2. Objectius
2.2. Objectius específics
“O branco ocidental representa para alguns africanos o vestígio de uma dominação colonial que ainda não foi invertida uma vez que a colonização tomou a forma de outras formas de dependência (…)” (Crosas, 2009:147 – tradução minha). Passe a generalização da autora, que fez trabalho de campo na Casamansa e foi, pois, inspirada por um contexto virtualmente próximo do presente, creio que, aplicada a Carabane, ela comporta um certo grau de pertinência. “Esta percepção, ao mesmo tempo real e
140 histórica, ocupa um lugar muito forte no imaginário colectivo dos senegaleses”, prossegue Crosas (2009:147). De facto, não é raro escutar interpretações directas da presença branca actual como uma continuação das assimetrias e práticas da época colonial. Em relação a isto é verbalizado, frequentemente, um ressentimento, muitas vezes ilustrado com uma história.
Estas narrativas de ressentimento podem ser encontradas, por vezes, num encadeamento situacional directo com uma situação identificada no subcapítulo anterior. É frequente, por exemplo, uma denúncia de injustiça com base racial por parte de um branco ocidental esbarrar numa legitimação ancorada numa reivindicação de compensação pelo passado ilustrada por narrativas.
Por exemplo, quando eu e um amigo português nos dirigimos ao chefe de Carabane para denunciar o facto de pagarmos pelo transporte público para a ilha o dobro que qualquer outro habitante da ilha, embora não fossemos turistas e eu habitasse a mesma, a sua resposta, embora a base da minha denúncia não fosse sequer a raça, desaguou na ocupação francesa, no comércio de escravos e em histórias particulares de violência sobre os locais por parte dos franceses durante o tempo colonial, gravadas na memória oral da ilha. O chefe da aldeia de Carabane justificou, pois, o estado de coisas (que atingia também a outra portuguesa residente na ilha, há já dois anos) da seguinte forma: agora é a vez de os africanos ganharem qualquer coisa, explicou, e esse qualquer coisa pode ser apenas ganho através do turismo
À semelhança do encadeamento narrativo suscitado por esta contestação, quando um “turista” denúncia a prática de prix toubab em Carabane, numa boutique ou nas tarifas dos transportes públicos existe uma probabilidade de que a mesma embata em histórias semelhantes.
No Senegal, há uma consciência histórica dos crimes do colonialismo e do pré- colonialismo muito grande e solidamente intelectualizada por figuras nacionais como Léopold Senghor, Cheick Anta Diop, Alioune Diop mas também internacionais como Aimé Cesairè, autor que conheceu grande difusão no país graças, precisamente, ao fervilhante movimento intelectual anticolonial da capital Dacar ao longo do século XX, antes, durante e depois da descolonização.
Em Carabane, como propõe Crosas, os toubabs oferecem uma janela para a reactivação contemporânea das acusações do tempo colonial. Claro que esta activação pode ser estratégica: é assim que a vêm Ricardo, o português já mencionado, e outros
141 expatriados. Também é assim que as vê Souleymane, sobrinho de Ibou Gueye e primogénito entre os filhos masculinos – alguém de quem se espera muito na família – escarnece das narrativas do ressentimento da família, afirmando que a sua utilização junto dos toubabs está subordinada a motivos interesseiros.
Não obstante, é dúbio que a existência de um aspecto estratégico defina as várias narrativas deste tipo. Um dos aspectos comuns entre elas parece ser a característica de, em muitos dos seus usos, unificarem presente e passado em termos de contas de culpa, tornando-as alheias do factor temporal. Num certo sentido, é como se, por vezes, a possibilidade de prescrição se encontrasse excluída ou, então, como se o tempo não existisse – na realidade, não é fácil avançar uma explicação para exclusão do factor tempo. O músico do Hotel Barracuda, por exemplo, acusa a França de ter coagido e permitido ao seu avô combater por essa pátria estrangeira na Segunda Guerra Mundial e de agora lhe negar, a si, o acesso ao território francês. Esta obliteração do tempo torna- se ainda mais difícil de interpretar quando a contextualização da culpa ou de uma dívida é pobre, como por exemplo no caso em que alguém convida um ocidental a partir, dizendo-lhe que o seu lugar não é ali, e lhe pergunta se não acha que os seus antepassados já não arruinaram África suficientemente. É neste sentido que as diferenças materiais e financeiras se parecem apresentar como explicações mais fortes para estas narrativas.
Esta polémica levanta, pois, questões que não tenho veleidades, neste trabalho, de resolver: os senegaleses estarão ainda realmente inflamados com os danos históricos da ocupação colonial e escravatura? E, neste sentido, será que a referida ética de manipulação não é mais do que uma vendetta histórica legitimada por narrativas de ressentimento? Ou, como indicia Souleymane, será apenas tudo uma desculpa na qual maior parte dos carabaneses não crêem realmente, utilizada para legitimar relacionamentos imorais com os Europeus? Por outro lado, a pobreza, a ausência de desenvolvimento no sentido de industrialização, o desemprego (a taxa oficial é de 48%) e todos os outros mal-estares sociais também são frequentemente imputados à Europa e ao Ocidente, que são acusados de não quererem verdadeiramente o desenvolvimento de África para lhe poderem continuar a extrair as suas matérias primas e recursos, aproveitando a ignorância das populações, lucrando com o seu consumo e revenda a todo o planeta. Em Carabane, em 20111, um exemplo recorrente que pretendia comprovar o alegado momento em que a Europa mostra o seu verdadeiro rosto era a
142 sua ingerência nos conflitos da Líbia e da Costa do Marfim. Estas diferentes temáticas aparecem frequentemente embrulhadas no mesmo invólucro de acusações que a escravatura, o colonialismo ou o caso dos tirailleurs senegaleses (que ainda marca muito o Senegal), o que coloca dúvidas ainda mais profundas sobre a origem ou as várias origens deste tipo de narrativas e acusações.