O quadro estatístico da escolarização juvenil no Brasil evidencia uma lenta expansão quantitativa da universalização do acesso em conjunto com a permanência dos níveis de desigualdade sistêmica. Naquilo que se refere à qualidade da participação dos jovens – especialmente os pobres –, na vida escolar, encontramos ainda elementos perversos, como a disparidade idade e série e as precárias condições de oferta na maioria das escolas públicas que restringem significativamente as oportunidades de escolha e de inserção social nesse momento decisivo da formação humana, que é o da transição para a vida adulta, conforme mencionamos anteriormente.
Sabemos que a situação do jovem no Brasil é grave. As estatísticas apontam para o agravamento das condições de vida da maioria dos jovens brasileiros, que são cerca de 33 milhões entre 15 e 24 anos, dos quais 80% residem em áreas urbanas. O desemprego, por exemplo, que atinge toda a população em idade ativa, foi especialmente agudo entre os jovens; na década de 1990, 62,2% dos que perderam emprego eram jovens (Pochmann, 2000). O autor nos ajuda a aprofundar a compreensão do problema. A partir de sua análise das relações entre emprego e desemprego no Brasil para os jovens na década de 1990, destacamos sua referência ao índice de inatividade. Associando essa taxa ao tempo disponível para educação, o autor nos mostra que, no período que vai de 1980 a 1997, assistimos a uma significativa mudança localizada na condição de atividade do jovem, com queda na ocupação e aumento do desemprego. A taxa de inatividade, em contrapartida, manteve-se praticamente inalterada. Desde a década de 1980, percebe-se uma pressão constante de oferta de mão-de-obra (busca de trabalho) sobre o mercado. O Brasil não estaria usando o dispositivo do alongamento da inatividade como recurso à postergação do desemprego juvenil, ao contrário de economias mais avançadas que buscaram alternativas no alongamento da inatividade. A extensão da escolarização tem sido uma das alternativas encontradas a partir do aumento do tempo de formação dos jovens, com o adiamento da entrada desses no mercado de trabalho.
Sobre a educação escolar, dados do Censo 2000 do IBGE indicam que a taxa de escolarização entre os jovens de 15 a 17 anos passou de 55,3% para 78,8%. Os jovens
possuem hoje mais acesso à escolarização formal e nela permanecem por mais tempo, ainda que essa permanência se caracterize, em larga escala, por reprovações sistemáticas que criam graves distorções entre idade ideal e série escolar. Em relação aos que têm entre 18 e 19 anos, a proporção é menor: apenas 50,3% de jovens desse grupo estudavam na ocasião do último recenseamento nacional. Entre os jovens de 20 a 24 anos, a proporção é de 26,5%, dado que indica o peso da necessidade do trabalho e o baixo contingente de jovens cursando níveis superiores de escolaridade. Entre 1991 e 2000, a escolaridade das pessoas de 10 anos ou mais melhorou no País. Houve redução na proporção das menos instruídas (19% contra 10%) e aumento na proporção das que tinham 11 anos ou mais de estudo (13,8% contra 19,0%). Ainda que tenha havido melhoria de acessibilidade aos sistemas formais de ensino, é necessário registrar que os desafios para a consolidação de um sistema escolar público e de qualidade ainda estão longe de serem superados. Não devemos nos esquecer de que a maioria dos jovens da Rede Pública ainda se encontra cursando as primeiras oito séries do Ensino Fundamental. O mesmo Censo 2000 que apontou a extensão do acesso à escolarização para um maior contingente de jovens brasileiros, revelou, também, dados preocupantes sobre o atraso escolar no ensino público. Na faixa etária de 15 a 17 anos, mais da metade dos jovens que estudam (52,6%) ainda está matriculada no Ensino Fundamental, onde regularmente deveriam estar apenas crianças e adolescentes entre 7 e 14 anos. Se poucos conseguem essa sobrevivência escolar, menos ainda são aqueles que chegam a esse patamar da pirâmide educacional sem acidentes de percurso pelas oito séries do Ensino Fundamental. Em 1996, os alunos que mantiveram a equivalência ideal entre idade e série eram 2,5 milhões, menos de um quarto dos mais de 10 milhões de brasileiros entre 15 e 17 anos. Concordamos quando Mello (1999), acertadamente, denominou o Ensino Médio brasileiro de “ensino de minorias sobreviventes”, em face do pouco acesso que os jovens têm à escolaridade pós-obrigatória no país.
Mesmo com a melhora relativa nos índices de escolaridade apontada pelo Censo 2000, a grande maioria dos jovens brasileiros não consegue chegar ao Ensino Médio e ao Superior. Ainda que a taxa de analfabetismo na população acima de 10 anos tenha caído de 19,7% em 1991 para 12,8% em 2000, muitos adolescentes e jovens, na escola pública, são obrigados a sair da escola para sustentar ou ajudar no sustento da família, diferentemente da população de jovens estudados por nós, conforme indicamos anteriormente, que se encontram num momento de moratória social.
Os dados referentes à vulnerabilidade pessoal e social são múltiplos e suas combinações têm produzido indicadores mais precisos sobre as dificuldades enfrentadas pelos setores populares juvenis que vivenciam a paradoxal situação de viver processos sociais de modernização – em especial quando imersos nos espaços e tempos das indústrias culturais –, ausentes de modernidade naquilo que se refere à garantia de direitos universais. Mostram em particular que a melhoria do acesso dos jovens à escola não tem sido suficiente para diminuir sua necessidade de continuar buscando emprego, algo que observamos nos alunos da escola pública que está sendo pesquisada. O aumento do acesso à escola sem o aumento significativo da taxa de inatividade do jovem revela que o jovem brasileiro, mesmo dentro da escola, continua premido pela busca de emprego. Mas que emprego?
A população jovem pobre é a parcela mais rapidamente atingida pela recessão e pela ausência de desenvolvimento social. Apesar da diminuição da população de 0-19 anos no Brasil nos últimos anos, a maior concentração de estratos de crianças e jovens localiza-se nos setores desprivilegiados (Sposito, 1994). A isso se deve acrescentar a 'juvenilização' da população economicamente ativa observada a partir dos anos de 1970 e os índices de não emprego, relativamente superiores entre adolescentes e jovens no conjunto mais amplo dos desempregados.
Forma-se assim um círculo vicioso: à entrada prematura dos jovens pobres no mercado de trabalho – relação permanentemente descontínua, em que o trabalho consiste em buscar emprego e não necessariamente em ter emprego –, corresponde uma relação episódica e intermitente com a escola e o empobrecimento da experiência de escolarização, outra parte. A esses condicionantes estruturais da vida juvenil se somam especificidades das práticas escolares e suas contradições, que se movimentam num campo de múltiplas tensões: entre os inúmeros limites desencadeados pela expansão da escolarização – produtora de uma “nova” experiência de escolarização, ao mesmo tempo acessível a um maior número de sujeitos, estendida no tempo e degradada na qualidade –, e as inegáveis e imensas possibilidades democráticas abertas por uma escola repleta de crianças e jovens originários das classes populares.
A expansão quantitativa da escola ataca e desafia os ideais de qualidade, ao trazer para seu interior referências sociais, saberes e práticas culturais muitas vezes dissonantes, valores incompreensíveis de imediato e lógicas alternativas ao instituído, que inserem, dentro de uma escola esvaziada, verdadeiras disputas pelos sentidos de
presença nessa instituição. Acabamos por não perceber os limites que a expansão do acesso dos jovens à escola vem apontando, corremos o risco de travarmos uma batalha se a clareza necessária sobre as diferenças profundas que se escondem entre “habitar” a escola e simplesmente “fazer parte” dela. Não podemos deixar escapar, contudo, as possibilidades abertas pela expansão do acesso do jovem à escola. Se por um lado o “fazer parte” da escola, o “ser incorporado” por ela e a democratização dos processos de escolarização configuram muito mais do que a simples presença do jovem na escola, por outro esses processos são impossíveis sem essa presença. Assim sendo, ao começar a trilhar os caminhos da pesquisa, defrontamo-nos com alguns impasses: afinal, de que violência, adolescente, alunos e escolas estávamos de fato falando? Paramos e entendemos que o passo seguinte seria apresentar a violência, o adolescente e a escola de que estávamos mencionando, a partir de nossos pressupostos teóricos apresentados até agora.
PARTE II
MÉTODO, ESPAÇOS ESCOLARES E SUJEITOS INVESTIGADOS
Vim pelo caminho difícil, a linha que nunca termina, a linha bate na pedra, a palavra quebra uma esquina, mínima linha vazia, a linha, uma vida inteira, palavra, palavra minha.
ADOLESCENTE
A juventude tem mil ocupações. Estudamos gramática até ficar zonzos,
A mim
Me expulsaram do quinto ano E fui entupir os cárceres de Moscou.
Em nosso pequeno mundo caseiro Brotam pelos divãs Poetas de melenas fartas. Que esperar desses líricos bichanos?
Eu, no entanto, Aprendi a amar no cárcere. Que vale comparado com isto A tristeza do bosque de Boulogne?
Que valem comparados com isto Suspiros ante a paisagem do mar?
Eu, pois,
Me enamorei da janelinha da cela 103 Da "oficina de pompas funebres". Há gente que vê o sol todos os dias
E se enche de presunção. "Não valem muito esses raiozinhos"
dizem. Eu, então,
Por um raiozinho de sol amarelo Dançando em minha parede
Teria dado todo o mundo.
CAPÍTULO
4
MÉTODO
A violência faz-se passar sempre por uma contra violência, quer dizer, por uma resposta à violência alheia.
Jean-Paul Sartre
4.1. DESCREVENDO A TRAJETÓRIA DO PESQUISADOR NO CAMPO: a