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Rio de Janeiro, 09 de dezembro de 2003.

C.A. – Quando é que você se formou, como é que foi... É medicina, não é? R. – É, medicina. 78.

C.A. – 78? R. – É, 78.

C.A. – Onde é que você cursou?

R. – Em Volta Redonda. Foi o primeiro ano .. de Cesgranrio, que foi [vestibular]unificado... A minha turma foi a primeira lá de Volta Redonda.

C.A. – E como é que foi a sua história, quer dizer, até você se tornar diretor, como é que foi isso? Você já foi diretor de uma outra unidade, antes daqui...

R. – É, deixa eu te dizer.

C.A. – Conta a sua história, da formatura para cá.

R. – É, a minha história... Mesmo antes de formado... Eu vim de família pobre, e com dificuldade. Embora tenha estudado em faculdade particular, mas eu banquei, porque eu dava aula... Eu dei uma sorte, porque eu fui para o GPI – foi o ano em que o GPI entrou lá em Volta Redonda e eu acabei dando aula e consegui custear o meu estudo.

C.A. – O teu curso.

R. – E até por garantia disso, quando eu fiz o meu vestibular, foi muito engraçado, porque eu falei: “Bom, se eu não passar para medicina – porque era aquele Cesgranrio unificado, não é – eu tenho que fazer alguma outra coisa, não é, tenho que trabalhar.” E fiz um concurso, na época do vestibular, para a Petrobrás e para a IBM. Dois anos depois que eu já estava na faculdade, eu fui chamado, só que eu não fui obviamente, porque a gente... O que eu estava proposto a fazer era isso mesmo. Então eu me formei em 78, fui fazer internato no hospital C do MS, em Pediatria. C.A. – Sei.

R. – E fiz também, depois, fiz dois anos de residência também no hospital C. C.A. – Você fez residência em quê? Em Pediatria?

R. – Em Pediatria. Me formei comecei a... Casei, dois anos depois, eu casei. Aí comecei a trabalhar, a entrar no mercado. Aí fiz prova para o Município, fui médico do Município, saí do Município. Fiz prova para o Estado, entrei, fiquei... Entrei para o Estado em 88, e estou até hoje. ... Sempre atendendo Pronto Socorro.

C.A. – Sempre... Você entrou para o Estado em... R. – 88.

C.A. – 88. Sempre em Pronto Socorro?

R. – Sempre em Pronto Socorro. Pronto Socorro e no PESB, no antigo PESB, que era aquele Programa Estadual... Programa Especial de Saúde da Baixada, que era do Sérgio Arouca... Lucia Souto que implantou, também por concurso.

C.A. – Sei. Mas aí você... É com esse vínculo?

R. – Não, atualmente eu, realmente, tenho dois vínculos, não é?

C.A. – Ah, você tem dois vínculos. Quer dizer, o outro... Depois entrou por outro concurso. Os dois vínculos do Estado.

R. – Tinha o vínculo do Município, que eu saí. Tá? C.A. – Aí, você trabalhou na Baixada...

R. – Trabalhei na Baixada, acho que por uns oito ou dez anos. C.A. – Mas em que unidade?

R. – Era unidade mista. C.A. – Ah, unidade mista.

R. – Quer dizer, na verdade, não era unidade mista, era um miniposto: o miniposto de Vila Norma.Eu era pediatra. Fiquei lá uns oito ou dez anos. Trabalhando lá. Era um trabalho até interessante, não é? Começou muito bom, com a estrutura, quando começou... com a estrutura... Depois a coisa foi deteriorando, mas mesmo assim eu continuei. Aí em 88, fiz concurso, entrei para cá, para o Estado, e sempre dando plantão em Pronto Socorro. Trabalhei muito tempo – oito, nove anos – no domingo. Em 98...

C.A. – Isso do outro vínculo. R. – Do outro vínculo.

R. – No plantão.

C.A. – Mas sempre aqui?

R. – Sempre aqui. Uns oito anos no domingo, dois anos eu vim para o meio de semana. Acho que lá para 96 eu vim para o meio de semana.

C.A. – Sei.

R. – E ainda continuava no PESB, quando surgiu... Me chamaram para eu ser diretor lá do hospital M da SES.

C.A. – Sei. Estadual.

R. – Estadual. Eu falei: “Meu deus, eu diretor, saído do plantão...?” Não tem cada a ver. C.A. – Você chefiou a Emergência?

R. – Não! Saí do plantão...

C.A. – Sei... E foi para o hospital M? R. – Lá para o hospital M.

C.A. – Isso foi quando?

R. – Foi março de 98. Aí fui, fiquei lá... Cheguei lá em março de 98, estava no finalzinho do governo Marcelo. A minha proposta, eu fui para lá, foi para terminar uma obra... Aí, na época estava aquele negócio de terceirização...

C.A. – É. A terceirização foi no governo Marcelo Alencar.

R. – Isso. Foi 98, foi exatamente. Mas quando eu fui para lá, a proposta... O meu trato... “Olha, gente, eu não tenho... Vocês são malucos, mas eu vou lá, porque é um desafio, vamos tentar” , o que eles me propuseram era: “ a gente precisa terminar a obra do hospital – tinha alguns andares que estavam parados, aquela coisa... parados, não, não tinha terminado a obra e estava precisando de alguém que precisasse terminar – e depois você retorna.” Eu falei: “Está bem, vamos tentar.” Quando eu fui lá, cheguei, no primeiro dia, falei: “Meu deus, não tem nada a ver comigo.” Sair da Emergência para ser diretor daquele mundo! Mas acabei ficando. Acabei ficando, conseguimos fazer algumas coisas lá... Aí entrou a terceirização, que me chamaram para fazer parte, tinha que sair. Eu falei: “Não, eu não estou, eu não faço parte da terceirização. Eu vim aqui para tentar terminar a obra do hospital. Não tenho nada a ver.” E não fiquei. E fiquei no hospital – entrou aquele período eleitoral em que ninguém podia ser removido – fiquei pelo hospital, como funcionário. E o grupo lá da Gene Payton [empresa responsável pela gestão]– acho que é Gene Payton – entraram, ficaram lá. E a gente ficou lá no nosso cantinho.

C.A. – E como ficou a sua situação lá? Você ficou atendendo como pediatra? R. – Não, aí eu fiquei como representante do hospital... dos funcionários. C.A. – Sei. Dos funcionários da Secretaria.

R.– ...da Secretaria. Aí, fizemos lá a nossa resistência, ene movimentos... E foi até interessante para mim, porque ali os funcionários perceberam que eu não tinha nada a ver com aquele processo. Foi uma coisa interessante. Porque, quando a gente conseguiu terminar as obras, eu falei: “Agora eu vou sair, vou voltar para o hospital I.” Só que entrou a Lei Eleitoral, e eu fiquei impedido. O que, para mim foi importante, porque aí também, o funcionário conseguiu identificar que eu não tinha nada a ver – como eu não tinha mesmo...

C.A. – ...com aquela proposta.

R. – ...com aquela proposta. Que fui chamado, mas eu não aceitei. Conseguimos fazer um movimento, acabou a terceirização, entrou a Iva, né? E a Iva me chamou para ficar pela divisão médica, para ficar respondendo pela divisão médica.

C.A. – Isso já é... que ano? R. – Isso já é 99.

C.A. – 99.

R. – ...disse que eu efetivamente ficaria, mas que eu queria, na realidade, era voltar para o Carlos Chagas, voltar para o meu plantão. Era uma coisa que eu gostava de fazer, eu sentia falta... E que eu achava que eu estava preparado para fazer. E a Iva: “Tudo bem, então, você fica comigo... Mas me ajuda, que você conhece o hospital, o hospital saiu da terceirização...” “Claro! Eu só estou te pedindo para não ficar. Porque eu moro no Méier, para mim é muito distante... Tem tudo mais a ver lá, eu sempre fui do hospital I...” E tudo bem. Aí ficamos lá uns quatro, cinco meses, arrumamos a casa, e eu falei “Iva, acho que está na hora de você poder me liberar.” E nisso a Maria, que foi a nossa diretora [do hospital I], que foi aluna.[do curso de gestão hospitalar da Ensp], ela foi ao hospital M – foi para uma inauguração, acho que da porta de entrada...

C.A. – É, lá teve até um projeto Porta de Entrada...

R.. – Projeto da porta de entrada... E a Maria foi e aí eu conversei com ela, falei: “Pô, Maria...” Aí conversamos com a Iva, ela: “Tudo bem.” Aí voltei para o hospital I. Só que eu estava querendo voltar para o plantão.

C.A. – Para a ponta.

R. – É, para voltar para ponta. Mas a Maria me pediu para ficar na Coordenação da Emergência. Falei: “Poxa, Maria! O sufoco que a gente passou pela terceirização...” [inaudível].. Aquela coisa: “Você já tem uma experiência, já tem uma vivência...” Enfim, fiquei. Fiquei na Coordenação mais ou menos .. um ano e meio... Coordenação de Emergência. Acho que foi mais ou menos

agosto de 99. Acho que fiquei na Divisão... na Coordenação de Emergência até o final de 2000 ou principiozinho de 2001. Se eu não me engano. Nisso, a Divisão Médica – que era o Nildo – pediu para sair. Porque ele foi para São Paulo.

C.A. – Sei.

R. – Aí a Maria me demandou a Divisão Médica. Entende? Isso mais ou menos final de 2000, princípio de 2001. Aí ficamos aqui na Divisão... Aí a Maria, acho que em 99... Agora não lembro se foi em 2000...Foi para a Secretaria. É, ela, já com uma visão muito... ela inscreveu a gente no PES, aquele curso de planejamento estratégico da Ensp.... a gente fez o PES, foi super interessante, a gente fez um trabalho interessante. ..

C.A. – Mas você fez como Diretor Médico?

R. – ... Eu estava na Coordenação. Logo em seguida eu vim para a Divisão... E a gente começou a implantar uma série de projetos .. o projeto Porta de Entrada, a endoscopia dentro do Pronto Socorro, conseguimos botar, tentar implantar, dentro das regras do concurso de 2001, vagas para neurocirurgia, que é uma demanda grande que a gente tem. Então, a diretora começou a tocar os trabalhos que a gente efetivamente estava discutindo lá no PES.

C.A. – Vamos voltar um pouquinho.

[INTERRUPÇÃO DE FITA]

R. – Nisso, acho que foi 2001... Depois que a gente fez o PES. Foi, 2001. É foi meio de 2001, no meio do ano, a gente fez o curso de gestão.

C.A. – Especialização em gestão.

N.S. – Especialização em gestão hospitalar. No meio de 2001 até o meio de 2002. Não é?

C.A. – Isso. Deixa eu te perguntar uma coisa, eu queria voltar um pouquinho. Você falar um pouquinho para mim da experiência de direção, mesmo.

R. – É. Do hospital M? C.A. – Isso.. .

R. – O hospital M foi muito legal. Sabe por quê? Porque, olha só... é um hospital que tem um potencial gigantesco. E eu acho que a gente conseguiu fazer alguma coisa ... Até porque,... Embora a gente não estivesse indo contra a política daquele do então governo... as vagas que eles deram de prestadores... eu praticamente entreguei todas as chefias revertendo, oferecendo primeiro ao funcionário do Estado. Entendeu? Que naquela época ganhava uma ninharia: quatrocentos reais, quinhentos reais... E eu entendia que era uma forma de a gente poder valorizar.

E a gente conseguiu efetivamente fazer algumas coisas ali: abrir alguns andares, a gente conseguiu criar um SPA, direcionando o doente ... antes, batia tudo dentro da emergência – a gente conseguiu efetivamente criar o SPA, a gente conseguiu botar médico na enfermaria, da

clínica médica – no andar, plantonista – na Pediatria, na clínica médica. .. A gente conseguiu começar a esboçar a abertura de leito de DIP... Abrimos, houve uma reformazinha na UTI neonatal, a gente inaugurou o serviço de Tomo dentro do hospital MI. Abriu-se a tomografia, com radiologista... Então a gente conseguiu fazer um trabalho.

Pena que, quando a coisa estava começando a azeitar, veio a terceirização. Azeitar no sentido da gente começar trazer as chefias – porque eu era de fora do hospital...

C.A. – É, você era de fora. R. – Eu vim de fora. C.A. – E foi sozinho.

R. – Eu fui sozinho. ... Era um hospital em que eu tive uma receptividade muito grande, e muito boa, entende? E a gente teve a felicidade de conseguir fazer algumas coisas – eu não sei se porque a gente começou... Eu não indiquei ninguém, eu tive talvez a humildade de chamar os chefes e ouvi-los, e eles indicarem as funções... Eu me lembro que eu cheguei no no hospital M, estava uma brigazinha, uma discussão da Obstetrícia: o chefe da Obstetrícia entregou o cargo. O que para mim, na hora em que eu cheguei, ia ser um grande problema, mas na realidade não foi ... Então, eu chamei o grupo e pedi que eles indicassem alguém, com representatividade, ... E eles indicaram, e a pessoa, a doutora... – daqui a pouco eu me lembro o nome dela – ela tocou a coisa numa boa. Então, acho que a gente teve a felicidade de trazer a turma para a gente, mesmo eu sendo de fora. Lógico, existiam algumas resistências, a gente sabia... Era um hospital extremamente político, tem uma conotação política muito grande; e um hospital mais distante, de característica, mesmo, regional. Pega uma região gigantesca, onde existe muita pressão, muito interesse. Mas eu acho que eu consegui, nós conseguimos, junto com o grupo, entende... Porque efetivamente era um grupo do hospital, eu não trouxe ninguém.

[INTERRUPÇÃO DE FITA]

R. – E a gente conseguiu desenvolver um processo de muito trabalho. Puramente intuitivo. Ouvindo mais, porque eu acho que a ponta... Eram eles que conheciam – isso eu tenho como lógica e eu falava sempre com eles: “Eu entendo um pouco de Pronto Socorro, porque a minha vida foi toda dentro de um Pronto Socorro.” A gente sabe de todas as dificuldades, agora o problema... Foi o motivo pelo qual eu aceitei o desafio: “Vamos ver, do outro lado, como é que a coisa funciona.” E eu acho, então, que a gente, no hospital M , mesmo sendo de fora, a gente conseguiu desenvolver algum tipo de trabalho. Tanto que eles até me pediram para... Quando acabou a terceirização, eu fiquei como vice. E foi uma pena a terceirização, porque aqueles quatro, cinco meses que a gente viu a coisa ir degringolando, desenrolando, uma coisa assim... que não havia necessidade.

C.A. – Em que sentido?

N.S. – Eu acho que quem pegou, acho que eles não tinham noção, não tinham experiência, vivência da saúde...

R.. – ...do hospital público. Na minha avaliação, acho que eles não tinham a vivência, a experiência do serviço público. Porque que é pesado... Tem uma outra conotação. Mas essa parte eu nem gostaria de entrar porque é uma fase que a gente procura até apagar. Mas enquanto diretor, eu acho que a gente conseguiu. Enquanto divisão médica, lá no hospital M, a gente foi reorganizando... E aí, reorganizando no sentido... Porque todas as chefias que a gente tinha, eles trocaram. Então em um período de cinco meses, todas as chefias que eu tinha...

C.A. – ...foram trocadas.

R. – ...foram trocadas. Acho que uma só que permaneceu, até por falta de opção deles. Não sei se era CTI.Mas o resto, eles foram trocando todas as chefias. Todas! Então, foi um trabalho todo de reconstrução, que a gente foi fazendo... Aí eu já tinha um conhecimento melhor do hospital. Então foi interessante. Mas foi puramente... Aprendi muito com a Iva. Porque ela tinha uma cabeça... já vinha de direção, tinha uma bagagem grande... Então aprendi muito, tive muita oportunidade. Então, acho que no hospital M eu focalizaria nesse aspecto. Mesmo eu vindo de fora, tive uma acolhida muito boa. E a gente conseguiu fazer alguma coisa em nível de parceria, mesmo, trazendo o grupo para dentro de chefia, ouvindo mais e tentando compor... As vagas que a gente conseguia, a gente oferecia às chefias e eles lotavam. Então foi isso.

No hospital I.. quando eu vim para a Coordenação, eu já não senti tanta dificuldade, porque já entendia o processo, a parte burocrática. A gente foi tocando... Aí vim para a Divisão[médica], que foi um outro salto que também, particularmente, era uma outra situação que eu também não gostaria...

C.A. – Você não gostaria?

R.. – Não, não gostaria, porque... Não é que eu não gostaria, eu nunca pensei em ser diretor. Fui por uma vez, por uma casualidade. Jamais, [riso] como diria... Sempre falei: tem umas coisas na vida que a gente sabe o que deve fazer e o que não deve fazer. Eu dou o exemplo de casar. Meu casamento – graças a Deus – eu tenho dois filhos, sou casado, estou há vinte, trinta anos casado, mas acho que eu não casaria de novo. Eu acho. Então acho que, na vida... A gente faz uma vez só na vida. E é a mesma coisa com direção. Ainda falava com a Maria: “, fui diretor... Fui diretor por um período, assim, totalmente adverso, sem ter o menor pensamento ou expectativa de ser. E não gostaria de ser de novo.” Porque acho que é uma dedicação grande que você tem que ter, você tem que ter preparo, você tem que querer ser. E eu não tenho nada disso: eu não tenho preparo, eu nunca quis ser, não é o meu perfil... O meu perfil é aquele e ficar no cantinho, fazer o meu trabalho...

Conclusão: e acabei sendo pela segunda vez como? Fui para a Divisão, aí a Maria, em abril de 2002, recebeu um convite para ser superintendente de Saúde da SES. [riso] Aí, a ela falou: “Você vai...” Eu falei: “Não, por favor, não. Eu não gostaria de ser diretor, já falei isso para você.”

C.A. – Você já tinha feito o curso de gestão hospitalar...

R. – Já tinha feito. É engraçado, até na entrevista, quando o coordenador me entrevistou, eu falei : “ eu estou fazendo o curso, mas não para ser diretor, nem para preparar para ser diretor. É por conhecimento. Já que a gente está... Eu estou trabalhando na Divisão Médica, é uma ferramenta

de trabalho boa que eu vou ter. É uma ótima ferramenta. Eu vou ter o conhecimento que vocês vão passar apara a gente, mas eu não tenho a perspectiva e nem a intenção de ser diretor.” Até falei com a Maria, diretora à época: “ acho que vou ser reprovado.” “Não, ele vai entender.” E foi muito interessante o curso. O curso abre a cabeça da gente, dá ferramenta gerencial para a gente poder se sentir mais tranqüilo, mais seguro daquilo que a gente pode fazer: problema gera problema... Aquela coisa da organização. É uma instituição extremamente complexa... E a gente começa a entender melhor e começa a se sentir com certeza. Mas de qualquer forma...

Mas aí acabei sendo. Falei: “Maria, por favor, não...” “Mas eu preciso. É você que tem que ser...” “Não, mas indica outras pessoas, tem outras pessoas que gostariam...” Mas ela achou por bem, indicou meu nome e eu acabei ficando na direção. Por um período. Era final de governo. Abril de 2002, quando entrou o governo Benedita.

C.A. – É, foi no governo Benedita.

R. – Então eu vim de Coordenação, Divisão e passei à Direção em abril de 2002.

De agosto de 99 até 2002 foi mais ou menos esse percurso. Fazendo planejamento estratégico e gestão. Mas sem a menor vontade novamente de ser diretor. Porque minha primeira vez... Fui mais como desafio e achei... Acho que eu tenho uma formação religiosa que eu acho que não foi por acaso.. Então foi nesse sentido que eu... Até hoje eu estou: se Ele me colocou, Ele vai saber a hora que vai tirar. É a minha...

C.A. – E como é que está para você isso? Você está há um ano e... R. – Mais ou menos um ano e seis meses, um ano e pouco.

C.A. – Um ano e meio.

R. – É. Não muda. Se tivesse alguém para ser, eu entregaria... Eu não tenho o menor... C.A. – Por quê?

R. – Por todo esse motivo. Eu acho que... A gente tem família, a gente tem a vida lá fora... E aqui acaba sendo a sua primeira família, não tem jeito! E a gente, que é extremamente responsável, a coisa absorve de uma forma tamanha, que você come hospital, dorme hospital, vive hospital, é o tempo todo isso.

C.A. – Sei.

R. – Você não consegue... Eu estava falando com divisão médica “Eu gostaria de voltar a ser gente de novo.” Entende? A respirar. Porque é uma coisa que... É nosso. Cada um tem a sua característica. E para mim o que pesa muito é essa responsabilidade que a gente tem e que é 24 horas. Isso angustia muito. Além de você ter família, além de você ter a tua vida de consultório... E você, com certeza, acaba abdicando.

R.– Eu tenho consultório. C.A. – Faz Pediatria?

R. – Faço Pediatria. Eu não consigo deixar a assistência, não consigo deixar de atender, a minha formação é essa.

C.A. – Você atende aqui no hospital?

R. – Atendo. Às vezes dou um plantãozinho aqui. C.A. – Às vezes?

R. – É, às vezes. Eu venho sexta-feira aqui, à noite, que uma colega me pede. Eu gosto. Eu não consigo me desligar. E eu me sinto muito mais útil. Essa é a palavra.

C.A. – Sei.

R. – Porque a gente, enquanto direção... As pessoas têm uma idéia muito diferente. A gente não tem a governabilidade que a gente pensa que tem. Para quem está de fora. Que gostaria de ter. A gente não consegue resolver o que a gente acha que poderia resolver, que deveria ser resolvido. É uma estrutura. E ali, você no atendimento, a minha angústia é muito menor. Entende? C.A. – Você acha que é menor?

R. – Eu acho que é muito menor. Porque ali eu atendo, eu resolvo: depende de mim. Exclusivamente do meu atendimento. Então, eu acho que a resolutividade para mim – para mim – me satisfaz muito mais. Enquanto a gente ser direção... Porque depende de ene situações. Isso é um dos fatores. O segundo, é problema de desgaste mesmo, em função desse modelo que a gente tem. Acho que é preparo... Eu não sou, acho, a pessoa mais preparada. Eu acho que eu não sou a pessoa mais indicada, porque tem toda uma conotação política que tem que ter, sim: tem que ter um jogo de cintura, tem que ter... E eu não... Sabe? É como eu estou falando: eu vim, eu acabei sendo, mas tem um... Acho que tem uns pré-requisitos que se fazem necessários, e que eu estou aprendendo. Vou te dizer: hoje eu tenho muito mais articulação do que há um ano atrás, do que