O contínuo desenvolvimento de alguns estudos protagonizados por alguns arquitetos/analistas relativamente aos elementos de divisão mutáveis anteriormente apresentado, permitiram chegar à determinação e obtenção de alguns elementos de divisão mutáveis evoluídos. Como o próprio nome indica, estes elementos de divisão apresentam características evoluídas que permitem resolver algumas lacunas demonstradas pelos elementos de divisão mutáveis simples.
“A utilização de elementos de maior dimensões que as paredes oferece a possibilidade ao habitante de montar o seu próprio elemento. Estes elementos com mais largura, com dimensões de 60 cm no mínimo, podem fornecer uma variedade de possibilidades de arrumos e dividir simultaneamente espaços.”79 P. Dehan, com o anterior comentário, foi um dos arquitetos que apresentou uma opinião
evolutiva sobre os elementos de divisão mutáveis. Este arquiteto faz uma abordagem analítica mais evoluída, mas ao mesmo tempo conservadora e objetiva. O ato de invenção é colocado de parte e é substituído pelo ato da racionalização dos elementos, que por lógica, existem e são quase que obrigatórios no alojamento. Sendo assim, este raciocínio/sistema, para além da divisão/junção do(s) espaço(s) e/ou compartimento(s) que proporciona, permite simultaneamente evocar um controlo na dispendiosidade económica que os elementos móveis de divisão podem alcançar num alojamento. Por outro lado, o mesmo sistema/raciocínio possibilita também a resolução do problema mais relevante dos elementos de divisão mutáveis “simples”, o barulho.
Os elementos de divisão mutáveis “evoluídos” devidamente projetados e desenhados, podem possibilitar uma flexibilidade evoluída, apresentando uma maior versatilidade de espaços e de utilidade de arrumação. Para além da particularidade destes elementos poderem separar e unir o(s) espaço(s) e/ou compartimento(s), oferecem também simultaneamente, funcionalidades de arrumação, suportes, prateleiras, entre outras possibilidades. Deste modo, podemos afirmar que em determinadas circunstâncias, no lugar dos elementos de divisão mutáveis “simples” é vantajoso utilizar elementos de divisão mutáveis “multifuncionais”. A utilização destes equipamentos de divisão mutável multifuncionais/evoluídos oferece também várias possibilidades de transformar o espaço através da sua localização estratégica, funcionando como ótimos isoladores acústicos. Os elementos utilizados podem albergar vários elementos funcionais, característicos de um determinado espaço e/ou compartimento, como, por exemplo, mobiliário destinado ao quarto ou à sala de estar, entre outros compartimentos.
79. ELEB-VIDAL, Monique; CHATELET, Anne-Marie; MANDOUL, Thierry - Penser l’Habité: le logement en questions. 2.a ed.
Fig. 31 – Joe Colombo - “Total Furnishing Unit”. Museu de arte moderna, Nova Iorque, 1972: a) Módulo cozinha; b) Módulo quarto
No “novo” habitat, a utilização e/ou o desenho destes elementos de divisão mutáveis evoluídos, convertíveis e multifacetados, proporcionam um elevado grau de flexibilidade no interior da unidade habitacional. A abertura e a ocultação que estes elementos facultam, permitem que um mesmo espaço e/ou compartimento possua algumas funções ou até mesmo todas as funções necessárias à prática do habitar o alojamento. Neste caso, a arquitetura deixa de ser a única protagonista e começa a caminhar lado a lado com o design industrial. A criação (design industrial) e a utilização (arquitetura) destes elementos de divisão mutáveis multifuncionais permitem que o espaço da unidade habitacional se possa transformar num espaço transparente, imparcial, mas simultaneamente unido no seu perímetro através do posicionamento estratégico dos respetivos elementos multifuncionais, que possuem todos os equipamentos necessários para a realização da prática do habitar. Estes equipamentos multifuncionais permitem ao habitante no espaço e no decorrer do tempo, executar várias atividades, tais como: ver televisão, ler, ouvir música, comer, dormir, trabalhar entre outras práticas. Um dos exemplos mais emblemáticos, é o elemento multifuncional “Total Furnishing Unit”, criado em 1972 por Joe Colombo e apresentado numa exposição no museu de Arte em Nova York. Este elemento multifuncional é constituído por quatro monoblocos equipados: cozinha, instalação sanitária, armário e cama. Estes monoblocos possuem todos os equipamentos que permitem elabora a prática do habitar no seu pleno, desde o cozinhar, comer, receber convidados, ler, ver televisão, dormir, etc. Cada bloco distribui-se livremente e autonomamente no espaço, permitindo que o elemento multifuncional se adapte a diferenciadas circunstâncias e necessidades proclamadas pelos habitantes, num determinado momento ou período de tempo no interior da unidade habitacional. Por outro lado, a versatilidade do próprio elemento multifuncional, proporciona um espaço à unidade habitacional altamente dinâmico e mutável, passível de transformação constante no decorrer do tempo.80
Fig. 32 – Alan Wexler - “Crate House”. Nova Iorque, 1991: a) Elemento contentor multifuncional; b) Módulo armário/sala; c) Módulo armário/cama
O arquiteto Allan Wexler apresentou também um exemplo simbólico através do seu projeto “Crate House” nos anos 90 em Nova York. Para além da multifuncionalidade, este projeto de elemento de divisão mutável evoluído, assenta também na mobilidade, ou seja, no seu deslocamento instantâneo no espaço habitacional. Esta particularidade permite que o elemento se desloque no espaço evitando a sua projeção e localização fixa. Os três blocos multifuncionais que constituem este projeto e permitem realizar a prática do habitar como cozinhar, comer, trabalhar, ler, estar, dormir entre outras práticas, possuem a possibilidade de se deslocar. Este procedimento possibilita também através da existência de uma caixa central, ocultar e abrir os monoblocos de acordo com as escolhas e necessidades dos habitantes num dado momento ou período de tempo, permitindo uma total e livre manipulação da unidade habitacional.81
A exemplificação destes dois elementos de divisão mutável evoluída, demonstram evidentemente uma grande evolução em relação aos simples elementos de divisão mutável. A multifuncionalidade que proporcionam, para além da separação/junção de espaços, tais como a disponibilidade de arrumação, a incorporação de equipamentos técnicos e de mobiliário destinado a determinados compartimentos, fornece uma grande capacidade de manipular e tornar o espaço altamente dinâmico. Alguns paradigmas tais como o isolamento acústico, acabam por ser resolvidos devido à espessura considerável dos elementos de divisão mutável evoluídos. Por outro lado, estes elementos, demonstram que é possível reunir todas as funções relacionadas com a prática do habitar em espaços reduzidos, favorecendo o aproveitamento do espaço e por vezes uma diminuição de custos no projeto.