Ao nível da comunidade, a coesão das redes sociais é um fator determinante de saúde mental (BARRETO, 1994, 2005; HALPERN, 2005; SLUZKI, 1997; WILINSON, 1996). Isso explica o fato de que minorias étnico-culturais com problemas de privação social têm maior nível de saúde mental quando moram em locais de grande concentração e densidade (níveis de pessoas que se conhecem entre si) do que em áreas de menor concentração, mesmo tendo maior poder aquisitivo, realçando a importância do suporte de amigos e parentes, isto é, do capital social vincular (HALPERN, 1983 citado em HALPERN, 2005). Esse fenômeno apontado por Halpern (2005, p.89) mostrou-se evidente em pesquisas por ele citadas, como as realizadas em Chicago com minorias negras, por Faris e Dunham (1939) e em bairros também de minorias étnicas na Inglaterra, por Halpern e Nazroo (2000).
A relação entre migração e saúde mental tem sido apontada por inúmeras pesquisas sociais e epidemiológicas. A OMS (2001) pontua que o processo migratório aumenta o risco de transtornos mentais devido à ausência de redes sociais de apoio com complicações de desemprego. Almeida Filho, Mari & Coutinho (1999), por meio de uma revisão de métodos e estudo em várias pesquisas realizadas na América Latina, e especialmente dos resultados de pesquisa em três áreas metropolitanas brasileiras, rejeitam a hipótese de uma relação direta e positiva entre migração e morbidade psiquiátrica menor. Alegam que conflitos decorrentes da mudança cultural, de padrões econômicos e papéis desempenhados pelos gêneros por si só não respondem pelo desenvolvimento de
transtornos psíquicos. Da mesma forma, os trastornos não são resultantes apenas das condições psíquicas do migrante. Afirmam que o impacto sobre a saúde mental é função da interação entre fatores externos e condições psíquicas, dentro de um sistema global, gerando efeitos psicopatológicos.
No continente europeu, entre os grupos de migrantes, tem importante representação não só as minorias étnicas como também os refugiados e os que buscam asilo político (WATTERS, 2002). Watters e Ingleby (2004) mostram que a incidência de transtornos pós-traumáticos entre o grupo de refugiados não decorre apenas de situações vividas antes da partida do país de origem, mas das condições de inserção no novo país. Em pesquisa sobre serviços de saúde mental para população migrante, Watters (2002) observou que embora haja acesso aos serviços, os mesmos não consideram as necessidades da população migrante. Comenta que são planejados de acordo com os valores e normas do país hóspede sem considerar as questões específicas do migrante, seja de minorias étnicas ou de refugiados, apontando para a necessidade desse cuidado nas políticas de saúde mental.
No Brasil há um elevado índice de migração interna, principalmente do interior do nordeste para as grandes cidades. Ferreira (1999, p. 55) aponta a vivência do migrante no encontro com o espaço urbano, sob o impacto da violência, isolamento e desarticulação de suas referências: “um eu que não se encontra no antes e um outro que não se sabe o que será”. Encontra-se diante do temor da despersonalização e da ambigüidade frente ao novo que precisa assimilar, e o já conhecido que quer conservar. O autor comenta que as tradicionais internações e reinternações, centradas nos sintomas e na doença, sem interações e vinculações afetivas, reforça o seu processo de despersonalização.
Alguns trabalhos grupais são desenvolvidos no sentido de fortalecer os indivíduos por meio de sua identidade social e coesão grupal, considerando a relação entre saúde mental e rede social. Como comentado no capitulo 1, muito conhecidas hoje em dia são as Terapias Comunitárias, desenvolvidas no Brasil pelo antropólogo e psiquiatra Adalberto Barreto, adotadas atualmente em quase todas as regiões do país. A grande demanda por consultas psiquiátricas de uma comunidade de imigrantes do interior do nordeste, situada na periferia da cidade de Fortaleza, levou Barreto (1994, 2005) a transformar o atendimento individual em grupos abertos. A experiência colocou-o frente a frente com a pobreza de laços sociais e o empobrecimento da cultura de origem, levando à perda de identidade social. A recuperação da saúde mental e a prevenção de processo adoecedor e de cronificação estabeleceu-se pela recuperação e fortalecimento da identidade cultural, pelo resgate das práticas, rituais e competências do grupo, e pela busca conjunta de soluções diante das privações sociais (BARRETO, 1994, 2005), processos esses que andam lado a lado com o fortalecimento da rede social.
Um dos precursores do estudo e terapia das redes sociais foi Moreno (1993), que ao lado do psicodrama criou outras técnicas como o sociodrama. O sociodrama é um método pertencente à socionomia, a ciência que estuda a relação entre o indivíduo, o grupo e a sociedade. Neste método o problema está centrado no grupo e nas suas relações, em que questões de papéis, contra-papéis, co-consciente e co-inconsciente grupal, e comunicação télicas são os fundamentos de seu trabalho. A coesão do grupo é definida pelo grau de percepção télica entre os seus membros, ou seja, pelo número de mutualidades existentes. Quando há muitas escolhas sem reciprocidade dentro de um grupo a coesão é baixa. Observou que em um grupo há as redes provenientes de papéis formais, como chefe-subordinado, onde as funções são pré-estabelecidas, mas há redes
informais formada pelas escolhas télicas. Quando mais as redes formais e redes informais dentro de um grupo diferem entre si, mais conflitos grupais. As percepções podem ser trabalhadas por meio da técnica da inversão de papéis, o que se torna muito importante quando se trata de grupos com diferenciações étnicas.