Em sua “história do currículo”, Goodson (1995) confere ao Mercantilismo o lócus original dessa “invenção social”. O Mercantilismo foi o nome dado a um conjunto de práticas econômicas, desenvolvidas na Europa entre os séculos XV e XVIII, com o objetivo de obter e preservar a riqueza que marcou a transição da sociedade tradicional para a Modernidade, e do regime feudal para a sociedade capitalista. Em geral, as políticas mercantilistas ditavam que a riqueza de uma nação residia na acumulação de metais preciosos. As modificações ocorridas em várias esferas da realidade social: jurídica, política, econômica, social e ideológica, forjaram as pré-condições para o advento do sistema capitalista, com a reestruturação do sistema educativo e da instituição escolar objetivando a formação do homem necessário para a nova sociedade. É neste contexto que ocorre a passagem do ensino individualizado, onde preceptor e aluno se defrontavam para as escolas organizadas em classes. Por sua vez, as classes deveriam percorrer um determinado percurso com todas as provas e obstáculos, em semelhança à idéia de um circuito atlético, estabelecendo-se aí, a passagem do termo curriculum do contexto do
mundo do exercício físico para o pedagógico. Assim os alunos que conseguissem passar por todo o curriculum recebiam o diploma, pelo qual a escola se responsabilizaria, como maneira de atestar a formação de homens necessários às exigências da sociedade da época. Sobram razões para acreditar que a conduta moral estabelecida na relação preceptor-aluno era diferente daquela que guiava a relação professor-aluno em classes, pois, sendo uma vivenciada em níveis individuais e a outra abrangendo um sentido coletivo. No ambiente coletivo, aparecem as negociações e regras comuns de conduta, que coincidiam com a moral do “homem de negócios” necessária ao funcionamento da economia capitalista. Assim o currículo confere organização ao trabalho escolar para a formação deste ideal de homem, necessário aos novos tempos.
No final do século XIX e início do século XX, a economia da América do Norte atravessou um período de substituição da sua base rural, agrária e familiar para um crescente processo de industrialização e divisão do trabalho. A utilização de novas fontes de energia e o desenvolvimento de técnicas de transformação para o uso na produção e nos transportes, promoveram o desenvolvimento da indústria automobilística, transformando o quadro industrial. Um novo tipo de mão-de-obra qualificada é exigido dos construtores da nova indústria, influenciando na sua formação. A expansão e o crescimento da economia aceleraram a competitividade, tendo como base a produção padronizada e em série para o consumo de massa. Era imperativo, nestas circunstâncias, baixar os custos e para isso a prioridade seria racionalizar a produção. A organização do trabalho vai se sistematizando e o taylorismo e o fordismo emergem como duas vertentes interligadas da organização científica do trabalho. Fruto do trabalho de Frederick Wislow Taylor, o taylorismo é uma construção teórica na qual os técnicos tentam regular a produção e as relações sociais, aplicando seus princípios na organização das empresas e desenvolvendo o controle dos homens. Para Nunes (2007, p.115):
Os pressupostos tayloristas acentuavam a divisão social e técnica do trabalho, separando o manual do intelectual” [...] entre os métodos, encontrava-se o barateamento da mão-de-obra e, concomitantemente, a desapropriação dos conhecimentos dos trabalhadores.
A separação do trabalho manual e do trabalho intelectual, assim como a decomposição rigorosa dos elementos gestuais em operações de fácil manuseio, acompanhado de centralização das decisões, afastou o trabalhador das decisões, gestão e controle empresarial.
Por sua vez, o fordismo (trabalho em série em esteira transportadora) consistia na reconstituição das seqüências do trabalho segundo uma ordem lógica e simples. Dentre as vantagens alentadas pelo seu criador, Henry Ford, destacam-se a economia de espaço e de tempo distribuídos de um modo mais racional, seja pelas matérias primas que chegam ao operário, seja pelo ritmo de fabricação que lhes é imposto. O operário não precisa conhecer a máquina, pois, em caso de dificuldade, deve chamar o “superior”, que é quem detém o conhecimento sobre o seu funcionamento.
Segundo Nunes (2007, p.115):
Essa lógica favoreceu a divisão social e técnica do trabalho, pois entender todos os passos da produção e o que a motivou era função de pouquíssimos especialistas. O desenvolvimento cada vez maior de novas tecnologias reduziu gradativamente a ação trabalhadora às atividades mais simples e rotineiras.
Por decorrência, a hierarquia é reforçada, as promoções se processam por mudanças de serviço, os chefes de linha são selecionados entre os mais aptos a evitar uma greve, as chefias mais elevadas têm por função ordenar e não explicar, e a informação circula de forma vertical e individual, nunca coletivamente.
Valendo-se desses princípios da Administração do Trabalho, advindos da produção capitalista, Bobbit (citado por Apple, 2006), concebe o currículo como meio de desenvolver o que chamou de grande consciência de grupo, onde não havia lugar para os diferentes e divergentes.
Para Apple (2006, p.107) “o interesse dos primeiros teóricos a estruturarem o currículo estava na preservação do consenso cultural e, ao mesmo tempo, em destinar aos indivíduos ao seu ‘lugar’ adequado numa sociedade industrial independente”.
Desta forma, o processo de anulação gerado pela sociedade de produção é transportado para o domínio escolar, repetindo a fragmentação e a distorção do trabalho produtivo, impedindo que seus atores percorressem uma trajetória crítica sobre a realidade. Aparentemente a educação acolheu as práticas que conduziam à obediência e à submissão ao sistema e perante aqueles que ocupassem posições hierárquicas mais elevadas.
No início do século XX, os educadores americanos Tyler e Dewey, embora com perspectivas diferentes, criticavam o currículo por seu distanciamento da realidade.
Enquanto Tyler (1974) propunha um currículo com enfoque tecnicista, enfatizando o estabelecimento de objetivos comportamentais para atender as exigências do desenvolvimento econômico de base industrial, Dewey (1965) voltava-se para os interesses e atividades infantis e propunha um currículo com enfoque ativo.
Em suas palavras, “trata-se de obter uma reconstrução contínua, que parta da experiência infantil, a cada momento, para a experiência representada pelos corpos organizados de verdades, a que chamamos matéria de estudo” (p. 48).