cénicas locais era desolador. Motivado por esta constatação entreguei ao Centro Cultural Português (CCP)115 no Mindelo uma proposta para dinamizar um Curso de Expressão Corporal e Teatro, aceite de imediato pela então diretora do centro, Dra. Ana Cordeiro. O que fez com que este episódio se tornasse um acontecimento digno de registo foi o facto do conjunto de alunos desta oficina teatral, composta sobretudo por estudantes do ensino secundário, ter decidido pela formação de um grupo de teatro que, com o acordo da tutela, passaria a chamar-se oficialmente
Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo (GTCCPM).
Em poucos anos este colectivo, que se mantém ativo, transformou-se no mais produtivo da história cénica cabo-verdiana, tendo assinalado, em março de 2014, a sua 50ª produção teatral com uma exposição de fotografias e um livro, ambos intitulados, justamente, Palco 50. O que fez deste grupo um caso especial de produtividade e resistência? É importante sublinhar que as atividades ligadas ao teatro promovidas pelo CCP produziram, ab initio, todo um alvoroço, não só em relação a outros agentes teatrais já instalados e conhecidos, como foi epicentro de decisões fundamentais da história do teatro em Cabo Verde como, por exemplo, a invenção do festival de teatro Mindelact e a posterior fundação da Associação Artística e Cultural, com o mesmo nome. Mais do que fazer um levantamento exaustivo de produções teatrais do grupo e das numerosas participações internacionais ou descrever ao pormenor os cursos de iniciação teatral, importa compreender o que de novo trouxe este trabalho ao panorama artístico do arquipélago. Em primeiro lugar é um projeto que faz caminhar lado a lado a formação artística de base e a produção de espetáculos de teatro e/ou exercícios cénicos, o que num país com as características sociais e económicas de Cabo Verde, faz toda a diferença tendo em conta que a mobilidade social tem sido um factor de instabilidade em inúmeros projetos artísticos, não só no teatro.
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O Centro Cultural Português no Mindelo foi inaugurado no dia 6 de Maio de 1985 pelo Sr. Secretário de Estado da Cooperação, Dr. Eduardo Âmbar, dando seguimento ao despacho do Ministro dos Negócios Estrangeiros, Dr. Jaime Gama. Em 1995, passou para a tutela do Instituto Camões, como Polo do Centro Cultural Português da Praia. (Despacho conjunto nº A-29/95-XII, publicado na II Séria do DR nº 155, de 07 de julho). Em 2012, passou para a tutela do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P., mantendo-se como Polo do Centro Cultural Português da Praia (Decreto-Lei nº21/2012, de 30 de janeiro).
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Figura 22: Presidente da República de Cabo Verde, Dr. Jorge Carlos Fonseca e esposa Dra. Lígia Fonseca visitam a exposição Palco 50, em junho de 2014.
Fotografia de Janaina Alves. Arquivo CCP Mindelo
Graças à manutenção desses cursos como uma atividade regular do Centro Cultural Português, o GTCCPM tem conseguido substituir os elementos que emigram, captando em sua substituição os formandos considerados mais versáteis 116. Por outro lado, a partir de determinada altura, dos cursos de iniciação teatral começaram a surgir outros grupos de teatro autónomos. Hoje, assiste-se ao surgimento de outros projetos de formação teatral de base, de segunda e terceira gerações, ou seja, promovidos por antigos formandos dos cursos do Centro Cultual Português, oficinas que, por sua vez, provocaram o aparecimento de novos grupos de teatro. Esta extraordinária dinâmica em cadeia tem permitido que o Mindelo seja considerado a capital do teatro cabo-verdiano. Um título que lhe é atribuído não só pelo facto de ser esta urbe a acolher e dinamizar o Festival Mindelact, referência incontornável da história do teatro crioulo, assim como pela intensa atividade teatral que desenvolve ao longo do ano.
Todos os atores e atrizes do GTCCPM passaram por um processo de aprendizagem que tem a duração média de 8 a 10 meses, acompanhando o ano escolar oficial. À medida que o tempo foi passando, estes cursos foram sendo aperfeiçoados, não só pela experiência entretanto adquirida pelos formadores mas também porque esta nova dinâmica fez com que o Mindelo se
116 Por questões relacionadas com empregabilidade e com o acesso ao ensino superior, não restava a muitos
cabo-verdianos outra possibilidade que não fosse emigrar e daí a inevitabilidade de abandonar os grupos com os quais estivessem envolvidos. Segundo o Anuário Estatístico 2010/11 do Ministério do Ensino Superior, Ciência e Inovação (MESCI), de Cabo Verde, assistiu-se, na última década, a uma expansão do acesso e frequência ao mesmo, com o crescimento médio anual das matrículas de 32,3%. A Universidade Jean Piaget (Uni-Piaget) foi a primeira universidade privada criada no país, em 2001 na cidade da Praia. Em 2006 foi institucionalizada a Universidade Pública de Cabo Verde, a Uni-CV. Até essa data, com exceção de alguns institutos, públicos ou privados, e do Instituto Superior de Educação, dedicado à formação de professores, quem quisesse continuar os estudos uma vez terminado o Ensino Secundário, teria que o fazer fora do país.
141 transformasse numa espécie de interposto de agentes teatrais, com a passagem de encenadores, técnicos, coreógrafos, intérpretes e outros criadores estrangeiros que se disponibilizaram, paralelamente aos seus projetos pessoais, para ministrar oficinas nas suas especialidades, permitindo a estes cursos a aplicação de um cronograma cada vez mais interdisciplinar, integrado e direcionado para a produção de exercícios cénicos públicos 117.
Figura 23: Performance na cidade do Mindelo, Movimento e Texto Performativo (2015)
Fotografia de João Branco. Arquivo CCP Mindelo
Assim, por exemplo, durante o 1º ano do 15º curso, que decorreu entre outubro de 2014 e julho de 2015, os aprendizes tiveram oficinas e/ou cursos livres nas seguintes disciplinas: teatro de grupo, máscara neutra, expressão corporal, expressão vocal, dramaturgia e escrita para teatro, personagem conflito, stand-up comedy, história de arte, história do teatro, movimento e texto performativo, teatro invisível e encenação. Algumas destas oficinas tiveram como corolário apresentações públicas em forma de exercício, performance ou espetáculo de teatro no seu formato mais tradicional. Graças a uma evolução contínua que lhe permitiu chegar ao que se pode considerar um razoável programa de formação teatral de base, este curso afirmou-se, durante mais de duas décadas, como um pilar da estrutura teatral cabo-verdiana tal como a conhecemos hoje e constitui a principal iniciativa de formação no domínio das artes cénicas em Cabo Verde, permitindo uma renovação permanente do panorama cénico local, a formação de um público novo e (in)formado para o teatro e tem contribuído de forma decisiva para o
117 Por três ocasiões, o curso foi alongado por mais um ano. Neste momento, o seu cronograma pedagógico
142 nascimento de novos projetos e grupos teatrais. Embora esteja localizado no Mindelo, toda esta atividade extravasa a cidade e a ilha de São Vicente, pois vários antigos alunos, tendo que se fixar em outras localidades, acabam por desenvolver projetos autónomos também nesses locais, com destaque para a cidade da Praia, maior centro de emprego do País.
Tendo como principais características a interdisciplinaridade, os cursos de teatro do CCP assumem a preocupação em manter um olhar crítico sobre o microcosmos local, procurando em simultâneo estar atento a questões universais ou metafísicas. Graças a um espírito prático, com uma forte ligação à comunidade, e a uma produção artística visível, apreciada por um público cada vez mais vasto, este programa de formação em artes cénicas conflui para um terreno fértil de onde germinará uma futura escola de teatro, estruturalmente falando. Neste contexto, o que nasceu como uma modesta oficina de iniciação teatral, transformou-se num amplo movimento artístico multigeracional que converge para o que poderemos considerar uma escola, no seu sentido mais lato. O resultado prático, concreto e visível desta reação em cadeia materializa-se numa intensa produção teatral de grupos e companhias de teatro que tem no Grupo de Teatro do
Centro Cultural Português do Mindelo uma espécie de irmão mais velho.
Dez anos após o seu nascimento já era possível ter-se uma ideia da importância que a esta formação de base teve para o sucesso do projeto teatral do Centro Cultural Português, como testemunha Ana Cordeiro (2003): “não tenho qualquer dúvida em afirmar que o progresso e crescimento do grupo se deve, em grande parte, à vertente da formação” (p.12). Em 2003, com os seus 10 anos de atividades e as suas 30 produções cénicas, o GTCCPM já era recordista em termos de produção teatral: nunca nenhum outro grupo havia levado à cena tantas produções em tão pouco tempo.
Mas não foi apenas pela quantidade que a companhia marcou a diferença. Este foi um trabalho que se destacou pela qualidade, o que teve como consequência mais visível a conquista de um público que antes não ia ao teatro. O trabalho artístico cénico distinguia-se graças a uma concepção de encenação mais abrangente do que era normal na época, que se refletia numa aposta na componente plástica dos espetáculos, abrangendo a cenografia, os figurinos, os adereços e o desenho de luz, mesmo que as condições de produção fossem então, como ainda são hoje, bastante difíceis e com poucos meios ao dispor. Por outro lado, o grupo assumiu uma política de repertório que se pode dividir em três eixos: a criação de textos próprios resultantes de processos coletivos de escrita teatral; a adaptação para a cena de textos não teatrais, sobretudo de escritores cabo-verdianos; e a adopção de uma metodologia de apropriação de clássicos do teatro
143 universal, envolvendo uma multifacetada metodologia de criação, designada crioulização cénica, que permitiu um conhecimento e uma aproximação do público cabo-verdiano a obras de dramaturgos como Shakespeare, Molière ou Garcia Lorca.
Tem este grupo recusado os caminhos mais fáceis, preferindo o risco da experimentação ao conforto e sucesso que advêm de uma receita com garantias dadas. Esta coragem tem estado igualmente presente na luta por pequenas coisas e na imposição de determinadas regras, necessárias à dignificação do teatro e do trabalho dos actores e técnicos. Estou a referir-me ao hábito de divulgar a ficha técnica de cada espectáculo em desdobráveis ou programas mas também a algo tão simples e tão difícil como disciplinar o trabalho dos actores ou habituar o público a chegar a horas e não interromper o espetáculo depois de iniciado.
(Cordeiro, 2003:13) 118
Muita coisa mudou no teatro cabo-verdiano dos anos oitenta até hoje. Este depoimento é revelador para se entender até que ponto essa transformação abrangeu numerosos pormenores, alguns tão básicos como a pontualidade, a utilização dos meios técnicos ao dispor, a qualidade gráfica dos materiais de promoção ou a impressão de um programa com uma ficha artística e um texto sobre as opções de encenação.
Quando as atividades teatrais arrancaram no início dos anos noventa, os grupos de teatro da cidade tinham ao dispor para a apresentação dos seus espetáculos, os seguintes espaços: o cineteatro Éden Park, que ainda era a principal sala da ilha e que funcionava normalmente como cinema; um pequeno auditório nas instalações da Televisão Nacional de Cabo Verde que, na época, estava ocupado por um grupo local 119; alguns salões com palcos exíguos, sem bastidores nem condições técnicas mínimas, utilizados na apresentação de peças de teatro escolares, como os da Escola Salesiana ou do Centro Juvenil Nho Djunga 120. Não havia material apropriado de
118 Por exemplo, a falta de pontualidade em geral, e os atrasos dos eventos culturais, em particular, estão de tal
forma enraizados nos hábitos cabo-verdianos que se utiliza na gíria popular a expressão “hora de crioulo”, para justificar algo que, normalmente, seria encarado como socialmente desajustado. O teatro foi, precisamente, a primeira atividade regular que foi tentando combater esse mal e, pelo menos na cidade do Mindelo, muitos reconhecem que é a exceção que confirma uma regra que torna quase normal um atraso de duas horas num acontecimento marcado para um determinado horário. Para se ter uma noção de como esta particularidade, digamos assim, se tornou apanágio de uma certa forma de estar, na noite de 4 de julho de 2015, o grande espetáculo cultural das comemorações oficiais do 40º aniversário da Independência de Cabo Verde, ocorrido no Estádio da Várzea, na capital Praia, marcado para as 21h00, teve o seu início às 23h05, num evento que foi apresentado como um dos pontos altos destas celebrações. Os espetáculos de teatro na cidade do Mindelo tornaram-se, a partir de determinada altura, conhecidos pela sua pontualidade, uma regra que foi seguida pelos organizadores do festival Mindelact.
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O grupo designado Grupo de Teatro Frank Cavaquim, já não existe. O auditório, que chegou a ser utilizado pelo GTCCPM numa das suas primeiras produções, é hoje um espaço abandonado, que serve de armazém de material danificado e entulho, e ainda pertence à delegação da televisão pública cabo-verdiana.
120 O Centro Juvenil Nho Djunga é uma instituição pública sediado no Mindelo que tem como função o
144 iluminação para teatro, na maioria dos casos a cenografia limitava-se a um painel pintado no fundo da cena e a função do encenador era quase desconhecida.
Tudo isso soava estranho, porque Mindelo foi-me apresentada deste o início como “uma cidade de cultura”, cheia de artistas, músicos, poetas, talento para dar e vender em cada esquina da cidade. Foi por isso que, depois das primeiras produções terem sido apresentadas em alguns desses locais alternativos, se optou nessa primeira fase pela utilização da biblioteca do Centro Cultural Português, que se transformou num pequeno auditório em algumas ocasiões. “Do susto das velas e outras luminárias à primeira mesa de luz, ainda que feita artesanalmente, ou do milagre da transfiguração de espaços ínfimos ou improvisados” (Cordeiro:12), esse foi um período alimentado por um entusiasmo contagiante que as dificuldades e a falta de condições, não conseguiram esmorecer.
No desdobrável dedicado ao primeiro ano de atividade, com quatro produções cénicas e já um número considerável de apresentações, era referida a possibilidade de estarmos perante uma semente de uma futura escola de teatro. “Uma escola onde se cultive o teatro como arte universal, moderno, experimental, ousado e provocador, porque só assim se poderá tirar o teatro do marasmo em que se encontra” (Branco, 1994). Palavras que denotavam um entusiasmo porventura exagerado mas que provocaram uma onda de choque em parte da classe artística teatral instalada, que se sentiu ameaçada e até ofendida com esta entrada pungente no panorama cénico da cidade. Sendo uma atividade promovida por uma instituição estrangeira, apesar da postura exemplar na forma como sempre integrou a classe artística cabo-verdiana na sua programação, e tendo como impulsionador um recém-chegado jovem português, foi inevitável que uma tensão se instalasse. Pode-se dizer que este espírito de competição por um terreno antes socialmente ignorado não deixa de ser um sintoma da importância que o teatro estava a conquistar. Uma arena apetecível, cujo público crescia, com um maior número de espetáculos promovidos e notícias publicadas nos jornais locais. Em suma, mais visibilidade social.
A propósito desta evolução, o romancista Germano Almeida sublinhava que os mindelenses “reaprenderam a contar com o teatro como uma actividade cultural a agendar e o João Branco é já um homem completamente caboverdianizado” (2003:18), uma declaração que procurava responder a essa desconfiança inicial resultante do facto do mentor desta agitação não ser natural de Cabo Verde. Nos primeiros anos de atividade do GTCCPM essa discussão, pública ou em conversas privadas, relacionada com a natureza identitária das suas produções cénicas, era frequente. Neste contexto surge a expressão “teatro genuinamente cabo-verdiano”, que viria a ser
145 utilizada como forma de contestação em alguma comunicação social. Por exemplo, no programa de As Virgens Loucas, coprodução do GTCCPM com a Associação Cena Lusófona 121 em 1996, percebe-se a tensão latente e o tipo de questões que estavam em cima da mesa:
Alguns dias antes da estreia do espectáculo, ouvi uma pessoa que tem um cargo de responsabilidade na área cultural em S. Vicente, declarações públicas feitas numa estação emissora sobre o que é, ou melhor, o que deveria ser, o teatro cabo-verdiano. Dizia ele, mais ou menos com estas palavras, que o teatro cabo-verdiano, para o ser genuinamente, teria de ser produzido, encenado, interpretado, dramatizado por cabo-v r i nos. … S ssim n o for, já não estamos perante um genuíno e verdadeiro teatro das ilhas! Esta ideia é tão disparatada e desprovida de sentido, primeiro porque vai contra a própria génese sob a qual este povo foi formado, depois porque conduz a arte teatral num perigoso caminho que, em última análise pode conduzir ao xenofobismo e à estagnação. (Branco, 1996)
Compreende-se para onde a polémica estava a ser conduzida. Os questionamentos identitários pareciam levar a melhor sobre o debate artístico. O cenário é fácil de entender: um território onde um grupo restrito domina e é reconhecido como autoridade perante os outros é “invadido” por um grupo de jovens desconhecidos, sem experiência, na maioria estudantes de liceu, liderados por um estrangeiro recém-chegado à cidade e apoiados por um centro cultural português. A discussão sobre uma suposta autenticidade do teatro cabo-verdiano encontra neste contexto todos os ingredientes para ser cozinhado em lume brando e provocar uma tensão que só não durou mais porque a passagem do tempo, a conquista de público, acompanhada da produtividade de um coletivo que nunca se deixou abater por estas questões, acabou por contribuir para que a dinâmica então conquistada não fosse interrompida, contrariando o carácter sazonal do teatro cabo-verdiano em vigor até então, em que após alguns períodos de vigor se viviam outros de absoluto marasmo.
O Mindelo, a sua classe artística e o público em geral acabariam por se render ao trabalho do GTCCPM e, de um ponto de vista regional, esses debates não mais tiveram lugar. Mas a tensão identitária manteve-se em diferentes arenas como uma inevitabilidade crónica, alimentando, no que aos atributos das criações cénicas do grupo diz respeito, equívocos e alguns engodos. Continua-se a ouvir, embora com menos frequência, que o teatro do GTCCPM não é consentâneo com a realidade nacional, sem que nunca se tenha assistido a um espetáculo do grupo. Por exemplo, João Pereira, atual vereador da Cultura da Câmara Municipal de Santa Catarina, numa entrevista em 2013, afirmou o seguinte: “Posso estar errado, mas o teatro que eu, o grupo Juventude em Marcha e Gil Moreira faz, é esse o teatro típico cabo-verdiano. Agora,
121 A Cena Lusófona, Associação Portuguesa para o Intercâmbio Teatral, sediada em Coimbra, existe desde
146 quando se pega numa peça cabo-verdiana e introduz-se muitas técnicas do teatro da Grécia Antiga e outras, foge-se um pouco da realidade nacional.” 122 Como entender uma declaração destas, de um responsável político municipal que é, ao mesmo tempo, um conhecido agente teatral na sua região? Além de revelar um desconhecimento do trabalho realizado no Mindelo, mistura e confunde conceitos. Em simultâneo, revela uma necessidade de se colocar no conjunto daqueles que fazem o teatro “típico” cabo-verdiano, em oposição àqueles que não o fazem porque usam muitas “técnicas da Grécia Antiga e outras”. Continua, pois, a existir em alguns meios, uma dificuldade tácita em nomear o GTCCPM como um legítimo representante do teatro cabo-verdiano, mesmo sendo este o grupo que mais vezes carregou a bandeira de Cabo Verde em eventos internacionais e se afirme com uma capacidade de produção que não tem paralelo.
Não é só no meio teatral que esta disputa acontece. Na música – com as intermináveis discussões entre “tradicionalistas” e músicos de hip-hop, por exemplo – ou na dança – como se percebeu da análise do trabalho da Companhia de Dança Raiz di Polon – o debate sobre o que é