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Administração trilhando caminhos diferentes, não somente no que se refere à trajetória profissional em si, mas também no aspecto da formação. A formação em Letras e a certeza da docência foram, para o professor Fernando, desencadeadores do exercício da atividade que, para ele, partiu de uma vocação.

Eu me formei professor por uma, vamos dizer assim, vocação. Eu nunca me vi em outra profissão.

Não somente nesse fragmento, mas durante toda sua entrevista, professor Fernando procura deixar claro que sempre quis ser professor e do seu orgulho em ter feito essa escolha.

Há pesquisadores que nos mostram outras argumentações sobre a formação a partir de uma vocação. Limongelli (2004) e Pelisson (2006), por exemplo, expõem que tornar-se professor não se constitui em dom ou mesmo em um ato natural, pois, no percurso da vida, o professor vai se constituindo. Importa ressaltar: muitos outros pesquisadores discutem essa questão. Refiro-me às duas autoras porque elaboraram trabalhos enfocados na dimensão afetiva.

Entretanto, acrescento uma hipótese ao ponto de vista do professor Fernando, sem perder de vista a argumentação pontual sobre a formação docente citada. Houve, talvez, interesse e predisposição para trabalhar na prática docente por variados motivos que tenham sido impulsionadores e facilitadores para o ingresso e adaptação do professor.

Em outro momento de sua fala, professor Fernando corrobora com a ideia da formação estendida ao exercício profissional e expressa que, ao graduar-se no curso de Letras, tal formação foi importante, porém não suficiente:

Não, ele não foi suficiente porque nenhum curso é suficiente. A gente vai descobrindo isso ao longo da prática profissional. E foi exatamente dentro dessa prática profissional que eu descobri a minha verdadeira possibilidade de continuar aprendendo, de me profissionalizar cada vez mais, me enquadrei dentro das diretrizes dessa faculdade também da disciplina e consegui confortavelmente dar aula.

Note-se, é dentro da prática profissional que professor Fernando também vê oportunidade de continuar seu aprendizado. Enquanto professores, é a experiência de cada um que assume lugar de relevância e o que constitui nossas trajetórias pessoal e profissional, pois, aprender “ não significa simplesmente acumular informações, mas selecioná-las, organizá-las

e interpretá-las em função de um sentido que lhes atribuímos, decorrente de nossa biografia afetivo-cognitiva” (ALMEIDA, 2004, p. 119).

No caso do professor Gabriel, a trajetória profissional docente teve início de acordo com o modo que ele mesmo expressa: “ao acaso”.

Na verdade me formei assim não academicamente, como deveria ter sido. Então você entra, faz a sua graduação, após, seu mestrado, não. Eu fiz a faculdade por uma razão também de trabalho, e teve um contato no trabalho, houve um contato, um colega que lecionava, eu achei interessante. Fui assistir a algumas aulas, gostei, comecei a ajudar em provas e aí vai entrando. Isso tem trinta e poucos anos. Não é que foi por acaso, foi em função de um contato com colega de trabalho que acabou influenciando, e eu acabei entrando para lecionar, acabei gostando. Por coincidência foi aqui na (nome da faculdade) a primeira vez que eu lecionei.

Não havia a intenção, desde a graduação, em tornar-se professor, mas formou-se professor – e gostou!

Por que eu sou professor de um curso de Administração? Bom, primeiro que eu estudei na área, me formei não é, já faz... trinta, trinta e poucos anos, segundo que eu sempre trabalhei nessa área de Tecnologia da Informação, estudando Administração nas empresas. Trabalhei em empresas por volta de 30 anos, não é? E eu gosto muito de treinamento, eu gosto muito desse contato com aluno, não é. Então por isso, não sei se eu sou um bom professor, mas gosto. Está certo?

Ao professor Gabriel, motiva o contato com o aluno e também seu gosto pela atividade. Na interação demonstrada por ele, sobressai-se a afetividade, perceptível em sua entonação.

Outro ponto de destaque em sua fala está em afirmar gostar de treinamento. A palavra 'treinamento' traz em seu significado a ideia de preparar para desenvolver uma atividade, mediante hábito, costume, adestramento. Para Wallon, o papel desempenhado pelo professor é de suma importância, a ponte entre o conhecimento e o aluno e, nesse sentido, a mediação se dá tanto na esfera afetiva quanto cognitiva, não é um mero treinamento. É uma relação ativa em que o professor, reconhecendo o clima afetivo proporcionado em suas interações, pode aproveitá-lo melhor nas rotinas de suas aulas. Podemos supor que a utilização da

terminologia 'treinamento' não tem para o professor uma conotação mecanicista, mas é algo muito mais complexo.

No início de sua carreira docente, a graduação do professor Gabriel se apresentou como uma formação suficiente.

Olha, no começo sim. No começo sim porque primeiro acho que existia muito poucos cursos de mestrado e doutorado, muito poucos. Devia ter (nomes de universidades) eram pouquíssimos, não existia não tinha a CAPES, não tinha uma regulamentação. Tanto é que uma das escolas que eu lecionei a (nome da faculdade) é gerenciada pelo Conselho Estadual de Educação, e o Conselho Estadual de Educação, pela experiência de trabalho que você adquiriu durante os anos, te dava como se fosse um título, ele reconhecia seu status e dava um parecer, um parecer para você lecionar aquela disciplina em função da apresentação do registro profissional em carteira e o currículo.

Hoje seria diferente, hoje você tem vários cursos de mestrado, de doutorado, então seria uma forma diferente.

Se nos reportarmos à introdução dos cursos Administração no Brasil, observamos que foram ganhando notoriedade em escala ascendente e, em um primeiro momento, há que considerarmos que não havia a diversidade de cursos de pós-graduação, mestrado ou doutorado como na atualidade. Além disso, a formação em Economia, escolhida pelo professor Gabriel, havia sido realizada não com o propósito de dar aulas.

Seguindo essa mesma linha formativa, encontramos, na trajetória profissional do professor Luís, semelhanças ao descrever como se tornou professor.

Primeiro porque eu fui formado em Administração também e aqui mesmo na (nome da instituição). Em 1983, eu concluí o curso aqui de Administração. E eu peguei gosto pelo curso.

Não, foi uma coincidência, eu vim buscar meu certificado e o professor da escola me perguntou o que eu estava fazendo na escola, eu falei que eu estava retirando meu diploma. Nessa época, eu já estava fazendo um curso de especialização, eu tinha concluído Administração da Produção e por coincidência um professor de Administração da Produção tinha se afastado daqui (nome da instituição) por motivos médicos e ele me convidou para

ver se eu poderia ocupar algumas aulas desse professor. Eu ocupei, substituí, o pessoal gostou e me contratou.

(…) eu na empresa em que trabalhava, eu fazia muita palestra, palestras assim no Brasil inteiro. Então eu viajava muito, fazia apresentações, só que eram apresentações técnicas, apresentações específicas, processo de equipamento, apresentações de Engenharia, isso foi me dando uma certa facilidade no trato com as pessoas que eram inclusive formados engenheiros e técnicos formados .

Aí isso me deu um certo trato com as pessoas, e naturalmente eu me preparava para as essas palestras eu não queria passar vexame. Então na escola eu fiz a mesma coisa, tinha um texto para abordar, eu estudava bem os textos, eram assuntos que eu tinha visto um dia ainda como acadêmico, no momento como professor substituto no começo, depois professor.

Para o professor Luís, foi a coincidência que o conduziu à carreira docente e, para o professor Gabriel, o acaso. Ambos, em suas entrevistas, validaram o fato de terem sido convidados a dar aula como um incidente crítico, pois, segundo eles, esse acontecimento mudou seus caminhos profissionais.

Um aspecto comum às falas dos três professores, independente das trilhas percorridas é a permanência na profissão pelo lastro afetivo, pelo gosto; quer fosse da interação com os alunos, quer fosse pelo prazer em dar aula.

Ao mesmo tempo em que reúne experiências marcantes, algumas que o desagradou, ainda na condição de aluno, professor Luís se reporta à imagem da professora Cecília como sendo uma de suas importantes referências para ter se transformado no professor que é:

No colégio foi um que foi fundamental. Foi um. E um pouquinho foi minha professora de primeiro ano. Aí é ensino primário. O jeito que ela me ensinava, eu não esqueço. Ah... uma coisa que ela falava que não sai da minha cabeça. Para explicar o “a”, ela falava assim: eu sou uma bolinha e tenho um rabinho para arrastar. Isso é o “a”. Eu aprendi o “a” assim. E eu não esqueço. Muito legal isso. Eu tinha cinco anos e eu não esqueço.

Cinco anos... a gente não lembra das coisas que acontecem com cinco anos. O jeito dela, o jeito que ela se movimentava na sala de aula, a estatura dela, como ela sentava na cadeira. Eita! E as outras coisas, os outros professores eu não lembro. Dela, eu lembro.

O comentário do professor Luís, com os olhos marejados, sobre detalhes, ainda vivos em sua memória da professora Cecília, demonstra o quanto foi afetado pelo modo de se conduzir da docente e, como à criança não passa despercebido aquilo que nem sempre é expresso verbalmente pelo professor. Nas palavras de Pelisson (2006) “(…) diferentemente do que muitos pensam, a criança avalia muito bem o que se passa em sala de aula, mesmo que, aparentemente, escondida em seu silêncio”.

Nesse primeiro eixo, são marcantes as referências de teor afetivo, nos relatos dos professores Gabriel e Luís aparecem incidentes críticos na descrição de suas trajetórias.