5. Forslag til endringer i strategi
5.3 Evaluering av effekt av endret strategi
No Egito, Israel é um povo pobre e oprimido que, junto com Iahweh luta para libertar-se da escravidão. Com ele, pôs-se também a caminho a multidão que não concordava com a escravidão imposta pelo Faraó Ramsés II (cf. Ex 12,38. A resistência aos monarcas, forma de governo conhecida na época, tornou-se característica comum dos movimentos de insurreição e migração que formaram a nação de Israel. Para os cananeus, os israelitas eram uma nação de servos fugitivos dos seus senhores150.
Segundo o profeta Ezequiel 16,3 Israel é filho de um amorreu e de uma hetéia. É um povo santo, que Deus escolheu entre muitos povos existentes e a ele se manifestou como parceiro nas suas lutas contra as opressões (Ex19,5-6). É o Deus dos escravos do Egito (cf. Ex3,7-8). O Deus de Abraão,
148 Cf. AA 7.
149 Cf. DSD 169-177. 150
de Isaac, e de Jacó que quer estabelecer com Israel uma aliança e torná-lo povo na terra onde residia como estrangeiro151. É o Deus que ouve os clamores de Israel, como ouve também os clamores dos povos que não o conhecem. Porque Israel não era melhor do que os outros povos. “Não sois para mim como os cuchitas, ó filhos de Israel? [...] Não fiz Israel subir da terra do Egito, os filisteus de Cáftor e os arameus de Quir”(Am9,7)?. À intercessão de Abraão, antepassado de Israel, Iahweh responde que ele mesmo irá intervir em favor dos oprimidos de Sodoma e Gomora (cf. Gn18,21).
A Israel, o menor dos povos, Deus elegeu e confiou uma missão. "Tu és um povo consagrado a Iahweh teu Deus; foi a ti que Iahweh teu Deus escolheu para que pertenças a ele como seu próprio povo, dentre todos os povos que existem sobre a face da terra" (Dt7,6) para lhes ser bênção (cf. Gn12,3).
Sua eleição não foi definida pelo seu prestígio político, social e nem tampouco econômico. Israel foi escolhido por amor e para manter a promessa que Iahweh jurou aos seus antepassados (cf. Dt7,7-9). É o povo consagrado para revelar o amor de Iahweh às nações.
As promessas e os dons que recebe são meios para servir melhor, não são indicadores de poder. São bens que
151 “O vínculo genealógico que fez de Abraão pai de Isaac e avô de Jacó
foi uma forma de reafirmar a unidade das tribos”. PIXLEY, Jorge. A
devem ser partilhados e na partilha, como todos os dons de Deus, se multiplicam.
O envio de mensageiros, entre o povo de Israel, estará sempre vinculado à aliança e às promessas de Iahweh para com seu povo. Ele é o Deus dos oprimidos que com eles empreende as lutas de libertação (cf. Dt4-23; Ex5,1).
Abraão
Nos capítulos 12 até 25 do livro do Gênesis, a Bíblia apresenta Abraão e Sara. Um casal estéril e já idoso que deixa sua terra e inicia uma longa peregrinação em busca de uma terra melhor. No caminho, Deus revela-se “três pessoas” peregrinas que o casal acolhe e serve. Meu Senhor exclama Abraão:
eu te peço, se encontrei graça a teus olhos, não passes junto do teu servo sem te deteres. Traga-se um pouco de água e vos lavarei os pés, e vos estendereis sob a árvore. Trarei um pedaço de pão, e vos reconfortareis o coração antes de irdes mais longe”(Gn18,3-5)!
Peregrinos e hóspedes, Abraão e Sara acolhem e hospedam gratuitamente os mais necessitados. Tornam-se bênção para os povos152.
152 Um monge russo André Rublev, no início do século XV pintou um ícone
com esta cena de Gn 18,1-5. “Nós, cristãos, fazendo a releitura do texto ficamos eletrizados com a aparente incongruência nas palavras de Abraão que viu três e os convida como se fossem um só. Abraão jamais viu e ouviu, como tantos reis e profetas do passado o que nós temos o privilégio de conhecer: o mistério do Reino, o mistério íntimo de Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo. Cf. Lc 10, 23-24.” No ícone, o autor coloca em destaque três aspectos da Ssma. Trindade: a igualdade, a diversidade e a unidade. Pintou este quadro em honra de São Sérgio de Radonesh, monge do século XIV que, naquele tempo violento e perturbado pela guerra (invasão dos tártaros), confortava o povo
A vida de Abraão e Sara (cf. Gn12,25)153 antepassados de Jesus (cf. Mt1,1) na história de Israel154, encontra-se em seguida aos onze capítulos que evidenciam como a maldição entrou no mundo através da ação humana. E como esta ação foi deteriorando a qualidade de vida e destruindo a bênção com que Deus havia abençoado a vida no dia da criação. Abraão traz de volta ao seu povo a bênção de Deus.155 É o primeiro de muitos homens e mulheres protagonistas de uma missão.
Assemelha-se a Abraão,
todo aquele que, em nome da sua fé em Deus e por causa do seu amor à vida, se levanta contra toda uma situação de injustiça e de maldição, criada pelos homens, e que, para mudar esta situação, está disposto a abandonar tudo, a trocar o certo pelo incerto, o seguro pelo inseguro, o conhecido pelo desconhecido, o presente pelo futuro"156.
No texto chave sobre o início de sua peregrinação cf. Gn12,1-3;18,18;28,14 concentram-se três proposições, assim apresentadas:
(1) “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei.
(2) Eu farei de ti um grande povo,
cristão com suas pregações sobre a Ssma. Trindade. “Vamos vencer a crueldade do mundo com a contemplação da Ssma. Trindade” era o seu lema. TEPE, Valfredo. Nós..., op. cit., p. 21-22.
153 Abraão viveu em torno dos anos 1800-1700 antes de Cristo. Saiu de
UR, atual Iraque, perto do Golfo Pérsico. Foi até a cidade de Haran, no atual país da Síria. De lá desceu até a Palestina, entrou no Egito e voltou para a Palestina onde morreu na cidade de Hebron. Cf. Gn 12,25.
154 Israel indica o grupo étnico unido no culto de Iahweh, e ocupando -
primeiramente numa organização tribal elástica, depois numa monarquia, e em seguida dividido em duas monarquias - o território de Canaã, na Palestina.
155 Cf. MESTERS, Carlos. Abraão e Sara, p. 21. 156
eu te abençoarei,
engrandecerei o teu nome; sê uma bênção!
(3) Abençoarei os que te abençoarem, amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Por ti serão benditos todos os clãs da terra”.
Estes versículos, lidos em continuidade com os onze primeiros capítulos do Gênesis, constituem resposta aos anseios dos povos de Canaã. Dispersos pela confusão da torre de Babel (Gn11,8-9) encontram em Abraão, o homem da fé, do caminho, da acolhida e da gratuidade. O interlocutor entre eles e Deus. Nele, Deus retoma o diálogo com a humanidade. Por isso torna-se pai de um grande povo. Nele, a desgraça de Babel se converteu em graça, bênção e promessa para a humanidade (cf. Gn12).
As bênçãos, mencionadas cinco vezes em Gn12,1-3, são sinais visíveis da misericórdia de Deus, diante das maldições, cinco vezes mencionadas em Gn1-11, onde são sucessivamente malditos: a serpente, o solo, Cain e Canaã Gn3,14.17; 4,11; 5,29; 9,25.
Sua descendência, que não dependerá nem do sangue nem da carne (cf. At3,25; Gl3,6-9) também foi transformada em "lugar em que se dá à humanidade inteira a bênção que reata o fio do desígnio de Deus por ocasião da criação"157. “Assim, pois, se os destinos da humanidade pecadora foram
157
esboçados em Adão, o pecador, os da humanidade salva se esboçam em Abraão, o crente”158.
Várias partes do relato já manifestam a conseqüência e o ponto culminante da adesão de Abraão: ele e sucessivamente o seu povo são mediação de bênçãos e de unidade para os povos em dispersão (Cf. Gn12,3; 18,18-19; 22,18). Por isso é escolhido
para que instrua seus filhos, sua casa e seus sucessores, a fim de que se mantenham no caminho de Iahweh, praticando a justiça e o direito; desse modo Iahweh realizará tudo o que prometeu a Abraão"(Gn18,19).
Abraão é bênção para Lot ao entregar-lhe a melhor parte das terras (Gn13,1-12) e ao salvá-lo, com suas duas filhas, da destruição de Sodoma e Gomorra (Gn19,1-29). Com a intercessão de Abraão a bênção podia chegar aos que estavam ameaçados de morte (Gn18,18. Mas, ao falhar em sua missão, fazendo passar sua esposa por sua irmã, Abraão acarreta maldições em vez de bênçãos (Gn12,10-20). Com Isaac e Jacó (cf. Gn17,15-22; 21,8-13; cf. Rm8) Deus renovará as promessas celebradas na aliança com Abraão (Gn26,3-5;28,13s) e eles as transmitirão como herança, aos seus descendentes (Gn28,3-4; 48,15-16; 50,24). Da dispersão, Abraão educa o seu povo159 tornando-o sinal de
158 LÉON-DUFOUR, Xavier (dir.). Abraão. Vocabulário de teologia
bíblica, p. 4.
159 O termo "povo", em hebraico designa laços de parentesco. Só no
bênção para a humanidade (cf.Gn18,19;Eclo44,19-21;cf.Sl 47,10).
Moisés
Moisés, salvo das águas, é educado na corte do Faraó do Egito. Ao tomar conhecimento da opressão a que seu povo era submetido, quis libertá-lo sozinho e com suas próprias mãos. Neste esforço solitário e impositivo, tornou-se homicida e fugitivo (cf. Ex1,8-2,15; At7,12-43).
No deserto Moisés é procurado por Iahweh, o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Revela-lhe o seu nome, torna-se seu companheiro e aliado. A pedido deste Deus, Moisés retorna ao Egito, mas para libertar o seu povo (Ex3,1-10). Conhece as dificuldades desta missão, conhece também seus limites, por isso não volta sozinho (Ex3,11ss). Parte em companhia de Aarão. E, junto com seu povo que opta por uma vida mais digna, inicia a longa caminhada do êxodo após "quatrocentos e trinta" anos de opressão (cf. Ex12,40ss). Aos clamores do seu povo, Iahweh responde enviando Moisés e Aarão:
Eu vi, eu vi a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor por causa dos seus opressores: pois eu conheço as suas angústias. Por isso desci a fim de libertá-lo da mão dos egípcios, e para fazê-lo subir àquela terra boa e vasta, terra que mana leite e mel, o lugar dos cananeus, dos heteus, dos amorreus, dos ferezeus, dos heveus e dos jebuseus. Agora, o clamor dos filhos de Israel chegou até mim, e também vejo a opressão com que os egípcios os estão oprimindo. Vai, pois, e eu te enviarei a Faraó, para fazer sair do Egito o meu povo, os filhos de Israel (Ex3,7-10).
Desde o início, o processo conhece as dificuldades dialéticas das mudanças. “A luta contra o rei transformou- se numa luta entre deuses: de um lado, o Faraó com direitos sobre a vida de todos os egípcios; e do outro, Iahweh que escutava o clamor dos oprimidos”160. Moisés propunha lealdade exclusiva a Iahweh porque, o seguimento a outros deuses podia representar um retrocesso à escravidão. Só Iahweh era o Deus libertador161.
Esta luta para permanecer fiel a Iahweh numa longa caminhada, Israel interpretou-a como sua experiência fundamental de libertação. Dela não se esquecerá, principalmente nas dificuldades. Foi o evento onde Israel descobriu a ação libertadora de Deus através da mediação humana de Moisés. É a experiência de um povo escravo que quis transformar sua vida a partir dos apelos de um Deus que, aliado aos oprimidos, manifestava-se nas vitórias da liberdade sobre a escravidão:
Vós mesmos vistes o que eu fiz aos egípcios, e como vos carreguei sobre asas de águia e vos trouxe a mim. Agora, se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, sereis para mim uma propriedade peculiar entre todos os povos, pois toda a terra é minha. Vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa (Ex19,5-6; cf. 19,7-8).
A retomada do caminho, diante das inúmeras dificuldades, foi o grande e contínuo esforço de conversão que o povo continuamente foi convidado a refazer e a
160 PIXLEY, Jorge. A história..., op. cit., p. 19. 161
celebrar. Um esforço de conversão, que Carlos Mesters chama de humanização progressiva da vida pois na medida em que caminhava, o povo tornava-se “mais livre, mais responsável, mais sensível aos problemas humanos, mais consciente, mais fraterno, tinha mais força e coragem para continuar pela estrada da vida”,162 construindo a própria libertação.
Nesta marcha a ambigüidade nunca deixou de aparecer. “No limiar da liberdade, tudo parecia fracassar. Encurralado entre o mar e o exército egípcio, o povo desanimou e revoltou-se contra Moisés”163 contestando:
Não havia talvez sepulturas no Egito, e por isso nos retiraste de lá para morrermos no deserto? Por que nos trataste assim, fazendo-nos sair do Egito? Não é isto que te dizíamos no Egito: Deixa-nos, para que sirvamos os egípcios? Pois, melhor nos fora servir aos egípcios do que morrermos no deserto164.
Moisés responde apelando para a força da fé em Iahweh que continuará combatendo fielmente com eles Ex14,13-14165.
Em cada etapa superada, nasce em Israel uma nova consciência, um novo horizonte da fé (Ex14,31). Compreende que não precisa sair do Egito, apressadamente como fugitivo, porque Iahweh está sempre à sua frente e na retaguarda (Cf. Is52,12). Sua presença qualifica sua história, sua vida social, política, econômica e religiosa (cf. Ex15, 1-18; Jz5,2-31; Sl18 e 68). É a experiência que
162 MESTERS, Carlos. Deus, onde estás, p.32. 163 Ibidem, p.36.
164 Ex 14,11-12. 165
lhe permite proclamar: Deus nos libertou, somos o seu povo (Ex19,4-6) porque:
"Nosso Deus é o Deus
que faz justiça aos oprimidos, dá o pão aos famintos,
abre os olhos aos cegos, ampara o órfão e a viúva, liberta os cativos,
ama os justos,
reabilita os humilhados, abriga os marginalizados
e entrava o caminho dos maus!”cf. Sl145,7-9166; cf. também Ex15,
1-18; Dt32,1-43; 33,1-29.
Moisés encaminha o povo para a terra prometida. Avista seus horizontes, mas a morte o surpreende antes da chegada.
O êxodo que começou no Egito, ainda não terminou. Continua criando novos caminhos e desvendando novos horizontes. É o paradigma do caminho de todas as pessoas que na humanidade se comprometem para que seja justa, fraterna e igualitária. É o evento que “narra como um grupo misto de gente que servia o rei do Egito, guiado por Moisés, o profeta de Iahweh, saiu em busca de uma terra onde corresse leite e mel”167.
Apesar de ignorado pelos monumentos e arquivos daquela época, este acontecimento bíblico continua moldando vidas e inspirando consciências libertadoras de muitos homens e mulheres. Moisés, não mencionado nos hieróglifos egípcios, continua fazendo história e abrindo caminhos
166 Conferir a versão do salmo em: MESTERS, Carlos. Abraão e Sara, p.
81.
167
alternativos entre as atuais opressões do nosso mundo globalizado168. Torna-se relevante para o estudo missiológico constatar como “a religião de Israel transformou ocorrências insignificantes em eventos históricos”169. Por isso, no aprofundamento da missão no Antigo Testamento é decisivo notar que:
a religião não só se desenvolve dos ingredientes de eventos seculares, mas também deixa marca definida sobre o curso da história secular. A religião bíblica está encaixada entre o secular; a adoração de Israel a Deus e sua literatura sagrada estavam entrelaçadas dentro „do domínio da história secular universal‟. Enquanto a religião defendia aquele aspecto das origens de Israel que o chamavam à parte e o separavam das nações, as origens seculares e o impacto secular continuado sobre a expressão religiosa de Israel estavam sutil, porém inexoravelmente convocando Israel para o mundo exterior170.
Os Profetas
Os movimentos de insurreição e migração que formaram a nação de Israel tinham em comum a característica da resistência ao regime monárquico. (cf. Jz 8,22-23; 9,7-15; 1Sm 25,10-11).
Esta opção social manteve unidas as tribos patriarcais, experienciando uma colaboração coletiva entre elas, principalmente em casos de defesa contra ameaças exteriores (cf. 1Sm8,7; Nm23,22; Dt33,4-5; Jz5; 6-8; 10-11. Enquanto conseguiram viver nesta nova sociedade de tradição igualitária e antimonárquica, ficaram livres de
168 Cf. SENIOR, Donald e STUHLMUELLER, Carroll. Os fundamentos bíblicos
da missão, p. 22.
169 Ibidem, p. 22. 170
pagar tributos a um rei. Seus bens cessaram de ser esbanjados pela família real e passaram a ser partilhados entre as tribos reorganizadas. Normalmente a distribuição do que era cultivado e produzido, acontecia através de celebrações em que Deus também tomava parte (cf. Lv1-7). Nesta convivência, ia desaparecendo, entre as tribos, a injustiça que gerava relações de escravidão.
Aos poucos, porém, os juízes internos corromperam-se na administração da justiça (cf. 1Sm8,5). A defesa de voluntários fraquejava sob pressões oriundas principalmente dos filisteus, cada vez mais hábeis do que Israel. A produção agrícola começou a gerar excedentes de maneira desigual e competitiva, porque desigual era a fertilidade do solo ocupado por cada tribo171.
Os problemas e as pressões internas e externas favoreceram, em Israel, a centralização do poder político, econômico, militar e religioso, como faziam outros povos.
O sistema tribal, com um mínimo de estruturas sociais maximizando as relações justas e fraternas é tragado por uma organização hierarquicamente estruturada beneficiando poucas pessoas. A autoridade e a participação do povo foram enfraquecidas e as do rei, fortalecidas e exaltadas.
Saul, primeiro rei, inicia este processo criando as primeiras estruturas proto-estatais172. Pouco antes do ano
171 Cf. PIXLEY, Jorge. A história..., op. cit., p. 17-18. 172
1000 a.C, o rei Davi transformará a nação de tribos em nação-estado.
Israel, nascido da resistência à dominação dos reis, tornar-se-á aos poucos uma monarquia, gerando opressões semelhantes às conhecidas no tempo da escravidão do Egito. Dois elementos novos emergem a partir deste regime monárquico:
a- os exércitos, provavelmente organizados por tribos de resistência, reagiram com violência para controlar as ambições dos reis (cf. 1Rs16,9)173.
b- outra forma de resistência à tirania dos reis foi a participação dos profetas de Iahweh na vida pública. Denunciavam o descaso pelo bem estar do povo e o desrespeito às tradições que defendiam os direitos dos pobres174.
Estas duas formas de resistência manifestaram-se durante todo o período monárquico de Israel. Delas fazem memória, principalmente, os livros históricos e proféticos do Antigo Testamento. A instituição do ano sabático e do
173 Deles emergiram pessoas que conseguiram interromper a perpetuação
da linhagem familiar dos monarcas instituídos. Assim, por exemplo, Baasa de Issacar matou, no acampamento militar, a Nadab, filho de Jeroboão, tomando-lhe o trono,173 no ano 909 a.C.; Zambri, chefe da
metade dos carros, matou o rei Ela, filho de Baasa, no ano 885 a.C.
174 Esta vocação destacou-se, tanto no período de submissão de Israel
às dinastias reais autóctones quanto nos períodos das várias hegemonias estrangeiras no país. Os profetas e profetizas mantiveram viva a tradição de Iahweh, do Deus que se alia aos oprimidos para com eles construir uma vida digna, liberta das opressões. É interessante recordar os períodos hegemônicos: hegemonia assíria na Palestina: 738- 630 a.C.; hegemonia babilônica: 605-539; hegemonia persa: 539-332; dominação helenística: 332-167; insurreição macabéia e o governo hasmoneu: 167-63; dominação romana: 63aC-135d.C.
jubileu ajudará o povo a resistir, mantendo uma consciência crítica frente ao sistema tributário e alimentando a esperança da utopia do êxodo175. A teologia davídica, que começa a ser elaborada principalmente a partir do rei Davi, justificará a presença dos reis como os escolhidos por Iahweh para defender os pobres. Desde então Israel focalizará o êxodo como o processo paradigmático de libertação e a eleição dos reis, como os enviados de Iahweh para educar o povo na vivência da Aliança com Iahweh.
Não obstante o peso da ambigüidade que a teologia davídica carrega, nela encontram-se elementos autênticos da fé em Iahweh, do Deus do êxodo, e pode servir de fonte importante para o messianismo de Jesus.
No Sinai, a Aliança entre Iahweh e seu povo aconteceu através da mediação de Moisés. Com Iahweh, Israel compreende e pratica a maneira de agir de Deus para com os pobres. Dele aprende abençoar176 e tratar os pobres com misericórdia, solidariedade e gratuidade, porque assim foi tratado por Iahweh, quando foi libertado da escravidão na terra do Egito (cf. Dt5,15; 24,22).Entre eles não haveria
175 Cf. RICHARD, Pablo. Jubileu do ano 2000, p. 10-17.
176 Cf. Ex. 19,3-8; Dt 4,13.23.31; 5,2.3; 7,9.12; 8,18; 9,9; 17,2;
31,16; 33,9. Na Bíblia é quase sempre Deus quem abençoa. No entanto, o Dt faz notar que, em posse da terra, o povo aprende a bendizer a Iahweh (cf. Dt 8,10); Moisés também abençoa seu povo (Dt 33,1); Levi e as tribos abençoam em nome de Iahweh (cf. Dt 10,8; 21,5; 27,12). É fantástico notar que o pobre também sabe abençoar (cf. Dt 24, 12-13). “No amor que gratuitamente assume a favor de seu povo, Deus se responsabiliza pelo bem desse mesmo povo. Assim, este, assumindo a mesma atitude de Deus, deve responsabilizar-se igualmente pelo bem de seu próximo”. Da SILVA, Domingos Sávio. Responsabilidade moral no Deuteronômio. Em: Espaços/ITESP, p. 102.
pobres se o amor que moveu Iahweh em seu relacionamento com Israel, desse forma a todos os seus relacionamentos sociais, estruturais e pessoais (cf. Dt 15,4-5; 7-8.11; 1,16-17, 5,12-21; 6,4-5; 13-15.24; 10,15-19; 19,14; 22,1-4; 23,16-17.20-25; 24, 12-14; 19-22ss).
A teologia davídica, porém, sublinha que a aliança de Iahweh é estabelecida, não entre Iahweh e seu povo, mas entre Iahweh e Davi. Esta aliança é eterna e inquebrantável, porque fundada sobre um juramento de