Sentidos e significados da atividade de Arte e Cultura em medida socioeducativa: revolucionar para transformar
As falas que sustentam a análise deste núcleo foram proferidas durante a entrevista inicial e em um segundo momento denominado “relato sobre a escolha de uma obra de arte”. Os indicadores são: a) Articulação entre educação e cultura: revolução; b) Atividade transformadora – Eles encontram de tudo no mar: as necessidades deles. Este último núcleo identifica e explica os sentidos e os significados constituídos pelo sujeito para a atividade de Arte e Cultura que desenvolve junto a adolescentes cumprindo medida socioeducativa no ensino não-
formal. Assim, essa atividade é desenvolvida em horário alternativo, por pessoas que não necessariamente possuem curso superior na área, caso de Lucas.
Vale ressaltar que a atuação de Lucas é pautada por dois documentos distintos, porém complementares, a saber: (i) o Caderno de Referência Educação com Arte: oficinas culturais, redigido pela equipe do Cenpec, instituição escolhida por tratar da especificidade do tema medida socioeducativa; e (ii) os Parâmetros Curriculares de Arte, que oferecem diretrizes gerais para o ensino dessa disciplina.
O Caderno de Referência Educação com Arte: oficinas culturais (2010), publicação que tem por objetivo sistematizar e divulgar a prática de Arte e Cultura em medida socioeducativa, considera que com essa finalidade específica a Arte “passa a ser vista como outra via de ação sobre o mundo, uma nova maneira de se apresentar diante da comunidade, uma nova possibilidade de inventar futuros” (CARVALHO, 2010, p. 7). Desse modo, o significado da atividade de Arte e Cultura em medida socioeducativa não incide na profissionalização artística, mas sim no incentivo à criatividade, pois a “liberdade criativa e a manipulação da linguagem viabilizam uma atitude protagônica, em que o diálogo e a contestação de padrões vigentes se dão de maneira construtiva” (CARVALHO, 2010, p. 7).
Os Parâmetros Curriculares de Arte para o Ensino Médio25 (2000), documento cuja finalidade é delimitar a área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, proporcionando a visão da área e de suas disciplinas, define que “conhecer Arte no Ensino Médio significa os alunos apropriarem-se de saberes culturais e estéticos inseridos nas práticas de produção e apreciação artísticas, fundamentais para a formação e desempenho social do cidadão” (BRASIL, 2000, p. 46). A continuação dos estudos em Arte ao longo do Ensino Médio é de suma importância, pois favorece “o interesse por novas possibilidades de aprendizado, ações, de trabalho com a Arte ao longo da vida”. A Arte é compreendida “como um conhecimento humano sensível-cognitivo, voltado para um fazer e apreciar artístico e estético e para uma reflexão sobre sua história e contextos na sociedade humana” (BRASIL, 2000, p. 46). Mas, para Lucas, qual o sentido da atividade de Arte e Cultura?
A atividade de Arte e Cultura em medida socioeducativa envolve a dança, o teatro, a pintura, o canto, o toque de um instrumento, enfim, vários aspectos que compõem e materializam o universo artístico e cultural. A atividade desenvolvida por
25 Opta-se pela utilização do Parâmetro Curricular referente ao ensino médio por corresponder à faixa
Lucas é a dança de rua, que tem seu ritmo, passos ensaiados, com muita improvisação, refletindo, ainda, as expressões, os saberes e os valores culturais “uma dimensão secular que se apresenta como resistência, mobilizando sem cessar a solidariedade na convivência, o respeito à diferença, a decantação do belo e do justo, e não deixa morrer a ética e a estética” (CARRARA; CARVALHO; LIMA, 2010, p. 8). O aluno mostra seus passos em uma performance individual ou coletiva, sendo esta última a forma mais usual. A dança pretende promover não só o encontro do educador com o aluno, mas também o encontro entre os alunos, a convivência, o pertencimento, a identificação, enfim, a socialização. Desse modo, “valores, tradições e expressões culturais compartilhados são imprescindíveis para que os cidadãos se reconheçam pertencentes a uma história [...] e grupo específico e constituam [...] as identidades das diferentes nações e etnias” (CARRARA; CARVALHO; LIMA, 2010, p. 8).
Do aluno exigem-se ora sincronismo e memorização, ora criação. A dança aspira atingi-lo por inteiro: corpo, mente, afeto. Nesse sentido, a dança extrapola a esfera artística e cultural que lhe é própria e articula-se aos conteúdos específicos da educação formal. Nas palavras de Lucas:
A dança é um canal competente para eu alcançar os objetivos lá
na frente. Música e Matemática [juntos], estão revolucionando,
uns caras fantásticos. Então, formas como essas caminham bem. A dança traz uma... uma... Ela dá uma disciplina: você trabalha coordenação motora, você trabalha Matemática, você trabalha Português, você trabalha História, História!
Não tem como você dançar sem fazer Matemática, porque você precisa contar os tempos, você trabalha lateralidade, coordenação motora, tudo isso é estudo. Por exemplo, você trabalha na dança gravidade, que é Física! Às vezes, algumas pessoas se assustam, porque é aula de dança e a gente não tá dançando, porque não precisa ser sempre assim. Hoje estamos trabalhando a história da dança, que já estava escrita nas paredes das cavernas e agora está nos livros.
Articular as atividades pertencentes ao universo artístico e cultural com o conteúdo presente na educação formal é algo que pode ser revolucionário, pois transforma a estrutura e o propósito tanto da atividade de Arte e Cultura quanto da educação.
No cenário contemporâneo, em que o grande desafio é a formação de pessoas que articulem diferentes saberes, de modo que assumam
posturas comprometidas social, ética e politicamente, um dos grandes desafios da educação passa a ser propiciar situações de aprendizagem que interconectem diferentes áreas do saber e coloquem as pessoas em contato com manifestações e produções culturais diversas. (CARRARA; CARVALHO; LIMA, 2010, p. 9).
A integração entre educação e cultura pode, de fato, ampliar os horizontes dos conteúdos ministrados no ensino formal, contanto que seja capaz de provocar o interesse do jovem em aprender a fim de construir novas relações de saber. Quando isso ocorre, legitima-se a relação entre arte/cultura e educação. É isso que Lucas acredita que a dança promove: “um momento de aprendizado para eles e, aí, despertar o interesse neles de estudar de aprender”. Quando empregada na educação, a cultura pode ser uma ferramenta que, ao longo do processo educativo, possibilita a transformação do sujeito. É caminhando para essa meta que as atividades de Arte e Cultura tomam forma, delineiam objetivos e ganham sentido.
[...] fazer essa associação da cultura com educação e usar a cultura como ferramenta mesmo de transformação para educar mesmo, isso é fantástico, mas são poucos que fazem isso. Porque primeiro para exercer esse papel, a pessoa precisa desse entendimento de que cultura é uma ferramenta educativa.
É fundamental que o educador tenha compreensão do potencial e do valor educativo da cultura para que venha a exercer o papel de arte-educador. Desse modo, entender e praticar essa articulação é fundamental para Lucas.
Nessa perspectiva, a cultura não é apenas mediação privilegiada para a educação. Cultura e educação se vinculam irrevogavelmente. Acessar, fruir, processar e criar são uma mesma espiral cultural e educacional. Essa tessitura conjunta constrói conhecimento e saberes, vivências e valores, objetividade e subjetividade. (CARRARA; CARVALHO; LIMA, 2010, p. 9).
Lucas, como arte-educador, constitui para a atividade de Arte e Cultura justamente esse caráter revolucionário, ao ensinar dança a adolescentes que cumprem medida socioeducativa. Esse parece ser o primeiro sentido constituído para sua atividade. Pode-se aqui perguntar: revolucionar para quê? Para formular as interpretações que trazem a resposta para essa indagação é necessário percorrer as falas do sujeito ao escolher uma das obras de arte que lhe foram apresentadas: “a atividade que desenvolvo tem vários sentidos para mim”.
Assim, a partir da apresentação do repertório artístico, que compreende obras de Di Cavalcanti, Glênio Biancheci, Portinari etc. Lucas tem de escolher uma obra para e, por meio dela, expressar os sentidos de sua atividade. Após observar atentamente todas as obras, Lucas faz sua escolha: a xilogravura26 intitulada Os
Pescadores, de Oswaldo Goeldi, disponível em anexo (p. 173). Aparentemente, a pintura em preto e branco e o título são aspectos que mobilizam a reflexão do sujeito na tentativa de expressar os sentidos daquilo que faz. Os dois elementos parecem permitir-lhe um olhar mais concentrado e focado em si mesmo. De fato,
[...] os afetos, as emoções e os sentimentos são revelados nos desenhos, pelo uso das cores: a quantidade de colorido, seja referente ao número de cores diferentes utilizadas, seja quanto a área ou o escopo do colorido; o uso de tons claros ou escuros; o transbordamento da cor sobre o contorno do desenho; a escolha de determinadas cores; o riscar em traços fortes; o misturar cores para a produção de nuances. A cor tem sido considerada em oposição à forma, quanto ao significado básico: enquanto expressaria a vida emocional e afetiva, a forma representaria as atividades intelectuais. (VAN KOLCK, 1984, p. 51-52).
Na obra escolhida por Lucas, o preto predomina, de modo que apenas o contorno do corpo das pessoas retratadas é visto. Suas silhuetas, marcadas somente por uma tênue linha branca, separam-nas do fundo preto da tela. O preto, por sua vez, parece “indicar vida interior sombria, depressão, conflitos não solucionados, tristeza, inibição e repressão” (VAN KOLCK, 1984, p. 52). Para Lucas, a atividade do pescador e sua própria possuem estreita relação, motivo pelo qual a gravura é escolhida:
Porque os caras são pescadores. Esse é o... é... Às vezes, a relação que eu faço com meu trabalho é assim é... nós vamos é... às vezes, a gente... Eu vou pescar e eu sinto que [no trabalho] que tô indo para uma pescaria, entendeu? Mas o título mesmo de pescador vem muito ao encontro, porque eu faço esse papel de pescador, eu encontro pessoas...
As falas acima sugerem que, para Lucas, sua atividade é semelhante à do pescador, pois se este almeja encontrar, buscar o peixe, o educador pretende “encontrar” pessoas, um dos vários sentidos que constituiu para sua atividade. O peixe representa, para o pescador, alimento, o sustento de sua vida. Para Lucas, sua atividade lhe provê seu sustento, notadamente o espiritual. Ao atuar junto a um
público que lhe traz lembranças marcantes de sua infância, o educador faz de sua atividade uma tarefa que o anima e lhe traz uma profunda paz: “o pescador busca alimento, o sustento da vida dele. E, no caso, para mim, é... eu sinto que se eu tiver fazendo algo diferente, eu não vou estar sustentando minha alma. É um trabalho que eu faço, e vou buscar o sustento para minha alma”. Na fala seguinte, o arte- educador refere-se ao sustento material que a atividade lhe confere: “esses peixes já estão lá! Eles só precisam ser descobertos, só precisam ser descobertos... Os caras dessa figura aqui, eles, com certeza, não faziam a pesca esportiva: eles faziam essa pesca para se sustentar. Tem tudo a ver comigo!”.
Aliada, portanto, ao sentido de encontrar pessoas, está a ideia de descobrir pessoas. A atividade proporciona esse encontro, promove essa descoberta, ou seja, trabalha com a possibilidade de aqueles jovens conseguirem superar sua condição atual. Continuando a olhar a imagem dos pescadores, Lucas fala sobre seus alunos tal como um pescador fala sobre o peixe:
Quando eu tô entrando dentro de uma Unidade, eu tô entrando em um lugar... em um mar desconhecido. Eu posso pescar peixe bom, graúdo e, também, peixe ruim...
O pescador não vai atrás do peixe ruim, só que [exclamação], se ele pega o peixe ruim, ele aproveita esse peixe ruim, tem sempre alguma coisa boa para fazer com ele, tem um caldo, enfim, tem vários pratos, para esse peixe ruim.
Da forma como Lucas se expressa, pode depreender-se que sua atividade é capaz de transformar peixe ruim – um aluno desacreditado, em conflito consigo mesmo e com a sociedade, problemático – em um peixe bom – um estudante confiante, ativamente envolvido no que vive e faz, ciente de suas possibilidades. O arte-educador pretende revolucionar para transformar, para fazer do aluno um sujeito autônomo e crítico em relação à posição que ocupa na realidade cotidiana. Logo, o aluno deve perceber-se capaz de conduzir sua história de vida e, assim, tornar-se autor de seu destino:
Eles [os pescadores] encontram de tudo no mar, as necessidades deles. Eu, a minha, é essa: a de transformar! De encontrar os peixes bons e aqueles peixes que foram desqualificados pelas pessoas, as quais não enxergaram nada de bom neles. Aí, eu vou lá e encontro eles. Dentro do meu papel, eu deixo bem claro que a partir do momento que eles começarem a escrever a história deles, eles vão escrever melhor. O meu papel é fazer eles enxergarem que são bons! E eles enxergam, vários enxergam...
Como se pode perceber, na atividade docente que tem por base a prática problematizadora as circunstâncias da vida humana não são magicamente dadas. Ao contrário, acredita-se que a vida resulta da ação humana em um determinado tempo e lugar, que é social e historicamente determinado. Posturas “fatalistas”, nas quais o futuro é certo e imutável, não têm mais lugar: trata-se de construir a realidade. Essa apreensão não se dá naturalmente nem transforma a realidade de forma imediata. Mas é ela que oferece ferramentas para o homem lutar contra situações que ferem sua humanização (FREIRE, 2005).
É preciso assinalar que o sujeito não é o único responsável pela condição em que se insere, nem tampouco se espera que ele supere, por si só27, as muitas e
variadas situações-problema que a vida lhe coloca. Em sua relação com o mundo, as estruturas sociais, econômicas e políticas tentam manter o status quo. Assim, faz- se necessário um esforço conjunto, da educação, da economia, da sociedade e da política para humanizar e instrumentalizar os sujeitos, preparando-os para transpor os obstáculos e tornar suas vidas melhores. A entrada da cultura no ambiente escolar ainda é um desafio. Certamente, há caminhos que, se seguidos, podem permitir isso: a escolha de uma matriz curricular que valorize a cultura local em sua expressão mais plural e diversificada e a interface da escola com os produtores e as produções culturais (SETUBAL, 2011). Enfim, a atividade de Arte e Cultura, desenvolvida por um arte-educador que atua junto a jovens em medida socioeducativa, têm por sentido revolucionar a educação, por meio da articulação Educação e Cultura, égide de uma atividade que tem por princípio encontrar pessoas e possibilitar a transformação de um povo, de vidas, da história.