Não há como falar em nova forma de ficção sem falar de sua produção na Internet, já que é, como vimos, o meio mais utilizado por jovens. Ao nos depararmos com a leitura neste ambiente, encontramo-nos com um leitor totalmente diferenciado do leitor de livros impressos, descrito no início deste capítulo. Anteriormente, procuramos estabelecer algumas das características desse novo tipo de leitor e percebemos que é um leitor que busca algo diferente, um leitor acostumado ao mundo das imagens, um leitor que se insere num mundo pós-moderno, da velocidade, da tecnologia, da novidade. Para esse leitor, os textos escritos parecem não bastar, precisam de imagem, som. É neste contexto que surge um meio que parece atender a essas expectativas:
Barcos, carros e aviões são aparentemente extensões de nossos braços e pernas; o telefone estende a nossas vozes; e o livro amplia nossa memória. O computador da década de 1990, com sua habilidade de nos transportar a lugares virtuais, de nos conectar a pessoas do outro lado do planeta e de recuperar vastas quantidades de informação, combina aspectos de todos aqueles meios. E, como se não bastasse, ele dirige nossos aviões de guerra e joga xadrez magistralmente. (MURRAY, 2003, p. 17).
Conseqüentemente, essa nova tecnologia traz consigo uma nova linguagem, o que transforma também a arte literária:
7 Veja ensaio “Jornalismo e literatura na Internet” de Marcos Silva Palácios no site http://www.textodigital.ufsc.br, ano 2 n.1 2006.
[...] surge uma poesia que coloca o público como agente principal na criação e intervenção, na maneira de ler e de se obter novos signos a todo instante. Assim nasceu a Interpoesia, um exercício intersígnico que deixa evidente o significado de trânsito sígnico das mídias digitais, desencadeando o que se pode denominar de uma nova era da leitura (AZEVEDO, www.textodigital.ufsc.br, ano 2 n.1 2006)
Mas, como é a leitura de ficção num meio que oferece tantas coisas ao mesmo tempo, se a leitura de textos verbais, simplesmente, não contempla a expectativa desse novo leitor?
Para Murray, que largamente estudou a computação, “certas modalidades de conhecimento podem ser mais bem representadas em formatos digitais do que seriam na forma impressa” (2003, p. 21). Azevedo assinala que a linguagem traduzida para o sistema binário, em dígitos, foi transformada no seu âmago:
Com o mundo da escritura numérica advindo da cultura dos suportes digitais, a linguagem verbal, que tem como modelo um alfabeto, teve sua práxis há muito transformada na obtenção para o que chamar de conteúdo analítico. Com esta tradição, notamos que o algoritmo nada mais é do que uma escritura que, a cada dia, deixa de ser um modelo matemático de simulação, passando à condição de intercódigo hipermídia ou escritura expandida. (AZEVEDO, www.textodigital.ufsc.br, ano 2 n.1 2006)
E, se assim é, todo tipo de expressão existente nesses meios sofrerão transformações intensas. Azevedo nos lembra que, com as novas tecnologias, a linguagem, que está em expansão e é articulada em várias formas de expressão, parece exigir muito mais que apenas o sistema verbal para cumprir com a sua função de registro e prolongamento da memória e do pensamento:
[...] podemos elucidar que uma reformulação cultural do fazer poético e da produção do conhecimento não passa apenas pela escrita verbal, e sim na composição de uma escritura que abarca signos imagéticos e sonoros que se encontram em um estágio de expansão. É inevitável considerar o avanço tecnológico como um dado para a escritura expandida, pois esta coloca em xeque a própria produção artística e o fazer poético dos últimos cem anos. (AZEVEDO, www.textodigital.ufsc.br, ano 2 n.1 2006)
Assim, o computador fez nascer muitas formas narrativas, como o videogame, RPG e hipertextos pós-modernos e alguns experimentos citados anteriormente extraídos da obra de Beiguelman. Entretanto, como ainda é um meio muito recente, não podemos
afirmar o que acontecerá com a narrativa daqui para frente. Mas é certo que as transformações, mesmo no livro impresso vêm acontecendo desde o século XIX, onde muitas técnicas como o flash-back, a fragmentação, a conversa com o leitor, introspecção psicológica, mudaram os rumos da narrativa. André Vallias, em ensaio para a Revista Digital, chama a atenção para o fato de que a criação no meio digital acontece como uma brincadeira:
Os poemas aqui mostrados devem sua criação a dedos que brincam, a dedos que se movem sobre teclados, a dedos que colhem/selecionam. Apertando teclas dão origem a números, letras, sons, pontos, palavras, melodias, textos, superfícies e corpos [...] os dados apagam as fronteiras entre números, letras, sons, pontos, palavras, melodias, textos, superfícies e corpos. [...] Os poetas aqui apresentados deixaram-se, diante de monitores, seduzir-se por seus dedos. Os frutos dessa sedução surgem aqui sob a forma de gráficos, impressões de computador, textos interativos, instalações sonoras, hologramas e animações (VALLIAS, André - http://www.textodigital.ufsc.br, ano 2 n.1 20068)
Para o autor, todas as linguagens se converteram a uma única linguagem: a digital. Mas ao mesmo tempo, embora sendo muitas linguagens, é uma mesma linguagem então Vallias questiona se o futuro poeta deverá aprender a programar computadores para poder compor em meio digital.
Nos estudos de Janet Murray, podemos encontrar algumas formas de narrativa como hipotese que apontam para o que acontecerá neste gênero da ficção assim como encontramos algumas pistas sobre poesia e narrativa na obra de Beiguelman. Como acontecia desde o século XIX, percebemos que as formas lineares são deixadas para trás rumo a formas não lineares e multiformes:
Hoje, na era incunabular da narrativa computadorizada, podemos ver como os romances, os filmes e as peças teatrais do século XX têm constantemente pressionado os limites da narrativa linear. Temos, portanto, de iniciar nosso levantamento sobre os precursores do holodeck observando histórias que assumem múltiplas formas, isto é, narrativas lineares que forçam as fronteiras de um meio pré-digital como a figura bidimensional tentando escapar de sua moldura. (MURRAY, 2003, p. 43).
Esse tipo de narrativa, a narrativa multiforme é aquela em que o autor coloca uma gama bem variada de possibilidades de desfecho. Um exemplo desse tipo de narrativa é o
enredo do filme “De volta para o futuro” em que as ações da personagem no passado vão alterando o desfecho. Este tipo de mudança, segundo a autora, acontece não somente por uma forma de diversão diferente, mas porque a percepção que caracteriza o leitor, desde o século XX, exige esta mudança, ou seja, “a vida enquanto composições paralelas”:
A narrativa multiforme procura dar uma existência simultânea a essas possibilidades, permitindo-nos ter em mente, ao mesmo tempo, múltiplas e contraditórias alternativas. Seja a história de múltiplas formas um reflexo da física pós-einsteiniana, ou de uma sociedade secular assombrada pela imprevisibilidade da vida, ou de uma sofisticação no modo de conceber a narração, suas versões alternadas da realidade, são hoje parte do nosso modo de pensar, parte da forma como experimentamos o mundo. (idem, p. 49)
Murray assinala que, para dar conta dessas transformações e “apreender um enredo que se bifurca tão constantemente”, um romance ou um filme não seriam capazes e é neste ponto em que, para a autora, o computador se apresenta como capaz de atender a essas expectativas (idem, p. 50).
Da produção já existente na rede, Murray assinala que, na narrativa digital, são os jogos para computador que detêm o maior índice de produção criativa e os que fazem maior sucesso (idem, p. 61). Além deles, o hipertexto narrativo, que forma uma teia de histórias com “muitas ramificações internas e nenhum final bem definido”, e que pode ser comparado com as histórias multiformes, embora não seja novidade, já que o hipertexto existe em textos impressos através das referências, no computador este tipo de produção de texto foi redimensionada. (p. 64) assim como aponta Sales, citado anteriormente.
Apesar de muito diferente dos livros impressos, os jogos atendem exatamente ao que estes novos leitores desejam encontrar numa narrativa digital, segundo a autora e segundo o que pudemos perceber do perfil de leitor do presente século, já que o grau de imersão proporcionado por eles é bastante elevado, pois os ambientes visuais são muito elaborados e existem, em muitos deles, recursos sonoros e táteis e as personagens são bastante convincentes devido a esses recursos, sem dizer que o próprio leitor assume um personagem ao mesmo tempo que comanda (até um certo ponto) o enredo, muito embora haja falta de profundidade neles. Nesse tipo de
narrativa, geralmente o enredo aparece em “blocos de textos” que são exibidos entre os níveis do jogo (idem, p. 61).
Nas narrativas hipertextuais, para atender a um público cuja percepção veio sofrendo mudanças desde o século XIX e que se intensificou depois do século XX, como já dissemos, oferece-se um tipo de texto em que o leitor tem a possibilidade de passar por “várias versões de um mesmo fato”.
Janet Murray exemplifica com a história “Afternoon”, uma narrativa produzida através de vários blocos interconectados e que um dos fatos mais intrigantes é se o filho do narrador morreu ou não. Cria-se um suspense em torno desse fato e o leitor busca notícias sobre ele, “saltando” de uma lexia9 à outra para descobrir o desfecho. O caminho percorrido é diferente para cada leitor, sendo que o autor aponta uma certa “confusão” nestes textos, o que não indicaria que eles tenham algum problema, já que esta “falha” é característica dos textos pós-modernos, refletindo exatamente o tipo de percepção atual. Estes textos dão ao leitor a possibilidade de co-autoria, pois é ele quem reconstrói aquilo que está fragmentado. (MURRAY, 2003, p. 43).
Um outro gênero muito utilizado na rede é o conto, ao qual imagens e gráficos são inseridos. Há mais ou menos uma década, os autores não exploravam o uso do hipertexto neles, conforme aponta Murray. O que começou a acontecer nos últimos anos. Para a autora, a evolução dos escritores, que nas próximas gerações, já estarão acostumados com este tipo de texto, poderão produzir estruturas de maneira mais coerente, como é de se esperar. (idem, 67).
A autora assinala que o tipo de narrativa com propriedades próprias do computador ainda está para surgir devido estarmos num momento de passagem de um meio para o outro, como aconteceu do rolo para o codex, e é comum utilizarmos as propriedades do impresso no digital, sem atentarmos para identificar as propriedades que são inerentes à máquina.
9 O termo foi sugerido por George Landow, extraindo-o de Roland Barthes, que o inventou como uma palavra para “unidade de leitura” como parte de sua teoria do texto. Ver Landow, Hypertext, 4, 52-53 e
O interessante ao percorrermos os tipos de texto apresentados por Murray é perceber que a migração de uma parte da sociedade do impresso para o computador ou outra mídia digital, não é estabelecida pela leitura de textos ou apenas de textos, mas pela imersão apontada tanto por Santaella como por Murray.
Ele busca a ficção como forma de entretenimento, mas parece ter mais necessidade de alto grau de virtualização. O título vem bem a calhar quando a autora cita Hamlet no Holodeck. Hamlet, que é uma história bastante conhecida, mas que se apresenta num meio (o holodeck) virtual. No holodeck, o leitor-navegador tem a possibilidade de vivenciar as histórias num grau de “realidade” altíssimo, mas quando quer, desliga o botão e a história pára. O leitor tem controle sobre o entretenimento. Como tem controle ao ler um livro. Apesar de, no momento da leitura, termos a sensação de realidade, de vivência, pois “o mundo some e só enxergamos a história” (MURRAY, 2003, p. 40), ao fechar o livro, voltamos ao mundo real (idem, p. 35).
Também vemos em Machado um exemplo dessa nova literatura, que é considerado como primeiro romance interativo The Madness of Roland que também apresenta “várias camadas de comentários e diferentes focos narrativos, de modo a permitir forjar narrativas distintas umas das outras, conforme o ponto de vista e o nível de comentário adotado”. Na literatura infantil, exemplifica com Just Grandma and Me, de Mercer Mayer e na poesia Galáxias, de Haroldo de Campos, que resgata a oralidade. (Machado, Arlindo, 1994, http://www.scielo.br/scielo).