CHAPTER 3: AVO-AVA FORWARD MODELLING
3.2 M ETHODOLOGY
Ligada ao poder, a escrita contribui para criar o status social da língua, mas seu uso é freqüentemente afastado da fala. No Haiti o crioulo é falado pela totalidade da população. Baseado na oralidade, sua transcrição na vida quotidiana é reduzida. Por outro lado, apresenta-se com freqüência na poesia e no romance. Sua utilização escrita corresponde geralmente à afirmação de uma identidade e a um posicionamento militante. Por sua vez, o francês é a língua da educação, da administração e da maioria dos meios de comunicação. Ele é falado e compreendido por uma pequena parte da população.
Apesar de já ser uma língua escrita há muito tempo (apenas a definição de uma ortografia padrão data de pouco tempo) o crioulo haitiano continua sendo considerado uma língua ágrafa. E é tratada como tal. Sua escrita não conta como escrita; não configura um “documento”, digamos assim. E a que devemos atribuir essa situação ? Ao suposto bilingüismo ? Ora, no caso haitiano, o bilingüismo está restrito a um setor bastante minoritário da sociedade e isto contribui sensivelmente para afastar a escrita da esmagadora maioria da população, o que acentua a situação de diglossia, como num círculo vicioso. A diglossia acaba por apoiar a escrita em uma das línguas ou “conspira contra uma delas”. A medida que se é mais bilíngüe, menos se escreve na língua de menor prestígio e, concomitantemente, se desestimula a leitura nesta língua. E numa situação de bilingüismo em que uma das línguas conta com uma grande tradição escrita, enquanto a outra foi tradicionalmente ágrafa, é fácil perceber que a escrita – ou não-escrita – é um fator determinante de discriminação.
estar cada vez mais ao alcance de um número maior de pessoas, dada a situação diglóssica presente no país, os cidadãos bilíngües que dela se utilizassem, fariam- no mais como uma prova de reconhecimento e de fidelidade a uma língua amada do que como recurso informativo ou meio de emoção estética.
Continua existindo uma dificuldade quase insuperável para fazer do crioulo uma língua verdadeiramente “oficial”. A declaração que consta da nova Constituição (1987), art. 5º, de que “são idiomas oficiais o francês e o crioulo” poderá, a longo prazo, criar um sentimento de frustração nos usuários deste último, se se condicionar excessivamente a “oficialidade” à visibilidade e ao exercício da escrita.
Elaborar uma ortografia para o crioulo haitiano trouxe à tona vários problemas a serem considerados. Em primeiro lugar, é uma língua vernácula socialmente inferiorizada. Como não é unanimemente bem vista em nenhum dos domínios de emprego que conferem um certo prestígio (documentos administrativos, instrução superior, etc.), seus locutores dificilmente se sentem motivados a aprender a lê-lo e, mais ainda, a escrevê-lo. Em segundo lugar, ele coexiste com o francês, sua língua de base lexical, a língua da qual se originou cerca de 90% do seu vocabulário. Embora o crioulo difira do francês em seus sistemas fonológico e morfofonológico, seus laços estreitos com sua língua-base no plano lexical tornam sedutor qualquer sistema de notação etimológica. Com efeito, durante muito tempo, algumas tentativas de representação autônoma (dita fonética) provocou vivas polêmicas entre a elite haitiana.
É no Haiti que existe o maior número de textos escritos em crioulo e onde foram feitas certas experiências ortográficas interessantes. Foi igualmente nesse país que se encontrou o maior número de textos redigidos em crioulo nas mais diversas épocas.
como já fizemos em nossa dissertação de mestrado,45
optamos por uma brevíssima apresentação histórica, mostrando suas repercussões na sociedade haitiana.
9.1 – BREVE HISTÓRICO DAS NOTAÇÕES ORTOGRÁFICAS
Dois períodos se desenham nitidamente na elaboração das notações etimológicas: o período colonial, abarcando o fim do século XVIII e o início do século XIX, e o período moderno, que se instala do final do século XIX até aproximadamente 1940.
Poder-se-ia pensar que a independência do Haiti seria acompanhada de um maior emprego do crioulo no domínio administrativo, sobretudo pelo fato de que um grande número de chefes de Estado crioulófonos e iletrados dirigiram o país entre 1804 e o período moderno. Ora, o único texto político que temos desse período é um discurso do presidente Salomon, pronunciado em 1915. No campo literário, a safra é mais abundante. No final do século XIX, Oswald Durand compôs uma canção em crioulo, “Choucone”. Massillon Coicou escreveu peças de teatro nas quais se misturavam o francês e o crioulo e Justin Lhérisson introduziu expressões crioulas nos romances de costumes locais. Todos esses autores se ativeram a uma ortografia etimológica diferindo muito pouco daquela que encontramos nos textos do período colonial.
Foi Georges Sylvain quem deu um passo decisivo na direção de uma
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RODRIGUES, Luiz Carlos Balga. A Introdução da escrita e sua repercussão na diglossia (francês- crioulo) na República do Haiti. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, dissertação de mestrado em Estudos Lingüísticos Neolatinos, 2005.
ortografia sistemática, permitindo recuperar, de forma precisa, a pronúncia de então. Inspirando-se na adaptação em crioulo das Fábulas de La Fontaine, composta pelo martinicano F. Turbot, Georges Sylvain escreveu “Cric ? Crac !”, em 1901. Foi redigido numa ortografia cujo objetivo era, segundo o autor, conservar o máximo possível a fisionomia francesa das palavras derivadas do francês, sem sacrificar a expressão fonética. Vejamos como exemplo as duas primeiras estrofes:
Tradução francesa Loup ac mouton Le Loup et l’agneau “Douvant poul' ravett pas janmain
G'ain raison. Grann moin té connin Dit ça souvent : eh ! ben gadé Si mots longtemps pas vérité.
Gnou mouton tout piti, gnou jou, T 'apé bouè d' leau nan la-riviè.
Nan mainm moment, gnou gros bitt loup Soti nan bois tou, pou li bouè.”
“Devant une poule, ravet jamais
N'eut raison." Ma grand'mère avait coutume De dire souvent cela : eh ! bien, voyez Si les propos d'autrefois ne sont pas vérité !
Un tout petit mouton, un jour, Buvait de l'eau dans la rivière. Au même moment, un énorme loup Sortit du bois, pour boire aussi.”
Deve-se a primeira ortografia autônoma do crioulo haitiano ao pastor metodista irlandês McConnell, originário da Irlanda do Norte. Esta ortografia se inspirava na descrição de Suzanne Sylvain (Le créole haïtien,1936) que continha formas transcritas do alfabeto da Associação Internacional de Fonética. De acordo com este sistema de grafia, elaborado entre 1940 e 1943, cada fonema do crioulo era representado por um único símbolo e cada símbolo só assumia um único valor fonético.
A ortografia de base fonológica do reverendo McConnell provocou uma indignação geral entre os intelectuais do Haiti. Charles-Fernand Pressoir, o mais bem intencionado entre os críticos do irlandês, reprovava-lhe sua falta de sensibilidade aos aspectos culturais da elaboração de uma ortografia.
E hoje em dia, parece que os estudiosos do assunto são unânimes em dar razão a Pressoir nas suas críticas. Com efeito, toda inovação neste domínio deve levar em conta duas séries de dados. Primeiramente, deve-se levar em conta os princípios científicos. A estrutura fonológica e morfofonológica da língua determina um sistema de base fonológica segundo o qual se estabelece uma relação de bi-unicidade entre fonema e símbolo. E em segundo lugar, a ortografia proposta não pode se esquecer dos processos psicológicos que implicam no processo da escrita e da leitura. Além disso, os símbolos propostos devem se prestar aos métodos modernos de reprodução tipográfica.
Os lingüistas e os especialistas em alfabetização tendem a negligenciar os aspectos sociológicos da elaboração de uma ortografia. Entre esses aspectos, é preciso perceber: a) o status da língua (nacional, vernácula, de cultura, etc.); b) as atitudes das diferentes classes sociais em relação à língua; c) a relação da língua em questão com as outras línguas faladas no território; d) a situação dialetal, quer dizer, as relações sociolingüísticas e lingüísticas entre as variantes da língua.
No Haiti, o crioulo é uma língua vernácula inferiorizada e é necessário, primeiramente, fazer com que estes locutores o estimem digno de ser representado graficamente. Ainda há haitianos, inclusive entre os crioulófonos monolíngües, que julgam que qualquer ortografia destinada a grafar o crioulo deveria se calcar naquela que se emprega para representar a língua de prestígio e a língua oficial, o francês. É preciso determinar se esse sentimento não vai de encontro às necessidades econômicas e as realidades socioeconômicas e políticas do país.
Quando o alfabeto McConnell-Laubach foi lançado, o Haiti saía de uma ocupação americana que havia durado cerca de vinte anos. Uma vez que os autores do alfabeto eram anglófonos, foram acusados de terem pesquisado uma ortografia destinada a tornar o crioulo mais acessível sobretudo aos ingleses e aos americanos. Apesar de tanta crítica, este alfabeto teve uma certa difusão. Foi
empregado na tradução dos Evangelhos, na redação de um jornal semanal e num projeto de instrução fundamental financiado pela UNESCO.
Em 1947 Charles-Fernand Pressoir e L. Faublas apresentaram uma modificação do alfabeto “fonético” alinhando-se em certas convenções da ortografia francesa compatíveis com a bi-unicidade entre som e letra. A ortografia Pressoir-Faublas goza até hoje de um status semi-oficial; ela é empregada por todos os organismos engajados na luta contra o analfabetismo: o Comitê Protestante de Alfabetização, o clero católico e também o ONAAC (Office National d’ Alphabétisation et d’Action Communautaire), organismo governamental encarregado da alfabetização de adultos. Este último financia uma Associação para as Pesquisas Científicas sobre o Crioulo e sua Utilização, que publicou uma lista de sugestões visando a eliminar certas variações no emprego do alfabeto Pressoir-Faublas (conhecido atualmente pelo nome de ortografia do ONAAC).
É bom aqui abrirmos um parêntese para lembrar que os anos entre 1970 e 1990 foram o grande período do crioulo. Em 1975 surgiu o primeiro romance escrito em crioulo haitiano: Dezafi, de Franketienne, obra, aliás, que se enquadra ao mesmo tempo como romance e poesia. Trata-se de um texto bastante original e que vai marcar profundamente o desenvolvimento da literatura crioula no Haiti. Sua importância se deve sobretudo ao fato de utilizar exclusivamente o crioulo, ao longo de toda obra (312 páginas na edição original).
Neste período também aparecem no Haiti numerosas obras que vão dar um impulso importante à literatura crioula, ainda que as dificuldades econômicas do Haiti não permitissem uma difusão muito grande dessas obras. Ao lado de Franketienne, aparecem obras de Morisseau-Leroy, Célestin-Mégie, G. Castera, J.M. Etièn, Carrié Paultre, etc.
para o crioulo haitiano. Sabemos muito bem a importância que a tradução da Bíblia teve para o desenvolvimento das línguas, dada a necessidade de ser traduzida segundo os mais diversos gêneros, em estilos os mais variados. É também a época da tradução de numerosos autores franceses, inclusive clássicos como Molière, Corneille.
E é sobretudo o momento dos diversos debates em torno das grafias crioulas. Nos anos 80 florescem as publicações de seleções de novelas de autores diversos, contos, numerosas peças de teatro e algumas antologias poéticas. Surgem também alguns ensaios, livros para fins educativos, histórias em quadrinhos. É também o período das teses e dos grandes trabalhos sobre os crioulos em geral, como os trabalhos de Chaudenson, Valdman, Bernabé, Marie- Christine Hazaël-Massieux e tantos outros.
Depois de 1990 surge uma situação paradoxal. O interesse dos autores é de ter cada vez mais leitores, publicar na França, inscrever-se na francofonia e portanto, escrever em francês, mas em um francês que comporte uma forte “couleur locale”. O uso cada vez mais sistemático deste francês leva a um certo abandono relativo do crioulo na literatura, embora na vida quotidiana, o recurso crescente a esta língua, fazendo com que seus locutores a falem com muito menos incômodos e complexos do que no passado, nos pátios dos colégios – e até mesmo nas salas de aula – mas também na administração pública e nas ruas. É verdade que no campo educacional o crioulo ainda não conseguiu conquistar um lugar tranqüilo e estável, sobretudo devido à resistência de certos pais que ainda não estão convencidos de que o crioulo é uma verdadeira língua e que temem que o ensino do crioulo perturbe ainda mais suas crianças, que já têm dificuldade de dominar o francês, visto como único meio de acesso a profissões favoráveis.
Ainda no final dos anos 70, o debate sobre a ortografia foi reaberto no Haiti por pessoas munidas de conhecimentos lingüísticos profundos e
apreciadores de uma ortografia autônoma de base fonológica para o crioulo haitiano. Trata-se, particularmente de Pradel Pompilus, eminente lingüista haitiano e de Paul Berry, educador americano que residiu muitos anos no Haiti. Pompilus e Berry propuseram algumas modificações na ortografia do ONAAC que têm por objetivo aproximar a forma gráfica das palavras do crioulo às formas correspondentes do francês. Estes partidários de uma ortografia etimológica modificada se apoiaram sobre quatro princípios:
Para não afastar o apoio da elite haitiana bilíngüe, todo sistema de grafia do crioulo deveria ser de fácil acesso ao leitor francês: qualquer pessoa que saiba ler em francês deveria poder se adaptar facilmente ao sistema proposto.
O crioulófono alfabetizado numa ortografia crioula deveria poder facilmente aprender a ler em francês.
Pelo menos, o novo alfabetizado deveria poder decifrar cartazes, painéis ou manchetes de jornais escritos em francês.
Como todo sistema de ortografia é destinado principalmente aos crioulófonos monolíngües em vias de alfabetização, sua aprendizagem deve ser fácil para os analfabetos.
As modificações propostas por Pradel Pompilus eram bastante modestas e objetivavam estender ao crioulo certos aspectos sistemáticos da ortografia francesa e de tornar a ortografia do ONAAC diafonológica, quer dizer, capaz de representar diversas variantes da língua.
Para Paul Berry, tratava-se de dotar o crioulo de uma ortografia segundo a qual, na maior parte dos casos possíveis, as formas crioulas e francesas correspondentes teriam uma representação idêntica. Sua ortografia difere das diversas representações empregadas pelos defensores de uma ortografia etimológica, pela preocupação em proceder sistematicamente pela regra. Com efeito, o objetivo de Berry é ensinar aos alfabetizandos crioulófonos os princípios
sistemáticos da ortografia francesa.
Qualquer representação do crioulo que não é nem francamente etimológica, nem rigorosamente fonológica, é necessariamente arbitrária. Se o objetivo fundamental de uma representação gráfica do crioulo é o de facilitar aos novos alfabetizados a passagem para o francês, não se consegue ver muito bem em quê a aquisição dos princípios da ortografia francesa possa ajudar um crioulófono a compreender um texto francês. É muito provável que lhe seja mais útil poder identificar os vocábulos franceses que se aproximam pela forma e pelo sentido às palavras de sua língua. O argumento dominante invocado por Berry é que seu sistema de grafia facilita a passagem ao francês por parte do crioulófono recentemente alfabetizado. Mas ele não traz nenhuma prova concreta do papel facilitador de seu sistema em relação aos outros crioulófonos.
Além disso, na elaboração de uma ortografia para o crioulo haitiano é necessário se perguntar quais são os usuários aos quais ela é destinada. Os defensores das ortografias “intermediárias”, bem como os da ortografia etimológica, insistem na importância da adesão da elite bilíngüe letrada ao movimento tendente à revalorização do crioulo. Isto poderia levar a pensar por que os bilíngües haitianos, que já escrevem em francês se interessariam em aderir a um projeto de ortografia que os levasse a escrever de maneira diferente palavras que designam as mesmas coisas em crioulo e em francês.
Como se pode constatar ao observar pinturas murais, indicações de ruas, ônibus, propagandas, o crioulo haitiano é largamente escrito. Na verdade, provavelmente sempre foi escrito. Quando antigamente, em meados do século XVIII, alguns autores quiseram conservar traços do crioulo, adotaram espontaneamente em sua maioria, uma grafia afrancesada que levava em conta a etimologia, a origem francesa das palavras.
preocupados com o grave problema do analfabetismo, pesquisadores e pedagogos, tomando consciência do fato de que o crioulo não era francês, adotaram uma grafia nova fundada sobre um princípio muito simples: uma letra (e alguns grupos de duas letras) para cada som. Diferentes ajustes e modificações foram propostos até que finalmente o crioulo se viu dotado em 1979 de uma grafia oficial, portanto há apenas 29 anos.
Com o princípio inicial sendo mantido, temos então uma ortografia de base fonológica. Diferentemente do francês, no crioulo haitiano tudo o que se escreve se pronuncia, tudo o que se escreve corresponde a um som. Esta correspondência tão estreita entre o oral e o escrito, torna a ortografia do crioulo muito simples de ser dominada: o crioulo pode ser facilmente lido e escrito.
9.2 – A ESCOLHA DE UMA ORTOGRAFIA E SUAS IMPLICAÇÕES IDEOLÓGICAS
A escolha de um sistema gráfico para o Haiti criou discussões apaixonadas, geradas, segundo Robert Chaudenson (1989), por um erro no foco da questão. Para este autor, não se trata de definir como escrever o crioulo, mas sim, para quê, ou seja, com que finalidade e em que perspectivas econômicas, sociais e culturais.
A grande causa deste equívoco seria o fato de se querer ideologizar uma questão que deveria se ater a fatores objetivamente analisáveis. Yves Déjean, por exemplo, famoso lingüista haitiano no seu livro “Comment écrire le créole haïtien” (1980), já comentava o forte ataque lançado à grafia de MacConnel,
vista como herdeira do imperialismo americano, dando-nos a justa medida do nível ideológico que tomou a discussão46:
―Il y a quelque ironie à noter que l'orthographe RD [ René Descartes- Université de Paris V] venue de Paris en 1975, reprend à
son compte le graphème w, ce ―compromis rejeté par le peuple‖, selon l’expression fort peu vraie de Pressoir (1947: 70) [ ... ] Il y a trente ans
ces graphies [ bwa, pwa] , prônées aujourd'hui par les agents de la francophonie portaient des Haïtiens bilingues à repousser avec horreur la système de McConnell au nom et pour la défense de l'aspect français
de la culture locale et à crier à la mainmise américaine.‖
O lugar eventual do crioulo na formação em geral depende certamente de fatores sociolingüísticos e socioculturais ligados às situações de diglossia, mas depende também, e sobretudo, de objetivos econômicos. É necessário saber em primeiro lugar o lugar desejado pelo crioulo (na escola, na alfabetização dos adultos, na educação informal, etc.) e a função atribuída a ele (meio de ensino – em que limites e até que nível –, objeto de ensino e lugar das outras línguas – se há ou não lugar).
Estes aspectos são particularmente importantes para os problemas posteriores de escolha de grafia. Assim, no caso limite, onde um sistema optaria pelo crioulo como meio único de ensino sem aprendizagem posterior de L2, as escolhas gráficas perderiam uma parte de sua importância, sendo as únicas objeções técnicas, a coerência interna e a simplicidade de emprego. Nos casos em que o ensino de uma L2 é visado e sobretudo, se no estágio escolar, pretende-se mudar de meio de ensino (passando do crioulo empregado nos dois ou três
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DEJEAN, Yves. Comment écrire le créole haïtien. Montréal: Collectifs Paroles, 1980, p. 181. apud CHAUDENSON, R. op. cit. 1989, p. 175. “Que ironia quando se percebe que a ortografia RD [René Descartes – Universidade de Paris V] vinda de Paris em 1975, retoma por sua conta o grafema w, este “compromisso rejeitado pelo povo”, segundo a expressão muito pouco verdadeira de Pressoir (1947: 70) [...] há trinta anos, estas grafias [bwa, pwa], elogiadas hoje pelos agentes da francofonia, levavam os haitianos bilíngües a rejeitar horrorizados o sistema de McConnell em nome e defesa do aspecto francês da cultura local e a gritar contra a intervenção americana.”
primeiros anos para uma L2), o problema muda radicalmente. É particularmente importante se, como no Haiti, por exemplo, a L2 é o francês.
Na verdade, o francês e o crioulo haitiano têm relações evidentes (mesmo sendo línguas diferentes) e é fácil compreender que o problema seria totalmente diferente caso se passasse por exemplo, do crioulo haitiano ao árabe ou ao