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Seguindo o raciocínio do economista Celso Furtado, encontramos, em suas propostas, três pistas para a superação da exclusão103.

A primeira consiste na programação de “coletivização dos meios de produção” através do controle coletivo das atividades econômicas de maior peso, em todos os níveis. Teoricamente, afirma o mesmo autor, é possível programar as atividades de um conjunto de pequenas unidades operativas, articuladas em um só sistema. Conforme o mesmo autor, a coletivização plena transforma a possibilidade teórica em necessidade prática. Ao transitar neste modelo, assegura o economista citado, é necessário confrontar-se também com algumas dificuldades:

a) de organização social, que responda pela definição de prioridades na alocação de recursos escassos.

b) de sistema de incentivos, que concilie o melhor desempenho das atividades produtivas com a desejada distribuição de renda; e

c) de inserção na economia internacional, que assegure o acesso à tecnologia e aos recursos financeiros fora das relações de dependência104.

A segunda pista consiste em dar prioridade à

103 FURTADO, Celso. O capitalismo..., op. cit., p. 50-54. 104

satisfação das necessidades básicas de emprego, alimentação, saúde, moradia, educação e lazer para todos. A solução deste problema, afirma Celso Furtado, “é de natureza política e exige que parte do excedente seja deliberadamente canalizada para modificar o perfil de distribuição da renda, de forma que o conjunto da população possa satisfazer suas necessidades básicas”105. A maior dificuldade a ser superada será de “gerar uma vontade política capaz de por em marcha um tal projeto, pois a estrutura do sistema produtivo e o perfil de distribuição da renda se condicionam mutuamente”106.

Além destas dificuldades soma-se a constatação de que:

A reciclagem dos sistemas produtivos em função de padrões de consumo menos elitistas poderá exigir novos investimentos, acarretando elevação de custos. Produz- se, dessa forma, um efeito perverso: a tecnologia requerida para satisfazer as necessidades de uma população de baixo nível de renda pode ser mais cara, pois está substituindo outra que, embora mais sofisticada, tem custo de oportunidade zero para a empresa que a utiliza107.

A terceira pista Celso Furtado descreve como ganho de autonomia externa, assumindo uma posição ofensiva nos mercados internacionais108. Para ele, os investimentos devem ser orientados de forma a favorecer setores com capacidade competitiva externa potencial e que tenham ao mesmo tempo 105 Ibidem, p. 51. 106 Ibidem, p. 52. 107 Ibidem, p. 52. 108 Cf. Ibidem, p. 53.

efeito indutor interno. Desse modo, afirma o autor, operam como motor da formação do mercado interno109. As exportações, comenta o mesmo economista, precisam apoiar-se na economia de escala e no avanço tecnológico, e não em vantagens comparativas estáticas. O êxito dependerá da posição de vanguarda dos produtos exportados porque esta dá flexibilidade e adaptabilidade à exportação110.

Esta pista ajuda a superar a situação de dependência e passividade imposta pelo sistema básico de divisão internacional do trabalho. E nos incentiva a adotar uma postura ofensiva fundada no controle de certas técnicas de vanguarda e de iniciativa comercial. Isto, porém, requer um planejamento seletivo rigoroso e o logro de uma elevada taxa de poupança111.

Dois problemas acompanham esta terceira pista. O primeiro, adverte Celso Furtado, é o da identificação das bases sociais de uma estrutura de poder apta a levá-lo à prática. O segundo é o da convivência com o controle de empresas transnacionais das atividades produtivas com potencial de exportação. Estas tendem a limitar a capacidade de ação na esfera internacional. E podem criar obstáculos a esse tipo de estratégia112.

Embora a convivência humana seja estruturalmente dialética, é preciso que estes suportes ideológicos nos 109 Cf. Ibidem, p. 53. 110 Cf. Ibidem, p. 53. 111 Cf. Ibidem, p. 53. 112 Cf. Ibidem, p. 53

levem a superar as atuais contradições entre a hegemonia do mercado e os direitos humanos democráticos.113 Os interessados, para que isso aconteça, somos nós, o povo solidário e, particularmente, os mais empobrecidos. Este objetivo vem sendo realizado na medida em que, superando o peso da nossa inércia e da nossa falta de perspectivas, vamos abrindo espaços e caminhos de participação de todos. O que nos anima nesta caminhada são fatos e realizações que já apontam na direção de transformações desde o início da década de 1990, como por exemplo a realização das consecutivas grandes conferências mundiais da ONU sobre:

- “direitos das crianças” (Nova York, 1990); - “meio ambiente” (Rio de Janeiro, 1992); - “direitos humanos” (Viena, 1993);

- “crescimento demográfico” (Cairo, 1994); - “desenvolvimento social” (Copenhague, 1996); - “os direitos das mulheres” (Pequim, 1995); - “o habitat humano” (Istambul, 1996;

- “a alimentação” (Roma, 1996);

- “as mudanças climáticas” (Kyoto, 1997).

113 A democracia, considerada como regra para a administração da

dimensão política da sociedade move-se regida pelos direitos humanos, políticos, pluripartidários. Se o mercado é colocado como princípio superior isso leva a uma democracia de baixa intensidade, que é viver numa sociedade em que se pode votar livremente, esquerda ou direita, branco ou vermelho, mas isso não vai alterar nada, porque seu futuro está vinculado ao mercado, não às escolhas, afirma Samir Amin. Cf. ARBEX, José Jr. Caros Amigos, “Money-teísmo” ameaça a democracia, diz Samir Amin, IV/40 (julho 2000): 44.

- “Contra o racismo” (África do Sul, 2001)

- “Conferência Mundial de juventude (México, 2010)

- “Determinantes sociais da saúde” (Rio de Janeiro, 2011) - “Meio Ambiente” Rio de Janeiro (maio\2012)

- “Rio + 20”: fome mundial e o progresso sustentável das Nações (Rio de Janeiro, 2012).

As crescentes frustrações nos fazem compreender que estas expectativas devem ser continuamente construídas e reconstruídas. Revela-nos também que nem todos estão interessados nesta construção.

Nunca houve no mundo, comenta Frei Beto, tanta liberdade para os famintos, mas nunca houve também tão pouca solidariedade por parte daqueles que têm acesso ao pão. Mas a ironia desta situação, afirma o mesmo autor, consiste agora na liberdade de escolha de seus governantes por parte dos povos pobres que podem também circular fora de suas fronteiras e manifestar suas discordâncias em público. Mas a eles é negado o direito de escolher um sistema social que não assegure a sacralização do capital privado114.

CONCLUSÃO

Vivemos atualmente num sistema econômico neoliberal

114 Frei BETO. Solidariedade & dessolidariedade. Em: POLETTO, Ivo

orquestrado globalmente pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), pelo Banco Mundial (BM), pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pela Organização Mundial do Comércio (OMC).

Caracteriza-se pela busca da maximização de lucros individuais ou de empresas particulares, através do mercado competitivo sustentado pela maximização do desenvolvimento tecnológico e qualitativo da produção. Torna-se único mediador de uma maneira de viver, pensar, falar, trabalhar e consumir. Nele só se conta quem pode consumir os produtos da modernidade. Os empobrecidos que o neoliberalismo produz e descarta, são considerados culpados pela própria situação por isso são sacrificados para não impedir a ascensão dos que mais possuem. Fez desaparecer as fronteiras políticas nacionais. Nos bens acumulados, concentra-se um alto poder especulativo em que somente 15% estão ligados ao sistema produtivo.

Implanta-se uma nova hierarquia de valores a partir do seu ponto máximo, o mercado. As pessoas são consideradas consumidoras e valem por aquilo que têm. Nega-se o reconhecimento da igualdade da dignidade humana e o direito à diferença cultural. A sociedade torna-se lugar de guerras competitivas. Nelas vencem os indivíduos mais qualificados, mais ágeis, mais rápidos e os que mais se enquadram no sistema. Espera-se que as ciências descubram as causas biogenéticas do subdesenvolvimento da população excluída.

Esta suposta descoberta poderá ser usada para justificar a instauração do novo holocausto humano em favor da concentração de vantagens econômicas de poucos.

O neoliberalismo desencadeia, a nível mundial, novos e gritantes problemas como o da negação dos benefícios sociais a dois terços da população mundial; o surgimento de grandes migrações em busca de sobrevivência e refúgios políticos. Provoca a poluição do planeta pelo esbanjamento de bens e depredação da natureza. Aumenta o desemprego e a sonegação de impostos; provoca mortes, não só em conseqüência da fome, como também do descontrole das epidemias; forma um cartel global de corruptos.115 O passado e o futuro não se contam, não há lugar para a memória. O tempo se esgota no presente e nele devemos tirar o maior proveito de tudo e de todos.

Diante desta aterradora situação surge a pergunta: o que fazer para humanizar esta situação? Por onde começar a construção de uma sociedade onde caibam todos e todas com dignidade? Como colaborar? Quais são os novos horizontes da missão cristã e que caminhos enveredar?

Mesmo sem um projeto político-econômico a “priori”, afirma Jung Mo Sung, é possível lutar pela humanização da sociedade. Que será critério de discernimento entre os

115 “Acordo comercial entre empresas produtoras, as quais, embora

conservem a autonomia interna, se organizam em sindicato para distribuir entre si as cotas de produção e os mercados, e determinar os preços, suprimindo a livre concorrência”. NOVA CULTURAL. Dicionário Larousse Cultural da língua portuguesa, cartel.

diversos projetos globais ou parciais possíveis116. Um sistema pode ser fortalecido ou esvaziado se, conhecendo-se os mecanismos, os reproduzimos ou transformamos através de um contínuo processo educativo.

A adesão e a promoção dos valores que priorizam a vida em sua inteireza não acontecem de maneira espontânea. São fruto de uma conscientização e de constantes e contínuas opções. Nele nos tornamos companheiros e companheiras, próximos responsáveis mutuamente comprometidos. Os bens são partilhados e os horizontes traçados em benefício de todos.

Assumimos compromissos humanitários, se compreendermos que a história é, por sua natureza, tecida de forma conflitiva pelos próprios seres humanos.117 Nenhuma sociedade nasce pronta, nem atinge um patamar estável onde cesse o compromisso de construí-la. Ao longo da história, muitas práticas foram abolidas porque foram reconhecidas como desumanas dentro dos limites de uma organização civilizada. Podemos ressaltar, entre outras, a proibição da escravidão de seres humanos, do trabalho das crianças, das jornadas de trabalho excessivamente longas ou em condições insalubres, dos processos produtivos que destroem irremediavelmente o meio ambiente118. Estas proibições patenteiam valores a salvaguardar. Que nenhuma sociedade

116 Cf. Desejo, mercado e religião, p. 102.

117 Cf. SUNG, Jung Mo Desejo, mercado e religião, p. 132.

118 Ricupero, Rubens. Ao vencedor, as batatas. Folha de São Paulo

civilizada deve considerar a competição desigual como seu objetivo e perspectiva de vida. A vida, dom de Deus e construção humana é edificada pela participação de todos. Caso contrário será manipulada por assaltantes e ladrões. Priorizá-la significa comprometer-se, buscando caminhos alternativos aos sistemas sócio-políticos totalitários, numa convivência que não produza vítimas para garantir felicidade de poucos. Mas crie redes de comunidades que promovam o crescimento recíproco através de relacionamentos que sintetizem os interesses de todos. Através de consensos que ajudem a superar os polos pessimistas e sacrificiais de uns e os polos triunfalistas e descomprometidos de outros.

O grande benefício, não programado, que o neoliberalismo trouxe para os povos e grupos que excluiu foi o de estimulá-los a se unirem para viver. Estes grupos formam hoje um novo grupo social emergente. Formam o atual “povo da esperança”, os “cobradores da promessa” do capitalismo neoliberal, o “terceiro Sujeito” das transformações da sociedade.119 São o sinal visível do fracasso de uma ideologia desumana, seus juízes. São, ao mesmo tempo, sementes de uma nova sociedade construída pela caravana das comunidades e movimentos solidários e por todos aqueles e aquelas que estimam e cultivam uma vida digna para todos e todas. Entram nesta caravana, os

pequenos agricultores, os que lutam pela terra e pela moradia, as crianças de rua, os idosos e enfermos sem assistência ou mal assistidos, os trabalhadores informais, subempregados (sem direitos trabalhistas), jovens e mulheres sem formação qualificada, desempregados e empregados com baixo salário, analfabetos, negros e indígenas discriminados e empobrecidos por causa da cor e da cultura.

Entre os novos sujeitos das mudanças contemporâneas emergem significativas atitudes de inconformismos com a situação de discriminação, de miséria e de morte. Revitaliza-se, ainda que muito lentamente, o abandono da passividade e a ação esperançosa na busca de sobrevivência e de melhoria das condições de vida da população empobrecida. Para isso protestam, reivindicam, pressionam e oferecem alternativas viáveis para a solução de seus problemas.120 Suas lutas não são inventadas, partem das várias necessidades comunitárias de sobrevivência digna. Transformam-se em organizações que, além de reivindicar direitos sociais básicos, mal atendidos pelas autoridades públicas, incentivam a formação de lideranças solidárias. São propostas alternativas que fortalecem, entre os empobrecidos, a mútua confiança, a responsabilidade e o compromisso. São atitudes que convocam todos e todas a assumirem seus compromissos de cidadania. Educam-nos para

120

uma vivência economicamente justa, politicamente democrática, socialmente eqüitativa e culturalmente plural121.

Estes são alguns dos desafios suscitados, pela primeira vez na história, através dos gigantescos foros mundiais de reavaliação de nossa responsabilidade para com a vida, em sua particularidade e em sua inteireza.

Na nova sociedade não há espaço para a convivência entre justos e empobrecidos, porque onde há justos há partilha de bens. E consequentemente erradicação do processo de empobrecimento. Os seres humanos são capazes de superar a miséria porque são criados à imagem de Deus que é essencialmente comunhão e participação.

O empobrecimento, a miséria e a exclusão são sempre realidades pecaminosas que só podem ser superadas quando houver vontade política, ética, religiosa, ao lado de uma visão lúcida e humanitária para erradicá-las.

O cristianismo não tem projetos econômicos para indicá-los à humanidade. Procura-os através da participação social, política e econômica de seus membros. Os missionários, afirma Comblin, não podem mostrar o caminho e não têm soluções122. “Acreditam apenas que os homens são capazes de criar as soluções. O que lhes falta não é nem a inteligência, nem os recursos, mas apenas a vontade de ser

121 Cf. Ibidem, p. 86. 122

livres, o querer ser livres do mundo que os domina, e domina tanto os dominadores como os dominados”123. Ídolos que alimentavam a escravidão dos seres humanos foram vencidos nestes dois mil anos de cristianismo. Mas ainda não foi vencida a potência do mal que continuamente exige sacrifícios humanos para manter-se.

A presença da missão neste mundo nos compromete na busca incessante e no apoio a soluções que permitam aos seres humanos exercer a própria cidadania na construção da “cidade de Deus”.

123 Ibidem, p. 66.

SEGUNDO CAPÍTULO

Tema:

A FÉ E A MISSÃO ELABORADAS

A PARTIR DA TEOLOGIA TRINITÁRIA

Em teu meio não haveria pobres se praticasses os mandamentos do Senhor. Cf. Dt 15,4-5 O Espírito do Senhor está sobre mim para evangelizar os pobres. cf. Lc 4,18

INTRODUÇÃO

No primeiro capítulo debrucei-me sobre a realidade global da humanidade, sobre o neoliberalismo, os anseios de mudanças, sobre a população crucificada pelo imperialismo neoliberal globalizado.

Como cristãos fazemos parte deste mundo, sofremos com os pobres e nos perguntamos se a nossa fé nos oferece razões de esperança e instrumentos para uma ação transformadora.

Neste segundo capítulo procuro, sempre sob um prisma missiológico, isso quer dizer, sob um prisma que procura resgatar a vida ameaçada, ler a realidade a partir do mistério central da nossa fé, o Mistério da Santíssima Trindade.

Diante dos eixos do mundo globalizado sob o signo do neoliberalismo, diante da “flexibilização” dos direitos trabalhistas, da “privatização” do bem comum, da “concorrência” eliminatória, da “acumulação”, que exclui milhares de pessoas, e da “dependência” causada pelo protagonismo do capital, procuro introduzir pistas de reconstrução permanente da vida digna para toda a humanidade.

Contra a chamada flexibilização dos direitos dos pobres, nosso Deus resgata e protege os pobres, enviando seus mensageiros e seu próprio Filho. Contra o espírito de privatização, nosso Deus, que é comunidade, fortalece a partilha e a responsabilidade social de todos. Contra o eixo da concorrência total, nosso Deus é a gratuidade da cruz e ressurreição, e contra a exclusão, Deus se faz presente nos pobres visando seu protagonismo e a construção de um mundo novo. Assim essa segunda parte é como uma dobradiça que abre e articula as duas portas, a porta da realidade e a porta da ação pastoral.

A leitura que faço do inesgotável mistério da Santíssima Trindade se baliza na tradição teológica da “pericórese”. Nesta “pericórese”124 realiza-se a unidade que é fonte de felicidade absoluta. Deus, essencialmente comunidade, transborda esse amor para fora de si. Doa a sua vida para toda a criação, chamando-a a participar e

124 Há três maneiras consagradas de aprofundar racionalmente a doutrina

trinitária: as correntes ortodoxa, latina e moderna. A Teologia Ortodoxa (da Igreja ortodoxa do Oriente) parte da unidade da natureza do Pai. O Pai é fonte e origem de toda a divindade. Ele por sua boca profere a Palavra, que é o Filho. Ao proferir a Palavra lhe sai simultaneamente o Sopro, que é o Espírito Santo. Os três recebem do Pai toda a natureza divina, por isso são consubstanciais. A Teologia Latina (da Igreja romana católica) e outras partem da natureza divina, que é espiritual. O Espírito absoluto sem princípio e origem de tudo é o Pai. O Pai se conhece por sua inteligência e gera o Filho. Pai e Filho se amam e juntos espiram o Espírito Santo. A mesma natureza se encontra nos três, por isso há um só Deus. A Teologia Moderna parte das três pessoas juntas. Realça o fato de que as três estão sempre inter-relacionadas e em eterna comunhão (pericórese). Esta relação é tão absoluta que os divinos Três se unificam sem se fundirem, sendo então um único Deus vivo.” BOFF, Leonardo. A Santíssima Trindade é a

traduzir esse amor na história, por meio de Cristo no Espírito Santo.

As relações de igualdade, diversidade e unidade alicerçam a construção de um mundo sem exclusões e sem mortes prematuras. Desenvolvem relacionamentos que nos abrem para acolher todas as pessoas e toda a criação com dignidade. Nestas novas relações, a erradicação da miséria e das injustiças vai acontecendo na medida em que optamos pelas bem-aventuranças do Reino Trinitário que nos desenraizam do domínio da ganância, do poder arbitrário e da imposição de leis dos mais fortes. As novas relações educam-nos para acolher e hospedar o outro e a outra, para com eles partilhar o que somos e o que temos. Tornam-nos próximos, próximas, companheiros e companheiras na caminhada. Orientam-nos para a vivência da comunhão solidária, universal e escatológica.

Diante desta vocação e missão, os seres humanos, dotados de liberdade, podem optar positiva ou negativamente. Instalando, consequentemente ao seu redor, atitudes pessoais e estruturas “sim-bólicas” ou “dia- bólicas”125 que ampliam ou reduzem o crescimento histórico das relações refletidas no Mistério Trinitário. Ampliam e

125 A expressão grega dia-bolein é composta por duas palavras: bolein

significa pôr, colocar e diá significa “des” ou “dis”. É a expressão que se opõe ao simbólico; do grego: “syn” corresponde ao nosso “com”. Sim-bólico, portanto, significa o que une, harmoniza, constrói. É comunhão, comunidade, concórdia, colaboração, convivência, confraternização. Dia-bólico é tudo que desfaz esta harmonia: desunião, discórdia, dissenso, destruição, desmonte.

reduzem a gratuidade e a comunhão solidária, diante dos acidentes de percurso que atingem os outros.

Em sua morte e ressurreição, Jesus Cristo travou a batalha definitiva da guerra entre o reino “sim-bólico” e o “dia-bólico”. Aparentemente derrotado, Jesus inaugura na história, o Reino de Deus Trindade, sem usar as armas do poder “dia-bólico”. Por meio de Jesus Cristo, nós, gentios e judeus, num só Espírito, temos agora, acesso junto ao Pai maternal. Criados à sua imagem e semelhança,

quanto mais frequente e profundamente mergulharmos na „tenda dos Três‟, mais nos assemelharemos ao „jeito‟ de ser e de viver dos Três. Abriremos mão de nosso egoísmo feroz e de nosso orgulho desmedido para realizar o dom e o acolhimento, a partilha e a comunhão126.