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Rio De Janeiro, 22/03/2004.

O. – ...você vai me orientando na minha seqüência.... O que você quer... É só você me dar a orientação.

C.A. – Está legal. Então, vamos começar contando um pouco da sua história. Você é médico, não é? Onde você se formou, a especialidade, como é que foi a sua história profissional.

O. – . Eu sou natural de uma cidade no interior de Minas, Muriaé. Cursei a minha faculdade na Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais e terminei o curso em 1977. Vim para o Rio fazer residência em Cirurgia Geral, no antigo Hospital dos bancários, o Hospital J. Trabalhei no serviço de cirurgia, fiquei durante quatro anos no hospital, fiz especialidade em Cirurgia Geral e passei por outras áreas da cirurgia como Cirurgia Proctológica, Ginecológica, Vascular... Fiz um curso de pós-graduação em Medicina do Trabalho na PUC. Depois, fui para a UFF, fiz um mestrado em Cirurgia Gastroenterológica, onde defendi uma tese sobre câncer gástrico precoce. C.A. – Sei. Em que ano você concluiu seu mestrado?

O. – Oitenta e... Foi 86 mais ou menos. Comecei em 82, 86. Depois fiz o doutorado no Fundão... Fiz os créditos do doutorado, porque eu não consegui terminar meu trabalho, porque acabei me envolvendo em atividades aí, não consegui terminar. Dediquei... Passei a me dedicar, a partir de 1982, ao Ensino Médico e passei a coordenar o Curso de Cirurgia da Faculdade de Medicina da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques, na Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. Esse curso eu coordeno até hoje...

C.A. – De 82 para cá.

O. – Para cá. Sou um dos coordenadores do Departamento de Cirurgia. Fui Secretário do Colégio Brasileiro de Cirurgiões durante duas gestões e, há mais ou menos 16 anos, eu integro a comissão do título de especialista em cirurgia do Colégio e da AMB.

C.A. – Sei.

O. – Que hoje funciona em uma associação, o título de especialista. Bom, da área técnica, ainda participo da Fundação... da Fesp [Fundação Escola do Serviço público- governo estadual], como consultor de cirurgia para concursos públicos; desde 1984, tenho feito as provas dos concursos de cirurgia. E também da Fundação João Goulart. Também tenho trabalhado... Que é da Prefeitura. C.A. – E como é que foi esse período. Você entrou no ensino e a sua inserção nos hospitais? No estado, como é que foi sua entrada para o estado?

O. – Bom, eu terminei... Eu estava terminando a minha residência, eu fui contratado para trabalhar em um hospital público, no Hospital D da SES, na área de Emergência. E, nessa época, eu fui aprovado no concurso público do antigo INAMPS e fui trabalhar no Hospital da Posse [no município de Nova Iguaçu], como concursado do Ministério da Saúde.

C.A. – Isso foi em que ano? O. – Em 1982. Foi 82, 83 por aí. C.A. – Sei. O hospital D foi antes?

O. – Foi antes. 79, mais ou menos, 80... Por aí.

C.A. – No hospital D, você estava na Cirurgia Geral? É isso?

O. – Eu era da Emergência. Era cirurgião da Emergência. Trabalhava também na Beneficência Portuguesa de Niterói, como cirurgião da Emergência. E aconteceu um fato, o seguinte: em 1984, eu havia operado um caso extremamente grave – foi uma paciente com uma lesão de cava, lesão renal etc – e esse caso foi muito comentado... E, nessa época, o Brizola assumiu a.... era governador do Estado. Assumiu lá a política. E um grupo assumiu a direção desse hospital em que eu trabalhava.

C.A. – Essa cirurgia foi em que hospital?

O. – Foi no hospital D. por questões técnicas, o grupo que assumiu a direção do hospital, me convidou para chefiar a unidade de pacientes externos do hospital.

C.A. – Após esse sucesso no caso...

O. – É. Começou assim... a gente operava muito. Tinha um grande volume de cirurgias... Tinha dias em que eu operava... Tinha grande vontade de operar e com bons resultados, graças a Deus. Porque eu tinha feito uma formação boa: tinha feito mais ou menos seis anos de especialização em Cirurgia. Tinha, assim, uma certa tranqüilidade, porque eu já vinha de uma experiência anterior, da Santa Casa de Juiz de Fora, onde eu trabalhava com Cirurgia Torácica. Então, tinha já uma vivência boa e tinha uma certa tranqüilidade para operar emergência.

C.A. – Então, você começou na Santa Casa, na própria faculdade. É isso?

O. – De Juiz de Fora. Antes eu trabalhava na Santa Casa; fazia cirurgia de tórax. Aí, depois, vim complementar com Cirurgia Geral... Bom, então eu assumi a unidade de pacientes externos... C.A. – Isso o que, em 80?

O. – 84, mais ou menos. Isso foi 84. C.A. – Foi o primeiro cargo gerencial.

O. – É. E eu consegui, na época, mudar um pouquinho a ordem das coisas dentro da emergência: criei um serviço de pronto atendimento que funcionava paralelamente ao hospital. O objetivo era tirar o doente menos grave de dentro da emergência. Com isso, você fazia uma triagem de forma que desafogava a emergência e proporcionava aos colegas dar maior atenção àqueles pacientes que realmente necessitavam de maior atenção. Esse projeto foi caminhando com um certo sucesso até que houve um problema político, uma intervenção no hospital e eu não concordava com essa intervenção e pedi demissão do cargo.

C.A. – Sei. Houve uma mudança de direção?

O. – É, houve uma intervenção na direção. Na época, o secretário de transportes assumiu a direção do hospital por ordem do governador. Achei o processo de uma certa violência e pedi demissão. Fui o primeiro a pedir.

Bom, passado algum tempo, fui convidado para integrar a comissão que organizaria o programa de governo do então candidato Moreira Franco. E passei a... A gente, com uma certa esperança de que as coisas fossem mudar... Organizamos um programa de urgência e emergência para o Estado do Rio. Nesse período, o programa já estava quase concluído – esse programa de governo – mas houve um acordo do candidato com o Dr. Sérgio Arouca, que era presidente da Fiocruz, e o Dr. Sergio Arouca assumiria a Secretaria de Saúde. Nós tivemos algumas reuniões, já com ele indicado como Secretário. Ele achava o programa interessante, mas ele tinha uma visão diferente da nossa, porque ele vinha de uma experiência na Nicarágua e ele convidou o Dr. Roberto Cappote que era da Organização Mundial de Saúde, para desenvolver um projeto semelhante ao da Nicarágua e o nosso projeto foi engavetado.

C.A. – O programa de governo foi alterado.

O. – Foi alterado. Não... Quer dizer, eu fiquei decepcionado, porque não saiu nem o que ele propôs e nem o nosso. Então, foi, assim, uma frustração... E eu, realmente, vamos dizer assim, desisti da carreira de administração pública, preferi me dedicar simplesmente à área técnica, permanecendo com consultório, os hospitais em que eu trabalhava... Me dediquei basicamente a isso. Realmente, com uma certa frustração na tentativa que eu tinha... aquela ansiedade de mudar a ordem das coisas, porque eu... a gente achava que nós tínhamos uma visão concreta e prática da vivência do dia-a-dia dentro da emergência, mas infelizmente não tinha, vamos dizer assim, nenhum poder político para mudar as coisas. Eu realmente desisti, fui me dedicar a outras coisas... Nessa época, eu fiz uma viagem para o exterior, fui ver algumas coisas lá fora... Voltei, continuei com meu trabalho na faculdade e etc. Dediquei muito tempo ao Colégio Brasileiro de Cirurgiões. C.A. – Aí que você foi fazer seu mestrado?

O. – Eu já tinha o mestrado.

C.A. – Ah, você já tinha concluído o mestrado?

O. – Já. Fui fazer o doutorado no Fundão. Quer dizer... Nesse período, eu dediquei muito ao Colégio Brasileiro de Cirurgiões que é uma entidade a que eu tenho orgulho de pertencer e... Conseguimos fazer bons trabalhos, ajudei a coordenar congressos etc. Bom, posto isso, eu fui, um dia, convidado para assumir a chefia do Serviço de Cirurgia deste hospital, do Hospital K da

SES. Em princípio, eu relutei, porque não tinha pretensão de nenhum cargo de chefia. Mas impulsionado por amigos, que estavam aqui na direção, eu vim até o hospital.

C.A. – Isso foi quando, mais ou menos?

O. – Isso 1994, 95. Mais ou menos isso. Quando eu cheguei aqui ao hospital, eu observei o seguinte: que o convite era em função de tirar o chefe da Cirurgia anterior. Houve uma briga do diretor com o chefe da Cirurgia e eles achavam que eu seria um nome, vamos dizer assim, que imporia por questões técnicas. Mas eu não quis aceitar o cargo...

C.A. – Mas eles te queriam na direção ou na chefia...

O. – Na chefia da Cirurgia. Mas o chefe da Cirurgia seria demitido nesse caso. E eu, por conhecer o chefe antigo... Porque, em princípio, me disseram que ele estava na compulsória, não seria mais chefe, mas a situação não era bem assim – ele queria continuar como chefe – e eu falei: “Para mim, termina aqui. Eu não tenho interesse.” Mas, por insistência: “Não, você, então, continua com a gente, ajuda a coordenar a emergência...” Eu acabei ficando ligado aqui ao setor de emergência do hospital.

Passado um período...

C.A. – Você estava com o seu vínculo do Estado aqui?

O. – Trouxeram o vínculo do Estado para cá. Porque, politicamente, eles tinham como mobilizar... C.A. – Ah, o vínculo do hospital D veio para cá. E você continuava na Posse [hospital federal do município de Nova Iguaçu?

O. – Não, da Posse... desde 1990, eu fui para o hospital E. C.A. – E, lá no hospital , você estava...

O. – Na Emergência. Sempre, quase sempre cirurgião de Emergência. Bom, passado um período, esse hospital (hospital K) foi... Houve uma mudança no sistema e foi colocado... Eu passei a gostar muito de trabalhar aqui no hospital, achei o hospital agradável... Mas ocorreu o seguinte: no governo do governador Marcelo Alencar foi colocado que para a gente continuar no hospital, nós teríamos que pedir demissão – voluntária – e assumir uma cooperativa, entrar para uma cooperativa. Então, era um processo...

C.A. – Isso foi a terceirização.

O. – É. Logo depois. Quer dizer, foi o início de um processo de desmonte da instituição pública. Tentaram... Todos os funcionários eram quase, vamos dizer assim, compelidos a pedir demissão, porque, para trabalhar no hospital, teria que se fazer parte de uma cooperativa. Eu...