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O Brasil vivia seus primeiros anos de República e a capital federal passava por um processo de modernização; o Rio de Janeiro era o maior centro industrial do país na época. Emergia uma nova classe trabalhadora, e com ela novas preocupações sociais. Em maio do ano de 1903 foi lançado o jornal A Greve. O periódico teve curta duração. As duas primeiras edições foram publicadas sob a direção de Elysío de Carvalho, que mais tarde, em outubro, também como diretor, colaborou na publicação de outro periódico anarquista de pouca periodicidade, O Trabalhador. Segundo Milton Lopes (2006), foi com a publicação desses dois jornais que começou a surgir a ideia de criar uma Universidade Livre destinada a qualquer tipo de interessado, mas principalmente à classe operária. Esses militantes preocupavam-se em politizar o proletariado, propiciar aos trabalhadores e suas famílias uma instrução digna, da qual não tinham acesso. E mais do que uma instrução superior, a Universidade Popular de Ensino Livre era voltada a uma educação social. A desejada transformação da sociedade se daria por meio da educação e da ciência. No entendimento de alguns militantes anarquistas, a desigualdade social tinha sua origem, também, na desigualdade na educação, no acesso

51 Liberdade, Paris, ano 2, nº. 18 – de 1º de janeiro de 1939. Este artigo foi publicado no livro: Edgar

à informação e ao saber. A horizontalização do ensino seria o início da emancipação do proletariado.

Diversos intelectuais, em sua maioria identificados à classe média, se juntaram para fundar a primeira Universidade Popular de Ensino Livre da América Latina no dia vinte e quatro de julho de 1904. A grande parte dos envolvidos participou das lutas abolicionista e republicana, mas, apesar disso, desaprovaram o novo regime. No entanto, nem todos eram adeptos ou simpatizantes do anarquismo. Pedro do Couto, por exemplo, se dizia positivista e Joaquim Murtinho, oligarca de Mato Grosso, exercia o cargo de ministro da Fazenda do governo Campos Sales. Milton Lopes classificou José Francisco da Rocha Pombo no grupo dos não anarquistas.

Dentre os participantes estavam: Araújo Viana, Carvalho e Behring, Manuel Curvelo de Mendonça, Deodato Maia, Érico Coelho, Evaristo de Morais, Fábio Luz, Felisbelo Freire, Joaquim Murtinho, José Veríssimo, Martins Fontes, Morales de los Rios, Pedro do Couto, Sinésio de Faria, Pereira da Silva, poeta simbolista e tolstoiano entusiasta, Rocha Pombo, Platão de Albuquerque, Rodolfo Bernadelli, Silva Marques, Elysio de Carvalho, Rodrigues de Sousa e Eduardo de Sá, entre outros (Lopes, 2006).

Na primeira edição da revista Kultur52, em março de 1904, havia um anúncio da inauguração da Universidade Popular de Ensino Livre com o objetivo de criar uma consciência popular. Os idealistas do projeto acreditavam que o operariado europeu era mais ativo politicamente e que tal iniciativa teria maior repercussão e melhor aceitação na Europa. Além do curso de ensino superior, a Universidade Popular oferecia outras atividades como conferências públicas, concertos, festas, festivais literários e exposições artísticas. Isso fazia parte da concepção do projeto: propiciar a “difusão do

52 A revista Kultur era de conteúdo libertário. Chegou somente ao quinto número. Foi publicada sob a

saber sob todas as suas formas”. A Universidade não seria, então, um espaço voltado somente para o ensino, mas, ao mesmo tempo, para o lazer. A associação formaria, por fim, um centro popular que também contaria com um museu, uma livraria e uma biblioteca. Outro projeto era a criação de uma revista da própria Universidade.

Prestar auxílio para a classe trabalhadora era mais uma preocupação da Universidade Popular de Ensino Livre, nela havia um escritório jurídico cujo responsável era Manuel Curvelo de Mendonça e um consultório médico comandado por Fábio Luz. A primeira sede da Universidade localizava-se no Centro Internacional dos Pintores, na Rua da Constituição, 47. Por muito tempo, a secretaria da Universidade funcionou na casa de Elysio de Carvalho, um dos principais idealizadores do projeto. Carvalho era reitor da Universidade e membro do Conselho de Administração. O comitê administrativo era encarregado pela propaganda e por angariar fundos, muitas vezes promoviam bingos ou vendiam peças de arte.

Não se pode ocultar de forma alguma a importância de Elysio de Carvalho no processo da formação da Universidade Livre. Carvalho se denominava um anarquista individualista, convicto no uso da força para derrotar o Estado, e não simpatizava com as teorias anarquistas pacifistas. Entretanto, já na revista Kultur, escreveu em cinco capítulos “As ruínas de Içaria”, no qual discorria sobre a decadência do anarquismo (Sant`ana, 1982). Como já foi dito anteriormente, Elysio de Carvalho passou a trabalhar no Instituto de Identificação Criminal. Em 1909, publicou pela editora Garnier um volume intitulado Five o`clock, no qual negava seu passado anarquista.

O anarquismo (...) é uma atitude absurda. Foi o meu profundo sentimento do belo, o meu culto apaixonado pela arte, a minha intransigente admiração por todas as formas da grandeza e o meu conceito individualista da história, que me levaram a renunciar meu passado político. O anarquismo, como ideia, é

uma expressão filosófica saída do cristianismo — o maior flagelo da humanidade — e, como fato, é o maior obstáculo à floração da intelectualidade, da beleza e da arte: é uma doutrina em decadência. Hoje, não vacilo em afirmar, que o anarquismo é um acervo de falsas ideias filosóficas e morais, é a negação da realidade tangível e superior, é a aglomeração de todos os instintos mórbidos, é um princípio de dissolução da personalidade humana. Na sua ânsia desesperada de melhorar o mundo, toma partido por tudo que é falso, mesquinho, vil e plebeu, enaltecendo o sentimento de abnegação de si próprio e o princípio nocivo da piedade, nutrindo um ódio desesperado aos criadores de valores e um rancor de danados contra as leis supremas da Vida. não ignoro o lado verdadeiramente trágico da existência dos pobres nem aprovo a iniqüidade sem nome que é o regime imperante, mas não vai a minha simpatia pelo sofrimento desses desgraçados ao ponto de, negando a história do passado e as leis da natureza humana, desconhecer que o mundo pertence ao indivíduo na medida em que esta pode fazer dele senhor. Há mister que uma transformação radical se produza em nosso regime social, para que de novo as fontes da Vida corram e venham purificar nossa falsa existência, cheias de misérias e decepções, mas essa transformação será obra de uma aristocracia esclarecida, prudente e criadora que tenha seus decretos respeitados por um povo que saiba obedecer (Elysio de Carvalho apud Sant`ana, 1982: 41-42).

A mudança de gênio de Elysio de Carvalho não é muito surpreendente. Ao que tudo indica, sempre houve muita desconfiança quanto à sua personalidade. Como vimos no texto sobre Fábio Luz, Carvalho era malogrado, acusavam-no de plagiador e de comprar obras de escritores desconhecidos passando a assiná-las. Brito Broca inclui Elysio de Carvalho no grupo dos tolstoianos, o que a princípio parece um equívoco é

justificado da seguinte forma: “homem que parecia disposto a adotar todos os figurinos do momento. Requinte? Esnobismo?” (Broca, 1975: 119).

As atividades realizadas na Universidade Popular eram noticiadas não só pela imprensa libertária, como o jornal O amigo do povo, mas também pelos meios de comunicação comuns, como os jornais Correio da manhã e Jornal do Brasil. Na Universidade eram lecionados os seguintes cursos: História do Brasil por Felisbelo Freire, Higiene Social por Fábio Luz, História Geral por Rocha Pombo, Filosofia por Pedro Couto, História Natural por Platão de Albuquerque, Matemática superior por Sinésio de Faria, Aritmética por José Oliveira, Geografia por Pereira da Silva, Português por Geonísio de Carvalho, Economia Social por Curvelo de Mendonça, História Universal e Francês por Rodrigues de Sousa, e Desenho e Modelagem por Francisoco Sá.

No dia 12 de outubro, foi convocada uma reunião de todos os participantes na Travessa das Torres, 17, para a verificação de contas da Universidade. Ao término da reunião, constataram-se algumas faltas graves de administração de alguns participantes (Rodrigues, 1993), e Elysio de Carvalho, o reitor, foi responsabilizado pelo fracasso administrativo. Era o fim da Universidade Popular de Ensino Livre. Curvelo de Mendonça explica o fim da Universidade da seguinte forma:

Houve a inveja (...) houve o ciúme, houve a guerra, as más paixões, do homem que danificam a delicada flor da boa vontade. Crestou-se a jovem instituição formosa, voaram os sonhos, as esperanças todas. Como pode viver um puro ideal em meio a uma explosão? (Curvelo de Mendonça apud Broca, 1975: 119-120).

A última campanha da Universidade foi contra a obrigatoriedade da vacina, não se sabe ao certo, mas parece que foi um dos primeiros focos da famosa revolta. Apesar da grande e empolgante iniciativa, a Universidade Popular de Ensino Livre não teve muita duração.