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4. EMPIRICAL FINDINGS AND ANALYSIS

4.2 C ROSS - CASE ANALYSIS

4.2.4 Design Phase

4.2.4.2 Main actors in the design phase

As falas dos gestores assinalam como apontamos acima, os diversos problemas com os quais a comunidade onde a escola se localiza convive: presença do narcotráfico, infra- instrutora precária, ausência de atividades de lazer voltadas aos jovens. Mas escola e comunidade se interpenetram o tempo todo. A escola não está isolada da comunidade e nem a comunidade apartada da escola. É neste sentido que o Diretor diz que a comunidade, ou melhor, pessoas da comunidade vão até a escola em busca de orientações.

Orientar as pessoas indica para o Diretor que a escola procura sempre manter a melhor relação possível com a comunidade.

Nós procuramos estabelecer a melhor relação. Atende-los da melhor forma possível. Tanto que vêem pessoas aqui para ser atendidas na secretaria, por exemplo, que fala que em nenhum outro lugar foram tratados tão bem. Comenta de alguma outra escola que foi tratado que nem cachorro e aqui a gente recebe muito bem. Dá todas as orientações. Você conhece aqui, as meninas da secretaria, isso é o diferencial. Não é porque é serviço publico que tem que ser mal feito ou relaxado ou de mal humor. Esse é o diferencial da escola, talvez (Diretor).

A disposição da escola para orientar, para atender bem a quem a procura é então valorizada pelo Diretor. As solicitações de orientações são mais freqüentemente feitas por alunos e ex-alunos. Tanto o Coordenador como o Diretor dizem que os jovens do bairro entram em contato com a escola quando querem se informar sobre cursos supletivos ou tirar dúvidas a respeito de cursos que pretendem freqüentar como complementação escolar - cursos de informática ou inglês, por exemplo. Embora, na maioria das vezes a ida de pessoas a escola se restrinja a busca de informações sobre se haverá ou não aulas em um dia especifico. Ocasionalmente, segundo os gestores os ex-alunos entram em contato com a escola para visitar professores.

Além das orientações que eventualmente a escola é solicitada a oferecer, o Diretor assinala que a comunidade entra em contato com a unidade para que esta a ajude no sentido assistencial. Ou seja, as pessoas da comunidade parecem esperar que a escola exerça funções assistenciais ajudando alguma família que está passando necessidades. Às vezes são famílias cujos filhos são alunos da escola e outras vezes não. E, a escola, segundo o Diretor, tenta atender a esta solicitação organizando arrecadações para ajudar essa família, como diz:

É muitas vezes até no sentido assistencial. Às vezes alguma família, que às vezes é família até de um aluno. Ai a gente se organiza pra estar dando uma assistência, prestando uma assistência para determinada família (Diretor).

Mas a relação com a escola não se resume a visitas, busca de informações ou pedidos de ajuda assistencial já que a escola é, eventualmente, procurada por instituições religiosas evangélicas que atuam no bairro. Conforme o Diretor essas instituições religiosas procuram a escola solicitando apoio, como ceder pratos e talheres que são utilizados na merenda dos alunos para realização de almoços. Outras vezes, a solicitação é para o uso do próprio espaço da escola. Em geral, o Diretor procura atender essas solicitações de modo que a escola busca oferecer o apoio necessário para que esses eventos ocorram: cedendo o espaço, emprestando os talheres e/ou encaminhando oficio a Policia Militar solicitando segurança para o evento realizado pela igreja no espaço da escola. Nesses eventos, que segundo ele nunca ocasionaram problemas, participam além de pessoas da comunidade, alunos, ex-alunos e pais de alunos.

O espaço físico da escola parece então ser importante servindo como facilitador de encontros e reuniões em um bairro marcado por carências.

Contudo, a escola, de acordo com os gestores, não participa de atividades organizadas pela comunidade e não desenvolve atividades direcionadas a ela. Fato este que é justificado pelo Coordenador pelas múltiplas funções que a escola tem que desempenhar:

Ultimamente a gente está tão abarrotado de coisa, de tanta coisa que é cobrado da escola, que isso tá ficando para trás. Porque a escola não é mais só o lugar de aprender, de aprender conteúdo escolar, é o lugar de aprender que não pode jogar papel no chão, é o lugar de aprender que tem de escovar os dentes, é o lugar de aprender um monte de coisa que se não era papel da escola agora é (Coordenador).

Observa-se então que as atividades direcionadas a comunidade apesar de serem consideradas importantes acabam sendo deixadas para trás. A prioridade atual, segundo o Diretor, é melhorar a infra-estrutura da escola. Tanto é que a escola foi toda pintada e os muros não estão mais, pelo menos até o momento, pichados. Somado a isso, o Diretor entende que o cotidiano da escola é bastante tumultuado, de modo que não há tempo para que os gestores elaborem projetos de integração com a comunidade:

A partir de um ano e meio nos estamos fazendo um trabalho primeiro interno. Então nos fizemos, em 2010, a pintura da escola, que há muitos anos não se fazia. E nos observamos que a comunidade olhou a escola com um outro olhar, tanto que nós agora não vemos os muros

pichados. Então quer dizer que a comunidade encarou como uma melhora e está auxiliando a escola a manter isso. Então a gente está começando assim na infra-estrutura e cuidando das coisas que estavam atrasadas, digamos assim, e colocando tudo em ordem. Você sabe o quão dinâmico é o nosso cotidiano. Muitas vezes a gente não tem tempo assim de sentar e eu até reclamo com os alunos, eu falo assim: vocês me dão tanto trabalho que a gente não tem tempo de sentar e pensar algum projeto para vocês, alguma coisa diferente, a gente tem que ficar dando bronca, aplicando punições, essas coisas assim. Eu falei: esse tempo que eu estou gastando dando uma punição para você, chamando seu pai aqui, a gente poderia estar pensando.... A gente aqui mata um leão por dia e mesmo assim a gente vai nadando contra toda essa correnteza. Nos tivemos muitas conquistas e vitórias nesse ano de 2010, quer dizer, a tendência é nos expandirmos, inclusive é previsto isso até pela Secretaria da Educação. Tem vídeos conferencias e várias coisas que nos orientam para estendermos esse leque, para aprofundarmos a relação com a comunidade. (Diretor).

Como se vê, para o Diretor o tempo que poderia ser utilizado e investido na integração com a comunidade é empregado para disciplinar os alunos. No entanto, certa preocupação em desenvolver atividades que visem uma melhor integração com a comunidade parece existir. No entanto em nenhum momento os gestores em seus depoimentos evidenciaram atitudes ou uma postura da escola que concretize ou procure concretizar esses objetivos.

As atividades que realiza são dirigidas apenas aos alunos que freqüentam a escola. Neste sentido ela tem procurado realizar atividades criando o coral da escola, treinando-os para jogar em nome da escola em campeonatos e promovendo excursões didáticas. O coral da escola foi criado quando um professor que “sabe música” se dispôs a realizar ensaios com os alunos. As turmas de futsal foram formadas a partir do convite feito a alunos, pré- selecionados por professores de Educação Física, para que treinassem para jogar representando a escola em campeonatos, como as Olimpíadas Colegiais do Estado de São Paulo. Foram formadas turmas masculinas e femininas de futsal sendo que a escola ficou, na região de Limeira, em terceiro lugar no futsal feminino. As excursões didáticas consistem em levar os alunos para conhecer locais da cidade e da região como, por exemplo, a Usina do Corumbataí, local em que era produzida a energia elétrica da cidade. Estas atividades diferenciadas proporcionadas aos alunos fora do horário de aula são recentes, já que foram implantadas apenas no ano de 2010.

Segundo o Diretor atividades como as descritas acima não eram realizadas porque os professores tinham medo da maneira como os alunos poderiam se comportar, acreditando que

poderia acarretar algum tipo de problema, o que não se verificou, pois os alunos se comportam de “forma exemplar”:

Antes os professores não queriam levar para nada, para lugar nenhum, porque achavam que ia dar problema. Aquela coisa né Mas tem aluno que nem é tão comportado na escola e que vai lá fora e dá um show de bom comportamento (Diretor).

Porém, o Diretor conta:

Nos vivemos um problema há umas três semanas atrás. Nos tivemos uma festa com os alunos aqui no pátio e na 5ª série aconteceu um probleminha lá entre dois alunos. Um ficou com ciúmes do outro porque estava dançando com uma menininha, alguma coisa assim. Aquilo foi desaguar aqui no portão, na hora da saída. Brigaram com o menino, juntou gente da rua e molecada, gente que nem era da escola e acabaram batendo no menino e machucando. O menino ficou até com um pequeno hematoma aqui no supercílio (Diretor).

Assim a possibilidade de que ocorram problemas é real, mesmo que se dê fora do portão da escola. E, mesmo que as atividades sejam dirigidas apenas aos alunos os jovens da comunidade tentam como podem participar:

Diminuiu agora, mas tem muita invasão. A gente vendia convite, tudo, e ficava alguém na portaria, na porta, mas pelo muro pulavam alunos, que já estavam metidos com droga ou bêbado. Por causa da invasão a gente faz a festa fechada. Eles (os alunos) vinham para distribuir o que eles tinham de vender, porque se eles tivessem vindo para fazer coisa certa eles não precisavam pular o muro, trouxesse o convite e viesse na festa (Coordenador).

Somando-se a isso, parece que nem sempre essas atividades são valorizadas pelos alunos da escola. No coral e no futsal são poucos os alunos que participam.

Tanto da turma de treinamento quanto do coral é mais ou menos poucos que participam. Inclusive a gente incentiva os pais quando vêem aqui nas reuniões a colocar os filhos e principalmente os que têm problemas de não querer ficar em casa. Tomando o tempo deles com coisas positivas (Diretor).

No entanto, alguns alunos considerados protagonistas de violência participam destas atividades, fato que o Diretor identifica como positivo.

Assim, como já começamos a apontar, segundo o Diretor e o Coordenador não há atividades da escola que sejam direcionadas aos jovens da comunidade. Embora a necessidade

de que a comunidade tenha atividades voltadas aos jovens pareça ser imprescindível. Tanto é que, de acordo com o Diretor, a escola tem tentado suprir essa lacuna convidando os alunos para participar do coral ou para treinar para campeonatos. Mas, lembramos aqui, são atividades restritas aos alunos matriculados na escola.

Porém a dúvida entre “abrir” a escola para a comunidade ou restringir seu acesso a eventos organizados por igrejas e aos alunos que estão regularmente matriculados na escola parece persistir. O Coordenador tem projetos de “fazer tardes de pratos e abrir as festas da escola para a comunidade”. Mas promover atividades como essas são difíceis já que implicam em vendas de ingressos e a escola pode ficar sujeita a presença de intrusos, de pessoas bêbadas e/ou drogadas.

Mas a gente tá pensando nisso, em fazer tarde de pratos com os pais, abrir as festas que a escola pretende fazer para os pais virem também e ver o que a escola sofre. Diminuiu agora, mas tem muita invasão. A gente vendia convite, tudo, e ficava alguém na portaria, na porta, mas pelo muro pulavam alunos, que já estavam metidos com droga ou bêbado. Por causa da invasão a gente faz a festa fechada (Coordenador).

Assim, parece que a possibilidade da escola ser invadida por pessoas que pulam o muro e entram nessas festas para vender drogas acaba se constituindo em um obstáculo para que a comunidade seja convidada a freqüentar a escola. A presença do narcotráfico, as invasões freqüentes da escola, o uso ou a possibilidade de uso de drogas, podem se tornar barreiras nessa relação. Deste modo a opção da escola tem sido de que a participação em atividades extracurriculares seja restrita aos alunos que freqüentam a escola no momento, embora certo receio de que também isto acabe em problemas pareça persistir, como apontamos acima.

Então se para o Diretor a relação com a comunidade ainda está “engatinhando” e a escola precisa “dar passos mais largos para que consiga estabelecer uma relação mais solida com a comunidade”, para o Coordenador Pedagógico a escola não tem se aproximado da comunidade.

Entretanto, mesmo com todas essas limitações, duvidas e ambigüidades que se fazem presentes na relação escola e comunidade elas se interpenetram. Ora são funcionários, como a inspetora de alunos e certos professores que moram no bairro onde a escola se localiza, ora é o guarda do estacionamento que também é morador de lá e foi contratado pela escola, ora são os vizinhos que entram em contato com a escola quando percebem algo errado como, por

exemplo, alguém ter pulado o muro da escola ou alguma briga nos arredores desta, ora são as freqüentes invasões as quais a escola está sujeita.

A relação com a comunidade pode então ser caracterizada como uma relação de distanciamentos e aproximações. Em alguns momentos parece predominar uma representação de que a comunidade é formada por pessoas drogadas, que vivem na ilegalidade e da qual se quer manter distância e outras vezes essa concepção não se justifica visto que professores e funcionários vivem no bairro e vizinhos cuidam da escola.