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Sesión 8 – Clasificamos emociones

4.4.11 Evaluación

Abordamos no item anterior a defesa de Scheler em favor de uma objetividade a priori dos valores, um primeiro passo necessário para sustentar a possibilidade de uma ética material baseada na ideia de valor. Outra etapa importante diz respeito à cognição das essências axiológicas e a defesa da ideia de que tais essências não são redutíveis a aspectos sensíveis ou condições a posteriori dos estados emocionais. Passamos a tratar desse aspecto nesta parte final do trabalho.

Inicialmente é importante distinguir a experiência ou conhecimento dos valores de outras experiências que tendem a ser com ela confundidas. A distinção é também relevante para apontar o caráter objetivo do valor, cuja cognição não equivale àquela do objeto em que ele se manifesta, nem ao processo psíquico do sujeito que valora.

O argumento de Scheler (2014, p. 31-35) é que os valores não são meras propriedades das coisas que consideramos como bens. Assim como é possível intuir (zur Gegebenheit bringen) o vermelho de forma pura como uma cor do espectro ou como a cor de um objeto corpóreo específico, também valores são acessíveis à consciência sem a necessidade de representá-los como uma propriedade de algo ou de alguém. Valores estéticos como os designados pelos termos “belo”, “agradável” e “sublime” não são definidos a posteriori por meio de características que as coisas portadoras desses valores possuem em comum. Quem fizer a tentativa de buscar quais seriam as propriedades comuns de todas as coisas belas terminará de mãos vazias. Para algo ser caracterizado como belo, agradável ou sublime é necessário que já se tenha intuído o valor na coisa. No âmbito dos valores éticos, qualidades axiológicas como “bom” e “mau”, ou “justo” e “injusto”, não se percebem por características recorrentes de uma pessoa ou de um ato. Os valores não residem nas características e, por isso, é um grave erro epistemológico acreditar que se podem utilizar elementos não valorativos (características físicas, predisposições psíquicas, pertencimento a uma classe etc.) como critério objetivo para juízos valorativos. Tal como não faz sentido inquirir o que todas as coisas azuis possuem em comum além do próprio fato de serem azuis, assim é com os valores. O valor pertence a sua própria esfera de objetividade e é dado por meio da intuição.

Scheler (2014, p. 37) enfatiza que valores são fenômenos claramente sensíveis (fühlbare Phänomene), não algo obscuro que adquire sentido apenas por meio de outros fenômenos melhor conhecidos. Nesse sentido, Scheler (2014, p. 38-39) afirma a independência dos valores em relação a coisas e bens com a ideia de que é possível o valor de um objeto nos ser dado de forma clara e evidente mesmo sem que o portador desse valor também o seja, isto é, a experiência dos valores não equivale à experiência de seus portadores. Por exemplo, é possível considerar uma obra de arte ou uma paisagem como bela ou feia, ou um cômodo de uma casa como amistoso ou desagradável, sem necessariamente ter a experiência plena de conhecimento desses portadores do valor para indicar com exatidão quais propriedades deles trazem essas impressões axiológicas. Assim

ele defende a independência da experiência de captação axiológica (Werterfassung) em relação ao objeto portador do valor.

Também Scheler (2014, p. 40) considera que os valores não se confundem com estados sentimentais (Gefühlszuständen), pois, enquanto fenômenos, os valores são objetos reais. Scheler (2014, p. 41-42) conceitua um bem como algo que representa uma unidade reificada (Dighafte Einheit) de qualidades ou de relações axiológicas (não se confundindo, portanto, com o conceito de coisa) e afirma que é nos bens que os valores se tornam objetivos e reais, enquanto na ausência de bens se verificam as qualidades axiológicas, também objetivas, mas ideais. Wolfhart Henckmann (1998, p. 103-104) comenta que as qualidades axiológicas são a priori e independentes da organização psicológica do sujeito que experimenta os valores. A distinção entre a qualidade axiológica e o portador do valor se dá porque, como já referido, as propriedades sensíveis do portador não são experimentadas de forma idêntica à experiência do valor e podem ser modificadas sem que o valor sofra alguma ou igual modificação.

Scheler (2014, p. 80) ainda procura arguir que a cognição axiológica não necessita de conteúdos sensíveis (sinnlichen). As sensações designam simplesmente o meio pelo qual os conteúdos (uma cor ou um som, por exemplo) são dados à consciência, mas não são propriedades intrínsecas a tais conteúdos. Seria um equívoco presumir que absolutamente nada nos pode ser dado sem funções sensoriais, como órgãos dos sentidos e estímulos. Essa premissa realmente levaria a concluir que todo conteúdo da experiência que ultrapassa seus elementos sensíveis seria algo resultante de algum processamento subjetivo como a compreensão (Einfühlung)38 e, assim, não apenas valores como também

espaço, tempo, movimento, causalidade etc. seriam redutíveis a funções do sujeito. No entanto, diz Scheler (2014, p. 81-83), caso se queira investigar o que é dado (e não como), deve-se considerar o ato intencional independentemente das condições (funções sensoriais, órgãos dos sentidos) que não se tratem da intencionalidade, as quais não mais têm a ver com a questão sobre o que é dado. Recorde-se que a experiência fenomenológica é dada como um todo. Seria, por exemplo, um erro ver um cubo e considerar que são dadas sensações dele ou que é dado o seu lado visível, pois o que é dado é o cubo como um todo. O fato de que ele possui outros lados não simultaneamente visíveis é dado nesse ato, ainda

que não se tenha a sensação visual desses outros lados. A tarefa da atividade filosófica, afirma Scheler (2014, p. 86-87), é purificar ao máximo os conteúdos da intuição em relação às sensações que o acompanham. A doação dos valores por meio dos bens não é redutível à sensação que o bem causa no sujeito.

O caráter material apriorístico dos valores possibilita que o fenômeno axiológico seja, dessa forma, isolado de seus suportes materiais, de estados mentais e de percepções sensoriais, podendo ser tratado como uma experiência autônoma.