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A tática principal do terrorismo “moderno” é o terrorismo suicida, no entanto, a utilização de suicidas contra inimigos tem precedentes históricos.

No séc. I, os “sicários”, guerrilheiros hebreus que lutavam contra o domínio romano. Do séc. XI a XIII, os “assassinos”, terroristas nizaristas xiitas da Siria e do Irão que tinham a missão de cometer homicídios por ordem da nobreza e posteriormente cometiam o suicídio. Bernard Lewis, em “os Assassinos – Uma seita islâmica radical”,

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apesar de se verificarem algumas semelhanças com o terrorismo suicida moderno, não pode ser utilizado para comparação. A semelhança mais importante diz respeito à dedicação total do “assassino” ao ponto da auto-imolação ao serviço da sua causa e na esperança da recompensa do Paraíso. No entanto, também existem diferenças que invalidam a comparação, como sejam as seguintes: o facto das vítimas dos “assassinos” serem na grande maioria as elites dominantes muçulmanas e não os estrangeiros, como acontece atualmente; alguns homicídios cometidos pelos “assassinos” eram considerados “martírios” quando cometidos na “guerra santa”, isto é, desde que esta tivesse sido “promulgada” pelas autoridades islâmicas da época, ao contrário do que acontece nos nossos dias. Em relação aos métodos e procedimentos também havia diferenças. Para estes, as vítimas escolhidas eram, quase sem excepção, as elites governantes, ao passo que hoje em dia as vítimas são na sua maioria pessoas comuns. A arma utilizada por eles era a adaga ao invés do que acontece atualmente, que pode ser qualquer uma desde que sirva para atingir o maior número de vítimas possível. Outra diferença importante é o tipo de suicídio. Após o homicídio ser consumado os “assassinos” suicidavam-se porque era uma desonra na época continuar vivo após uma operação. Atualmente os terroristas suicidas fazem parte integrante da bomba.88

No séc. XX, os “kamikazes” japoneses eram pilotos suicidas que foram utilizados na 2.ª Guerra Mundial contra os navios norte-americanos.

Contudo, foi a partir dos anos oitenta do séx. XX, que o terrorismo suicida moderno surgiu, através do terrorismo guerrilheiro nacionalista dos “Tigres Tamil”, na sua luta por autonomia politica no sri Lanka, e também pelo terrorismo islâmico, de cariz xiita, através do Partido de Deus (Hezbollah), no Líbano. Posteriormente, surgiu o Hamas e a Jihad Islâmica, grupos terroristas radicais islâmicos de confissão sunita.89

Existe um consenso geral da comunidade científica que defende que a fase dos ataques bombistas suicidas atuais começaram com o ataque à embaixada americana em Beirute em 1983, pelo grupo terrorista Hezbollah.

Segundo os dados do Centro de Estudos do Terrorismo e da Violência Politica, da Universidade escocesa de St. Andrews, dos cerca de 270 atentados suicidas praticados em todo o mundo durante 1998 até 2000, por 15 grupos terroristas em 12 países, 168

88 Martins, Raúl François Carneiro, Acerca de “Terrorismo” e de “Terrorismos”, IDN Cadernos, Caderno

n.º 1, 2010, p. 67

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atentados suicidas foram executados pelos “Tigres Tamil”, etnicamente tamiles e religiosamente hindus, seguidamente, menos de 60 atentados pelo grupo xiita Hezbollah, em terceiro lugar o grupo palestiniano Hamas, com menos de 30.90

As estatísticas disponíveis indicam que houve 31 ataques terroristas suicidas durante os anos 80 e 104 ataques nos anos 90. Em 2000 e 2001 foram registados 53 ataques terroristas suicidas. Este dramático crescimento do terrorismo suicida tem acontecido num momento em que o número de incidentes terroristas pelo mundo tinha vindo a cair de um pico registado de 666 ataques em 1987 para 274 em 1998 e 348 em 2001.91

As missões suicidas também têm proliferado em muitos países árabes e muçulmanos que são marcados por estruturas políticas autoritárias que restringem a dissidência ou são caraterizados por conflitos em curso.

No entanto, o ponto de viragem verificou-se após os atentados de 11 de Setembro de 2001.

Hoje em dia, apesar de ser inquestionável que a vida é o valor supremo da sociedade ocidental, a história da humanidade retrata diversas civilizações em que as religiões primitivas sabiam apreciar o sacrifício humano, onde mais tarde os mártires eram muito respeitados. Na maioria das culturas os heróis ganhavam fama e honra pelo seu desprezo pela morte.92

Segundo Émile Durkheim em “O Suicídio”, os seres humanos são os únicos seres vivos que se suicidam. José Dias Cordeiro, Professor de Psiquiatria, refere que “as circunstâncias que levam à vida ou à morte de um ser humano não são muito diferentes do que se passa no resto da natureza. Em todas as espécies animais, a sobrevivência depende da capacidade de estas se reproduzirem sexualmente e de se defenderem, agressivamente, o seu próprio espaço.” Por conseguinte, como relata o autor, “das variadíssimas espécies, vegetais e animais, a espécie humana é a única em que os seus membros se destroem uns aos outros. De todas as espécies, o homem apresenta as duas

90 idem

91 US Department of State patterns of global terrorism 2001 Figures quoted are for ‘international’ terrorist

attacks i.e. involving citizens of more than one country. Later figures following the attacks of 9/11 show an initial drop in overall followed by rises commensurate with increased US presence in Afghanistan and Iraq.

92 Enzensberger, Hans Magnus, Os homens do terror – Ensaio sobre o perdedor radical, Editora Sextante,

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formas de agressão no mais alto grau, descritas pelos etologistas93: a intra-especifica,

contra os membros da mesma espécie e a inter-específica, para com as outras espécies.”94

Freud refere que há situações em que uma pessoa prefere morrer que suportar o terror interminável real ou imaginário da sua vida.

Zachary Shore “Ninguém nasce terrorista; os terroristas criam-se”95. E adianta,

“alguns formam-se por exclusão social, convencidos de não serem bem-vindos nas suas próprias pátrias. Outros são seduzidos por sermões de ódio, partidários infelizes de ensinamentos pervertidos. Embora todos nasçam neutrais, voltam-se para o terror em busca de algo maior do que eles próprios.”96

Jose Sanmartin, especialista de terrorismo (principalmente da ETA), também defende que não se nasce um terrorista, um terrorista faz-se. Como refere José Manuel Anes, especialista em terrorismo, “este processo de socialização do “jihadista” apresenta uma fase primária que se desenvolve, nos países muçulmanos, na família, na escola e/ou no grupo social e religioso em que o futuro terrorista vive e, nos países ocidentais, nas mesquitas radicais e nos grupos de amigos que se constituem em torno delas. Quanto à fase de socialização secundária, ela realiza-se já dentro do grupo terrorista.”97 Para este

perito em terrorismo religioso, tudo indica que a “propensão a dicotomizar, a dividir o mundo em dois grupos irreconciliáveis (o do próprio e o dos outros)” e, como consequência, a “projecção sobre os outros de todo o seu ódio e frustração”, “responsabilizando os outros por essas próprias frustrações”, é “a caraterística determinante para a escolha da via terrorista, a qual é sistematicamente desenvolvida neste processo de socialização secundária que ocorre dentro do grupo, levando o ódio até às suas últimas e violentas consequências contra a “fonte” de todas as frustrações e de toda a humilhação: o inimigo, ser que se aprende a considerar como um ser inferior e degradante, e que, por isso, só pode ter um destino, o de ser morto num ato de superior “justiça divina” de que o terrorista é um “nobre” instrumento.”98 Para José Manuel Anes,

93 Etologia é a disciplina que estuda o comportamento animal, in http://pt.wikipedia.org/wiki/Etologia,

consultado em 16 de Agosto de 2010

94 Cordeiro, Dias, Psiquiatria Forense, Fundação Calouste Gulbenkian, 2008, p. 50

95 Shore, Zachary, Criando Bin Ladens, A América, o Islão e o Futuro da Europa, Editorial Bizâncio, 2007,

p. 22

96 idem

97 Anes, José Manuel, AAVV, As Teias do Terror, Novas Ameaças Globais, Edições Ésquilo, p. 103 98 idem, p. 104

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“a humilhação é uma palavra-chave para se compreenderem as motivações profundas dos terroristas religiosos e islamitas em particular.”99

Hélder Santos Costa refere que o martírio é o “testemunho” do mártir pela sua fé ao Islão, pois este acredita que se “passar para a outra vida” por uma causa como a Jihad irá ser recompensado eternamente no “paraíso”, como tal, o voluntário para o “martírio” tem de estar fortemente motivado para o ingresso no Paraíso. Para se ser mártir é necessário ter-se muita fé. A motivação para o martírio é usualmente ideológica, religiosa e patriótica.100 A sua missão requer muita força de vontade e persistência. Os mártires

levam uma vida normal, mas, quando chega a hora do martírio, atacam. Os seus olhos e o seu comportamento nada deixam adivinhar, mas interiormente existe um impulso muito forte, uma motivação interna. O futuro Shahid, (“mártir”, em árabe) chega a passar a última noite com os seus companheiros de luta. O seu corpo até pode ser armadilhado pelo próprio fabricante dos explosivos. Se existirem nervos – porque os Shuhada (“mártires”, em árabe) são seres humanos constituídos por carne, sangue e nervos – a fé acalma-os101.

Para Hans Enzenberger, o suicida, ou o perdedor radical como o autor denomina, “quando consegue vencer o seu isolamento, quando se socializa com um grupo que tem a mesma forma de pensar, encontra uma pátria dos perdedores, da qual encontra não só compreensão como reconhecimento. Ora, a energia destrutiva que este possui forma um desejo de morte que juntamente com um detonador ideológico, produz a bomba humana pronta a explodir. É indiferente se se trata de ideologias nacionalistas, comunistas ou religiosas.”102

De seguida, serão apresentadas várias perspetivas de vários autores acerca do fenómeno do terrorismo suicida, abrangendo as várias linhas de pensamento de diversos autores.

99 idem

100 Costa, Hélder Santos, O Martírio no Islão, Universidade Técnica de Lisboa, Instituto Superior de

Ciências Sociais e Politicas, Lisboa 2003, p. 67

101 Idem, p. 68

102 Enzensberger, Hans Magnus, Os homens do terror –Ensaio sobre o perdedor radical, 2008, Editora

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