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1.1 Competencia profesional

1.1.6.4 Evaluación

Fonte: Arquivo Público Municipal de Uberlândia/Acervo Naguettini.

Do mesmo modo em que os outros espaços reproduzidos neste texto, a Estação Rodoviária também foi fotografada por Ângelo Naguettini diversas vezes evidenciando, no conjunto do seu acervo, a importância deste espaço.

A construção da Estação Rodoviária na década de 1940 compõe um conjunto de intervenções que estavam sendo realizadas na cidade.

Na imprensa local, no contexto da construção da Estação Rodoviária na cidade, esta obra era significada nos discursos do jornal como importante empreendimento. Neste horizonte, os artigos publicados no ano de 1944 salientavam o apoio do Governador Benedito Valadares ao Prefeito Vasconcelos Costa para a realização desta obra que “ordenaria” as

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relações econômicas para o Brasil Central45. A partir deste campo, a construção da Estação

Rodoviária estava sendo significada como importante na constituição e ampliação das relações comerciais na e com a cidade, articulada à referência que se buscava imprimir o município de Uberlândia como entreposto comercial da região.

A historiadora Célia Rocha Calvo, ao refletir sobre a cidade de Uberlândia, no tempo de construção da Estação Rodoviária, afirma que:

(...) Uberlândia foi a cidade escolhida na região para o ponto de guarida dos projetos defendidos pelo Estado Novo. Governada por um prefeito nomeado pelo governador Benedito Valadares em 1943, o qual recebeu apoio daqueles que também queriam fazer da cidade a “porta larga para o Sertão”. (...) na região do Triângulo Mineiro, Uberlândia foi sede dos projetos vinculados à Fundação do Brasil Central durante o Estado Novo. A construção da Rodoviária, nessa área da cidade, significava organizá-la para agilizar as transações de capitais de comerciantes locais, fazendeiros e de todos os que faziam ou procuravam a cidade a fim de fazer negócios. (CALVO, 2001, p. 152)

Na narrativa da autora é possível compreender os sentidos que estavam sendo produzidos sobre a construção da Estação Rodoviária na conjuntura dos anos quarenta. Nesta direção, o registro sistemático deste espaço pelo fotógrafo, conflui no sentido de refletir sobre a importância que esta obra adquire no intuito de promover a cidade de Uberlândia enquanto

um município que destoava dos outros, no sentido de oportunidades e/ou “crescimento”

econômico. Segundo a autora Calvo, “a fotografia da Rodoviária compunha um instrumento

de produção da imagem do progresso da cidade, cuja localização geográfica fazia dela um Centro Irradiador do Comércio na região” (CALVO, 2001, p. 152).

Concluído em 1946, o prédio da Estação Rodoviária era enaltecido nos suportes de memória, como jornais locais e também nas imagens de Naguettini, pela sua estrutura arquitetônica capaz de comportar todas as atividades que estavam previstas para o espaço, inclusive a instalação de repartições públicas que se relacionassem com o serviço de trânsito.

Instalado estrategicamente nos limites da região significada como a “zona urbana” e com o objetivo de “centralizar e fiscalizar todas as linhas municipais de transporte coletivo rodoviário, que tenham esta cidade como ponto de partida, de chegada ou como escala

45 As consultas em alguns materiais ajudaram na reflexão sobre o processo de construção da Estação

Rodoviária e o modo como estava sendo significado naquela conjuntura. Dentre eles podemos citar os artigos veiculados na imprensa: “Vai ser construída a Estação Rodoviária de Uberlândia”. Jornal O Repórter, 30 de Agosto de 1944, p. 3. “Estação Rodoviária”. Jornal O Repórter, 1 de novembro de 1944, nº 737. E também os decretos leis: nº 106, no qual foi sancionado no ano de 1944 a autorização da construção da Estação Rodoviária e também a lei nº 17,sobre a Estação Rodoviária, que prevê todas as funções deste espaço público. Estes decretos leis foram consultados no Arquivo Público Municipal de Uberlândia, no material legislativo produzido e doado pela Prefeitura Municipal de Uberlândia, catalogados na Série: Legislação, Subsérie: Leis, Decretos e

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intermediária”46, o prédio da Estação Rodoviária47, registrado na Foto 4, tornou-se cartão

postal de Uberlândia revelando e difundindo as intervenções urbanísticas que estavam sendo empreitadas na cidade.

Consideramos pertinente a reflexão sobre um artigo publicado no jornal O Repórter,

em um espaço chamado “Crônica da Cidade”, a partir do qual é possível apreender os

sentidos e significados que se buscava imputar ao projeto de construção da Estação Rodoviária.

Crônica da cidade

Está concluída a construção da Estação Rodoviária. Eis um fato marcante para Uberlândia. Isto aqui é centro de expansão automobilística. Fim das estradas de ferro. Porta de penetração no hinterlande goiano e matogrossense. É de se deduzir a importância desse edifício na economia uberlandense. E que bonito ele ficou. Elegante. Confortável. Maravilhoso como um pequeno palácio dos contos de Perrault. Mas um palácio que se positivou. Não é mais ficção. Existe sem a nevoa da legenda. Imponente em suas linhas. Tem beleza. Obedece a técnica na concepção inteligente com que foi projetado. Rigorosamente feito para cumprir sua finalidade. Amplas acomodações para o funcionamento de varias repartições. A secção municipal. Com seu chefe e seus funcionários encarregados do serviço de transito. Que poderão ali aboletar-se folgadamente. Com facilidade para suas funções. A delegacia de Polícia. Gabinete para a autoridade. Sala ampla para as partes. (...). Guichês para a venda de passagens nas jardineiras. E para despacho de malas e cargas nos ônibus e caminhões. E o Bar. Para o café. O pão de queijo. O cachorro quente em provisões de viagem. A matula de última hora. O cigarrinho esquecido em casa. Os docinhos saborosos que entusiasmam o paladar. A cozinha onde o cozinheiro pode trabalhar a vontade. Até o luxo de um salão de cabeleireiro. Tudo isso foi previsto na Estação Rodoviária. E lá está. (...). Na frente uma vasta plataforma. Capaz de abrigar centenas de pessoas. Passageiros que vão embarcar. Ou os que desejam expedir seus fardos e caixotes. Os veículos podem entrar por um lado. E sair pelo outro. Sem atropelos. Na melhor ordem. Sem que o público se molhe na época chuvosa. Ou se derreta ao sol na época de canícula. Instalações higiênicas. Azulejos. Tudo asseiado. Limpo. Moderno. E a localização? Eu já ouvi dizer que há quem ache a Estação Rodoviária fora do seu logar. Que me perdoem! Pensar assim é um erro formidável. Ele está justamente no seu lugarzinho exato. Sob o ponto de vista prático. Ótimo vértice de irradiação rodoviária. Para Goiás. Para Mato Grosso. Para localidades triangulinas. É só ganhar as ruas retas, que levam aos extremos da cidade. E do limite urbano onde começam as varias estradas. A Matriz tornou-se velha demais. Erigiu-se outra com seu campanário esguio. Mais no coração urbano. (...). Foi demolida a Igreja, anciã, pela picareta. Exigência do Progresso. Que não é inimigo da Religião. E sabe harmonizar o espiritual com o temporal. (...). (Jornal O Repórter, Uberlândia, 13 de abril de 1946, 1ª página)

46 Trecho do 1º artigo da Lei nº 17, sobre a Estação Rodoviária. Consulta no material legislativo produzido e

doado pela Prefeitura Municipal de Uberlândia, catalogados na Série: Legislação, Subsérie: Leis, Decretos e

Regulamentos. Nº 010 sob a guarda do Arquivo Público Municipal de Uberlândia.

47 A Estação Rodoviária foi construída na Praça Cícero Macedo, no local onde funcionava a Igreja Matriz da

Cidade, que foi demolida no início da década de 1940 para a construção do prédio. Na década de 1970 foi construído o Terminal Rodoviário Presidente Castelo Branco, local onde funciona a atual Estação Rodoviária, sendo que a antiga Estação Rodoviária foi desativada na mesma época.

100 Este artigo é bastante elucidativo para refletir sobre o contexto no qual foi construída a Estação Rodoviária porque ele traz um repertório de questões envolvidas neste processo de transformação.

Uma destas questões diz respeito ao local escolhido para a construção da Rodoviária, considerado, na perspectiva de uma cidade que se hegemonizava nas décadas de 1940 e 50, um lugar ideal, no limite urbano de Uberlândia, na região na qual a cidade teve o seu início. Esse espaço que abrigava o antigo centro urbano e atualmente compreende o bairro Fundinho,

tinha na antiga Igreja Matriz um símbolo do local onde “nasceu” o município.

Porém, a construção da Estação Rodoviária no local onde ficava a Igreja Matriz significou, para além da demolição material do prédio da igreja, a tentativa de modificar os modos de viver nestes antigos espaços da cidade e, ao mesmo tempo, a busca de imprimir novos sentidos e significados ao espaço no contexto das transformações urbanas que ocorriam em Uberlândia naquela conjuntura.

A diversidade de fotos e ângulos da Estação sinaliza a evidência deste espaço naquela época e, ao mesmo tempo, constituem em instrumentos que corroboram, pelo hábito do olhar, na incorporação destas mudanças pelos sujeitos da cidade.