Os espaços constituídos por terras alagadiças localizavam-se principalmente nas margens e foz de rios e lagos existentes próximo ao litoral. Na documentação analisada, destaca-se o distrito de Siupé, principalmente a localidade de Guaribas, por conta da grande quantidade de reservatórios de água no lugar, em especial o lagamar do Gereraú e a barra do rio São Gonçalo, esse último por conta das ações dos ventos nas dunas, que entupiam sua foz, formando extenso reservatório de água doce próximo ao mar, possibilitando aos produtores desenvolverem principalmente a atividade agrícola na região, como foi o caso do Sr. Joaquim Francisco de Oliveira163, que deixava entre os bens de raiz “vinte braças de terras no lugar
denominado Guaribas deste termo e districto, terras de alagadiço (20$000)” e mais “huma sorte de terras de plantar no mesmo alagadiço das Guaribas comprado a mesma Francisca Maria de Brito (25$000)”.
O cultivo da cana era feito principalmente nessas áreas de solo úmido, como os alagadiços e as serras, como é o caso da Sra. Gertrudes
162 STUDART, Barão. Op. Cit., p. 96
163 APEC- Inventário Post-mortem de Joaquim Francisco de Oliveira. Cartório de Órfãos de
Pacheco,164 deixava em seu inventário, entre outros bens, “hum cercado do
lado do Norte da estrada Nova de Soure no Alagadiço Grande com plantação de canna(...) (240$000)” e o Sr. João Ferreira Braga165, que deixava, entre as
lavouras, “uma cerão de cana” e mais “trezentas e sete covas de roça no Alagadiço”.
Dos 63 inventários analisados, apenas seis discriminavam a existência de plantações de cana. Diferente de outros cultivos, essa planta não seguia a lógica dos roçados medidos em passos, pois, nas áreas de brejo, nas margens dos lagos, não era possível seguir sempre essa lógica, pois aproveitava-se, muitas vezes, de forma circundante, as águas, e não em quadra como outros plantios.
Nos engenhos, locais de beneficiamento da cana, produzia-se principalmente a rapadura. Esses locais aparecem discriminados em nove inventários. Interessante observar que esse número supera o de plantações de cana informado nos mesmos documentos, ou seja, nem todos que eram proprietários desses equipamentos mantinham plantações. Isso se dava por que o plantio da cana seguia não só a estação chuvosa, mais também os períodos em que o solo ficava brejado.
Como o plantio era feito nas margens de lagos, isso seria possível para aqueles que tinham esses recursos naturais dentro de suas propriedades. Por fim, pressupondo que os produtores mais abastados detinham os instrumentos de beneficiamento do produto, moendo a cana produzida por proprietários menos aquinhoados, criava-se, assim, uma relação de dependência entre eles.
Esses equipamentos, mesmo pertencendo a pessoas mais abastadas, como a Sra. Gertrudes Pacheco Medeiros, eram bastante simples, pois a mesma tinha apenas um “engenho de pao de moer cana” e “três pivores de ferro de engenho”.166 A mesma inventariada deixava também “aviamentos de
164 APEC- Inventário Post-mortem de Gertrudes Pacheco Medeiros. Cartório de Órfãos de
Fortaleza. Cx. 19, nº 10, 1839
165 APEC- Inventário Post-mortem de João Ferreira Braga. Cartório de Órfãos de Fortaleza. Cx.
36, nº 16, 1857
166 APEC- Inventário Post-mortem de Gertrudes Pacheco Medeiros. Cartório de Órfãos de
fazer farinha” e “hum braço de balança com caixa e correiote de latão e peso athé oito libras”.
Pela descrição dos bens e existência de instrumentos de medição de peso, é possível presumir que os proprietários dos equipamentos de beneficiamento recebiam uma quantidade do que era beneficiado e ainda controlavam a distribuição desses produtos no mercado, pois a citada inventariada deixava ainda “uma carro grandes, três cargas e cinco juntas de bois mansos (220$000) e um “carro já velho (10$000)” e “um outro carro pequeno tão usado (5$000)”.
Assim, a posse de casas de beneficiamento, dos carros pra transporte e de balanças pressupõe que havia uma concentração da produção nas mãos de alguns proprietários, que acabavam controlando a distribuição dos produtos do campo.
Outro indicativo de que existia um número maior de produtores voltados para o cultivo da cana percebe-se quando analisados os bens móveis deixados pelos falecidos, pois foi arrolado uma grande quantidade de instrumentos ligados à produção dos derivados da cana. Assim, foram localizados, em dezenove inventários, 39 tachos de cobre, que são instrumentos utilizados não só nas casas de farinha, mais também nos engenhos. Os produtores menos abastados dispunham apenas desses acessórios, obrigando-se a beneficiar os produtos nos equipamentos daqueles que os detinham, o que gerava a necessidade de pagamento de parte da produção para outros proprietários.
De acordo com Tomaz Pompeu, no Ceará, até 1845, da cana, só se produzia a rapadura. Foi após esse período que se passou a fabricar, também, a aguardente e o açúcar.167 Esses últimos produtos necessitavam de mais equipamentos técnicos e recursos, tornando-se mais dispendiosos aos produtores. Todavia, nos inventários analisados, foi possível identificar a presença de instrumentos de produção de aguardente antes mesmo de 1845. Vicente Ferreira Nojosa168 deixou em 1838 “dois tachos de cobre
167 BRASIL, Thomaz Pompeo de Sousa. Op. Cit., p.360
168 APEC- Inventário Post-mortem de Vicente Ferreira Nojosa. Cartório de Órfãos de Fortaleza.
(20$000)” e “hum alambique pequeno de cobre (24$000)”, “seis garrafões (7$680)” e a Sra. Gertrudes Pacheco Medeiros, em 1839, deixara “hum alambique” (487$000), “hum tacho grande em bom uso (16$640)”. Entretanto, essa produção era pouco disseminada, principalmente porque demandava mais custos tanto com a compra de utensílios para beneficiamento quanto para o seu armazenamento.
Em meio à produção voltada para o mercado, existiam inúmeras atividades que ora funcionavam como complementares à agricultura, ora eram complementadas por esta. Assim, ganham destaque as árvores fruteiras existentes nos sítios, assim como outras formas de interagir com a natureza.
3.2.5- Árvores fruteiras e outras atividades complementares nas