Sobretudo a partir de 1994, o ecoturismo tem se alastrado por uma grande quantidade de países, mas não só devido à pressão de um mercado motivado pelo contato com a natureza e lazer ao ar livre. Os governos desses países passaram a ver na atividade uma oportunidade de ingressos de divisas, de oportunidades de trabalho e, em alguns casos, uma alternativa importante das políticas para a conservação dos recursos naturais. É o caso, por exemplo, da Malásia, Espanha, Equador, República Dominicana e Grécia, países distintos que elaboraram suas estratégias nacionais para o desenvolvimento do ecoturismo sob grande expectativa de seus governos quanto ao potencial da atividade.53
Antes mesmo de sua conceituação, as atividades, consideradas ecoturísticas, já tinham alcançado o território dos Parques Nacionais. O primeiro deles, o Parque norte- americano Yellowstone, criado em 1872. Nos Estados Unidos, os Parques Nacionais Yellowstone, Grand Canyon e Yosemite são as unidades de conservação que mais recebem
52 http://www.mpe.org.br/publique/media/declaracao_de_quebec.pdf, acessado em 02 de maio de 2008.
ecoturistas. Além destes, destacam-se, o Parque Nacional Banff no Canadá (1885) e Parque Waterton Glacier que traçam a Trilha do Grande Urso (Trail of the Great Bear) numa extensão de 420km.54
A prática do ecoturismo em unidade de conservação, mesmo iniciada nos Estados Unidos e Europa, vem crescendo nos paises em desenvolvimento, principalmente nos safáris da África, na observação da natureza nos países de florestas e regiões vulcânicas do pacífico como Costa Rica e Belize e na diversidade cultural e de ecossistemas dos países da América do Sul, notadamente, Argentina, Equador, Colômbia, Chile e Brasil.
Na América Latina, pela prática do ecoturismo em unidade de conservação, sobressaem: a Reserva da Biosfera de Sian Ka’na no México (criada em 1986); o Parque Nacional de Tortuguero na Costa Rica (este país possui 25% de seu território protegido; neste Parque, das pessoas envolvidas com o ecoturismo 70% são da comunidade); o Biótopo do Quetzal na Guatemala; a Reserva Natural Paracas no Peru; o Parque Nacional de Galápagos no Equador; o Santuário da Vida Silvestre Cockscomb e Santuário Comunitário dos Balbuínos em Belize. Na África, o Parque Nacional Amboseli no Quênia e o Parque Nacional dos Volcans em Ruanda (criado em 1978 para proteção dos gorilas contra caçadores e na manutenção de seu habitat). E na Ásia, o Parque Nacional de Sagarmatha no Nepal (onde fica o Monte Everest)55.
Segundo Fennell e Eagles, na Costa Rica, desenvolveram-se vários princípios do ecoturismo para respaldar a filosofia do desenvolvimento sustentável. Eles incluem um acordo mútuo entre as operadoras de turismo e os visitantes, o de limitar o número de pessoas para as operadoras controlarem as visitas aos locais; acordos entre os governos e operadoras a respeito da autorização de ingresso aos parques; e acordos sobre a imagem apropriada a ser comercializada 56.
O ecoturismo é praticado por pessoas afluentes do mundo desenvolvido que ruma para os países em desenvolvimento. Estas pertencem a uma faixa de renda relativamente mais elevada, têm mais tempo para se dedicar ao lazer e mais dinheiro para gastar. Em geral, procuram experiências naturais num ambiente ainda intocado. São viajantes preocupados com a natureza que enfatizam a apreciação e a proteção do habitat natural e dos tesouros arqueológicos. Preferem instalações simples com um impacto mínimo sobre os
54
MOLINA E., Sérgio. Turismo e Ecologia. Trad. Josely Vianna Baptista. Bauru, SP: EDUSC, 2001. pp. 165 – 173.
55 KINKER, Sônia. Ecoturismo e Conservação da Natureza em parques nacionais. Campinas, SP: Papirus, 2002. pp.
87 – 102.
56 MURPHY. Peter E. Turismo e desenvolvimento sustentado. In: Turismo Global, 2º edição, São Paulo: Editora
recursos naturais e mostram-se dispostos a pagar mais pelos serviços e produtos proporcionados por agências preocupadas com os problemas ambientais.57
Hawkins e Kahn (2002) afirmam que o ecoturismo cresce rapidamente e influencia o setor como um todo, como: (a) forma de viagem de interesse especial e (b) como influência
“verde” para o turismo em geral, concentrando-se em estratégias de desenvolvimento,
operações e consumo do produto turístico preocupados com a proteção do meio ambiente58. (a) forma de viagem de interesse especial
As viagens de interesse especial estão voltadas para a natureza, as quais refletem a crescente preocupação com o meio ambiente nos principais países geradores de turismo. BOO59 expõe que este tipo de viagem, em análise aos dados divulgados pela Ecoturism Society, constatou um considerável crescimento do número de visitantes aos países em desenvolvimento. Dentre as regiões que se beneficiaram com este tipo de turismo, citam-se as ilhas Galápagos, que tiveram em 1990 um aumento de 44% em relação a 1987, recebendo 47 mil pessoas nesse ano; o turismo para parques nacionais e áreas protegidas na Costa Rica cresceu 80% entre 1987 e 1990; o número de praticantes do trekking que se dirigiam para o Himalaia (Nepal) aumentou 25% de 1985 a 1988; Belize registrou um aumento de 55% de chegadas de turistas entre 1980 e 1990, e na década passada dobrou o número de chegadas no Quênia e nas Maldivas.60
(b) como influência “verde”
Hawkins e Kahn (2002) ressaltam a experiência de países como a Costa Rica, Indonésia, Quênia, Nepal e Equador (nações abençoadas por cenários naturais e por uma flora e fauna únicas) que servem de orientação para os responsáveis pelo planejamento de nações em desenvolvimento.
O crescimento do turismo, analisado por Hawkins e Kahn, se atrela aos esforços dos governos destes países, principalmente da Costa Rica, na tentativa de estimular as grandes corporações privadas a investirem no país. Schüter expõe que por isso não se ter concretizado, eles próprios passaram a fazê-lo, recorrendo também a financiamento externo de instituições internacionais como o Banco Mundial, a Organização dos Estados
57 Hawkins e Kahn, op. cit. pp.207-208
58 Idem, p.208
59 E. Boo, Ecoturism: the Potentials and Pitfalls.
Americanos (OEA), o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDP), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) etc.61
Hawkins e Kahn (2002) estabelecem quatro fatores responsáveis pelo crescimento do ecoturismo nos países intertropicais, tais como:62
− a necessidade do desenvolvimento sustentável do turismo;
− a crescente consciência ambiental por parte da comunidade global; − o desejo de um segmento relativamente afluente de turistas do mundo
industrializado ter experiências com a natureza;
− a convicção do mundo em desenvolvimento de que os recursos naturais são finitos e que, portanto, precisam ser conservados para as gerações futuras.
Na mesma linha destas reflexões, destacão-se os principais segmentos da sociedade com interesse no desenvolvimento do ecoturismo:63
− O trade turístico, ou seja, operadoras, agências, promotoras, empresas de
viagens, hotelaria, guias etc. – utilizam a rotulação do prefixo eco- para promover as atividades e desenvolver os produtos (eco) turísticos, por meio da divulgação nos meios de comunicação, cuja fidelidade ecológica, se posta à prova, em muitos casos não resistiria a esse embate;
− a área governamental e os organismos oficiais – são encarregados de elaborar as políticas e ações no setor de turismo. Procuram associar o ecoturismo com as estratégias nacionais de planejamento afetas à escala do planejamento regional e também para a área ambiental, prevalecendo no conceito um enfoque conservacionista;
− as organizações não-governamentais da área ambiental e conservacionista articuladas em instituições de fomento e financiamento – visam apoiar regiões marginalizadas do interior do país incorporando nos projetos os princípios éticos e os princípios relacionados à autodeterminação das populações anfitriãs, à geração de benefícios locais, ao manejo sustentável do patrimônio natural e à difusão da consciência ecológica pela educação ambiental de todos os envolvidos;
61 SCHÜTER, Regina G. Desenvolvimento do turismo: As perspectivas na América Latina. In: Theobald, William F.
(org). Truísmo Global, 2ª edição, São Paulo: SENAC São Paulo, 2002. p. 232
62 Hawkins e Kahn. op. cit. p. 207
− as populações residentes poderão enfatizar o próprio envolvimento nas distintas etapas a serem proporcionadas pelo desenvolvimento do ecoturismo, em atividades ou negócios que apresentem capacidade de gerar benefícios pessoais e progressos locais palpáveis;
− outros elementos como o público turista, o meio acadêmico e a mídia. Assim, conclui PIRES (2002) que qualquer ação, ou atividade, que almeje o status de se considerar ecoturismo, deverá seguir tais princípios fundamentais:64
− Ênfase na natureza e nos valores culturais autênticos – Os elementos da natureza, sua fauna, flora, ecossistemas e paisagens, juntamente com as comunidades locais, sua cultura e seu modo de vida, constituem-se nos atrativos por excelência do ecoturismo. Aumentando sua importância de acordo com o grau de naturalidade, originalidade e singularidade.
− Minimização dos impactos ambientais – Os impactos tanto ambientais como os sociais devem ser minimizados. Uma das medidas a ser tomada é a educação ambiental, dirigida aos visitantes, à população receptora e aos parceiros envolvidos nas distintas fases do desenvolvimento da atividade. − Geração de benefícios para a comunidade local – O ecoturismo pode ser
uma fonte de renda para as economias locais e contribuir na melhoria da qualidade de vida da população local por meio da maior utilização possível dos serviços e produtos originados na própria comunidade.
− Difusão da consciência ecológica por meio da educação ambiental – Por se tratar de atividade que proporciona um efetivo envolvimento com os aspectos naturais, o ecoturismo pode oferecer às pessoas conhecimento e percepções capazes de melhorar as atitudes e posturas no trato com o meio ambiente.
− Compromisso com a conservação da natureza – A atividade prioriza a existência da natureza, com o mínimo impacto, e estabelece um compromisso intrínseco com a proteção dos ambientes e os recursos naturais.