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O Dicionário filosófico de Comte-Sponville define a paixão como:

Aquilo que experimentamos em nós, sem poder impedi-lo nem superá-lo plenamente. É o contrário ou o simétrico da ação: a alma se submete ao corpo, diriam os clássicos, isto é, à parte de si que não pensa, ou que pen- sa mal (COMTE-SPONVILLE, 2003, p. 435).

A palavra paixão vem do latim passione e, segundo o dicionário Aurélio, define um sentimento ou emoção que, por sua intensidade, faz perder a razão e a luci- dez, geralmente vista à luz do arrebatamento amoroso, é também todo sentimento que faz sofrer, que traz desgosto, mágoa. Também encontramos que a paixão é um afeto

dominador e cego, uma obsessão. A confusão está instalada, sentimento, emoção, afeto, existe afinal de contas uma diferença entre esses conceitos ou será tudo a mesma coisa com nomes diferentes?

Damásio, em seu interessante livro sobre natureza e significado das emoções e sentimentos, diz:

A emoção e o sentimento eram irmãos gêmeos, mas tudo indicava que a emoção tinha nascido primeiro, seguida pelo sentimento, e que o senti- mento se seguia sempre à emoção como uma sombra. Apesar da intimi- dade e aparente simultaneidade, tudo indicava que a emoção precedia o sentimento. (DAMÁSIO, 2003, p. 14).

Ele prossegue:

A emoção e as várias reações com ela relacionadas estão alinhadas com o corpo, enquanto os sentimentos estão alinhados com a mente. A inves- tigação da forma como os pensamentos desencadeiam as emoções e de como as modificações do corpo durante as emoções se transformam nos fenômenos mentais a que chamamos sentimentos abre um panorama novo sobre o corpo e sobre a mente... (Ibid, p. 15)

É preciso aqui chamar a atenção para o fato de que Damásio toma para si a noção espinosana de que mente e corpo são atributos da mesma substância, um in- fluenciando o outro continuamente; portanto, a separação corpo/mente tem finalidade didática apenas. Ainda citando Damásio:

Por exemplo, quando Espinosa dizia que o amor nada mais é do que um estado agradável, a alegria, acompanhado pela idéia de uma causa exte- rior, Espinosa estava separando com grande clareza o processo do sentir do processo de ter uma idéia sobre um objeto que pode causar uma emo- ção. A alegria era uma coisa e o objeto que causava a alegria era outra coisa. Alegria ou tristeza, bem como a idéia dos objetos que causavam uma ou outra, iriam juntar-se na mente, por fim, mas começavam dis- tintos. Espinosa tinha descrito uma organização funcional que a ciência moderna está revelando como um fato: os organismos vivos são dotados de uma capacidade de reagir emocionalmente a diferentes objetos e acon- tecimentos. A reação, a emoção no sentido literal do termo, é seguida por um sentimento. A sensação de prazer ou dor é um componente necessário desse sentimento. (Ibid, p. 20)

Neste ponto, podemos dizer então que o palco das emoções é o corpo, en- quanto os sentimentos têm por palco a mente. É às emoções e aos sentimentos, os ir- mãos gêmeos de que nos falou Damásio, que chamamos afeto.

O ressentimento é, como diz Kehl, uma constelação afetiva: mágoa, ódio, rancor, decepção, desapontamento, tristeza, raiva. A definição desses afetos é por vezes redundante, há sempre uma grande intersecção entre eles, como se não fosse possível estabelecer limites claros sobre cada um e o que significam. Por exemplo, Kancyper faz equivalentes os afetos denominados rancor e ressentimento. Diz o dicionário que ressentimento é uma recordação tenaz e hostil de atos ou acontecimentos que provoca- ram dano material ou moral, enquanto rancor é definido como o ressentimento amargo e reprimido, ocasionado por algum ato alheio que causa dano material ou moral, assim como a recordação tenaz de tal ato.

Uma outra possibilidade ainda é a de:

uma vingança reprimida, que ficou rançosa. Queremos mal a alguém pelo mal que nos fez, mal do qual guardamos a lembrança e, por não lhe po- dermos dar resposta, o ressaibo. É um ódio presente por um sofrimento passado. O mal que nos fizeram nos faz mal por muito tempo (COMTE- SPONVILLE, 2003, p. 501).

Na definição de raiva também se confundem a ira, o ódio e o rancor. Es- pinosa diz da ira que é esforço para fazer mal àquele que odiamos e que o esforço que empregamos para devolver-lhe o mal que nos foi feito chama-se vingança.

Da tristeza, diz Espinosa que é uma redução da potência de agir do homem; compõe juntamente com a amargura e o pesar, causados por uma ofensa ou desconsi- deração, a mágoa. Mesmo não tendo feito referência ao ressentimento, essa constelação afetiva teria lugar assegurado ao lado da amargura e do pesar, pois é, sem dúvida algu- ma, um afeto que se origina da tristeza.

CAPÍTULO III

A LITERATURA COMO SUPORTE PARA

ANÁLISE DO RESSENTIMENTO, DA VINGANÇA

E DA PRODUÇÃO INTELECTUAL

De acordo com a proposta de utilizar exemplos retirados da literatura para a discussão do ressentimento, conforme exposto inicialmente, passo então a apresentar em maior detalhe as três obras e seus personagens principais para, em seguida, discuti- las, apontando semelhanças e/ou diferenças no modo como os personagens lidaram com o ressentimento provocado pela perda da completude narcísica, ou seja, pelo abandono de que foram alvos.

Ainda que as obras escolhidas sejam bastante conhecidas, considerei im- portante que fossem apresentadas separadamente, mas analisadas em conjunto. Essa forma de exposição pode aparentar uma certa perda de coerência interna ao texto, mas, em contraposição a essa perda aparente, há um ganho real na análise feita do con- junto. Isso se dá porque o que está sendo discutido se beneficia de exemplos retirados das três obras ilustrativas da teoria, a qual, por sua vez, pode tornar-se mais rica – e, quem sabe, alguns conceitos possam ser aprofundados em razão das diferenças sutis dos exemplos utilizados.

Medéia será analisada em maior extensão e detalhe por ser a personagem com maior potencial destrutivo, ela é a personagem para quem a violência dos impulsos, a desfusão pulsional, materializa-se no assassinato e no infanticídio. Heathcliff será vis- to a seguir, pois, ainda que se apresente com grande potencial destrutivo, sua violência

parece mitigada em relação à de Medéia. Por último, virá Bentinho, para quem o impul- so agressivo, também presente, é passível de transformação. É na tentativa de resgate, talvez de compreensão, do passado, através da escrita das suas memórias, que se abre a possibilidade de saída do ressentimento. Como é fácil perceber, a análise se fará do maior potencial de destruição e conseqüente menor possibilidade de elaboração para o menor potencial destrutivo e, portanto, maior potencial elaborativo.