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Em, "L'écriture et la différence", uma de suas primeiras obras, Derrida destinou um longo artigo intitulado "Violence et Métaphysique-Essai sur la pensée d'Emmanuel Levinas", para expor suas ideias a respeito desse filósofo que manteve profunda "relação sem relação". Antes da publicação do texto na referida obra, Derrida entregou-o em mãos ao mestre, dirigindo-se a ele, à época, de maneira tímida e cautelosa258. O artigo demarca a intensidade desse pensamento ao mesmo tempo em que o desprende críticas, ao corresponder Levinas, ainda, à um certo hegelianismo, algo que tanto desejara se afastar; bem como de estar ainda preso ao um modelo demasiadamente grego - portanto, rendido a uma certa hegemonia do

logos - de dispor as ideias, mesmo que inovadoras.

Além de demonstrar algumas aproximações do pensamento levinasiano com Scheler e Hegel, supostamente contrários ao pensamento anti-totalizante proposto pelo autor, Derrida desfere críticas também à injunção da possibilidade do encontro puro da alteridade; da

255 LEVINAS, Emmanuel. Jacques Derrida. Tout Autrement. In: Noms Propres. Fata Morgana: Montpellier,

1976, p. 72.

256 BERNARDO, Fernanda. Levinas e Derrida: “Um contacto no coração de um quiasma”. Revista Filosófica

de Coimbra , n.33, 2008, (p. 39-78), p. 57-58.

257 Ibidem, p. 63.

92 relação de abrigo ao outro que sempre continuará a ser outro; do trauma transformado em acolhimento absoluto sem a mediação com a estrutura falível da concretude mundana, circunstância que manteria o pensamento de Levinas ainda refém das armadilhas articuladas pela metafísica da presença. Para Derrida, o filósofo lituano-francês pressupõe, em "Totalité

et infini", uma ética inefável e não contaminada pela imanência, portanto de algum modo

relacionada ao transcendente, fato que em alguma medida remontaria Kant259. Se somente o discurso é capaz de produzir o encontro ético - o desejo metafísico da justiça - e não o contato cognitivo, como pensar este discurso fora do jogo entregue ao tempo e, ainda, entregue ao mesmo sem produzir, originalmente, violência?

Não há guerra senão após a abertura do discurso, e a guerra só se extingue com o fim do discurso. A paz, como silêncio, é a vocação estranha de uma linguagem chamada para fora de si por si. Mas como o silêncio finito também é o elemento da violência, a linguagem não pode nunca senão tender indefinitivamente para a justiça, reconhecendo a guerra em si. Violência contra violência. Economia da violência. Economia que não pode reduzir-se ao que visa Levinas sob essa palavra. Se a luz é o elemento da violência, é preciso combatermos a luz com uma outra luz para evitarmos a pior violência, a do silêncio e da noite que precede ou reprime o discurso. Essa vigilância é uma violência escolhida como violência menor por uma filosofia que leva a história, isto é, a finitude, a sério260.

Nesse sentido, o pensamento de Derrida sustentaria que estamos imersos em um universo de inescapável violência, restando a todos nós a inscrição em uma dimensão de "economia da violência", onde a exclusão e a inclusão atuam de forma concomitante. Nenhuma posição pode ser tida de forma autônoma ou absoluta, mas fundamentalmente ligada a outras posições que violam e por quais são violadas. A luta pela justiça não pode, assim, ser uma luta pela paz, mas apenas para o que podemos chamar de uma "menor violência" já que, para Derrida (e quem percebe isso de maneira cirúrgica é Martin Hägglund261), o ponto de partida para se aqui argumentar é o de que todas as decisões tomadas em nome da justiça são feitas em vista do que é considerada a menor violência. Se há sempre uma economia da violência, as decisões que envolvem a justiça não podem se traduzir em uma questão de escolher o que é não-violência. Isso não significa que as decisões tomadas em vista da menor violência são, na verdade, menos violentas que a violência na qual se opõem. Pelo contrário, mesmo os atos mais horrendos são justificados em vista do que é considerado a menor violência. O ponto angustiante trazido à pauta está no fato de todas as

259 BERNARDO, Fernanda. Do “Tout autre” (Levinas/Derrida) ao “Tout autre est tout autre” (Derrida): Pontos de não-contacto entre “Levinas e Derrida” . Texto cedido pela autora, p. 242.

260 DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença: Perspectiva, 2009, p. 166-167.

261 HÄGGLUND, Martin. The necessity of discrimination disjoining Derrida and Levinas. Diacritics 34.1: 40

93 decisões da justiça estarem envolvidas, de algum modo, na lógica da violência. O desejo de menor violência nunca é inocente, já que é um desejo de violência, de uma forma ou de outra, não podendo haver garantia de que ele está a serviço de perpetrar o melhor dos mundos262. Derrida também é crítico, em vários pontos de suas obras, ao apreço dado por Levinas à dimensão do "fraternal" como artefato conceitual para se pensar a justiça e a política. Para o filósofo da desconstrução, o privilégio da força do masculino, do irmão e do pai, em detrimento da feminilidade, da irmã e da mãe, na história da razão ocidental263 é uma das grandes marcas do pensamento falocêntrico, tema que me deterei de forma mais acurada em breve e que poderia ser aqui anotado como outro ponto de não-contato entre Levinas e Derrida (e onde o segundo vai mais longe)264.

As contra-assinaturas em relação ao pensamento levinasiano não se encerram na questão da economia da violência ou ao plano do acolhimento fraternal. Para Levinas, quem primeiramente sofre o exercício de força imposto pelo desejo ontológico de totalidade é o humano, por isso é possível, a partir de Derrida, remeter o pensamento levinasiano ainda às amarras do humanismo, que, para aquele, a marca do humanismo ou do pensamento que privilegia o humano265 ainda carrega o cerne da irrupção logoantropocêntrica do Ocidente, desde Sócrates, passando, além de Levinas, por Hegel, Heidegger e Lacan266. Derrida deixou

262 Levinas recebe com gratidão e apreensão a crítica, demonstrando o quanto a levou a sério na sua obra de

maior potência - "Autrement qu'être ou au-delà de l'essence" que, para muitos, em vasta medida trata-se de um diálogo silencioso com Derrida. Esse é o pensamento de Ricardo Timm de Souza e Jacques Rolland (Parcours

de l’autrement, PUF, Paris, 2000).

263 Portanto, é bastante recorrente a abertura ao pensamento do filósofo argelino-francês no campo do feminismo,

sendo também de se anotar o número de pesquisadoras, professoras e admiradoras que disseminaram e disseminam o pensamento desconstrucionista ao redor do mundo. "Com o passar dos anos, prefere cada vez mais a companhia das mulheres à dos homens e, a propósito, acha que foram elas que melhor o leram". In: PEETERS, Benoît. Derrida. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2013, p. 509. Outro ponto de desencontro que aqui poderíamos anotar talvez estaria concentrado na ideia de "ética como filosofia primeira", em Levinas. Em que pese não perceba Derrida rebater essa tese de forma expressa, é possível perceber no filósofo da desconstrução uma indissociação entre epistemologia, ontologia e ética, sendo, portando, a tentativa de estabelecer um "privilégio"originário entre uma das três uma recaída ao desejo de origem e na própria metafísica da presença - metafísica, aliás, conceito que também marca uma dissociação entre os filósofos, já que em Derrida a problematização nesse ponto decorre de uma inegável herança heideggeriana sempre confessa pelo autor, e em Levinas manifesta-se como uma própria irrupção contra Heidegger, associando a ideia com a ética. Quem bem percebe isso é Moysés Pinto Neto, ao pensar a metafísica derridiana. Cf: PINTO NETO, Moysés. Khôra e arkhê. Disponível em: <http://ebooks.pucrs.br/edipucrs/anais/semanadefilosofia/VIII/1.23.pdf> Acesso: maio de 2014.

264 "A saber, ao seu diferendo em torno da questão do “feminino” e das diferenças sexuais, bem como em torno

da questão do “humanismo”: dois pontos de absoluto não-contacto entre “Derrida e Levinas”. E dois pontos através dos quais o pensamento de Derrida vai para além do de Levinas na sua ânsia de justiça". Cf: BERNARDO, Fernanda. Do “Tout autre” (Levinas/Derrida) ao “Tout autre est tout autre” (Derrida): Pontos de não-contacto entre “Levinas e Derrida” . Texto cedido pela autora, p. 243.

265 "E isto numa absoluta diferença com Levinas, para quem, como vimos, o outro é sempre o outro como

humano. Para Derrida, diferentemente, o absolutamente outro (tout autre) é absolutamente todo e qualquer outro (Tout autre est tout autre) – o vivente em geral". Cf: BERNARDO, Fernanda. Do “Tout autre”

(Levinas/Derrida) ao “Tout autre est tout autre” (Derrida): Pontos de não-contacto entre “Levinas e Derrida” .

Texto cedido pela autora, p. 254.

94 sempre claro que o seu projeto filosófico não se trata de uma ciência do homem267 ou de um projeto que tenha o homem como ponto de partida. O projeto de Derrida repousa no humano, mas remonta-se adiante para além do humano. Portanto, um projeto que possibilita o pensamento do homem, na mesma medida em que sustenta, sem opô-lo, o pensamento da

animalidade, enquanto em Levinas, jamais um animal é um rosto ou um terceiro, não sendo,

portanto, preciso responder-lhe responsavelmente268.

Um debate incessante sobre o tema, nos diria Derrida, passa pela resposta à questão – ou as que dela decorre: Quem é o “outro”, o “absolutamente outro” (“tout autre”) na “ética” de Levinas? Uma questão a que, sabemos, Levinas responderá na enseada de “o outro homem"269. Derrida, por sua vez, responderá – contra-assinará - desconstrutivamente à própria resposta de Levinas, afirmando que o “Tout autre est tout autre”. “ O absolutamente outro é absolutamente (qualquer) outro". Essa marca do "qualquer outro" sobressalta sobre a discussão a respeito do humanismo270. Em Derrida, devemos anotar, por certo, que o tema da

animalidade deva ser visto mais outramente do que o próprio outro.

Ao olhar o olhar do outro, diz Levinas, deve-se esquecer a cor dos seus olhos, dito de outra maneira, olhar o olhar, o rosto que vê antes dos olhos visíveis do outro. Mas quando ele lembra que "a melhor maneira de encontrar o outro é nem mesmo notar a cor dos seus olhos...", ele fala então do homem, do próximo enquanto homem, do semelhante e do irmão, ele pensa no outro homem, e isso constituirá para nós, mais tarde, o lugar de uma grave inquietação271.

Poderia aqui tecer páginas e páginas tentando desmembrar as inúmeras implicações em relação a esta aproximação que se distancia entre Derrida e Levinas, porém, como dito, além de tal tarefa ensejar uma nova tese, afasta-se em demasia da proposta de discussão desse ensaio. A abordagem que traz à baila o pensamento de Emmanuel Levinas se faz necessária em virtude mais de sua proximidade do que de seu distanciamento, já que no tema que passarei a enfrentar nesse capítulo - a figura do "estrangeiro" representada na categoria do

267 "O que aqui parece anunciar-se é que, de um lado, a gramatologia não deve ser uma das ciências humanas e,

de outro lado, que não deve ser uma ciência regional entre outras" (grifo no original). In: DERRIDA, Jacques.

Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 2004, p. 33-79.

268 BERNARDO, Fernanda. Do “Tout autre” (Levinas/Derrida) ao “Tout autre est tout autre” (Derrida): Pontos de não-contacto entre “Levinas e Derrida” . Texto cedido pela autora, p. 250.

269 Ibidem, p. 241.

270 Em que pese o sobressalto derridiano sobre a questão da animalidade e o problema do privilégio do humano

na pensamento ocidental tradicional, a proposta de minha tese repousa sob a dimensão da política (ou sob uma dimensão ainda tradicional da política) que, ainda, de algum modo, privilegia o humano. Mas estou atento para o fato de que a desconstrução derridiana fornece instrumentos para ultrapassarmos a barreira do humano no campo da política, posicionando a questão de outra forma: é possível pensarmos uma extensão do conceito de

democracia - um conceito de democracia revisitado, por vir - aos animais? Seria possível esmiuçar esse

conceito herdado de democracia à dimensão da natureza? Todas essas questões se enquadram como questões por

vir - que reivindicam pesquisas por vir.

95 "hóspede" que desafia a soberania da ipseidade - demarca um esforço comum na direção de uma ideia de acolhimento em que ambos os pensadores atuam de forma complementar. No intuito de preparar a discussão, tratarei de forma mais acurada de um conceito que os une mantendo distanciamento: o ateísmo - categorias por ambos remetidas, porém com deságues em direções diferentes.