanto à sua génese, são os icnofósseis: vestígios fossilizados de actividade vital de organismos do passado.
FIGURA 7. Aspecto do enchimento de uma parede com os arenitos fossilíferos Miocénicos na Almada velha, na Rua do Castelo.
Na soleira da porta do Nº 83 da Rua Capitão Leitão, num calcário “Encarnado de Pêro Pinheiro”, de idade cretácica, podem ver-se vários exemplos de fósseis de galerias atribuíveis ao icnogénero Thalassinoides, com as suas típicas ramificações em Y, segundo ângulos de 120º (Fig. 7). Estas galerias, ou túneis, são escavadas no substrato por crustáceos decápodes do tipo pertencente ao actual género Callianassa.
CONCLUSÃO
Na actualidade, a maioria da população mundial vive em cidades, afastada da realidade natural. Assim, a geodiversidade urbana pode e deve ser usada para
mobilizar o público citadino para o gosto e o respeito pela Natureza (a geoconservação).
Existem no meio citadino aspectos e elementos geológicos e paleontológicos capazes de cativar a atenção dos seus habitantes e de serem utilizados para a divulgação da geologia e da paleontologia. Assim, a realização de actividades urbanas de observação de fósseis e de aspectos geológicos é uma óptima ferramenta de sensibilização para as questões relacionadas com a Geodiversidade e a sua preservação, para a geoconservação (Silva, 2009).
Tal como acima demonstrado, a cidade de Almada não é excepção, sendo possível a observação de interessantes aspectos geológicos e paleontológicos nas fachadas dos edifícios, nos muros e nas calçadas. Há, inclusive, afloramentos perdidos na cidade, vestígios da geologia original ao alcance de qualquer habitante da cidade. Estes afloramentos, associados ao próprio local de implantação da cidade, sobre uma costeira ribeirinha, permitem facilmente mostrar a forte relação existente entre a história e cultura da cidade e a geodiversidade local.
BIBLIOGRAFIA
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Caetano, P.S., Verdial, P.H., Lamberto, V., Gomes, A. e Freire, R.V. (2006): Geologia eclesiástica na cidade de Lisboa. O exemplo da Igreja do Convento dos Cardaes. Livro Resumos VII Congresso Nacional de Geologia, Estremoz, 3: 933-936.
Estevens, M., Legoinha, P., Sousa, L. e Pais, J. (1999): O Miocénico das Arribas do Litoral da Península de Setúbal. Um património geológico a preservar.
Seminário sobre o Património Geológico Português,
Instituto Geológico e Mineiro, Lisboa.
Pais, J., Silva, A.P., Simões, M.; Lamas, P.; Azevedo, T.; Freitas, C.; Zungailia, E. & Dionísio, S.; Frias, A.; Monteiro, P., Arroja, R. e Amado, A. R. (2005):
Carta geológica do Concelho de Almada, à escala 1:
20.000. Câmara Municipal de Almada.
Silva, C.M. da e Cachão, M. (1998): “Paleontologia Urbana”. Percursos citadinos de interpretação e educação (paleo)ambiental. Comunicações do
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Silva, C.M. da (2007): Fósseis na Cidade: Paleontologia e Geologia Urbanas em Almada. Online em:
http://paleoviva.fc.ul.pt/almafossil/index/rcapleit.htm. Consultado em 2010.04.25.
Silva, C.M. da (2009): Fósseis ao virar da esquina. Um percurso pela Paleontologia e pela Geodiversidade urbana de Lisboa. Paleolusitana, 1: 459-463.