6.0 Diskusjon
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As vivências somaram experiências nos diferentes percursos dos professores entrevistados. Os pontos de partida divergem, pois correspondem aos traçados de suas vidas, mas esses mesmos caminhos se entrecruzam quando transparecem sentimentos de alegria e realização por terem escolhido ser docentes.
Com tantas experiências reunidas, os professores se reservam a novos desafios. Ao Professor Fernando, por exemplo, de ser aluno.
Gostaria hoje de voltar a estudar só, não ser mais professor.
Ser aluno. E eu seria um ótimo. Aliás, os cursos que dei como professor, eu fui um ótimo aluno. Justamente porque você sabe o que é um professor. Respeita, para mim é muito claro, sentou, é aluno, passou lá, é professor. E não tem conversa. Pode ter a formação que tiver. Não me dê um giz, você sentou, você é aluno e vai ouvir o que eu tenho a dizer. E não troca comigo, não é? Mas não tem essa. Nada que foi significativo. Cheguei na carreira onde estou, sou feliz até onde cheguei. Por isso que eu digo, se eu pudesse, é que eu ainda preciso trabalhar, se eu não precisasse totalmente eu ia mesmo parar de dar aula, só estudar. Não ter que discutir, ter que ensinar, mas, aprender. E ficar calado. Coisas que só os livros dão para gente, só os livros. Porque eu leio, para me salvar do trânsito, eu leio. No carro, parou, está aqui, ó, dentro da malinha, na página que eu estou lendo, é só parar que eu pego. É simples e não me envolvo.
Nesse depoimento, professor Fernando projeta seu sonho em ser aluno, mas também revela os papéis que atribui ao professor e também ao aluno. Ao professor, cabe o discurso e ao aluno, a escuta. Suas palavras: Não ter que discutir, ter que ensinar, mas, aprender. E ficar calado.
A disciplina pode ser encarada sob perspectivas diferentes conforme a tarefa do professor é considerada puro ensino ou educação e se o aluno é considerado uma simples inteligência a qual se fornecem conhecimentos ou como um ser a formar para a vida. (…) No primeiro caso, é a concepção tradicional de disciplina que prevalece: disciplina formal e coletiva. Trata-se de obter a tranquilidade, o silêncio, a docilidade, a passividade das crianças de tal forma que não haja nada nelas nem fora delas que as possa distrair dos exercícios passados pelo professor. (…) mas notou-se que proceder dessa forma era prejudicar o próprio ensino, proibir a colaboração
indispensável da criança, reprimir o que melhor pode desenvolver e confirmar os seus conhecimentos como a sua curiosidade, o seu interesse, as suas iniciativas intelectuais; verificou-se que não havia forma de dirigir à inteligência da criança sem se dirigir à criança no seu todo. (WALLON, 1979, p. 379)
O livro que o professor estava lendo, e mostrou-me, era um livro de Filosofia. Fiquei instigada a perguntar-lhe mais sobre o seu gosto por Filosofia e só soube que sua primeira graduação foi nesta área ao ler seu Lattes. Ao fazer essa descoberta, lamentei não ter mais tempo para voltar e procurá-lo e conversar sobre esse ponto. Para mim, pesquisadora, isso se transformou em um incidente crítico.
Para o professor Gabriel, rever a própria trajetória lhe faz constatar que, se pudesse, faria tudo diferente, não faz nenhuma projeção clara para o futuro, mas demonstra disposição em continuar trabalhando.
Ah, eu faria tudo diferente. Eu faria tudo diferente. Eu seria professor mesmo. Mas eu teria talvez estudado mais, teria feito o mestrado antes, pós-graduação, não é. Ou mais uma graduação. Teria feito diferente. Você, lógico, você já fez uma vez, é como te falei, o professor que tem experiência profissional e acadêmica, experiência acadêmica, profissional e a formação, ele olha com outros olhos. Se você já tem, já fez. Faria tudo diferente. Iria melhorar com certeza.
(…) a palavrinha mágica é conhecimento, não adianta hoje eu chegar aqui e falar eu tenho trinta e quatro anos de experiência e daí? Só que há trinta anos atrás, a tecnologia era outra, então hoje, minha mensagem é o conhecimento. Quanto mais você conhecer, quanto mais você ampliar o seu conhecimento dentro da sua área, quanto mais você se tornar um melhor profissional mais longe você vai chegar aí não tem o problema da idade. Ah já estou com sessenta e cinco, eu tenho sessenta anos já. E estou aí trabalhando firme, e sempre tive esse empenho, não é, tem que ser empenhado, muito empenhado, pesquisar muito, precisa ter muito conhecimento, aí você cria o diferencial. Então o que acontece, os outros profissionais lembram de você quando surgem as oportunidades e o mercado de trabalho vai lembrar também.
Em suas aspirações, professor Luís projeta ensinar àqueles que, em sua concepção, possuem pouco conhecimento por se encontrarem em um momento em que a vida lhes está sendo apresentada.
A gente começa ensinando pessoas com uma certa idade e termina ensinando pessoas com menos idade. São os netos, crianças. Isso é a maior virtude. Se você começa ensinando com pessoas jovens, depois vai para uma certa faixa, adulto, aí quem sabe você começa a ser melhor quando você começa a ensinar muito bem pessoas que sabem muito pouco. Então, pessoas mais jovens, crianças. Você é muito bom mesmo, chegou até o topo, lá e termina a vida...
Na vida da gente (fazendo um gráfico) essa curva é importante. Para quem está no meio...o professor fica na sala de aula pensando em dinheiro ou ele fica na sala de aula porque ele gosta? O que eu vejo assim é uma mistura dos dois. Eu gostaria de ficar na sala de aula, com mais idade, porque eu gosto, não por necessidade de dinheiro. Então, dentro do possível, eu hoje posso afirmar, já estou deixando aquelas escolas, já não vou mais para o interior do Brasil, onde não compensa e é um desgaste muito grande.
O quarto e último eixo norteador nos apresenta mais do que projeções para o futuro, caracteriza um elemento presente nos depoimentos dos três professores: dedicação. Dedicação expressa na aspiração em continuar aprendendo, projeção citada pelo professor Fernando; na disposição em manter-se ativo, na fala do professor Gabriel e no desafio de continuar ensinando aqueles a quem o mundo está sendo apresentado, nas observações do professor Luís.
Ao contarem suas vidas, os professores entrevistados mostraram-nos caminhos nem sempre contínuos, e o quanto estes somaram ao que, hoje, os tornam as pessoas que são.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A realização dessa pesquisa possibilitou-me um olhar para além dela, pois, para mim significou mais do que a concretização de um trabalho acadêmico e finalização de um ciclo pessoal e profissional. Mostrou-me fortemente, a disponibilidade dos meus entrevistados em partilhar comigo seu tempo, sua ideias. Busquei valorizar não somente o momento da entrevista, mas, ao transcrever suas falas e ouvir várias vezes suas ideias, mantive atenção e respeito àquilo que expressa suas vidas. E mesmo que tenham omitido algumas informações, dispuseram-se a ajudar-me sem me conhecer, confiaram ainda na interpretação que eu, uma pessoa até então estranha, faria de suas trajetórias. A atuação despojada desses professores ficou como uma marca, uma característica desses docentes de curso superior de Administração. E, investi-me de responsabilidade para registrar e realizar uma interpretação correta de suas colocações.
Aspiro que as informações publicadas motivem novos passos e olhares aos professores do Ensino Superior do curso de Administração, servindo para abertura de caminhos a serem visitados e expandidos por outros pesquisadores; há a necessidade de explorar melhor esse campo que se apresenta, por ora, como território pouco explorado.
No início dessa pesquisa, nutri variadas expectativas. Não sabia ao certo como organizaria as informações que colheria ao longo do trabalho, indagava-me: será que eu saberei reunir em um trabalho tudo o que for relevante? Como sintetizarei e extrairei o que melhor se encaixará ao problema escolhido? De que modo selecionar o prioritário quando tudo parece ser importante?
Questionava-me também em como seria conduzir as entrevistas, se encontraria respostas a partir delas e, até mesmo, se conseguiria levar de eito uma pesquisa que exigiria tempo e aplicação além da formação exigida para conclusão do mestrado, o acompanhamento e dedicação às disciplinas.
Os registros de ideias que, em um primeiro momento, pareciam não fazer sentido e o foco no desenvolvimento do trabalho, foram estratégias que utilizei para manter-me no objetivo perseguido.
Embora, na maioria das situações, tenha se instalado um clima favorável às entrevistas, não pude evitar que informações fossem omitidas, que algumas respostas surgissem e se assentassem por trás de uma névoa espessa. Aprendi que este é o cenário habitual de uma entrevista, pois se trata de um encontro entre pessoas, e todo encontro
pressupõe troca de informações, silêncios, omissões, avanços e recuos. Tal experiência contribuiu para que eu, nas próximas investigações, não desconsidere ou banalize os silêncios, os sentimentos despertados e nenhuma fonte de informação, pois, sem sombra de dúvida, é o que contribui para que o (a) pesquisador (a) se apresente melhor preparado (a) e haja um aproveitamento produtivo nas interações.
Durante o meu percurso, na consulta a dissertações, enquanto apenas ansiava escrever uma, li o desabafo de uma pesquisadora ao relatar ter vivenciado momentos de angústia em sua trilha pesquisística e havia experimentado sentimentos de solidão e desalento. Na ocasião em que tudo se mostrava num todo sincrético, e eu buscava um ponto de fixação, não compreendi. Posteriormente, refletindo sobre o desenvolvimento do trabalho, lembrei-me do que havia lido, e concluí que, ao realizarmos uma pesquisa, entramos em um momento de recolhimento e introspecção. E esse envolvimento pode suscitar um encontro tranquilo consigo ou uma revolução quanto aos valores e objetivos.
O alento se apresenta, por exemplo, quando percebemos colegas buscando, igualmente, informações e respostas, permutando incertezas por mais questionamentos ou quando esses mesmos colegas nos mostram que, apesar de se dispor de conhecimento, isso nunca será o suficiente, há sempre novos degraus a serem conhecidos, muito a ver, aprender e compartilhar. Sem contar as trocas de vivências no grupo, a mediação de outros mais experientes (refiro-me à minha orientadora e aos demais professores do programa). É tudo isso que nos mobiliza a continuar.
Os três professores pesquisados dialogaram em seus relatos sem terem trocado sequer uma palavra, expuseram seus sonhos, evidenciaram insatisfações, manifestaram sentimentos de tonalidades variadas, ora agradáveis, ao lembrarem-se das alegrias e da realização profissional, ora desagradáveis, ao evocarem frustrações, sensação de impotência diante de mudanças sobre as quais pouco podem intervir. Demonstraram, com isso, o quanto foram afetados pelos acontecimentos vividos, o quanto passaram por incidentes críticos.
Constatar a importância da afetividade nas interrelações é considerar que ao outro também há o que o sensibilize, o que o impacta. Dialogando com a teoria walloniana, vemos um indivíduo integral que se relaciona com outros indivíduos que também possuem um arcabouço de experiências, histórico de emoções e sentimentos, com suas razões para pensar o mundo de uma forma única.
Retomando o objetivo inicial desta pesquisa, investigar a trajetória profissional de professores do Ensino Superior do curso de Administração evidenciando o papel da afetividade nesta constituição, percebo que a utilização dos biogramas foi um bom
instrumento. Os biogramas contribuíram para melhor visão de conjunto sobre os itinerários percorridos pelos professores, apontando lacunas, evidenciando passos contínuos ou descontínuos e foram bem recebidos pelos professores de Administração, sujeitos desta pesquisa.
Da análise e discussão das informações, foi possível apreender de suas trajetórias aquilo que, a cada um, foi um forte suporte para a entrada e permanência na profissão. Dentre os muitos achados, ressalto a importância do que foi meu ponto de partida: o foco na dimensão afetiva.
A afetividade esteve presente nas trajetórias dos três, dando cor e sabor à sua carreira e às vidas pessoais.
Rever os trajetos percorridos, fez aflorar sentimentos de surpresa, alegria, realização e frustração.
De acordo com seus relatos, a surpresa decorre por não ter havido reflexão anterior sobre como se tornaram professores, pois, nos casos que envolvem os professores com formação na área de Administração, não se tratou da primeira escolha e, por isso atravessaram momentos de revisão de suas carreiras profissionais; há em seus depoimentos, uma visão frágil sobre o trabalho que desempenhavam a princípio como docentes. Embora atuassem como professores, pareciam não enxergar nesse trabalho, uma profissão. Mas se tornaram com o tempo, professores profissionais, valorizando a profissão.
Por outro lado, a afetividade esteve presente nas exteriorizações de alegria, quer seja pelo reconhecimento profissional obtido, quer seja pela relação afetuosa com alunos. Nesta mesma linha, se expressa um sentimento de realização diante da carreira profissional desenvolvida, os professores encontram-se em posição privilegiada, conquistada pela dedicação e décadas de esforço dispensadas ao magistério.
Em seus relatos, houve a indicação de pessoas que lhes estimularam ou lhes apresentaram uma oportunidade para tornarem-se professores.
Tal estímulo se mostrou através de exemplos ou mesmo um convite direto para lecionar. Os outros mencionados serviram a esses professores como espelhos, referências que os auxiliaram a concretizar o intento.
Os exemplos significativos são carregados de lembranças que expressam sentimentos de gratidão e também de desgosto, demonstrando o quanto as emoções suscitadas vincaram os fatos à memória, como o outro deixa marcas indeléveis.
A importância do aprendizado constante esteve presente também nas falas dos professores entrevistados, a busca pela ampliação dos horizontes para adaptar-se a um mundo
em que as mudanças se dão de modo muito rápido. Sem dúvida, tais mudanças se refletem na postura dos alunos que chegam aos cursos universitários e, se o professor não estiver atento à atuação desse público, não estabelece uma interação proveitosa.
Além da atenção à maneira de expor os conteúdos, condizentes com esse perfil de aluno que difere daquele do início de carreira dos professores mencionados, surge também foco na importância do aprimoramento pessoal, como indivíduo, buscando reavaliar o saldo de cada interação, não perdendo de vista o que pode ser melhorado, o que atendeu às necessidades dos alunos e, porque não, o que atendeu às próprias necessidades.
Os professores demonstraram interesse na melhoria contínua não somente de seus atributos como também de suas vidas, evidenciaram orgulho pelas escolhas que fizeram e respeito à instituição de ensino que os acolheu.
Meus professores do ensino superior do curso de Administração apresentaram uma evidência clara de que, enquanto docentes, nos ligamos à profissão através dos laços afetivos. Se isso já era evidente para mim, proporcionou-me ratificar essa experiência.
Independente das razões que motivaram a permanência no magistério, ou seja, por causa de uma simples coincidência, ao acaso ou mesmo por iniciativa própria visando a realização de uma aspiração, o fato é que escolhas foram feitas e, dentre elas, a opção foi permanecer no magistério por motivos vários, mas principalmente afetivos.
No vasto campo de pesquisa em que se insere a formação de professores, mantenho em aberto a investigação dos professores universitários dos cursos de Administração, com a expectativa de ter despertado reflexões sobre esses processos formativos.
Muito há ainda a aprofundar, e os dados permitiriam avançar para outras análises. Fico, porém, tranquila. Se no início me perguntava porquê estudar o professor do curso de Administração e não de outros cursos, hoje percebo que aprendi muito com eles.
Foi, primeiro, a quebra de um preconceito, passei da ideia do profissional administrador que, em alguns momentos, era professor, para a ideia do professor que tinha na especialidade a área da Administração.
Tranquiliza-me também perceber que as respostas que procurei responder: “Por que decidir-se pela docência em Administração?” e “Como nasce um professor de Administração?” podem oferecer subsídios para futuros estudos nessa área tão falta de investigação sobre a formação de seus professores.
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