Categoria 1 - A estrutura da Moderna Gramática Portuguesa (2007/1999) e do livro
Emília no País da Gramática (2008), tendo em vista uma doutrina político-
ideológica, estabelecendo uma política linguística e educacional, de dominação.
O exemplar que temos em mãos para análise é a 38ª edição, de 2007, revisada e ampliada, mas o prefácio que consta nessa publicação ainda é o mesmo prefácio da 37ª edição, de 1999.
Embora estejamos em uma época altamente democrática e ainda que não exista mais imposição de uma doutrina político-ideológica, percebemos a existência de uma mesma política linguística e educacional de dominação por meio da língua portuguesa e
39 Ver p. 155 40 Ibidem p. 102
sua normatização, porque continuam presentes, nos ideais de Evanildo Bechara ao produzir a sua última edição da Moderna Gramática Portuguesa (2007), os mesmos ideais que ele tinha ao publicar a primeira edição de sua gramática, em 1961.
Entregamos aos colegas de magistério, aos alunos e ao público estudioso de língua portuguesa esta edição, revista, ampliada e atualizada, levado que estamos pelos mesmos propósitos que nos fizeram, em 1961, trazer à luz a Moderna Gramática Portuguesa. (p.19)
Como pudemos observar no prefácio de 1961, os seus propósitos baseavam-se na intenção de produzir uma nova gramática, com elementos também novos, para suprir as necessidades educacionais do período. Amparava a confecção de sua Gramatica uma lei que, embora fosse democrática e visasse ao desenvolvimento intelectual do indivíduo, normatizava e uniformizava o ensino nas escolas brasileiras (LDB), e um outro sistema de regras, a NGB, que uniformizava, da mesma forma, o uso da gramática.
O autor baseava-se nos mais modernos estudos americanos e brasileiros da época, além de ter como sua base teórica seu antigo mestre, Said Ali. Dessa forma, ao afirmar que continuam os mesmos propósitos, ele nos deixa vislumbrar um ensino da língua portuguesa baseado na norma culta padrão, amparado por um sistema de normas gramaticais e leis educacionais. O bem falar e o bem escrever ainda são pontos de partida de ascensão social e de inserção do indivíduo na sociedade, como na década de 30, já que o prefácio, de 1961, não rompia com as tradições anteriores.
Assim, a Moderna Gramática Portuguesa (2007) continua sendo um novo livro, enriquecido e atualizado com base nos estudos dos melhores teóricos da linguagem, nas pesquisas dos melhores centros acadêmicos atuais, mas a sua orientação normativa e de dominação é clara, pois:
Dificilmente haverá seção da Moderna Gramática Portuguesa que não tenha passado por uma consciente atualização e enriquecimento: atualização no plano teórico do idioma, e enriquecimento por trazer à discussão e à orientação normativa a maior soma possível de fatos gramaticais levantados pelos melhores estudiosos da língua portuguesa...(...) (p.19)
Ainda mais abaixo, o autor reafirma sua intenção de vincular o ensino do idioma às normas e às regras, oferecendo a obra como material de consulta para uma proposta de reformulação gramatical, pois, segundo ele, ela “alia a preocupação de uma científica descrição sincrônica a uma visão sadia da gramática normativa, libertada do ranço do antigo magister dixit e sem baralhar os objetivos das duas disciplinas.” (ibidem)
Dessa forma, nessa última edição, os preceitos e as políticas que regiam o nosso sistema educacional e, sobretudo, o nosso idioma, pouco se modificaram e ainda são instrumentos de dominação dos nossos governantes, ainda que, em menor escala. Embora, não seja indicada por eles, a Moderna Gramática Portuguesa (2007) segue suas normas e regras, mesmo sob a aparência de uma visão sadia da gramática
normativa.
Categoria 2 - Análise da Moderna Gramática Portuguesa (2007/1999) e do livro
Emília no País da Gramática (2008), tendo como ponto de partida, uma política de
manutenção e de preservação da cultura brasileira, mediante o ensino de língua materna.
A manutenção e a preservação da cultura brasileira através de valores estrangeiros mediante o ensino de língua materna são percebidas ao longo da leitura de todo o prefácio da 37ª edição da Moderna Gramática Portuguesa (2007).
Ao afirmar que a publicação desta última edição da Moderna Gramática Portuguesa traz em seu bojo “os mesmos propósitos da edição de 1961”, ele está reafirmando que estão presentes, nessa última edição, os ideais de preservação da cultura brasileira por meio de uma cultura estrangeira, como ficou provado na análise da mesma categoria, em relação ao prefácio anterior.
Bechara enfatiza sua preocupação em trazer à sua gramática a maior soma possível de fatos gramaticais estudados dentro e fora do Brasil. Elogia alguns autores,
como Eugenio Coseriu41 e M. Said Ali42 ambos sabidamente de orientação teórica alemã. E ainda menciona sua preocupação com outras línguas: “Estivemos também atentos à produção de textos gramaticais destinados a outras línguas, especialmente às românicas, e aí vale ressaltar o contributo dos espanhóis, dos franceses e dos italianos”. (p.20)
Não percebemos grandes alterações nos dois prefácios (1961-1999), como era de se esperar, pois, ambos foram feitos em contextos sociais, políticos e educacionais diferentes, embora sob a égide da democracia. No entanto, percebemos uma ênfase que é dada à cultura estrangeira e à língua portuguesa como traço de unificação nacional, maior que no prefácio anterior.
Dar-nos-emos por bem pago se o leitor benévolo continuar encontrando nestas páginas os fundamentos que alicercem seu interesse e conhecimento reflexivo da língua portuguesa, traço que é da nacionalidade e elo fraterno da lusofonia. (Ibidem)
Dessa forma, ao afirmar que a língua portuguesa é traço da nacionalidade e elo fraterno da lusofonia, o autor retoma os ideais da primeira metade do século XX, em que a língua portuguesa era instrumento de unificação nacional e de preservação da cultura brasileira, sendo ensinada por meio de manuais normativos e didáticos baseados no português europeu.
Um dos pontos de adequação dessa nova edição é o de revalidar os laços brasileiros aos dos falantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), reafirmando interesses lusófonos de integração e de unificação da língua.
41 Idem p. 154 42 Idem p. 156