indivíduo e a maneira como se relacionam com a escrita de textos, negando sua origem cultural e ignorando que as transformações sociais são processos em constante movimento, relegando aos sujeitos um lugar marginal na história do desenvolvimento e da construção social.
O excesso de diagnósticos, conforme Freire (2005), pode estar levando ao desenvolvimento de sujeitos cada vez mais passivos mediante uma sociedade cada vez mais exigente em razão dos avanços tecnológicos, permitindo a segregação dos indivíduos ao considerá-los menos capazes e habilitados, justificada pelos importantes conhecimentos da medicina.
6.10– Considerações sobre o Estudo 1
A análise empreendida sobre a produção acadêmica de teses e dissertações sobre a dislexia desenvolvidas no período de 2002 a 2014 apontou que estes estudos parecem presos às concepções primárias acerca do fenômeno e ainda resistentes à busca por novas compreensões.
Em relação ao desenvolvimento da produção acadêmica, é possível afirmar que as discussões acerca da inclusão escolar podem ter contribuído para o seu crescimento, assim como as mudanças na legislação educacional sobre a oferta do AEE podem ter implicado sobre o interesse pelo tema de pesquisa, sobre a popularização dos sintomas, e sobre a busca pelo diagnóstico.
A concentração das produções acadêmicas em uma região do país pode estar relacionada à maneira como os PPG estão distribuídos no território nacional. No entanto, é preciso considerar quais os possíveis reflexos desta concentração em um país no qual o multiculturalismo está bastante presente nas variações linguísticas, pois uma variação linguística específica – a paulista – pode estar sendo legitimada em detrimento das demais, contribuindo para a manutenção de uma concepção distorcida sobre língua e linguagem escrita. Esta possível legitimação da variação paulista foi denotada pela significativa
participação das universidades deste estado e pela concentração de PPG que este possui, somadas à presença da sede da ABD na cidade de São Paulo-SP.
A análise da distribuição por PPG apontou para uma concentração significativa das produções em programas do campo de estudos da saúde. Isto denotou que as dificuldades de aprendizagem da leitura e da escrita seguiram sendo compreendidas como objeto de estudos da área da saúde, fazendo com que os erros cometidos pelas crianças durante a alfabetização continuem sendo creditados a um defeito no sujeito.
A concepção das pesquisas no modelo empírico-analítico apontou para a hegemonia do pensamento mecanicista acerca do desenvolvimento humano, mostrando que a leitura e a escrita são compreendidas como inerentes ao homem, e que os problemas apresentados durante a alfabetização são distúrbios atribuídos ao organismo.
A maneira como os participantes de pesquisa foram caracterizados impediu tecer compreensões mais amplas acerca do público-alvo das produções acadêmicas sobre a dislexia. Enquanto algumas pesquisas procuraram caracterizar os participantes de forma a enfatizar as definições presentes no conceito de dislexia vigente, outros trabalhos apenas mencionaram que seus participantes eram ou não disléxicos. Houve, ainda, trabalhos que acomodaram diferentes faixas etárias em uma mesma perspectiva de análise, desconsiderando as diferenças que a escolarização e as experiências vivenciadas podem implicar sobre os sujeitos. Assim, não foi possível encontrar categorias que permitissem a organização da caracterização dos participantes de pesquisa.
A concentração das pesquisas sob a abordagem teórica do déficit no processamento fonológico, somada ao número de pesquisas concentradas no estudo dos processos fisiológicos, no desenvolvimento anatômico e nos processos diagnósticos, pode ser compreendida como a busca pela compreensão e pela remediação do distúrbio a partir da perspectiva de um ensino de leitura e escrita baseado nas correspondências entre os signos gráficos e os sons da linguagem oral.
Com base em nestas análises, é possível constatar que as concepções que regeram a maior parte das pesquisas sobre dislexia basearam-se em uma perspectiva mecanicista de desenvolvimento humano, compreendendo as dificuldades de aprendizagem apresentadas pelas crianças durante a alfabetização como produto de distúrbios neurobiológicos que necessitam de tratamento, remediação e cura. Nesse panorama, a aquisição e o domínio da
linguagem escrita passam a ser compreendidos como o desenvolvimento e o uso de habilidades técnicas pessoais de codificação e decodificação de signos gráficos utilizados para a comunicação.
Desta forma, os estudos dos processos de aquisição da linguagem escrita foram empreendidos partir do estudo e da busca por regularidades no comportamento a partir do conhecimento do funcionamento do córtex cerebral. Esta perspectiva tem procurado pela localização de um defeito no desenvolvimento e funcionamento biológico dos indivíduos em diferentes aspectos e processamentos, originando um considerável aparato teórico sobre o fenômeno sem alcançar uma explicação e um entendimento científico satisfatório para o problema. A não satisfação levou a variadas combinações de teorias na tentativa de justificar o defeito no sujeito. E, embora as causas do fenômeno não tenham sido delimitadas com clareza, os indivíduos continuaram a ser diagnosticados em razão da apresentação de comportamentos considerados patológicos e entendidos como sintomas.
Os ditos sintomas, cuja principal característica são os erros na leitura e na escrita, podem assumir outras características em razão da teoria assumida pelos pesquisadores para compreender o fenômeno. Assim, enquanto erros, trocas, omissões e aglutinações cometidos na escrita são apontados como um déficit de processamento fonológico dentro de uma determinada concepção de dislexia, outra concepção teórica os compreende como reflexos da oralidade na escrita.
Mesmo apresentando inconsistências, a concepção hegemônica de dislexia vigente continua a orientar o desenvolvimento de pesquisas e propostas de ensino, desconsiderando questões intrínsecas ao desenvolvimento humano como os processos sócio-históricos e culturais e a maneira como as relações com os instrumentos de cultura vão se configurando para a mediação destas e de novas relações. A linguagem escrita, expressão máxima da capacidade humana de criar cultura, encontra-se diretamente encarcerada por esta concepção de dislexia e seus desdobramentos. Ao não ser reconhecida dentro dos processos culturais, a linguagem escrita segue sendo compreendida como técnica de codificação e decodificação a qual não pode ser apropriada por todos os indivíduos.
Com base no exposto, destaco a afirmação de Felix (2011) acerca da hegemonia de uma linha de pensamento científico e o quanto este fato pode estar impedindo o desenvolvimento de novas concepções sobre o fenômeno. Assim, o desenvolvimento de
novas pesquisas que procurem compreender o sujeito em seu processo de aprendizagem da escrita,o papel das relações interpessoais, e os efeitos da mediação recebida, podem trazer novas e significativas contribuições para o debate sobre a dislexia.