1 Introduction
1.3 How the evaluation was organised
No dia 16 de fevereiro o Comitê Estadual de Defesa das Eleições Diretas do Rio de Janeiro organizou uma passeata que reuniu 50 mil pessoas na Avenida Rio Branco, segundo informações da Folha. Segundo o jornal Em Tempo, o ato público contou com a presença de 200 mil pessoas (EM TEMPO, 1984b, p. 8-9).
O ato público foi encerrado com um comício na Cinelândia. O governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, não compareceu e justificou: “uma iniciativa preparatória, parcial, que se dependesse de nós aguardaria a do dia 21 de março, quando estaremos participando da grande manifestação que vem sendo preparada para aquela data” (FSP, 1984j, p. 5).
Segundo Domingos Leonelli e Dante de Oliveira, no Rio de Janeiro havia uma situação diferenciada da dos demais estados em relação à organização da
campanha Diretas Já. Único estado governado pelo PDT, a direção “natural” deveria
ser de Leonel Brizola, porém o governador estava desgastado administrativamente “e ainda enredado pelas consequências de suas manobras com o Planalto no sentido da prorrogação do mandato de Figueiredo ou do mandato-tampão com Diretas em 1986” (LEONELLI & OLIVEIRA, 2004, p. 413).
O jornal Em Tempo também destacou que as negociações de Brizola com o governo federal dificultavam sua participação no ato público. Segundo o periódico: “Preso na própria trama que armou, Brizola não pode comparecer ao ato ficando reduzido a criticar o presidente do PT nos jornais do dia seguinte por ter „interferido‟
nos assuntos internos do Estado” (EM TEMPO, 1984b, p. 9, grifos do autor).
As críticas do governador do Rio de Janeiro dirigiam-se a Lula, que, no comício realizado no final da passeata, defendeu os “camelôs cariocas, constantemente atacados pelo governo do estado” (Ibidem, p. 9).
Dos comícios analisados nesta tese, foi o único em que um representante do PCdoB e Luís Carlos Prestes discursaram. Esse fato deve-se, provavelmente, ao não envolvimento do governador na organização do ato público.
Leonel Brizola entrou de vez na campanha Diretas Já após o sucesso do ato público do dia 16 de fevereiro, que, mesmo sem contar com o apoio da máquina do Estado, reuniu 50 mil pessoas. O governador do Rio de Janeiro ficou preocupado com a manifestação do PCdoB no comício, cujo representante afirmou “que seu partido era o único em condições de levar a população a mudar o país”. Apesar das vaias recebidas pelo representante do PCdoB, para Brizola, “esse episódio ilustrou a „falta de organização‟ do movimento, permitindo que se fizessem „proselitismos inoportunos e paralelos‟ à causa fundamental da luta, que é pela eleição direta” (FSP, 1984k, p. 4).
Nos dias 18 e 19 de fevereiro, aconteceram várias manifestações pró-diretas: um comício em Caruaru-PE, que reuniu 25 mil pessoas; uma passeata em Capão da Canoa, município do litoral norte do Rio Grande do Sul, ao qual compareceram 50 mil pessoas; em Rio Branco, capital do Acre, 7 mil pessoas participaram do comício, número proporcionalmente muito significativo, pois a cidade contava com 100 mil habitantes. Um comício em Manaus, capital do Amazonas, que contou com 6 mil pessoas.
O comício de Caruaru foi preparado, prioritariamente, para lançar a candidatura de Tancredo Neves à Presidência da República, como demonstra a entrevista de Fernando Lyra a Domingos Leonelli:
Eu disse a ele: “Dr. Tancredo, tenho que fazer um comício Pró-Diretas com o senhor sozinho. Só com o senhor, líder nacional, só tem o senhor”. E fizemos o comício em Caruaru, dia 18 de fevereiro. O prefeito era Zé Queiroz. Foi um comício grande. Participaram Bete Mendes, José Eudes e Ayrton Soares, do PT. Desenvolveu-se, ali, o embrião da divisão do PT, na votação do Colégio. Os três acabaram expulsos do partido, não por conta da ida a Caruaru, mas pela votação deles (LEONELLI & OLIVEIRA, 2004, p. 414).
O depoimento de Domingos Leonelli e Dante de Oliveira é bastante esclarecedor não só dos objetivos do comício de Caruaru como também da própria estratégia de Tancredo Neves em relação à sucessão presidencial.
Lyra fizera tudo de caso pensado. Tancredo já sabia que seria o único governador presente e que seria lançado candidato a presidente em eleições diretas, visando, na verdade, ao seu credenciamento em favor das indiretas. Todo o esforço era pelas Diretas. Tanto do governador como do seu fiel escudeiro, Fernando Lyra.
No palanque de Caruaru projetava-se uma visão tão clara quanto possível da complexa e contraditória estrutura interna do movimento oposicionista: a presença de deputados petistas Bete Mendes, Ayrton Soares e José Eudes; a participação de Tancredo nas Diretas e o seu credenciamento político para as indiretas. Uma coisa servindo à outra. Sem Culpa e sem pecado (Ibidem, p. 414).
Domingos Leonelli e Dante de Oliveira traduziram muito bem a estratégia de Tancredo Neves de participar da campanha por eleições diretas e, ao mesmo tempo, entabular negociações nos bastidores, visando a uma possível ida ao Colégio Eleitoral.
Segundo Ricardo Kotscho (FSP, 1984a, p. 5), o comício de Manaus foi a maior decepção de todas as manifestações pró-diretas. O governador Gilberto Mestrinho, do PMDB, apoiava Tancredo Neves se a eleição fosse direta, porém preferia Aureliano Chaves e, caso a eleição presidencial se desse pela via indireta, o vice-presidente seria seu candidato. Além disso, Mestrinho tentou impor um comício apenas de seu partido. Para que o PT pudesse participar, foi necessária a intervenção de Lula junto a Ulysses Guimarães e deste junto a Afonso Camargo, secretário geral do PMDB e muito amigo do governador. Este atendeu ao pedido do amigo e liberou a fala de um representante do PT.
O comício contou apenas com 6 mil participantes e a bagunça foi generalizada. As falas ou eram cortadas pelos organizadores, que não aceitavam críticas ao governo federal e ao governo do estado, ou eram impedidas pelas vaias dos participantes.
Para nós, o fato mais relevante do comício foi a hostilidade com que o governo de Gilberto Mestrinho tratou o PCdoB, partido que o apoiou nas eleições para o governo do estado. O relato de Ricardo Kotscho é bastante esclarecedor:
A confusão em Manaus começou logo cedo, quando o secretário geral da executiva municipal do PMDB, Mirabeau Santos, comandou uma blitz que rasgou as faixas do PC do B colocadas em volta do palanque desde a noite anterior, alegando que estava cumprindo ordens superiores.
Revólver 38 cano duplo à cintura, Mirabeau afirmou que “antes de mim já estiveram aqui alguns membros do Exército, que fotografaram as faixas dos comunistas”. Além do revólver, o secretário geral do PMDB portava também uma máquina fotográfica para documentar as faixas dos partidos proscritos: “essas fotos são muito importantes” (Ibidem, p. 5).
O governador do Amazonas foi mais longe. Obedecendo a suas ordens, “policiais da Delegacia de Ordem Política e Social [DOPS] retiraram com violência as faixas do clandestino Partido Comunista do Brasil, provocando o primeiro incidente da campanha” (VEJA, 1984e, p. 29).
A fala de Tancredo Neves, anteriormente citada, afirmando que sua preocupação era com movimentos subversivos e que o importante era manter a ordem, e o episódio acima descrito demonstram como setores da oposição burguesa eram tão anticomunistas quanto o governo, o PDS e os militares.
No dia 23 de fevereiro, em reunião realizada entre dirigentes do PMDB, PDT, PTB e PT e representantes dos parlamentares pedessistas favoráveis às eleições diretas, foi criado o Comitê Suprapartidário Nacional Pró-Diretas. Foram também incorporadas ao comitê as entidades: OAB, ABI, UNE, ANDES, CUT e Conclat. A principal atribuição do comitê foi coordenar a campanha por eleições diretas para a Presidência da República. Outro objetivo da criação do comitê foi dividir as responsabilidades e os ganhos políticos entre os partidos e as entidades, pois todos se ressentiam de uma certa monopolização de parte do PMDB.