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A sociedade haitiana, mutatis mutandis, pode ser vista como uma cópia fiel da sociedade colonial do século XVIII. Um sistema de rodízio assegurou de modo contínuo e tranqüilo a reprodução de um modo de organização da vida social, atualizada pelos colonos brancos, mantida ano após ano pelos neo-colonos que nada mais são do que os dirigentes e as elites haitianas. Hoje, tanto quanto ontem, e cada vez mais, ela lembra a sociedade de tipo feudal, solidamente enraizada na Europa, durante mil anos. Com efeito, até as vésperas do século XXI, o sistema social haitiano ainda mantinha, sob o mando de uma minoria toda poderosa, uma enorme massa de mais de 90% de camponeses iletrados, humilhados, esquecidos pelo governo.

Durante os últimos quarenta anos, o sofrimento, a miséria, as doenças, a decadência física e moral nunca fizeram tanta destruição. O governo de François Duvalier foi marcado por assassinatos individuais e coletivos. Mais tarde, o governo de seu filho Jean-Claude foi caracterizado pela dilapidação jamais vista dos cofres públicos, associada à decadência de toda a sociedade, exemplificada na privação dos bens e dos serviços que lhe são destinados. Os anos de governo militar foram marcados por roubos, estupros, contrabando de drogas, massacre de população civil.

Durante os quatorze anos do governo Duvalier (1957-1971), havia um aparente – e apenas aparente – ar de mudança. O Haiti parecia renovado pela presença de novos rostos que, no início, criaram a ilusão de uma mudança social em movimento. Na verdade, os proprietários de ontem, mulatos ou alguns negros escolarizados, foram degolados ou deixaram o país. Indivíduos despreparados das classes mais baixas e até mesmo ex-presidiários, majoritariamente negros, ocuparam o espaço que se tornou vazio, com a única condição de se filiarem ao

duvalierismo. Os soldados se tornaram oficiais, os antigos condenados uniformizados e portando fuzil são investidos do poder de vida e morte sobre qualquer cidadão, só devendo prestar contas ao Presidente. Nenhum critério de formação escolar para ser eleito deputado, nem para ingressar nas universidades, que viam seus critérios de admissão variar segundo a influência política da família do postulante à vaga. Influência também para ser nomeado juiz, de primeira ou de segundo grau. Na igreja católica, padres brancos são substituídos por padres locais harmonizados com o governo.

Porto-Príncipe, capital do Haiti torna-se também a capital da pobreza, com suas favelas, seus bairros sórdidos, insalubres, degradantes. Nenhuma cidade, nenhum vilarejo, nenhuma região escapou ao duvalierismo. Antes mesmo da morte de Duvalier, a fome teria sido uma catástrofe ainda maior se muitas famílias não tivessem sido financeiramente sustentadas por um parente no Canadá, nos Estados Unidos ou na França.

A situação sob Jean-Claude Duvalier não foi muito diferente. Mesmo espetáculo de desolação da maioria e de opulência de uma minoria privilegiada. O país nunca havia visto a construção de tantas mansões suntuosas, nunca havia tido tanta oportunidade de se tornar rico e milionário de forma tão rápida.

Até os Duvalier, a sociedade haitiana não havia fundamentalmente mudado. Baseada numa divisão de inspiração feudal, ela gerou o mesmo monopólio das riquezas materiais e intelectuais: outrora pelos brancos e apenas alguns mulatos e negros e, sob os Duvalier, por um grande número de negros e de mulatos. A estrutura social nacional guarda, no final das contas, a mesma rigidez, nada impedindo que o vodu continue ao mesmo tempo como o lugar de refúgio, conservando a mesma ressonância de protesto contra uma sociedade tão estratificada. O proletariado, não participando dos valores aos quais ele aspira legitimamente, se vê forçado a formar seu próprio mundo paralelo com seu próprio sistema de valores. A declaração de Roger Bastide, feita há cerca de

trinta anos, parece não ter perdido sua atualidade: ―même si l’indépendance a

entraîné l’élimination de la population blanche, les noirs haïtiens eurent encore

à mener une lutte sourde, cette fois, contre une aristocratie noire et mulâtre...‖.72

Pesquisadores e intelectuais como Roger Mortel, Leyburn, Jean-Price Mars, Laënnec Hurbon, Richard Schaedel, François Houtart e Anselme Remy são unânimes em afirmar que o Haiti é o exemplo de uma sociedade partida em duas camadas visíveis: de um lado, a imensa fatia formada por camponeses e citadinos pobres e analfabetos e do outro, os mulatos e os negros escolarizados, modelados pelo Ocidente, ambas vivendo como duas existências solitárias sobre o mesmo espaço geográfico.

O abismo entre o pobre e o rico, entre o rural e o urbano é tão profundo que não existem mais possibilidades de se tecer uma ponte entre os dois mundos, permitindo o intercâmbio ou a interação. A especificidade dos quadros sociais e de seus universos mentais correspondentes não oferecem nada para salvaguardar o menor sentimento de unidade. Por força dessa separação selvagem, torna-se pertinente perguntar quem é o cidadão haitiano de hoje. O citadino ou o camponês ? O rico ou o pobre ? O francófono francófilo ou o crioulófono monolíngüe ? O fiel das religiões ocidentais ? o católico ? o protestante ? O voduísta ?

No campo religioso, vejamos o que se passa.

Há cerca de cinqüenta anos, o protestantismo, representado pelos diversos cultos reformados, era uma religião minoritária que conheceu, porém, um espantoso crescimento. Embora faltem dados estatísticos precisos, o protestantismo começa a inquietar o catolicismo, graças a seu número crescente de fiéis, tanto em Porto-Príncipe como nas cidades do interior. As duas últimas

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BASTIDE, Roger. Les Amériques noires. Paris: Payot, 1960 apud SAINT-LOUIS, Fridolin. Le vaudou

fontes: a primeira, o censo de 1982 e a segunda, o estudo de 1996 do Centro de Pesquisa e de Formação Econômica e Social para o Desenvolvimento (CRESFED) são reveladoras, ainda que se trate apenas da área metropolitana de Porto-Príncipe. Em 1982 existiam 78,9% de católicos, 16,2% de protestantes, 4,2% de outros. Quatorze anos depois, em 1996, os católicos encolheram para 49,6%, os protestantes cresceram para 39% e os outros subiram para 11,3%.

A Constituição de 1987 reconhece ao vodu o mesmo status social de todas as outras confissões que se praticam no Haiti. Seus direitos são cada vez menos contestados. A antiga percepção de que o vodu era a religião exclusiva de 95 a 98% dos camponeses e do proletariado urbano cede à qualquer análise mais ou menos profunda.

Os antigos defensores dessa tese jamais disseram que a elite oficial católica é tão adepta do vodu quanto o camponês ou o proletariado urbano. Porém, voduísta em todos os momentos de sua existência, sempre às escondidas, é bem verdade que a elite também consulta os bòkòs ou os sacerdotes houngans por razões de toda natureza: cura para uma doença diante da qual a medicina tradicional não tem mais nada a fazer, proteção contra espíritos perversos, sucesso para uma empresa. Voduísta em seus menores reflexos, a elite também tem medo de se aproximar de qualquer objeto insólito lançado em seu caminho. Um simples boneco transpassado de agulhas, colocado no caminho do mais escolarizado pode causar a este último algumas dores de cabeça e suores frios. Um simples cálculo estatístico mostraria que a elite é muito mais voduísta que católica. Sua freqüência a esses lugares de cultos ocidentais se inspiram muito mais das boas convenções sociais do que das convicções religiosas propriamente ditas. “Mesmo que os fiéis pratiquem, eles jamais lhe dirão”73, queixa-se um sacerdote vodu, que sabe que a maioria dos haitianos praticou pelo menos uma vez na vida o vodu, mas não abertamente, mesmo não sendo proibido por lei.

73

CHANEZ, Pierre-Olivier. Le Zombi démasqué: enquête et reportage sur le vaudou. Paris: Manuscrit, 2001, p. 11.

Baseado em números (aproximadamente mais de 85% de voduístas), Leslie Desmangle erige o vodu como a religião nacional diante da qual se apagam todas as barreiras de classes para mais de oito milhões de haitianos. “As crenças e as práticas de uma religião muito complexa modelaram toda sua existência”.74

Sobre os pilares africanos subterrâneos erguem-se outros pilares europeus visíveis e que a sociedade oficial consagra em termos de honorabilidade. A Igreja católica, à qual se juntam o Estado, a escola, as forças armadas do Haiti, etc., todos produtos de importação, compõem este cenário de aparato, de prestígio social em luta contra os pilares africanos. Num combate permanente, vodu e catolicismo conservam orgulhosamente, a despeito de seu cruzamento, suas prerrogativas próprias. Respeitabilidade, dignidade para um, adesão e crença para o outro. Luta sem fim entre o modelo africano interiorizado, vivido e o modelo europeu exteriorizado, utilizado pelas vantagens sociais que ele garante. Contra o primeiro, o segundo teve em seu favor, a legitimidade e uma carga simbólica a toda prova. Mas o vodu que não dispõe de tais armas, assegura o contrapeso entre os crentes oficiais, certamente, e no meio das elites, que não se privam dos serviços dos houngans.

Como se pode perceber, em certas situações, elite e povo se encontram, se acotovelam, mas entre eles se interpõe um outro modelo legítimo cuja superioridade social se confundiria com uma superioridade da natureza. É assim que a elite é voltada para os cânones ocidentais em geral: ontem os da França, compartilhados hoje com os dos Estados Unidos. Fora da extraordinária capacidade que tem toda religião de desenfrear o imaginário, no Haiti, a força do catolicismo romano reside também no caráter de sua ocidentalidade, à qual o camponês, o proletário em geral, se subtrai e em nome da qual eles são marginalizados. Uma das causas principais do fracasso da campanha anti-

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DESMANGLE, Leslie. The Faces of God: vodou and catholicism in Haiti. University of North Carolina, 1992 apud SAINT-LOUIS, Fridolin. op. cit. p. 91.

supersticiosa residia no fato de que o clero queria obter da burguesia e das pessoas da cidade o mesmo juramento de fidelidade exigido dos camponeses. Jamais a elite se sentiu tão diminuída ao ser tratada como estes últimos. “Beaucoup considérent le serment comme un aveu incompatible avec leur dignité personnelle”.75 Por isso o governo não tardou em retirar o apoio que havia dado aos religiosos. Sabe-se como a inquisição haitiana terminou: um dia, numa igreja de Porto-Príncipe, enquanto um padre se preparava para a liturgia, balas puseram a crepitar-se no recinto e o governo usou este episódio como pretexto para frear o movimento.

Catolicismo e vodu não têm fronteiras proibidas. “É necessário ser católico para servir aos loás”, confessou uma vez um camponês.76

A circulação intensa e permanente de fiéis de uma a outra permitiria estatisticamente de confundi-los no mesmo tipo religioso. Se combinamos o percentual de cerca de 95% de seguidores camponeses e proletários do vodu e o número desconhecido da elite, a quantidade de católicos reais no Haiti seria irrisório. Entretanto, o catolicismo continua a ser uma religião oficial e de Estado, praticado tanto pelo citadino letrado ou iletrado como pelo miserável camponês, com a única diferença social de que um é um adepto oficialmente reconhecido, o outro não. Imprecisão no tratamento dos dados estatísticos que, aliás, também existiu até bem pouco tempo no aspecto lingüístico. As últimas pesquisas de que se têm notícia sobre o número de analfabetos no Haiti, considerava como tal apenas aqueles que não sabiam ler e escrever em francês.

Fridolin Saint-Louis (2000: 93), por exemplo, fala de um estado de mumificação que acompanha a sociedade haitiana, do tráfico negreiro aos nossos dias, a despeito das aparências e dos discursos ideológicos. Para todos os efeitos, o Haiti continua sendo uma sociedade segregacionista de fato, no sentido de que há poucas chances de mobilidade social, a menos que haja relações sociais com

75

SAINT-LOUIS, Fridolin. op. cit. p. 92.

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os que exercem o poder.

A sociedade sendo fundamentalmente a mesma em sua estrutura e suas relações sociais correspondentes, sua capacidade de engendrar os mesmos fatos sociais não muda. Na medida em que é a organização social nacional que, através das tensões de classes, constitui o suporte por excelência do vodu, apenas uma mudança qualitativa neste nível poderia afetar a superestrutura sobre a qual esta sociedade repousa.

A sociedade haitiana pode ser dividida em três classes sociais bem definidas:

1 – A classe pobre, formada pelo proletariado urbano e rural, variando entre 85 a 90%.

2 – A classe média, composta por negros escolarizados e alguns mulatos pobres. Algo em torno de 10 a 15%.

3 – A pequena classe alta, ontem formada sobretudo de mulatos à qual se acrescentaram os negros enriquecidos durante o regime duvalierista, gravitando em torno de 5 a 10%.

O proletariado vive à margem das instituições e dos valores oficiais, necessitando criar seus quadros, suas normas, seus símbolos, suas instituições, em suma inventar sua própria sociedade como reação à sociedade oficial da qual não participa. Uma existência material cada vez mais precária, alijada de todos os bens materiais da civilização moderna. Nenhum investimento público sistemático. Sem água corrente, sem ruas asfaltadas, sem transporte público digno, sem escolas decentes, sem hospitais, sem eletricidade, nem mesmo dispensários. Nenhum serviço social que lhe atenda.

Para o camponês, a cidade – ainda no início do século XXI – é um lugar onde ele vai a pé ou no lombo de um burro para trocar os produtos que ele cultiva no jardim de casa. Na verdade é o único espaço mínimo comum entre as duas

comunidades que, à exceção do vodu, pouco apresentam interseções. O atual fenômeno migratório interior, que gera a favelização e força uma proximidade geográfica só fez aumentar essa dicotomia social. O analfabetismo atinge uma taxa de 90% no meio rural. É por isso que os poucos que sabem ler e escrever gozam de um prestígio quase mágico em seu meio.

Desamparados – no campo como nas periferias das cidades – o camponês e os proletários haitianos têm necessidade de uma força de coesão eficaz. Eles a encontraram numa forma religiosa multifuncional e a ela se apegaram. A quase sacralidade de seu universo não é acidental. Na cidade como no campo, a religião desempenha um papel social ímpar A missa celebrada pelo padre católico, as reuniões dominicais animadas pelo diretor da capela, as cerimônias cultuais do domingo das igrejas reformadas, fornecem a todos a ocasião de um encontro social. Junto a esses lugares de culto, os homens e as mulheres se congratulam, trocam, conversam, cimentam suas relações sociais. As igrejas são o espaço privilegiado de comunicação social.

À margem das vantagens da sociedade moderna, compartilhando o desconforto, as doenças, a morte, os miseráveis se voltam para os loas e os deuses. Sob o ponto de vista dos voduístas, os loas não são entidades distantes com as quais estabelecem laços ritualísticos, ocasionais. Semelhantes aos mortais, eles têm fome, sede, comem e bebem, desenvolvem sentimentos de amizade e inimizade. Desta forma, eles estão integrados de forma excepcional à sua vida global e parcial. É nesse contexto de comunhão íntima que se encontra o caráter único dessa religião comparada às outras do Ocidente. Enquanto essas últimas praticam um culto intenso de adoração a seu criador, observam uma hierarquia formal no seio de suas comunidades, o vodu haitiano se aproxima da vida. Não há Alcorão, não há Bíblia, não há livro sagrado à prova do tempo, não há templos grandiosos, não há arquiteturas monumentais. O seguidor do vodu apenas incorpora seus anjos, seus loas e suas crenças. Não nos surpreende então que o vodu desempenhe entre os marginalizados sociais o papel de religião, de

festa, de economia, de justiça, de “descarrego” social, de protesto aberto ou velado, de linguagem. Ele responde às diferentes necessidades do viver. É, segundo Marcel Mauss “um fenômeno social total, um todo, um sistema social inteiro”.77

Acreditamos que o vodu – como sistema de pensamento e de produção mental – esteja diretamente ligado a uma práxis social. Como toda obra de civilização, o vodu está situado. Por essa razão acreditamos que não deverá desaparecer, nem mesmo estar ameaçado em sua existência, uma vez que a sociedade onde se insere em nada mudou sob o impulso de novas dinâmicas. É importante, porém, trazer para nossa análise as discussões que se fazem hoje sobre as tendências atuais do vodu: Degenerescência? Transformação? Imobilidade ? Desaparecimento ?

Alguns poucos observadores parecem sequer suportar a idéia de transformação do vodu, ainda menos de sua degeneração, nem de seu declínio eventual. Para eles, no momento atual, o vodu está tão vivo nas planícies e nos vales do Haiti como no tempo dos escravos do marronage. Baseiam-se sobretudo na existência de manifestações do vodu nos Estados Unidos, Canadá e Europa. Resta saber se se trata de charlatanismo comercializado ou o verdadeiro culto do povo haitiano.

Completamente diferente é a percepção de outros observadores (etnógrafos, romancistas, sociólogos), partidários da mudança, que não conseguem deixar de perceber a agonia dos cultos populares haitianos a ponto de prever seu desaparecimento completo. Para este grupo, sendo o reflexo de uma práxis primária ou rudimentar, o vodu desaparecerá da paisagem proletária urbana e rural assim que a qualidade de vida dos agentes sociais melhorar. Fala- se do vodu como se ele fosse o apanágio exclusivo das camadas desfavorecidas,

77

MAUSS, Marcel. Sociologie et anthropologie. Paris: PUF, 1968 apud SAINT-LOUIS, Fridolin. op. cit. p. 100.

analfabetas, que não atinge de forma alguma os privilegiados, os de escolaridade e nível de vida mais elevado. Esquece-se, porém, que há haitianos modernos, escolarizados e levando uma vida digna, que também são fiéis seguidores da religião.

Jacques Stephen Alexis, grande romancista haitiano, em seu livro Les arbres musiciens afirmou:

“Les loas sortent de la terre comme des bananiers, comme le manioc, comme le maïs [ ...] Les loas sortent de notre terre parce que notre terre est pauvre. Ils ne mourront que le jour où la lumière chassera l’obscurité dans les cases, le jour où les machines agricoles henniront dans les champs, le jour où les habitants sauront lire et écrire, le jour où la vie changera, pas avant”.78

Esta corrente acredita que o vodu vai simplesmente se extinguir por causa das questões de ordem econômica. Em primeiro lugar se destaca a pobreza. Ela não permite mais suportar os custos dos banquetes abundantes que acompanham autênticas cerimônias vodu. Muitas vezes são festas coletivas grandiosas e bastante dispendiosas. É claro que no lugar desse vodu, emerge um outro vodu adaptativo que se pratica na medida de cada bolso, de cada família. Vale dizer, o vodu se adapta à consciência privada de cada família, até mesmo de cada cidadão, sem o suporte das reuniões que forneciam aos adeptos em estado de congregação, de objetivar suas emoções, depois de idealizá-las. O camponês mesmo pobre, disperso, separado de sua família extensa, continua a consultar o bòkò, a carregar seus amuletos, a invocar os deuses, a ser possuído pelos loas. O homem da classe média, por sua vez, mesmo afortunado, oficialmente católico, não pratica nenhuma ruptura com o houngan que lhe assegura proteção nas suas atividades econômicas e em seu trabalho.

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A grande mudança do vodu, olhando cada componente da sociedade haitiana, se situa sobretudo no nível das classes camponesa e proletária, pois se torna para elas um culto individual e familiar. Quanto às classes privilegiadas, nada de particularmente novo. O vodu conserva seu status quo tradicional, quer dizer, religião praticada às escondidas por atores ambivalentes, aculturados. Afro-voduístas de coração e de convicção, ocidentalmente católicos por fora, para o aparato e o poder simbólico consubstanciais à sociedade oficial, entre eles cada religião conserva seu espaço. Para a elite, a vergonha de praticar o vodu é a mesma vergonha de falar crioulo. Ambas as atitudes revelam pobreza, barbárie, atraso. Agindo dessa forma a elite reforça a dicotomia da sociedade haitiana, onde a religião católica sempre associada ao francês representa o modelo ocidental a ser seguido e a associação vodu-crioulo, o estigma a ser extirpado.

Alguns autores de inspiração católica, como Jean-Marie Salgado e François Gayot confundem um pouco o fim do vodu haitiano com a passagem sutil do culto dos espíritos, como era antigamente, para o estágio de magia para onde ele caminha hoje. O primeiro, após dar uma visão diacrônica do vodu, originalmente culto dos espíritos, transformado em magia conclui: “on ne peut être que désagréablement impressionné par tous les fatras de préoccupation