Chapter 3 Changes in Families as Groups of Individuals, as Relationships
3.5 Evaluations of Divorce as a Social Phenomenon
O convite “Simpsons Movie”50 para que as pessoas adentrem o mundo simpsoniano, por meio da construção de personagens e da entrada na cidade de Springfield, sugere que o individuo faça parte, de uma comunidade virtual. Demais redes sociais da Internet, como o Orkut, também possibilitam ao sujeito se inserir em comunidades diversas nas quais o eixo comunicativo são imagens dos Simpsons.
Considerando que todo processo comunicativo é produzido por pessoas de mundos diferentes, é ingênuo acreditar que o fato dessas pessoas se inserirem em comunidades simpsonizadas as sujeitaria a interesses manipuladores vinculados às pessoas ou empresas responsáveis pela produção e divulgação do desenho. Nessa perspectiva, sabemos que nos processos comunicativos as mensagens podem ser alteradas e distorcidas ou ressignificadas, conforme as diferentes visões de mundo dos sujeitos socio-históricos envolvidos. Partindo da constatação de que um dos atrativos dOs Simpsons é o discurso eivado de ironia, Hutcheon esclarece que:
(...) no discurso irônico, todo processo comunicativo não é apenas ‘alterado e distorcido’, mas também tornado possível por esses mundos diferentes a que cada um de nós pertence de maneira diferente e que formam a base das expectativas, suposições e preconcepções que trazemos ao processamento complexo do discurso, da linguagem em uso.51
A autora argumenta, ainda, que a ironia se faz por meio de uma comunidade retórica que, pode ser criada por emissões de rádio ou televisão, unindo grupos mais por percepções sensórias do que por espaço físico. Considera que é a comunidade que torna possível a ocorrência da ironia. Assim, as estruturas de normas que passam a fazer parte da linguagem irônica não são abstratas e independentes, mas sociais. Sendo a ironia um fenômeno semântico-discursivo ela dependente do contexto, a relação de poder evocada depende de sua aresta avaliadora.52. Assim, no que se refere a Os Simpsons, tal comunidade ou aresta avaliadora dos discursos irônicos sugeridos pelo desenho não dependem apenas dos seus produtores, mas também dos membros dessa comunidade
50 Disponível em: <http://www.simpsonsmovie.com/>. Acesso em: jan.2011.
51 HUTCHEON, Linda. Teoria e política da ironia. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000. p. 133-134. 52
para se manter. Portanto, as produções simpsonizadas, ao se valerem da ironia criada pela relação com a produção audiovisual, podem estabelecer fontes de propagação de poder que serão adequadas às particularidades individuais, sociais, temporais e espaciais às quais pertencem. Por outro lado, apesar de os procedimentos adotados nas construções das imagens simpsonizadas pelos internautas serem parecidos com os das elaborações dos produtores do desenho, tal inspiração não sujeita o indivíduo a construir um discurso irônico e político dentro dos limites da simpsonização. Como a ironia, enquanto dependente do interpretador, é fundamental para pensar os usos da linguagem simpsoniana, o uso do discurso irônico de Os Simpsons exige do espectador interpretação, algo que ative a inteligência e possa aproximar ou afugentar a audiência. Ou seja, as recorrentes inserções irônicas adotadas pelos produtores do desenho nos episódios, tanto pode aproximar quanto distanciar-se do seu potencial público alvo.
Com isso, os espectadores que se aproximam dOs Simpsons motivados pelo seu caráter irônico, geralmente criam uma espécie de “acordo” com o desenho, pacto este que nutre a identificação da simpsonização como linguagem discursiva. Nesse sentido, a ironia “torna-se uma ‘realização comunitária’, de uma maneira que faz lembrar a teoria de que o riso e o humor podem ambos construir pontes emocionais e fazer conexões intelectuais entre pessoas”53. De maneira inversa, os espectadores que se distanciam do desenho, sem motivação para participar dessa comunidade discursiva criada a partir da linguagem simpsonizada, tendem a não decodificar de maneira adequada as mensagens desse processo comunicativo, devido aos ruídos interpostos entre emissor e receptor que dificultam a própria compreensão das mesmas.
Ao problematizar a relação entre Os Simpsons e a crise de autoridade, Matheson (2004) discorda da tese de que os responsáveis pelo desenho estariam se utilizando do humor para promover conceitos morais, posto que, para este autor o humor opera apresentando posições para depois ironizá-las. Ou seja, “esse processo de ironizar é tão profundo que não podemos considerar a série como uma coisa meramente cínica; ela consegue ironizar seu próprio cinismo. Esse processo constante de ironizar é o que chamo de ‘hiper-ironismo”54.
Seguindo uma outra lógica reflexiva, Zygmunt Bauman enfatiza que, na contemporaneidade, as comunidades de carnaval caracterizadas por dar um alívio
53 HUTCHEON, Linda. Teoria e política da ironia. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2000. p. 139.
54 MATHESON. Carl. Os Simpsons, hiper-ironismo e o significado da vida. In: Os Simpsons e a filosofia.
temporário às agonias das solitárias lutas cotidianas são marcadas pela fluidez e pelo espetáculo e proliferam-se na modernidade sólida dos hardware. Tais comunidades impedem a condensação de comunidades “genuínas”, isto é, compreensivas, duradouras e preocupadas com o bem comum. Nesse sentido, Bauman salienta que:
A cada dia, as manchetes de primeira página da imprensa e dos cinco primeiros minutos da TV acenam com novas bandeiras sob as quais reunir-se e marchar ombro (virtual) a ombro (virtual). Oferecem um ‘objeto comum’ (virtual) em torno do qual comunidades virtuais podem se entrelaçar, alternadamente atraídas e repelidas pelas sensações sincronizadas de pânico (às vezes moral, mas geralmente imoral ou amoral) e êxtase.55
Argumenta Bauman, ainda, que estas comunidades “espalham em vez de condensar a energia dos impulsos de sociabilidade, e assim contribuem para a perpetuação da solidão que busca desesperadamente redenção nas raras e intermitentes realizações coletivas orquestradas e harmoniosas.”56 Dialogando com Eric Hobsbawm, Bauman defende a tese de, que, com o enfraquecimento do Estado- nação, as empresas globais procuram criar seu mundo ideal voltado para o consumo e não para o nacionalismo e o patriotismo. Nesse viés, os produtores de Os Simpsons constantemente trabalham com a crise das identidades, principalmente em suas viagens a outros países, além de outros problemas da globalização. Assim, é preciso considerar, também, que mesmo numa realidade marcada pelas desigualdades sociais, pela crise das nações e hegemonia do fundamentalismo de mercado, algumas linguagens recorrentes na Internet podem servir para evidenciar ambiguidades ou contradições relativas aos aspectos mencionados. O sujeito, mesmo exposto ao capitalismo globalizante, pode se apropriar dos avanços tecnológicos e das construções imagéticas para reconstruir imagens que não necessariamente o colocam frente a um abismo intransponível. Esta nova realidade, ao ser percebida e apropriada pode suscitar, mesmo que de forma ainda muito tímida, comunidades “genuínas”, ainda que com características divergentes das existentes no passado. Nesse sentido, é possível argumentar que este tipo de recurso comunicativo, tal como a linguagem simpsonizada, desenvolvido por meio dos diálogos
55 BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. p. 229. 56 Ibidem. p. 231.
via Internet pode contribuir para provocar alterações de comportamento, que se refletem em várias dimensões da realidade social.