• No results found

1. Introducció

1.2. Marc conceptual

1.2.2. Etiologia

Até ao ano de 2008, chegavam periodicamente ao outro lado do rio, em face da ilha de Carabane – à aldeia de Diogué, que é conhecida como um dos três grandes pontos de embarque senegaleses em pirogas de pesca tradicionais clandestinas –, africanos provenientes de todos os países limítrofes, para embarcarem, Oceano Atlântico fora, em direcção às Canárias. Desde essa data, a barra é patrulhada por navios da marinha espanhola e senegalesa que parecem, se duvidarmos dos rumores, ter posto cobro a esta migração.

Esta porta para o Ocidente (par as Ilhas Canárias, para ser concreto) é um lugar assombrado pelas somas avultadas que quem controla estes tráficos exige pelo “bilhete”, pelos negócios obscuros realizados nos seus bastidores, pelas condições em que as viagens são realizadas (por vezes, sem atenção à quantidade de alimentação e água, sem uma noção concreta das rotas náuticas preferenciais, sem marinheiros experientes a bordo), pelas histórias negras de naufrágios, mortes por subnutrição e assassinatos em massa em alto mar. Porém, o mais perturbante é o facto de o acto de emigrar em si não parecer aquele que gerava mais ondas de choque, talvez, porventura, porque se tornou um hábito.

Actualmente, a possibilidade de circunscrição do projecto de vida de um jovem habitante de Carabane à própria ilha parece ter-se esvaziado praticamente de sentido. Isto é expressado quase univocamente, talvez à excepção de certos, pouco, habitantes mais velhos, que ainda alegam que uma vida tradicional, isto é, baseada inteiramente na agricultura e pesca, é possível.

109 Há várias hipóteses que concorrem para a geração de um cenário tão ubíquo: a desvalorização simbólica, mas, sobretudo, efectiva do modus vivendi tradicional ligado à agricultura ou mesmo à pesca, a conotação simbólica do movimento de africanos que, na outra margem, partem em busca de uma vida melhor, a elevada quantidade de carabaneses em diáspora, a falta de oportunidades de trabalho, não só em Carabane, mas também no resto do Senegal, o passado mítico e glorioso da ilha, conotado com a presença branca, e, adicionalmente, a própria emergência de valores de consumo e de estatuto social associados à posse material e ao capital e uma hipervalorização da cultura ocidental, parcialmente espoletada pelos media. Todos estes aspectos contribuem eventualmente ou fazem parte de um processo de construção de um mundo conceptual em que a Europa é o lado positivo do espectro.

Porém, este processo de valorização do continente europeu Europa é tão forte que parece exigir ou depender, alega-se, do desenvolvimento de um processo de geração da alteridade prévio, ou de outrificação, para utilizar um palavrão. Ou seja, a questão é: como se constrói uma alteridade geográfica? A resposta que Carabane sugere é: a partir de uma exacerbação da diferença e da distância que permita, em segundo grau, a sua valorização hiperbólica (negativa ou positiva).

Em Carabane, a Europa é vista – sem dúvida, em parte graças a uma ignorância geográfica – como um lugar muito distante, tão distante que explicar que eu tinha feito a viagem da Europa para o Senegal e para Carabane por terra em poucos dias, ou mesmo que Carabane fica mais perto da Europa que certos lugares dentro da Europa ficam entre eles é normalmente motivo de chacota ou de convicta negação. Explicar que o Senegal fica muito mais perto da Europa do que os Estados Unidos também tende a levar os carabaneses ao riso ou à denúncia de uma impossibilidade. Paralelamente, é curioso constatar que existe uma pressuposição de proximidade geográfica entre Europa e Estados Unidos, que talvez derive, precisamente, de uma proximidade simbólica. Estas relações interligam-se de uma forma que constitui dois polos – toda a África/todo o Ocidente – imaginados como geograficamente próximos internamente e distantes entre si. Alega-se aqui a existência de um processo colectivo em que um sistema de representações simbólicas é morfologizado, ou seja, que é traduzido numa visão geográfica particular do mundo.

Em Carabane, é frequente perguntar-se aos turistas se a Europa tem estradas, aldeias ou vegetação como o Senegal. Também lhes é perguntado se tem agricultura, pesca, e

110 animais como vacas ou cabras, etc. Há uma suspeita quase dogmática de uma existência europeia equivalente à africana, talvez porque a Europa é outra coisa. Encontram-se ecos do que pode ser esta mesma concepção noutros territórios senegaleses: por exemplo, um taxista em Dacar questionou-me se, no caso de se casar com uma espanhola, e depois de chegado a Madrid, conseguiria escapar para outra cidade, se havia aldeias entre elas e se havia forma de ir de umas para as outras, se, no fundo, a Europa “concreta” correspondia a um sistema de aglomerados urbanos ligados uns aos outros por estradas equiparável ao senegalês. Não parece ser um mero sintoma de simples desconhecimento geográfico, mas antes o sinal de uma geografia que é imaginada como outra e que, no limite, assume contornos fantásticos: um outro antigo emigrado senegalês explicou-me que, antes de vir para a Europa, pensava que o Sol, aí, era diferente, que tinha outra cor. Diferente como? De que cor?, perguntei. Não sei em que é que era diferente, e não sei que cor achava que tinha, mas era o que eu pensava. Para além de uma ignorância geográfica concreta, supracitada (a nível da informação, disponibilidade de mapas, problemas de fundo no sistema escolar, etc.), e que torna impossível julgar com precisão certas polarizações simbólicas na geografia, um dos outros factores constituintes desta facilidade de alterização é, alega-se, a assimetria das possibilidades de viagem. O visto para o espaço Schengen é uma verdadeira relíquia, a qual, por vezes, se tem a sensação ser perseguida por uma nação inteira de caçadores de tesouro. A dificuldade de obter a documentação para entrar na Europa é vista, de resto, como uma constante ofensa europeia que, adicionalmente, é sem dúvida agravada pelo contraste da “aparente” (porque em Carabane só estamos em contacto com ocidentais que desfrutam da sua possibilidade de mobilidade) mas também muito “real” liberdade de movimentos do ocidental.

Seja a imagem de África como um todo pintada como inferno ou representada como bastião de valores como os de sociabilidade e solidariedade pelos carabaneses ou, eventualmente, pelos senegaleses em geral, importa destacar aqui também a tendência de autoconstrução identitária por referência à Europa, que parece relacionar-se com este último ponto.

Se, como terá ficado subentendido, uma das formas mais eficazes de corporalização da bipolarização África-Ocidente aparenta desenrolar-se através da constituição de dois todos continentais antagónicos assentes na imaginação de um todo Ocidental

111 homogéneo, estranho e distante, esse fenómeno também demonstra suceder a partir da obliteração da heterogeneidade africana através de um misterioso substrato comum. A alma africana ou a Mãe África são expressões que qualquer carabanês como, na verdade, qualquer ocidental passeando-se pela ilha, pode utilizar. De resto, a activação de África como um todo homogéneo é constantemente realizada no “Ocidente” real, mesmo nos circuitos académicos. Basta pensar que, ainda no capítulo anterior, nos debruçámos sobre um texto em que Ferguson, um antropólogo, desdizia um argumento de outros antropólogos no Gana com duas histórias de vida de dois rapazes da Guiné- Conacri paralelizando-as ainda com uma carta de um jornalista da Zâmbia!

Permanece de pé a possibilidade que os carabaneses utilizem esta referencialidade totalizadora a África de uma forma particularmente intensa por se tratar de um contexto turístico, devido ao confronto com o próprio turista, tal como sugere Van Beek, por exemplo, para o seu estudo de caso nos Camarões (2003:262). Porém, este não deixa de ser um fenómeno que, seguramente, ultrapassa, no mínimo, a ilha de Carabane, e, pelos vistos, o Senegal. A experiência de Carabane indica que esta homogeneização é muito comum, muito banal, visível e audível na conversa de rua ou de café quotidiana como no discurso dos políticos senegaleses na rádio. Segundo Crosas, talvez seja um produto discursivo identitário da famosa unidade cultural africana que os intelectuais da independência propõem (2009:151), ligados ao pan-africanismo e à négritude.

Jewsiewicki aponta também para a origem histórica desta tendência (embora, uma vez mais, ele próprio generalize: “os africanos”, conectando-a com a representação local da Europa. Escreve, “a questão da auto-representação actual dos africanos do continente ecoa na questão mais ampla e antiga da auto-representação dos Africanos negros, reduzidos pelo tratado dos escravos” (2007:476 – tradução minha). Esta observação de Jewsiewicki é, aqui, mais importante pelo facto de introduzir a relação com o Ocidente na equação do que pelo seu sentido histórico, já que introduz a ressalva, coincidente com o terreno carabanês, de que esta homogeneização é sobretudo activada na presença de uma referencilidade à Europa.

De esclarecer que não foi realizada pesquisa histórica nesta matéria; ela permanece em aberto e convida à investigação. É também de suspeitar que exista qualquer dificuldade colectiva de auto-representação na ausência da referencialidade Europeia! Aliás, essa auto-representação é multivocal. No cenário de Carabane, na ausência do “branco”

112 europeu, há um conjunto complexo de jogos identitários de representação que envolvem sobretudo a matriz étnica de dissecação muito complexa69.

O que se pretende, aqui, alegar, mesmo se de forma pouco desconstruída, é a verificação, no terreno – não só carabanês: senegalês, em geral – de um habitus em que a bipolaridade África-Europa se viabiliza também através de fórmulas de auto- representação dos carabaneses que se sublimam nos todos africano ou negro.