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"Ninguém jamais saberá a partir de que segredo eu escrevo, e o fato

de eu dizê-lo não muda nada em relação a isso"

Jacques Derrida320

Mas, afinal, que segredo é esse que a desconstrução, esse discurso que jura não- querer-dizer-nada, quer dizer sem poder dizer? A imposição dessa pergunta já a demarca em uma outra relação com a temporalidade. A desconstrução deseja tanto guardar o segredo de uma certa ancestralidade não originária, na mais antiga das línguas e dos textos e ao mesmo tempo remetendo ao que há de mais novo, portanto, por vir. Antecipa o por vir, escondendo-o. Não se aproximará a desconstrução a uma espécie de teologia negativa? Parece evidente existir uma aproximação entre a desconstrução, em seu discurso impossível, e aquele discurso que comumente se designa como "teologia negativa", a saber, o discurso que evoca Deus pela

318 "Je parle donc d´athéisme ou de laïcité nos pas du tout comme de ces convictions, opinions ou idéologies

personnelles qui peuvent être ou non partagées par les uns ou les autres, mais d´un athéisme, voire d´un agnosticisme structurel en quelque sorte qui caractérise a priori tout rapport à ce qui vient et à qui vient: penser l´avenir c´est pouvoir être athée (...) (je me demandais donc non seulement si je ne suis pas athée de cet athéisme structurel) mais de nouveau un athée qui se souvient de Dieu, et qui aime à se souvenir de Dieu, s´il est encore possible d´être athée, et radicalement laïque dans ces condicions". (tradução minha). DERRIDA, Jacques. Penser

ce qui vient. IN: Derrida, pour les temps à venir. MAJOR, René (direction). Éditions Stock, 2007, p. 21.

319 Derrida comenta sua relação com o judaísmo e a questão do Marrano no belo documentário "D'ailleurs", de

Safaa Fathy, produzido em 1999.

104 apófase ou predicação negativa321. Ambos os discursos respiram a assunção da sua própria inadequação para dizer o que desejam dizer e que, em si mesmo, é indizível como tal.

Todo discurso nunca está fora do horizonte predicativo, na medida em que se constitui como um encadeamento produtor de sentido. Mesmo um discurso como a prece, que se pretende como um endereçamento puro e singular, sem comunicabilidade informativa, também se mostra como uma forma de inscrição textual, logo, correndo o risco irredutível de sua repetição mecânica. Além disso, em que pese o endereçamento da prece consistir em um endereçamento secreto, esse endereço pressupõe um lugar, um "ter lugar", para além da totalidade dos entes, sendo senão como uma supra-entidade ou, pelo menos, uma transcendentalidade que pressupõe uma origem, uma arkhé, recaindo sempre em uma onto- teologia. "Deus", como único predicativo auferido pela via positiva, é a palavra inaugural que comanda toda inscrição e todo o discurso, caminho ou propedêutica da revelação: acontecimento dos acontecimentos ou o acontecimento inaugural da história do sentido que possibilita toda a invenção e toda a temporalidade322.

É isso que separa a teologia negativa do ateísmo e faz dela o que ela não pode deixar de ser: teologia ou discurso sobre Deus - o ente soberano para além de toda a soberania323. Diferentemente, na apófase desconstrutiva que se lembra de Deus, não só todo o endereçamento se perde na dispersão de uma economia geral324 que se retira de sua pretensão de seguir um caminho reto, assim como todo o endereçamento se dá na singularidade de um "a cada vez" que interrompe o destino acabado ou mecânico. Deus deixa de ser o nome que se deseja e passa a ser o nome próprio do desejo, inscrito no lugar mais íntimo do "próprio", e que não sabe ao certo o que deseja: "o desejo de Deus, Deus como o outro nome do desejo trata, no deserto, com o ateísmo radical"325.

O desejo de Deus passa a ser, portanto, o ateísmo radical e sem dogma que espera a vinda de quem quer que seja ou do qualquer que seja - absolutamente outro ou singular - que é o tempo de espera e movimento disjuntor da pulsão diferancial, ou seja, espaçamento e temporalização de todo o acontecer possível-im-possível. E dizer isso significa dizer que "Deus" pode ser qualquer um (único e singular). Nesse sentido, pensar a apófase sem revelação, implica uma modificação na topografia do endereçamento; mais do que um para

321 DERRIDA, Jacques. Salvo o nome. Campinas: Papirus, 1995, p. 7-10. 322 Idem. Psyché. Inventions de l' autre II. Paris: Galilée, 2003, p. 177.

323 Revisitarei essa questão da soberania e seu atrelamento com a teologia no quarto capítulo.

324 A proposta de uma "economia geral" é atribuída a Bataille como "uma ferramenta que permite pensar uma

ontologia sem substância (Cf: PINTO NETO, Moysés. A escritura da natureza: Derrida e o materialismo

experimental, p. 70) reproblematizada por Derrida no texto "De l’économie restreinte à la économie générale. Un

hegelianisme sans réserve", presente em "L'écriture et la différence".

105 além do ser, a diferensa enquadra-se para "aquém" ou para além do pensamento que é o do ser, pensada ao lado de Levinas, isto é, sem a interrupção do ser ou da totalidade do ser. A hospitalidade incondicional do endereçamento é a evocação e não a revelação escatológica do sentido do ser. Tal evocação não é, portanto, nem a encarnação de um significado transcendental em uma espécie de metáfora dissimuladora, nem sequer a retirada do sentido do ser que dá sentido a tudo aquilo que é e que em si mesmo nunca aparece como tal. Se a teologia é o discurso sobre Deus ou a nomeação da possibilidade de revelação da transcendência, a desconstrução, como um discurso que "não quer dizer nada" não pode ser uma teologia, ainda que uma teologia negativa, porque ela pressupõe que nada há a se dizer ou revelar. Nesse sentido, uma aproximação distanciada entre Levinas e Derrida uma vez mais irradia: tudo há a dizer porque nada se revelará como dito. Deus é, para Levinas, o absolutamente outro (ainda que em Levinas esse absolutamente outro corresponda ao outro

homem e não ao absolutamente todo e qualquer outro, como em Derrida), o absolutamente

separado, ou seja, o infinito que excede a totalidade do mundo, e por isso, o rosto do outro pode ser lido como o "rastro" do rosto de Deus. Derrida assina contra-assinando essa formulação de Levinas, evidenciando que "Deus" é aqui um nome próprio infinitamente substituível na cadeia textual dos nomes, impossibilitando a epifania de um nome único326. O "inominável" é fruto da inscrição no interior da cadeia de nomes do texto do mundo e do discurso em geral, que forma e possibilita todo o pensar.

O jogo do mundo, compreendido como jogo da significação e da nomeação sem significado transcendental, precede "Deus". "Deus" é já um nome inscrito na cadeia textual como resultado de um trabalho de significação que não corresponde a uma supra-entidade que a preceda e propriamente lhe confira sentido. Esse sentido precedente permanece em segredo, já que do rosto de "Deus" apenas jorram-se rastros. Ele nada mais é do que o nome do acontecer surpreendente e singular dos seus rastros como rastros dos rastros - inscrito já em uma contaminação diferancial sem dialética e sem a finalidade de uma inscrição textual fora- do-texto327.

A impossibilidade de um "para além do ser" como tal é o segredo absoluto. Mas não o segredo escondido que guarda e aguarda a revelação. O segredo não é necessariamente uma configuração teológica, ainda que sua postulação retenha guarida em um movimento

326 DERRIDA, Jacques. Salvo o nome. Campinas: Papirus, 1995.

106 teológico (como a postulação de algo que escapa ao horizonte intencional por ocultação328); mais ainda, qualquer configuração teológica do segredo é já uma semi-revelação do segredo. Que segredo? O segredo justamente do sentido ou do sentido do ser - aquilo que dá a ver sem deixar se ver. Seria o "nem, nem" derridiano como "e, e": nem isto nem aquilo nem aquilo outro porque talvez e isto e aquilo e aquilo outro, pois se nada acontece como tal tudo pode

acontecer329.

Ao invés da crença na possibilidade da revelação, a única fé desenhada pela desconstrução é a da escuridão da noite profunda, sem iluminação ou esclarecimento, como o testemunho do cego que crê e abdica de qualquer discurso sobre a crença, ou seja, uma fé que não espera e nem crê na revelação, mas guarda-a em segredo. Lembra-se dela, dando-lhe as costas.

De cada vez que um castigo divino se abate sobre a vista para significar o mistério de uma eleição, o cego torna-se a testemunha da fé. Uma conversão interna parece em primeiro lugar transfigurar a própria luz. Conversão de dentro, conversão por dentro: para iluminar por dentro o céu espiritual, a luz divina faz anoitecer lá fora no céu terrestre330.

O segredo é, com efeito, como não poderia deixar de ser, mais um nome na cadeia de conceitos mas que, aporéticamente, nomeia-se salvando-o secretamente, isto é, separadamente. E mesmo que não haja um segredo em si mesmo, mesmo que o maior de todos os segredos seja o de que não existe segredo - um segredo que anteceda a escritura - o absolutamente outro permanecerá secreto. O absolutamente outro não é secreto porque não cabe na totalidade. A totalidade demarca sua violência tendo ciência de sua incapacidade totalizante, porém isso jamais rendeu obstáculo à sua pretensão. Outrem é secreto porque é

outro331. Outro é a cifra quiptografada no texto do mundo. E o impossível é secreto porque não cabe em nenhuma possibilidade.

Como guardar um segredo que não existe? Confiando-o ao não dito, mas não dizer nada já é, com efeito, dizer algo: há que pronunciar para não se dizer nada, isto é, inscrever o não-dizer-nada em um discurso, justamente como pretende o "não dizer nada" da desconstrução332. O indecifrável quiptografado, é certo, dá margem e compartilha do estilhaçamento do sentido produzido pela hermenêutica, como não poderia deixar de ser. Daí

328Idem. Psyché. Inventions de l' autre II. Paris: Galilée, 2003, p. 166. "Si le théologique s´y insinue

nécessairement, cela ne veut pas dire que le secret lui-même soit théo-logique".

329Ibidem, p. 174. "Le ni-ni devient facilment un et-et, à la fois ceci et cela, D´où la rhetórique du passage, la

multiplicacion des figures qu´on interprète tradicional comme das métaphores."

330 DERRIDA, Jacques. Memórias de cego. O auto-retrato e outras ruínas. Lisboa: Fundação Colouste

Gulbenkian, 2010, p. 115.

331 Idem. Papel-máquina. São Paulo: Estação Liberdade, 2004, p. 331 ss.

107 revelam-se inúmeras aproximações ou até mesmo reduções do "projeto" desconstrucionista à luz da viragem linguística produzida pela hermenêutica filosófica. Mas não é esse o ponto que me move aqui e nem o que movia Derrida333, que sempre deixou claro seu apreço para com a contribuição destruidora do pensamento heideggeriano, conforme já brevemente mencionei. A partir do momento em que há inscrição, surge o desejo hermenêutico da interpretação, necessária mas sempre inadequada para dar conta da disseminação sem regra de toda a cadeia de sentido e do acesso inapropriável que lhe subjaz. Se a hermenêutica trabalha na condição de possibilidade para o acesso ao sentido do mundo prático a partir de uma existência que o antecede, o segredo da desconstrução - ou a desconstrução como pensamento próprio do segredo - não corresponde ao desvelamento, ainda que um desvelamento que se mantém em esconderijo, porque o segredo não coincide com a ordem ou a órbita do sentido. O secreto é o que reenvia indefinidamente o significado, tornando-o clandestino de si mesmo.

Talvez esteja relegada ao segredo, ainda, a correspondência da desconstrução ao âmbito do teológico e até mesmo da relação judaico-ateia entre Levinas e Derrida, questão em que apertadamente tentei, consciente das dificuldades, aqui problematizar. Superada a tentativa de aproximação/distanciamento entre esses dois pensamentos grandiosos (e daqui pra frente diluídos por toda a tese), tarefa que restará sempre incompleta e sujeita à rasura, talvez seja possível prosseguirmos, tomando de assalto, em momento oportuno, um ponto que também interessou os dois filósofos: a responsabilidade pela invenção secreta do

acolhimento ao totalmente outro.