Se o conceito de sentido em Frege guardava semelhanças e discrepâncias com Husserl, as semelhanças e diferenças de Wittgenstein para com seus pares é também significativa. A imagem dos jogos de linguagem de Wittgenstein inaugura um dinamismo que aproxima as abordagens de Husserl e Locke, autores que entendiam o significado dos termos como entidades definidas individualmente. Wittgenstein se afasta de Gottlob Frege e Bertrand Russell, de quem fora aluno, e se aproxima de autores como Derrida, para quem o sentido é uma entidade social e dinâmica.
É difícil localizar a obra de Wittgenstein frente à tradição filosófica. A própria posição do autor na querela dos universais, tema bastante presente nas Investigações Filosóficas, é vacilante. Nem o nominalismo, nem o idealismo ou o realismo respondem sozinhos pelo entendimento que a linguagem, para Witt genstein, requer. Sua obra ultrapassa o silogismo lógico que havia levado a teoria das descrições de Russell ao solipsismo (uma vez que o ent endimento do significado está atrelad o aos objetos representados, existentes ou não no mundo ord inário). Dir-
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se-ia que há um referente60 para Wittgenstein. Para ele, é preciso que o objeto representado esteja
presente tanto na consciência do sujeito cognoscente como no mundo que lhe é externo.
Enquanto a perspectiva logicista estabelece limites precisos entre proposições providas de sentido e proposições sem sentido— derivação analítica do valor de verdade presente nas proposições — Wittgenstein, que é também um lógico, descarta o valor de referência das proposições61 e com ela seu valor de verdade62. A tradição logicista entendia a natureza do sentido
como nuclear, panorama onde as palavras teriam significados definidos independentemente de outras palavras mas sempre em relação direta com objetos e idéias. Para W ittgenstein, sentido e significação não formam um sistema fechado e as palavras adquirem sentido apenas em relação a um sistema de signos63. No lugar da referência, aparece a diferença como valor de significação64.
Também o entendimento husserliano de sent ido (neoma) está longe de W ittgenstein, pois como em Locke é não-lingüístico e extraído dos objetos; uma essência que a mente absorve. Husserl se afigura assim ao lado d e Locke, e toda a corrente fenomenológica aparece deslocada em relação a Witt genstein. A intencionalidade65 na produção do sentido cede lu gar a uma troca
dinâmica cuja razão é a pragmática da existência cotid iana. Aparecem então os elementos que ressoariam na virada lingüística.
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NO TAS
1 Frege, Go ttlob. Os fundamentos da arit métic a: Uma investigaç ão lógico-mat emáti ca sobre o conc eito de núm ero (Coleção ‗ Os
Pensador es‘). São P aulo: Abril Cultural, 1980. (p.95).
2 Wittgenstein, Ludwig. Investigaçõ es Filosóficas. Petró polis: Vo zes, 2005. (p.193; §530).
3 Ver H aap aran ta, Leila. T he D evelopm ent of Modern Logic. Oxford: Oxford University Press, 2009.
4 Já na d écada d e 70 do século XX as ciên cias hu manas assumiam a lingu agem co mo ag ente es truturante da realidad e.
De Julia Kristeva a J acqu es Derrida, do estru turalismo ao p ós-estruturalismo, eleg eu-se a lingu agem co mo elemento criador d e r ealidade. As raízes d a virad a lingüís tica são comu men te cr editadas a Lud wig Wi ttgenstein e Gottlob Frege, pensador es que teri am vincul ado pensam en to, linguagem e p ercepção da realidade. Essa aproximação, como veremos, é entretan to con troversa.
5 Rorty, Ri chard. T he Li nguistic Turn: Essays in Philosophical M etho d. Chicago: University of Chi cago press, 1967.
6 Comentadores d e Frege, como M aria Luisa Cou to So ares e Mi chael Du mm ett, vêem em sua o bra não ap enas a
fonte da virada lingüísti ca, mas a en tendem também com o um prolongamen to natural do seu trab alho filosófico. A esse resp eito, ver: Soares, Maria Luisa Couto. Co nceito e Sentido em Frege. Porto: Camp o das Letras, 2001 e Dumm ett, Michael An thon y. Freg e, Philoso phy of Language. Londo n: Duck worth, 1981. Comentando Frege, os autor es insistem que a única via d e acesso ao p ensamen to é a análise lingüísti ca, proposi ção estran ha ao p ensamento d e Frege. Tamb ém buscam em su as o bras u ma su posta análise filosófica d a linguag em, o nde estariam as raí zes (n ão p ercebidas pelo pró prio Frege, lem bra Maria S oares à p ágina 17 d e seu livro) da virad a lingüística.
7 Há em Frege um a an terioridade do p ensamento em relação à linguagem, qu e não po de ser entendid a com o
instân cia prim eira ou o fundamento últi mo do p ensamento. A linguagem explicaria com o os pens am entos são expressos, mas p ouco p oderia es clarecer sobr e a natur eza ou o juízo dos pens am entos. Ver Angelli, Ignacio. Studi es
on Gottlob Frege and T raditio nal Philosop hy. N ew York: Hum aniti es Press, 1967.
8 O comen tad or Michael Du mm ett discorda dess a leitura e insiste que Frege é um filósofo da linguagem. Dumm ett
vê nas categorias lógi cas d o pensam en to d e Frege u m reflexo d as diferentes categori as de express ão lingüísti ca qu e só podem s er pensad as p ela maneira co mo são utilizadas na linguagem. Peter Geach, por su a v ez, con tes ta Du mmett e cond ena ess a aproximação lingüísti ca à l ógica e ati tude de Frege. Par a Geach, o estud o so bre a n atur eza d o nú mero não permi te dúvidas sobre a posição de Frege: prim eiro s e apreende certa expres são vinculada a certa entid ade, depois s e d efine a qu al categori a on tológica a en tidad e p ertence e, fin alm ente, um a expr essão lingüística apropriad a é atribuída conform e a categori zação. Ver G each, Peter. Three philoso phers. Oxford: Basil Black well, 1961 e Frege, Gottlob. Os f undamento s da arit métic a: Uma i nvestigação lógico-m atemátic a sobre o conceito de núm ero (Col eção ‗Os Pensadores‘). São Paulo: Abril Cultur al, 1980.
9 Nos termos da s emió tica, s eria como pens ar um signo co m múl tiplos refer entes e um significado com div ersos
significantes.
10―É surpreendente o que a linguagem cons egue fazer. Com poucas sílabas, el a cons egue express ar um incalculável
número de pens am entos, a tal p onto que até p ara u m p ensamen to pela primeira vez apr een dido p or um s er hu mano, ela enco ntra uma roup agem atrav és d a qual um outro s er hu man o é capaz d e apr end ê-lo, aind a que ess e p ensamento lhe s eja i nteiramente novo‖. Frege, Gottlob. Os fundamentos da aritmética: U ma i nvestigação lógico-matemática sobre o co nceito
de núm ero (Col eção ‗Os Pensadores‘). São Paulo: Abril Cultur al, 1980, (p.67).
11 Frege, Gottlob. Inv estigaçõ es Lógicas. Porto Al egre: Edipu crs, 2002. (p.21-22).
12―Conseqü entemente, qu ando se trata de um nome próprio, o que impor ta é como s e apresenta aquilo que el e
designa. Isto po de o correr d as m ais diver s as m aneiras e, p ara cad a um a d estas maneiras, a sentença em qu e es te nome próprio ocorre receber á um sentido particular‖. Frege, Gottlob. Os fundamentos da aritmética: Uma i nvestigação
lógico-matemática sobre o co nc eito de número (Coleção ‗ Os Pens adores‘ ). São Paul o: Abril Cul tural, 1980. (p.22).
13 Angelli, Ignacio. St udies on Gottlo b Freg e and Traditio nal Philosophy . New York: Hum aniti es Press, 1967.
14Diferentemente, Husserl entende qu e o sentido s e vincula ao conteúdo: ―Cada noema tem u m conteú do, isto é,
seu sen tido vin cula o objeto ao conteúdo. Entend emo s por conteúdo o sentido dado àquilo qu e dissemos e que, dentro ou por meio da consci ênci a, se relaciona com o objeto como s e es te foss e ‗seu‘ obj eto‖. A tr adução mexicana verteu ess e tr ech o, §129, de maneira ligeiram ente difer ente. Na v ersão inglesa: ― Each noema has a content that is to say, its sense is rel ated through i t to ‗its‘ object. As content we take the ‗s ense‘ of which we s ay that in or through it consci ousn ess relates to som ething objectiv e as ‗its‘ something obj ective‖. A es se res peito, ver: Husserl, Edmund.
Ideas relativ as a una feno menologia pura y una filosofia fenomenológica. México: Fond o de Cul tura Econ ômica, 1986. e Husserl, Edmu nd. Ideas pertai ning to a pure phenomenology and to a phe nomenological philosophy. London: Martin us Nijhoff, 1982.
15 O valor d e verd ade vincul a a id éia de u ma proposição à sua extensão empírica, ou s eja, o conh eci mento do mu nd o
é verdadeiro n a medid a em qu e se relaciona co m a exp eriên cia. É en tão um a im agem do p ensamento que procura na experiên cia o valor d e verd ade das pro posições, auxiliado p ela lógica e pel a m atemática, assun ção fun dam en tal p ara o que se den omin a posi tivismo ou em pirismo lógico. O con cei to d e valor d e verd ade d o conh ecim en to p ermei a to do o Círculo de Viena, do qu al fizeram par te Philipp Frank, Otto Neurath e H ans Hahn; e in corpor ados n a décad a de vinte, Moritz S chilick e R udolf C arnap. Em 1929, Carnap, H ahn e Neurath publicaram o m anifes to A Co ncepção
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Científica do Mundo: o Círc ulo de Vi ena. Frege, assim como Ernst Mach, Russell, Whitehead, Pean o e Wittg enstein, foi um dos autor es capitais que o Círculo to mou p ara sua con cepção d e filosofia e ciên cia.
16―Retorno agora à pergunta: s erá que o pens amento é u ma idéi a? Se o pens amento q ue expr esso no teorema de
Pitágoras pode ser reconh ecid o com o verdad eiro tan to por outros quanto por mi m, então ele n ão perten ce ao conteúdo de min ha existênci a, n ão so u seu por tador, mas poss o apes ar disso reconhecê-lo co mo v erdad eiro. Mas se não é o m esmo p ensamento o qu e eu e ou trem consider amos com o con teúd o do teorem a de Pitágoras, então não seria adequado dizer ‗o teor ema de Pitágoras‘, mas ‗meu teorema de Pitágoras‘, ‗seu teorema de Pitágoras‘, e es tes seriam dis tintos, uma v ez que o sen tido pertence n ecessariamen te ao teor ema. M eu p ensamen to s eria então conteúdo de min ha cons ciên cia e o pens am ento d e ou trem s eria con teúd o de sua cons ciên cia‖. Frege, Gottlob. Inv estigaçõ es
Lógicas. Porto Alegre: Edipu crs, 2002. (p.26).
17 Idem, p.14-15.
18 Frege, Gottlob. Wi ssenschaftlicher Bri efwechsel. Hamburg: Felix Mein er, 1976.
19 O conceito de verdad e em Frege, e a n ecessidad e do co ncei to d e ref eren te par a explicar o s entid o, dificult a a
análise do significado, pois bl oquei a o acesso à apreensão do referente nas prop osiçõ es. A d ependência das proposiçõ es p ara com o referen te, o sen tido e o p ens amento inviabilizam u ma l eitura lingüís tica de s eu tr abalh o.
20 Texto presente na coletân ea brasileira Lógica e Filosofia da Linguagem, ci tad a anterior men te.
21 A ess e resp eito, conf erir a no ta d e rodapé n úmero 22, sobre o Frege de J ustific ação de uma Conc eitografia.
22―Se, em geral, julgarmos que o val or cognitivo de a = a e a = b é diverso, isto s e explica pelo fato de qu e, par a
determinar o valor cognitivo, é tão relev ante o sen tido d a sen ten ça, isto é, o pens am ento por ela ex presso, quanto sua referên cia, a s aber, s eu valor de v erdad e. Se a = b então realmente a refer ênci a de b é a mes ma qu e a d e a, e portan to, também o valor de v erdad e d e a = b é o mes mo qu e o d e a = a. Ap esar dis to, o sentido de b p ode diferir do de a e, p ortan to, o p ensamen to express o por a = b po de diferir do expresso por a = a; nes te cas o, as duas sentenças não têm o mes mo val or cogni tivo.‖ Frege, Gottlob. Lógica e Filosofia da Linguagem. S ão Paulo: Cultrix, 1978. (p.86).
23 Frege explica su a hipó tes e sali entand o a diferen ça entr e referência e pensam ento, co mo n a p ágina 43 d e seu texto
Funç ão e Conceito: ―Pode-se fazer aqui a objeção de que 2² = 4 e 2 > 1, entretanto, significam coisas total mente
diferentes; mas, ap esar dis to, pod e-se substi tuir 4x4 por 4², uma vez que ambos os sinais têm a mes ma referência. Disto concluímos qu e a igual dade de r eferência não tem como conseqü ência a igu aldade de pens amento‖. Isto é, embor a 4x4 e 4 ² tenh am a m esma referên cia, o u seja, s ejam no mes próprios do mes mo núm ero, eles não têm o mesm o sen tido. O texto F unç ão e Conc eito tamb ém está pres ente n a col etânea brasil eira Lógica e Filosofia da Li nguagem.
24 Sobre o Sentido e a R eferência, pr esen te na mesm a coletân ea, p ágina 62.
25 Alguns comenta dores de Frege ignoram essa categori zação do sen tido e do pensam en to co mo uma entid ad e
indep endente da cons ciên cia e dos pro cessos d e apreensão subjetivos. Ch am am-na de ―mi tologia fregeana‖: ―A argumen tação de Thiel centra-se no fato d e n ão coin cidirem as noções de sen tido co m a de subj etivo-não-real, pois, para Frege, os sen tidos s ão tam bém algo d e o bjetiv o. Este terceiro rein o, problemático, de u m obj etivo (ou substan tivo-não-real) d emar cad o do do mínio do su bstantivo-psíqui co, real, e d o obj etivo-físico, apr esen ta-se ambíguo, pois a ele perten cem não s ó os pensamen tos e as suas partes, co mo tamb ém em geral todos os obj etos lógicos — percurs os de valores, números e valores de verdade, os conceitos e as funções. Todos estes obj etos foram introduzi dos por Frege como referências d e determinados sinais e express ões, e nunca a sua sem ânti ca permi te interpretá-los com o sentido s. Portan to, a esf era do sen tido não coi ncid e em absoluto com a do subs tan tivo -não-real. Como j á referim os, es ta não-coincid ên cia d eve-se, p or um l ado, a um a certa am bigüidad e na no ção de s enti do, como na noção de conceito‖. Soar es, Maria Luisa Couto. Co nceito e Sentido em F rege. Por to: Campo das Letras, 2001. (p.195, Nota de Rodap é). A mi tologia fregean a é inter essan te n a medid a em que oferece um conceito d e sentid o que não é determinad o pel as variáveis subj etivas e se reali za fora d as cons ciências. Esse sistem a frasal indep end en te , que retom arem os na segund a seção, co mpreend e a variação top ológica entre o bjetos e mod os de apres en tação em uma articulação que não s e res tringe ao co ntex to lingüísti co.
26 Sobre o Sentido e a R eferência. I N: Frege, Go ttlob. Lógica e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Cul trix, 1978. (p.65) 27 ―Alguém obs erva a lu a através de um tel escópio. Comparo a própria lu a à referência; ela é o objeto da observação,
proporcion ado p ela imagem real projetada p ela len te no interior do teles cópi o, e pela imag em retini ana do observad or. A prim eira, co mparo-a ao sentido, a segund a, à refer ênci a ou in tuição. A im agem no teles cópio é, na verdade, u nilateral; ela dep end e do pon to-de-vista da o bservação; n ão o bstante, ela é obj etiva, na m edid a em que pode servir a vários obs ervadores. El a p oderia ser dispos ta de tal forma que vários obs ervadores p oderiam u tilizá -la simultan eamen te. M as cada u m teria sua própria i magem reti niana‖. Idem, página 65-66.
28 Frege ainda subdivide s entid o e significado entr e cos tum eiro e indireto. Isso porque n ão é in comu m que o
significado de um a pal avra esteja ancor ado não em s eu significado h abitu al, mas em seu s entid o habi tual. Isso fica claro quand o term os de uma frase são substituídos por sinônim os que o interlo cutor não co nhece. Se o significado de um a frase estiver ref erend ado p or um sentido habi tual qu e o in terlo cutor d esconh ece, en tão o significado prescindirá de significação. Nes tes ter mos, pod eríam os dizer que o significado s eria o v alor de u so de um termo, aquilo a que ele se pres ta. O sen tido seria as condições a que es te significad o é subm etido par a que possa ter valor. ―No discurso indireto, fala-se, digamos, do sentido das palavras de ou trem. Fica, pois, claro que também nes te discurso as pal avras não têm suas refer ênci as cos tum eiras, mas refer em-se ao que h abitu alm ente é seu s entid o. De
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modo mais suci nto, diremo s qu e n o dis curso in direto as pal avras s ão us adas indiretam ent e, ou têm sua referên cia
indireta. Em conseqüên cia, distinguim os a referên cia cost umei ra de um a palavra d e sua referên cia indi ret a¸ e o seu sentid o costum eiro de s eu s entid o indireto. A referência indireta d e u ma palavra é, p ois, seu sentido cos tumeiro.‖ Ibidem, página 64. Isso q uer di zer qu e apen as o significado habi tual garantiria u ma com preensão inequívo ca. O sig nificado
indireto correspo nderia precis am ente ao senti do co stum eiro, f ech ando o cír culo d e rel açõ es certas. Sobra no esquema fregeano o sentido i ndireto, que naturalm en te não pode s e relacio nar co m o significado habitual. Mas Frege, que entend e que a li nguagem mais atrap alha qu e ajud a o p ensamento, está em b usca de u ma ideografia perfei ta e não explora esse item. Aqui fala o F rege lógico de Justific ação de uma co nc eitografia: ―A linguagem mostra-se deficiente quando se trata de prev enir os erros de pens amento. Ela n ão satisfaz a primeira exigên cia que lh e pode ser impos ta sob es te aspecto, a da univocid ade. A mes ma p alavra s erve p ara design ar um s er individual e tamb ém a es pécie, como na proposição: ‗O cavalo é um animal herbívoro‘. Cavalo pode final mente significar u m conceito, como na proposição: ―Isto é u m cavalo‖. A linguagem não é r egida por leis lógicas, de modo que a obediência à gramática já garantisse a correção formal do curso d o p ensamen to. As form as em q ue s e exprime a dedu ção são tão variadas, tão frouxas e fl exíveis qu e facilmente s e p odem insinu ar, sem q ue s e perceb a, premissas que em s eguida s erão ignoradas.‖ (p.190). E continu a na página seguinte, 191: ―A razão dos defeitos sali entados está em certa maleabilidad e e mutabilidad e da linguagem, que é por ou tro lado con dição de sua cap acid ade d e desenvolvimento e de su a aplicabilidade variad a. A linguagem v erbal não bas ta. Carecemos de um conju nto de sinais do qual s e expulse toda am bigüidade, e cuja form a rigorosam en te lógi ca n ão d eixe escapar o co nteúdo. Frege, Gottlob. Justificação de uma
conceitog rafia (Col eção ‗Os Pensadores‘). São Paulo: Abril Cultur al, 1980.
29 Frege, Go ttl ob. APUD So ares, M aria Luisa Cou to. Co nc eito e Sentido em Frege. Porto: Campo das Letras, 2001.
(p.151).
30 A agen da logicis ta d e Frege tratava d e descrev er o reino d o sen tido como u m plano ind ependente das im agen s
ideais (su bjetivas) ou das r epres entaçõ es m en tais (i ndividuais), afastando assim o risco d e vincul ação do s enti do à incomu nicabilidad e característica dessas ins tân cias. É por isso que em Frege os pens am entos e os sen tidos são entid ades a-tem porais que n ão se subm etem a um pro cess o de mud ança. De ou tra maneira, não seria possível susten tar qu e uma proposi ção é verd adeira q uand o não há mais ningu ém p ara p ensá-la. Para qu e se mantivess e a dimens ão es táv el dos sentidos, era preciso vincul á-lo a um p ens amento qu e, es te sim, é verdad eiro ou falso e que indep ende de qu em o apreende. Afinal, se a existência de um p ensamen to dep end esse de el e ter sido captado, en tão não hav eria nen hum p ensamen to verd adeiro em uma situ ação ond e ninguém está lá para p ensá-lo. Ao garantir aos pensamentos um a fundamentação lógica e on tológica válida par a todos os tem pos, p ara todas as mentes p ensantes e indep endentem ente das circuns tân cias em qu e foram pens adas, Frege cria um con cei to d e sen tido in teiramen te a - histórico e a-tem poral.
31 Frege, Gottlob. Inv estigaçõ es Lógicas. Porto Al egre: Edipu crs, 2002. (p.18-19) 32 Idem, p.19.
33 Como já dis cutid o previ amente, Wittgens tein argumentava qu e o mo te d a filosofia era equivocadamen te a essên ci a
do sentido. Equívo co porque a ess ênci a n ão existe, um a vez qu e os sentido s se fazem de m aneira relacion al e nun ca