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Etter 8. mai 1945

In document View of Wehrmacht i Norge (sider 48-54)

No que se refere às características de um Bobo Fool 81(entertainer) e de um Bobo Jester (sábio, filósofo) temos indícios dos dois em todos os Bobos estudados. Todavia, algumas características são mais recorrentes num do que noutro.

Vemos em Toque e em Feste as características de Fool se sobressaírem sobre as de Jester. Mesmo que suas falas sejam repletas de filosofia, elas possuem primeiramente a capacidade de entreter, de divertir. O Fool também nos parece ser uma figura mais terrena, mais humanizada, enquanto o Jester é quase um ser místico, um sábio, um profeta. Toque e Feste nos parecem figuras reais, mais humanas. Toque é bastante sexual, diz que já foi cortesão e quer se casar com a camponesa Audrey. Suas falas são repletas de conotações sexuais:

ROSALINDA – Ai de mim! Pobre pastor, provando da sua ferida82 lembrei daquela que a má sorte me trouxe.

80 DUKE ORSINO: Thou shalt not be the worse for me: there's gold.

CLOWN: But that it would be double-dealing, sir, I would you could make it another. DUKE ORSINO: O, you give me ill counsel.

CLOWN: Put your grace in your pocket, sir, for this once, and let your flesh and blood obey it. DUKE ORSINO: Well, I will be so much a sinner, to be a double-dealer: there's another.

CLOWN: Primo, secundo, tertio, is a good play; and the old saying is, the third pays for all: the triplex, sir, is a good tripping measure; or the bells of Saint Bennet, sir, may put you in mind; one, two, three. DUKE ORSINO: You can fool no more money out of me at this throw: if you will let your lady know I am here to speak with her, and bring her along with you, it may awake my bounty further.

CLOWN: Marry, sir, lullaby to your bounty till I come again. I go, sir; but I would not have you to think that my desire of having is the sin of covetousness: but, as you say, sir, let your bounty take a nap, I will awake it anon.

81 Sobre Bobo Fool e Bobo Jester ver página 44.

82No original, ‗wound‘. O vocábulo ‗wound‘ também é uma gíria para ‗vagina‘ e, nessa acepção, elicia a resposta com óbvia conotação sexual de Toque (cf. RAFFAELLI, in Shakespeare, 2010).

TOQUE – E eu da minha, quando estava apaixonado e quebrei minha espada numa pedra por falhar83 numa noite com Jane Sorriso. Recordo-me de beijar sua tábua de lavar roupa e as tetas da vaca das quais suas belas mãos rachadas retiravam o leite; e lembro ainda de declarar-me a uma vagem ao invés dela, da qual tirei duas ervilhas84 e, dando-as a ela, disse com olhos lacrimejantes: ‗Use-as por mim‘. Nós que somos amantes sinceros nos colocamos em situações estranhas, mas como tudo é mortal na Natureza, toda natureza apaixonada finda na loucura. (Ato II, Cena IV)85

Em ―Noite de Reis‖ também aparecem indícios de que Feste possui uma vida sexual:

ANDREW – [...] Verdade, estavas muito agradável em tuas bobices ontem à noite, quando falaste de Pigrogormitus e dos Valpianos atravessando o equinócio de Queubus. Muito bom, na verdade. Eu te mandei seis pence para a tua namorada. Recebeste-os? (Ato II, Cena III)86

Porém, se os compararmos, Toque é mais sexual do que Feste. Bloom (2000:291) diz que existem em ―Noite de Reis‖ dois humores: bílis e sangue. ―O humor bilioso resultava em fúria, enquanto o temperamento sanguíneo expressava- se na sensualidade, frequentemente pervertida‖. O humor bilioso assemelha-se ao Impulso de Morte (Θάνατος, Thanatos), enquanto o humor sanguíneo aproxima-se do Impulso de Vida (Έρος, Eros). Contudo, Shakespeare na sua empreitada da invenção do humano despreza tal reducionismo e desafia essa noção mecânica do funcionamento do espírito:

Na realidade não existe incompatibilidade entre Éros e Thanatos em Shakespeare: para que o primeiro triunfe é necessário que o segundo seja atravessado e superado. Esta não é a lição feliz das peças que nos permite considerá-las a priori como comédias, mas é a articulação íntima, inscrita no simbólico – da Idade Média ao Renascimento – do perigo e da felicidade, do fracasso e do sucesso: a comédia não é uma determinante (um dado genérico) imediatamente reconhecível, mas o resultado de um trajeto que permite escapar os duplos e os contrários de toda sorte...(Corvin,1994:60,61, tradução nossa)

83No original, ‗coming‘, com o duplo sentido de ‗gozar‘.( Ibid) 84

No original, ‗cod‘, também uma gíria para ‗testículos‘.( Ibid)

85 ROSALIND. Alas, poor shepherd! searching of thy wound, I have by hard adventure found mine own.

TOUCHSTONE. And I mine. I remember, when I was in love, I broke my sword upon a stone, and bid him take that for coming a-night to Jane Smile: and I remember the kissing of her batlet, and the cow's dugs that her pretty chapp'd hands had milk'd: and I remember the wooing of a peascod instead of her; from whom I took two cods, and giving her them again, said with weeping tears, 'Wear these for my sake.' We that are true lovers run into strange capers; but as all is mortal in nature, so is all nature in love mortal in folly.

86 SIR ANDREW In sooth, thou wast in very gracious fooling last night, when thou spokest of Pigrogromitus, of the Vapians passing the equinoctial of Queubus: 'twas very good, i' faith. I sent thee sixpence for thy leman: hadst it?

Talvez a característica Fool de Feste esteja mais relacionada com o monetário do que com o sexual. Neste trecho encontramos indícios das características Fool de Feste:

MALVÓLIO – Espanta-me que Vossa Senhoria se deleite com malandro tão estúpido. Eu o vi no outro dia ser derrotado por um bobo de taverna que não tinha mais miolos que uma pedra. Olhe só agora, ele já não pode defender-se. A não ser que a senhora ria e lhe dê oportunidade, fica engasgado. Eu lhe digo que, para mim, sábios que muito cacarejam com bobices decoradas não passam de palhaços dos bobos. (Ato I, Cena V)87

Aqui, Malvólio nos dá a oportunidade de ligarmos Feste com a figura do Bobo Parasita88estudada no primeiro capítulo. Ao revelar que Feste fora derrotado por um Bobo de taverna, temos o exemplo concreto dessas figuras que eram frequentes em reuniões e jantares e mantinham uma relação de confronto a partir de discussões filosóficas. Neste caso, temos a disputa entre um Bobo da Corte e um Bobo Parasita, ―de taverna‖ como revela Malvólio. A comparação entre Feste e o Bobo de Taverna deixa claro que o Bobo da Corte possuía uma vida mais estruturada e que geralmente ambos eram mais inteligentes que os Parasitas - ―que não tinha mais miolos que uma pedra‖.

Outra referência que tiramos dessa fala de Malvólio diz respeito às ―bobices decoradas‖. Elas nos remetem aos Livros dos Bobos ou Livros de Piadas (Jester-

books ou Jest-books) que eram frequentemente usados pelos Bobos parasitas, que

os utilizavam como um livro de receitas, aproveitando-se de histórias engraçadas vividas por outros. Malvólio recrimina essas ―bobices decoradas‖ como se a inteligência de um Bobo da corte fosse superior à de um Bobo de taverna, que precisa desses livros para conseguir divertir os outros. E para arrematar usa como diminutivo a expressão ―palhaços de Bobos‖. O interessante é que encontramos também em ―Do seu jeito‖ o ―palhaço‖ como uma figura inferior ao Bobo:

TOQUE – Olá, você mesmo, seu palhaço! ROSALINDA – É teu parente, louco? CORIN – Quem chama?

TOQUE – Seus superiores, senhor. (Ato II, Cena IV)89

87 MALVOLIO: I marvel your ladyship takes delight in such a barren rascal: I saw him put down the other day with an ordinary fool that has no more brain than a stone. Look you now, he's out of his guard already; unless you laugh and minister occasion to him, he is gagged. I protest, I take these wise men, that crow so at these set kind of fools, no better than the fools' zanies.

88 Sobre o Bobo Parasita ver página 45. 89 TOUCHSTONE. Holla, you clown!

Talvez essa comparação se dê pelo aspecto ingênuo e generoso do palhaço, em contraste com a intensidade da presença diabólica do Bobo90. Essa comparação também é utilizado por Martin (1985:79, tradução nossa) se referindo à trama de ―Rei Lear‖: ―A parábola conduz Lear a tornar-se um palhaço grotesco antes de atingir a semelhança de seu Bobo‖. Mas não iremos nos aprofundar nesse discurso para não nos perdemos na linha condutora da pesquisa.

Encontramos na habilidade de entertainer de Feste mais uma característica do que chamamos de Bobo fool. Ela é bastante visível através das quatro canções que o Bobo de Olívia canta durante a peça. Para Heliodora (in Shakespeare, 1991:146) as suas várias canções são o que ele nos dá de melhor em ―Noite de Reis‖.

As suas duas primeiras são para divertir a dupla de boêmios da peça: o irmão de sua patroa Sir Toby Belch e seu companheiro Sir Andrew Aguecheek. Uma canção de amor em troca de algumas moedas:

BOBO – Amada, aonde vais vagando? Fica, o teu amor‘stá chegando

Que canta no grave e no agudo. Não foges, que os dias errantes Terminam com encontro de amantes; O sábio sabe de tudo. (Ato II, Cena III)91

E a segunda canção vem logo em seguida:

BOBO – (canta) Que é o amor? Não é porvir, O gozo de agora faz rir;

O que há de vir ninguém garante; Não há fartura na demora, Dá-me então teus beijos agora,

A juventude é inconstante. (Ato II, Cena III)92

CORIN. Who calls?

TOUCHSTONE. Your betters, sir. 90 Vide página 104.

91 CLOWN: [Sings]

O mistress mine, where are you roaming? O, stay and hear; your true love's coming, That can sing both high and low:

Trip no further, pretty sweeting; Journeys end in lovers meeting, Every wise man's son doth know. 92 CLOWN: [Sings]

What is love? 'tis not hereafter; Present mirth hath present laughter; What's to come is still unsure: In delay there lies no plenty;

Um ponto importante de notarmos é a diferença nas traduções. Das três peças estudadas o que me chamou atenção foi que sempre nas canções ou nos textos em versos a diferença nas traduções se sobressai. Talvez pela necessidade de fazer rimas ou tornar a canção mais ritmada, as traduções tenham se modificado consideravelmente, como podemos observar nesta tradução de Nunes (in Shakespeare, 1991: 147,148)dessas mesmas canções citadas acima:

BOBO – Por onde andas errando, amada minha? Pára e escuta esta lânguida modinha

Que em teu louvor eu fiz.

Não prossigas, que todos os caminhos Vão dar no amor, em beijos e carinhos; O mundo inteiro o diz. (Ato II, Cena III)

E na segunda canção:

BOBO – Seja o que for o amor, nunca é porvir; A alegria de agora é que faz rir,

Não existe o amanhã.

Na expectativa nunca se acha nada; Por isso vem beijar-me, ó doce amada, Enquanto estás louçã. (Ato II, Cena III)

A terceira canção é para divertir o Duque Orsino. Nota-se que Feste cantava em todos os lugares e não apenas para Olívia, sua patroa. Neste trecho da peça reparamos que Feste se encontra no palácio do Duque e não temos nenhum indício do por que ele está lá. Ficamos sabendo que ele cantou na noite anterior e que vaga pelo palácio. Assim, nos parece que Feste perambulava nos palácios divertindo e cantando para quem estivesse a disposição de lhe dar algumas moedas ou, como ele mesmo diz, por ―prazer em cantar‖. Sua terceira canção é a mais melancólica:

BOBO – Venha, venha, ó morte boa Pra nos ciprestes eu jazer;

Meu alento, agora voa, Bela cruel me faz morrer. A minha mortalha florida Preparai bem;

A minha morte tão sofrida É sem ninguém.

Nenhuma flor, nenhuma flor Seja jogada em meu caixão; Nenhum amigo mostre dor,

Then come kiss me, sweet and twenty,

Onde meus ossos sintam chão. Para poupar lágrima e dor Quero baixar

Em tumba que nenhum amor Possa encontrar. (Ato II, Cena IV)93

Por fim, na sua ultima canção ele traz o público de volta ao mundo real, no qual nem sempre os finais são felizes como nas comédias românticas:

BOBO – Quando eu estava na minha meninice, E hey – e ho – e ventava e chovia,

Coisa boba era só uma tolice, Já que a chuva, ela chove todo dia. Mas quando virei homem já taludo, E hey – e ho – e ventava e chovia, Por roubos e ladrões trocavam tudo, Já que a chuva, ela chove todo dia, E quando infelizmente eu me casei, E hey – e ho – e ventava e chovia, Com mando e grito é que nada arranjei, Já que a chuva, ela chove todo dia. E quando chega a hora de deitar, E hey – e ho – e ventava e chovia, Pileque serve só pra atrapalhar, Já que a chuva, ela chove todo dia. Há muito já que o mundo começou, E hey – e ho – e ventava e chovia, Deixe estar, nossa peça já acabou, Lutando pra agradá-los todo dia. (Sai) (Ato V, Cena I)94

93 CLOWN: Come away, come away, death, And in sad cypress let me be laid;

Fly away, fly away breath; I am slain by a fair cruel maid.

My shroud of white, stuck all with yew, O, prepare it!

My part of death, no one so true Did share it.

Not a flower, not a flower sweet On my black coffin let there be strown; Not a friend, not a friend greet

My poor corpse, where my bones shall be thrown: A thousand thousand sighs to save,

Lay me, O, where

Sad true lover never find my grave, To weep there!

94 CLOWN: [Sings]

When that I was and a little tiny boy, With hey, ho, the wind and the rain, A foolish thing was but a toy, For the rain it raineth every day. But when I came to man's estate, With hey, ho,

'Gainst knaves and thieves men shut their gate, For the rain,

Existe nessa canção alguma coisa de erótico: ―Loucura95, aqui,

provavelmente, sugere o órgão genital masculino, ironicamente, ‗um jogo mesquinho‘ do ‗homem de voz atroante‘, ao longo de uma vida de expedientes, casamentos, vã arrogância, bebedeiras e senilidade‖ (BLOOM, 2000:313).

Para Bloom (2000:312), essa é a canção mais melancólica escrita por Shakespeare. Não à toa que esta última canção foi introduzida mais tarde nas falas do Bobo de ―Rei Lear‖ no momento em que Lear se apieda do sofrimento de seu Bobo: ―Pobre servidor bobo, ainda existe uma parte de meu coração que sente piedade por ti‖. E como sempre, tentando alegrar seu Rei, o Bobo canta, otimista, que mesmo que chova todos os dias, devemos estar contentes quando a sorte sorri para a gente:

BOBO – (Cantando.)

Quem um grão ainda tem de inteligência Com oh! Lá-lá, tal chuva e ventania, Deve contente estar com sua sorte,

Se bem que caia chuva todo dia. (Ato III, Cena II)96

2.2.1 O Corruptor de Palavras

As características de entertainer de Toque, diferentemente de Feste, estão pautadas na sua habilidade linguística. Toque sabe brincar como ninguém com as palavras, ele entra em combate de inteligência com qualquer um que se habilite.

With hey, ho,

By swaggering could I never thrive, For the rain,

But when I came unto my beds, With hey, ho,

With toss-pots still had drunken heads, For the rain,

A great while ago the world begun, With hey, ho,

But that's all one, our play is done, And we'll strive to please you every day.

95Na tradução escolhida no lugar de ―loucura‖ leia-se ―coisa boba‖. 96 FOOL:[Singing.]

He that has and a little tiny wit— With hey, ho, the wind and the rain,— Must make content with his fortunes fit, For the rain it raineth every day.

Muitos personagens fazem perguntas a ele só para ouvir as suas inteligentes conclusões. Celia e Rosalinda se divertem com Toque:

CELIA: Então prove com todo o peso do seu conhecimento.

ROSALINDA: Sim, isso mesmo, desembuche sua sabedoria. (Ato I, Cena II) 97

A comicidade no ―corruptor de palavras‖ está na capacidade de encontrar e de aplicar rapidamente o sentido estrito e concretamente literal da palavra e substituí-lo por um mais amplo e geral que está na mente do interlocutor. Isto demonstra uma capacidade de argúcia do Bobo. O entender as coisas ao ―pé da letra‖, na lógica do Bobo, não está relacionado a uma incapacidade de compreensão, a uma estupidez, como nos alogismos. Para Propp, o alogismo é a forma mais comum de comicidade: ―pode-se entender o alogismo cômico como um mecanismo de pensamento que prevalece sobre o conteúdo‖. Contudo, quando se utiliza de analogias, o Bobo não se torna um tolo por não entender o sentido concreto do que está sendo discutido. Pelo contrário, ele demonstra a relatividade das coisas, a relatividade das palavras.

Na opinião de Bloom (2000:263), Rosalinda merece intelecto mais aguçado do que o de Toque para conversar. Ele compara Toque ao Falstaff de ―Henrique IV‖ e diz sentir sua falta nessa peça. ―Mas minha fantasia tem um ponto crítico, uma vez que Toque e Jacques juntos não fazem com que eu sinta menos falta de Falstaff‖.

Jaques, grande admirador de Toque, nos conta como este falava com sabedoria sobre o tempo:

Jaques: [...] Quando ouvi o bobo bem-vestido falar nesses termos sobre o tempo, tão profundamente contemplativo, meus pulmões quase explodiram de tanto rir por uma hora sem parar, de acordo com o seu relógio. Oh, que nobre bobo, que bobo digno, todos deviam vestir-se como ele! (Ato II, Cena VII)98

Sua habilidade com as palavras é tanta, que ele entra em confronto com o jovem William (tradução de Raffaelli) ou Guilherme (tradução de Nunes), admirador de Audrey, sua namorada, apenas através de recursos linguísticos. Um dos pontos

97 CELIA. How prove you that, in the great heap of your knowledge? ROSALIND. Ay, marry; now unmuzzle your wisdom.

98

JAQUES: […] When I did hear The motley fool thus moral on the time, My lungs began to crow like chanticleer, That fools should be so deep contemplative; And I did laugh sans intermission An hour by his dial.—O noble fool! A worthy fool!—Motley's the only wear.

culminantes dessa disputa é a forma inteligente e criativa com que Toque manda embora seu rival e ganha o combate:

TOQUE – Então aprenda essa comigo: ter é possuir. Pois é uma figura de retórica que a bebida, quando despejada de um copo para uma taça, enche uma e esvazia o outro. E todos os autores concordam que ‗ipse‘ é ‗ele‘: assim você não é ipse, pois ele sou eu. WILLIAM – Qual ‗ele‘, senhor?

TOQUE – Aquele que vai se casar com esta mulher. Então, seu palhaço, renuncie – que no popular quer dizer ‗esqueça‘ – ao seu interesse – que no vulgo quer dizer ‗amor‘ – por esta pessoa feminina – comumente chamada ‗mulher‘. Juntando tudo quer dizer: ‗renuncie ao seu interesse por esta pessoa feminina‘, ou prepare-se para perecer ou, para que você entenda melhor, ‗morrer‘, ou melhor ainda, ‗vou lhe matar‘, ‗sai fora daqui‘, ‗transformarei sua vida em morte e sua liberdade em escravidão‘!Vou provocar briga e lhe derrotar com minhas habilidades – vou lhe matar de cento e cinquenta maneiras diferentes! Então trema e suma.

AUDREY – Vá, William.

WILLIAM – Que Deus lhe guarde o bom humor, senhor. (Ato V, Cena I)99

Sendo representada por um bom cômico, esta cena não tem como não provocar o riso. Este é um exemplo nítido de que a carreira de jogral possui lugar na atualidade. Contrariamente às ideias de Claret (in Shakespeare, 2007), que afirma que o jogral é uma instituição caduca da Idade Média, e o pensamento de Heliodora (in Shakespeare,1991) que declara não nos parecerem nada divertidos, vejo grandes possibilidades cômicas nesses recursos linguísticos. Outro exemplo de inteligência e de sagacidade linguística de Toque que possuem grande chance de serem cômicas hoje é o seu combate de inteligência com o pastor Corin:

TOQUE – Alguém assim é um filósofo natural. – Já esteve alguma vez na cidade, pastor?

CORIN – Na verdade, não. TOQUE – Então está danado. CORIN – Espero que não.

99 TOUCHSTONE. Then learn this of me:—to have is to have; for it is a figure in rhetoric that drink, being poured out of cup into a glass, by filling the one doth empty the other; for all your writers do

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